Do que leio, assisto, sinto e absorvo. Nunca será uma verdade absoluta, apenas um ponto de vista ou a vista de um ponto. Talvez uma dedução equivocada do meu olhar diante do mundo. Um olhar humano cheio de CID´s sem a presença da IA. Ela não devaneia. Então pra mim não serve. Eu quero o luxo do erro da falta de coesão textual. Aqui na solidão impossível de quem lê e carrega personagens e enredos dentro de si, me leio e releio. Para mim, é o suficiente. Os devaneios são meus, é tudo que tenho.
terça-feira, 8 de setembro de 2015
Orange is the new black
Confesso que fui levada pelo modismo da Série que já está na terceira temporada, ainda que eu esteja ancorada na primeira. Quando soube que havia o livro, decidi lê-lo e depois continuar a série da Netflix. Nem precisa dizer o motivo, minha paixão é literária.
As veias abertas da América Latina
Eduardo Galeano (03/09/1940-13/04/2015), aos 73 anos na Bienal ano passado aqui em Brasília, afirmou que não leria novamente a sua obra “As veias abertas da América Latina”. Afirmou que não tinha formação necessária na época que escreveu, e que desmaiaria se tivesse que escrever novamente. Não que houvesse arrependimento da sua parte. Também relatou que, existiram experiências de partidos políticos de esquerda que deram certo, e foram perseguidos por isso, assim como houveram partidos políticos de esquerda que agiram errados, se tornando opressores. Claro que isso já desestimula, mas eu afirmo que é importante a leitura, pois trata-se de um relato da exploração econômica e dominação política que sofreram os países da América Latina.
O livro foi escrito em 1970 e atualizado em 1977, vai desde a espoliação europeia, chamada de as grandes navegações, até a contextualização da Guerra Fria (e início dos regimes ditatoriais). A obra demonstra como os modos de produção e a estrutura de classe foram (e têm sido) determinados de fora. Veias abertas, afinal, pois desde o descobrimento, tudo se transformou em capital europeu, ou mais tarde, norte-americano. Não deixa de ser uma demonstração de como o subdesenvolvimento latino-americano foi uma consequência do desenvolvimento alheio, e que nossas matérias-primas nos trouxeram maldição, principalmente quando a nação exploratória achou como aliados, inimigos da nação explorada. Leia-se governos ditatoriais, classe burguesa...
Eduardo também relacionou tentativas de reformas pelos governos derrubados com a resposta truculenta de ditadores apoiados ou não pelos privilegiados que se sentiram ameaçados “Creio que sempre existe uma relação íntima entre a intensidade da ameaça e a brutalidade da resposta”. De modo geral, coloca a América Latina como participativa da engrenagem universal do capitalismo, beneficiando o desenvolvimento da metrópole/multinacional estrangeira do momento e ao mesmo tempo mantendo-se dependente e devedor. Sem contar que dentro da própria América Latina, o mesmo aconteceu com países menores, tendo suas fontes internas de víveres e mão-de-obra explorados pelos vizinhos maiores.
Claro que é um pouco cansativo pelo excesso de informações, mas ainda que muitos o rotulem como um livro que justifica seu presente se fazendo de vítima, ele não nega dados históricos, isso por si só, justifica sua importância. Indico.
“Com o passar dos tempos, vão se aperfeiçoando os métodos de exportação das crises”
“Em tempos difíceis, a democracia transforma-se em crime contra a segurança nacional, ou melhor, contra a segurança dos privilégios internos e os investimentos estrangeiros”.
