Confesso que li Cem Anos de Solidão em três dias no ano de 2008. Devorei! Foi meu primeiro caso de amor com Gabriel García Márquez. Não é o meu preferido, apesar de tão aclamado pelo público literário. Decidi lê-lo novamente, pois essa rapidez me fez esquecer e eu gostaria muito de, após a formação em História, absorver a narrativa histórica subliminar (ou não) na Macondo ficcional. Mas, decidi que seria uma leitura sem pressa, apesar que tediosa pelos Aurelianos, Arcádios, Remédios ... muita calma e atenção. Que mente brilhante! Sem descrever o que todos já sabem, é a narrativa de uma América Latina e seus impasses históricos (liberais versus conservadores, exército, sumiço de corpos, o fanatismo religioso, o massacre das bananeiras, a presença estrangeira, o interesse na botânica, as guerilhas e por fim, a forma como a narrativa real é apagada em livros didáticos e mídias a serviço do poder local ou "imperialista"). Só foi possível analisar Cem Anos de Solidão nessa perspectiva histórica após a leitura As veias abertas da América Latina (Eduardo Galeano). Mas, é um livro com várias possibilidades e certamente eternizou o autor colombiano.
Do que leio, assisto, sinto e absorvo. Nunca será uma verdade absoluta, apenas um ponto de vista ou a vista de um ponto. Talvez uma dedução equivocada do meu olhar diante do mundo. Um olhar humano cheio de CID´s sem a presença da IA. Ela não devaneia. Então pra mim não serve. Eu quero o luxo do erro da falta de coesão textual. Aqui na solidão impossível de quem lê e carrega personagens e enredos dentro de si, me leio e releio. Para mim, é o suficiente. Os devaneios são meus, é tudo que tenho.
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sábado, 17 de julho de 2021
terça-feira, 14 de julho de 2015
Diário Literário - O amor nos tempos do cólera
34/2015 - Obra do colombiano Gabriel García Márquez, publicada em 1985 e parte do gênero considerado como realismo fantástico. Narra sobre a vida dos personagens Florentino Ariza, Fermina Daza e Juvenal Urbino. O período se dá em fins do século XIX (1870-1925 aproximadamente), período do surto do cólera e da guerra civil que dizimaram a população. Ainda que não nominada na obra, a cidade tem indícios de ser Cartagena das Índias pelas citações: maior mercado de escravos no século XVIII, Convento de Santa Clara, Portal dos Escrivães, Baía das Ânimas e pela presença da figura de São Pedro Claver, padre da Companhia de Jesus, nascido em Barcelona, também conhecido como S. Pedro Claver da Cartagenha das Índias, onde morou até morrer e se notabilizou na defesa dos escravos. Aliás, vale registrar que o autor morou e trabalhou na cidade na sua juventude.
Seu início dá-se com o suicídio de Jeremiah de Saint-Amour e então o autor começa sua magnífica analepse. Parece sem sentido começar algo com um fato e um personagem que não aparece mais, porém vale ressaltar que Gaba nessa obra trata da questão do tempo e da sua consequência, o envelhecimento. Este é o fio condutor da narrativa. Enquanto os três personagens vivem o ciclo normal que resulta na velhice, Jeremiah resolve não enfrentá-la, dando fim à vida por não desejar envelhecer.
Evitando spoiler, vou apenas ressaltar que diferente dos outros dois personagens principais, podemos perceber que a obra divide-se nas três fases da vida de Florentino Ariza. Primeira, quando jovem e se apaixona, segunda quando é rejeitado e vive suas aventuras eróticas (registradas em 25 cadernos, sendo 622 amores continuados e aventuras fugazes anotados) e a última, quando procura Fermina na velhice. Para o autor atento, a narrativa não descreve apenas a vida dos personagens, mas também a decadência da cidade colonial, a pobreza do bairro dos escravos e a vida das prostitutas.
Antes de finalizar, gostaria de registrar que sobre o amor de Fermina e Florentino, a chave para o contexto (menos sua continuação e final) foi o relacionamento dos pais do autor. Telegrafista, violonista e poeta, Gabriel Elígio García foi rejeitado pelo coronel Nicolas, pai de Luiza Márquez. Tal qual a obra, Luiza é obrigada a fazer a viagem do esquecimento e Gabriel Elígio com ajuda de amigos telegrafistas organiza uma rede de comunicação que alcançava sua amada onde ela estivesse. Super indico a leitura. Apaixonante.
“A sabedoria nos chega quando já não serve para nada.”
"À merda o leque que o tempo é de brisa."
"O problema do casamento é que se acaba todas as noites depois de se
fazer o amor, e é preciso tornar a reconstruí-lo todas as manhãs antes
do café."
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