terça-feira, 14 de julho de 2015
Diário Literário - Mulheres
Terceiro romance de Charles Bukowski, publicado em 1978, trata do alter ego do próprio autor. Na pele do personagem Henry Chinaski, vamos percorrer nas aventuras que segundo uma entrevista do editor de Bukowski, quisera não fosse verdade pelo menos metade do que estava na obra "Mulheres". Bem na verdade, a maioria dos leitores focam em Chinaski, sem levar em conta o título do livro e claro, o perfil psicológico e acredite, psiquiátrico das mulheres que passaram pelo "falo" do poeta. Não se escandalize com o termo que escrevi em aspas, caso contrário, aconselho então que não leia. Chinaski é um escritor, soma de todos os erros: bêbado, preguiçoso, sem um deus, apolítico e com ciência da sua própria feiura. Viciado em corrida de cavalos, amante de músicas clássicas, um ser noturno que se sentia intimidado diante do público ao ler seus poemas. Se o leitor desejar ler apenas para o excitamento sexual, leia sem medo. Agora se o desejo for analisar a complexidade psicológica do autor e das mulheres que encontrou em sua vida, vai perceber o que disse Gabriel García Márquez: "O sexo é o consolo que a gente tem quando o amor não nos alcança". Não há encontro de almas, de sentimento, e sim a pressa de viver o que não se viveu na juventude. Mulheres lindas, loucas, novinhas, de outro país, seja como for, o que não muda é Henry, o grande filho da puta, como sempre o chamavam. Mas, mesmo aparentando tratar a maioria como objeto (e vice-versa), elas não o odiavam. Seja como for, Chinaski é o que afirmou Marquês de Sade: Antes ser um homem da sociedade, sou-o da natureza.
Diário Literário - O amor nos tempos do cólera
34/2015 - Obra do colombiano Gabriel García Márquez, publicada em 1985 e parte do gênero considerado como realismo fantástico. Narra sobre a vida dos personagens Florentino Ariza, Fermina Daza e Juvenal Urbino. O período se dá em fins do século XIX (1870-1925 aproximadamente), período do surto do cólera e da guerra civil que dizimaram a população. Ainda que não nominada na obra, a cidade tem indícios de ser Cartagena das Índias pelas citações: maior mercado de escravos no século XVIII, Convento de Santa Clara, Portal dos Escrivães, Baía das Ânimas e pela presença da figura de São Pedro Claver, padre da Companhia de Jesus, nascido em Barcelona, também conhecido como S. Pedro Claver da Cartagenha das Índias, onde morou até morrer e se notabilizou na defesa dos escravos. Aliás, vale registrar que o autor morou e trabalhou na cidade na sua juventude.
Seu início dá-se com o suicídio de Jeremiah de Saint-Amour e então o autor começa sua magnífica analepse. Parece sem sentido começar algo com um fato e um personagem que não aparece mais, porém vale ressaltar que Gaba nessa obra trata da questão do tempo e da sua consequência, o envelhecimento. Este é o fio condutor da narrativa. Enquanto os três personagens vivem o ciclo normal que resulta na velhice, Jeremiah resolve não enfrentá-la, dando fim à vida por não desejar envelhecer.
Evitando spoiler, vou apenas ressaltar que diferente dos outros dois personagens principais, podemos perceber que a obra divide-se nas três fases da vida de Florentino Ariza. Primeira, quando jovem e se apaixona, segunda quando é rejeitado e vive suas aventuras eróticas (registradas em 25 cadernos, sendo 622 amores continuados e aventuras fugazes anotados) e a última, quando procura Fermina na velhice. Para o autor atento, a narrativa não descreve apenas a vida dos personagens, mas também a decadência da cidade colonial, a pobreza do bairro dos escravos e a vida das prostitutas.
Antes de finalizar, gostaria de registrar que sobre o amor de Fermina e Florentino, a chave para o contexto (menos sua continuação e final) foi o relacionamento dos pais do autor. Telegrafista, violonista e poeta, Gabriel Elígio García foi rejeitado pelo coronel Nicolas, pai de Luiza Márquez. Tal qual a obra, Luiza é obrigada a fazer a viagem do esquecimento e Gabriel Elígio com ajuda de amigos telegrafistas organiza uma rede de comunicação que alcançava sua amada onde ela estivesse. Super indico a leitura. Apaixonante.
“A sabedoria nos chega quando já não serve para nada.”
"À merda o leque que o tempo é de brisa."
"O problema do casamento é que se acaba todas as noites depois de se
fazer o amor, e é preciso tornar a reconstruí-lo todas as manhãs antes
do café."
quarta-feira, 17 de junho de 2015
Diário Literário - Menino de Engenho
32/2015 - Menino de Engenho, primeira obra de José Lins do Rego e também primeiro livro do ciclo da cana-de-açúcar. A obra publicada em 1932, na narração saudosista de Carlos Melo, descreve uma sociedade rural, aristocrata, latifundiária e escravocrata. Após ter sua mãe assassinada pelo seu pai, Carlinhos vai morar com o coronel José Paulino, no Engenho Santa Rosa. Por ser doente, é criado sem repressão por sua Tia Maria. O que há de mais interessante é o relato do mundo à sua volta, da enchente do Rio Paraíba, da pobreza, das lendas folclóricas contadas por Totonha, o poder que tinha o coronel sobre seus servos e escravos, sobre os bandidos e cangaceiros e muito mais. Após o casamento de Tia Maria, Carlinhos seguiu sendo criado pela rude Sinhazinha, mas a repressão o levou à uma desenfreada sexualidade aos 12 anos. Ele então foi mandado para o colégio, com a promessa de tomar "jeito". Adorei a leitura. Indico.
Diário Literário - Frida: a biografia
31/2015 - Acredite, é impossível compreender as obras de Frida Kahlo sem conhecer sua biografia. Confesso que no ano de 2010 penei bastante em sala de aula para falar sobre sua obra, pois aqui em Brasília seus autorretratos são (ou eram) solicitados na 1ª etapa do PAS/UNB. Também fez parte do meu trabalho final no curso de espanhol falar sobre sua vida... e a vontade de conhecê-la melhor só cresceu. Então chegou o momento de ler a obra publicado em 1983 "Frida: a biografia" da historiadora de arte e especialista em América Latina, Hayden Herrera. Foi com base nessa obra que um dos roteiros para o cinema foi desenvolvido.
Sobre Magdalena Carmen Frida Kahlo y Calderon, nascida em 1907 (ela dizia 1910 por causa da Revolução) vamos saber desde os seus pais, sua infância, a poliomielite que deixou uma lesão no pé esquerdo, fato que em 1950 resulta em amputação do membro inferior, do trágico acidente em 1925 que a deixou com múltiplas fraturas e a destinou a várias cirurgias, ao uso de coletes de couro e gesso, dores constantes a ponto de chegar ao vício de morfina, seu relacionamento com o muralista Diego Riviera e dois casamentos como o próprio, seu caso com homens e mulheres, aliás na relação dos dois era frequente o adultério (ela chegou a ter um caso com Leon Trotsky), sua arte que surgiu a partir da sua limitação e retratava sua própria condição, suas exposições, viagens e vários outros detalhes embasados em cartas e relatos de amigos e parentes.
Sua obra é marcada por suas angústias, como por exemplo a imagem acima, onde ela tenta descrever a dor que sentia na coluna. Ela passou por várias cirurgias, e passou muitas temporadas da sua vida acamada, o que não limitou a artista a produzir, pois ela sempre dava um jeito.
"Eu pinto-me porque estou muitas vezes sozinha e porque sou o assunto que conheço melhor"
Frida era apaixonada por Diego, isso é bem marcante na obra. A autora em alguns momentos deixa transparecer que Frida usava um pouco da sua desgraça para chamar a atenção, tanto de Diego como dos amigos, seja como for, Frida se superou, superou uma história de frequentes dores, limitações, traições e eu depois da leitura a admiro ainda mais. Haverá uma exposição em São Paulo em setembro desse ano, marcada como surrealista, ela participou dos círculos de artistas surrealistas e exposição, mas a própria afirmou não ser surrealista:
"Pensaram que eu era surrealista, mas nunca fui. Nunca pintei sonhos, só pintei a minha própria realidade."
Os últimos dias de Frida foram angustiantes, em 1954 ela morreu de embolia pulmonar, mas ficaram dúvidas por dois motivos, a entrega de um anel de presente a Diego com 17 dias de antecedência do aniversário de casamento e pela frase no seu diário:
"Espero alegremente a saída, e espero nunca mais voltar".
O livro descreve o velório e cremação de Frida e várias ilustrações no final, que foram detalhadas no decorrer da obra. Super indico.
domingo, 7 de junho de 2015
Diário literário - O guardião de livros
30/2015 - A autora do romance "O guardião de livros", Cristina Norton, é argentina, naturalizada em Portugal. A base para compor o livro, fora outras fontes de pesquisa, foi o presente recebido por Laurentino Gomes, as Cartas de Luís Joaquim dos Santos Marrocos. Com esse material, a autora escreveu não apenas sobre a vida de Luís, mas também sobre o cotidiano do Rio de Janeiro do início do século XIX.
No primeiro capítulo "A escrava" é possível ao leitor visualizar a escravidão a partir da captura na África. Os próximos capítulos tratam da invasão francesa, de Napoleão Bonaparte, a Portugal. Então entramos em contato com a família de Francisco José dos Santos Marrocos, bibliotecário na Biblioteca Real da Ajuda em Lisboa e pai de Luís.
Luís Joaquim era desde 1802 ajudante da Real Biblioteca e durante a invasão francesa, serviu na Junta direção Geral dos Provimentos para o exército, e pouco depois, foi nomeado capitão de uma das companhias das Legiões Nacionais. Quando a Família Real decidiu "fugir" para colônia, Luís trabalhava na Biblioteca e ajudou seu pai no empacotamento de 60 mil livros que seriam embarcados. Porém, não foi isso que aconteceu, os livros ficaram no porto e não foram objeto de despojo pelos franceses.
Até a terceira e última invasão dos franceses, a autora nos remete às cenas pitorescas de Portugal, aos acontecimentos após o terremoto de 1755 em Lisboa e ao cotidiano da família dos Marrocos. Em março de 1811 acontece o tema base do livro, a convocação de Luís para levar a segunda remessa de livros da Real Biblioteca para a colônia portuguesa. A primeira remessa foi enviada antes da terceira invasão francesa, pois o Príncipe Regente acreditava que era melhor mandar em duas viagens, para no caso de naufrágios ou ataques piratas. Também deveria ser acompanhada por alguém da biblioteca, que ficaria trabalhando na colônia até que a corte decidisse que havia condições para poderem voltar a Portugal.
A partir daí vamos ter noção da cidade do Rio de Janeiro do início do século XIX e suas transformações pela análise do bibliotecário. O livro tem uma característica interessante na sua narrativa, ora é narrado por Luís, ora por suas cartas remetidas ao seu pai em Portugal, ora narrados por outros personagens. Nelas lemos a descrição de problemas de higiene da cidade, epidemias, violência urbana, escravidão, conflitos entre os brasileiros e portugueses, as intrigas da corte, rebeliões, acontecimentos ocorridos nos países vizinhos, questões políticas e etc.
Nas primeiras cartas, Luís escreve seu desprezo pela terra, seu povo e seus costumes. Sua opinião muda consideravelmente quando apaixona-se pela carioca Ana Maria de Santiago Sousa, de 22 anos, filha de um comerciante português com uma brasileira. Esse fato vai esfriar a relação e a troca de cartas entre Luís e sua família. Se no início, Luís desejava ardentemente voltar à sua Pátria, após o seu casamento escreve elogios sobre a terra e tentar convencer a sua família a se mudar para o Brasil. Ele apoiou a Independência em 1822 e continuou crescendo profissionalmente, sendo em 1838, ano da sua morte, o oficial-maior da Secretaria de Estado dos Negócios do Império.
A autora no final, nos agradecimentos, afirma ter inventado situações e personagens, e que guardaria segredo sobre tais. Ainda assim, acho uma leitura interessante para os apaixonados por História, mesmo sendo pelo viés desse personagem melancólico, hipocondríaco, sarcástico que muito contribuiu por meio de sua correspondência, que hoje encontra-se na Biblioteca Real da Ajuda em Portugal.
sábado, 30 de maio de 2015
Diário Literário - São Bernardo
29/2015 - Paulo Honório, 50 anos, criado por uma doceira, pouca recordação da sua infância resolve escrever sua história. Esfaqueia um sujeito na juventude e foi na cadeia que aprendeu a ler e escrever. Em liberdade, submeteu-se a todo tipo de trabalho e remuneração. Decide voltar à sua terra (Viçosa - interior de Alagoas) e passa a trabalhar na fazenda de São Bernardo. Após a morte do patrão, finge amizade com o herdeiro da fazenda com o intuito de adquiri-la, o que consegue afinal. Para evitar spoiler (que tem demais na internet), vou apenas registrar alguns itens que julguei interessante na obra. O romance se passa em plena Era Vargas. Paulo Honório não é um personagem oprimido, então a visão é do opressor, que claro não se enxerga assim. Como é ele que escreve sua própria história, a narração se dã pela sua compreensão de praticidade e utilidade das coisas e pessoas. Por exemplo, não se casa por amor e sim pela necessidade de um herdeiro, ser que não recebe seu afeto. Ele administra o poder e embrutece cada vez mais a sua alma. Percebemos que ele não é mau, apenas corrompido pelas circunstâncias "a culpa foi desta vida agreste, que me deu uma alma agreste". Recebe mal a chegada das ideias socialistas em sua fazenda, enquanto sua mulher (Madalena) tenta por outro lado abolir as injustiças sociais. Lendo vários resumos, percebemos que a Paulo Honório são conferidas características da situação política, econômica e social que se vinha impondo na época. No final lemos o contexto mundial (Crise da Bolsa - 1929) e nacional (Revolução Constitucionalista de SP - 1932) e vemos que ele também foi atingido. São Bernardo é um romance localista com questões regionais e mundiais que apresenta a saga dos excluídos, de homens e mulheres em luta permanente com a miséria. Indico.
sexta-feira, 15 de maio de 2015
Diário Literário - Miséria e grandeza do amor de Benedita
27/2015 - A resenha é sobre um livro que foi encomendado para ser escrito em quatro semanas e para ser disponibilizado na versão (a primeira do país, salvo engano) e-livro (livro eletrônico, para internet). O autor? Ele! João Ubaldo Ribeiro. Que misturava erudição com regionalismo, humor, deboche, alfinetadas políticas e citações de fatos e personagens históricos. Tudo isso é possível de encontrar no livro "Miséria e grandeza do amor de Benedita", e que livro, diga-se de passagem. Apenas 134 páginas de ótima leitura. O enredo acontece na Ilha de Itaparica, dotada de radioatividade e personagens bem típicos. O personagem principal é Deoquinha Jegue Ruça, que morre no início e tem sua vida recontada nas páginas seguintes. Ele é um típico herói nordestino, um Don-Juan com incontáveis filhos e inúmeras mulheres. Devoto ainda a São Gonçalo, que é pra dar conta dessa mulherada toda. E de todas suas posses, pois é rico (percebe-se o clientelismo no livro), a maior de todas é sua esposa, Benedita. Temente a Deus, santa, pura, imaculada, amada e admirada por todos da ilha, Benedita tem o comportamento padrão que deve ter toda mulher do local. Só que a paz de Deoquinha é pertubada quando um de seus filhos ilegítimos deseja se tornar padre e para tal, o Padre Noronha exige que César Augusto leve o nome do pai verdadeiro na certidão de nascimento. Não! Não apenas isso. Também tem que ter o nome de Benedita, ainda que não seja a mãe verdadeira, e morar na casa do casal com os filhos legítimos. Como convencer Benedita? Deoquinha deseja a morte. Como convencer sua santa esposa Benedita!? O enredo gira em torno disso. Sem spoiler, só adianto que o ápice será na prisão de um alemão que difama, nada mais nada menos, a santa pura e honesta Benedita. Terá uma mulher esse poder de enganar a tudo e a todos!? Ótima leitura. Indico.
quinta-feira, 14 de maio de 2015
Diário Literário - O lobo da Estepe

26/2015 Confesso que o livro “O lobo da estepe” de Hermann Hesse é complexo, porém imaginativo por sua oscilação entre o simbolismo e o surrealismo. O personagem principal se chama Harry Haller, um outsider, misantrópico que vive entre livros e músicas clássicas. O enredo começa com Harry alugando um quarto mobiliado de uma senhora e por se tratar de um livro autobiográfico, temos em suas andanças diárias o compartilhamento dos pensamentos de Hesse sobre a sociedade burguesa na qual ele se sente inadequado. Suas andanças são dotadas de percepções de si e do mundo ao seu redor. Dentro de si, Harry possui um animal selvagem e primitivo, um lobo. Esse que não permite que Harry conviva de forma pacífica com aquilo que não se adapta. Sua luta constante é a conciliação entre o lobo e o seu ser racional. Tudo muda ao ter contato com um panfleto e com os personagens: Hermínia, Pablo e Maria, acrescentando o Teatro Mágico. Esses vão ensinar Harry a se render às novas possibilidades, consideradas antes por ele como frívolas. Harry, no Teatro Mágico, tem o contato com o seu inconsciente e é nele que vai perceber que não possui apenas duas naturezas (a lupina e a humana) como antes pensava. Tendo contato com seu passado, amores, guerra, reações, personalidades, Harry vai descobrir aos cinquentas anos que é um ser de várias naturezas. Como o autor afirmou em nota, é um livro não sobre morte (suicídio), mas de redenção. Redenção ao novo. Conforme pesquisa, foi um livro bastante lido nos anos da Contracultura, na era da psicanálise, faz sentido. Indico.
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