quarta-feira, 1 de agosto de 2018

A importância do artista na comunidade


O artista plástico utiliza uma série de técnicas para criar obras que transmitem emoções para outras pessoas. Com o intuito de embelezar o nosso setor O, o artista plástico Sildomar Gomes, construiu uma réplica de uma casa de pau a pique, também conhecida como taipa de mão. Em tamanho real, típica do sertão brasileiro, também é dele a decoração e ambientação com peças que casam com o conjunto da obra. A comunidade agradece.

segunda-feira, 25 de dezembro de 2017

Beije-me onde o sol não alcança - Mary del Priore

Primeiro lugar, eu curto muito Mary Del Priore. Segundo lugar, ela acertou em cheio nesse romance que trata de uma parte do período imperial (século XIX), em particular, do casamento de um nobre russo com uma baronesa do café brasileira. Analisando cartas trocadas por eles e publicações de jornais da época, Mary coloca como pano de fundo a sociedade cafeeira (em alta até a decadência), as transformações da corte e toda influência estrangeira, a questão abolicionista, o ambiente da colheita, das fazendas, dos tímidos avanços tecnológicos e finaliza já citando os coronéis que entraram no poder na transição do Império para a República. A leitura não é cansativa e para os amadores de História do Brasil, fica uma super dica. 

Conversas iradas com Deus - Susan E. Isaacs

Eu precisava muito ler esse livro, aliás, foi quase meu alter-ego gritando enquanto lia. Já pensou em levar Deus para o divã? Todos nós O culpamos pelos erros das nossas vidas, mas nunca pensamos em aceitar um relacionamento com Ele. Relacionamento que precisa ser alimentado por ambos. Aí que está a questão, só queremos receber e somos infantis quanto a não receber. A protagonista teve uma relação difícil com seu pai: 

" Dizer que meu pai terreno moldou minha imagem de Deus é meio óbvio para a terapia. E, infelizmente para Deus, meu pai era complicado. Quando eu era bem pequena, ele era amoroso e divertido. Conforme fui crescendo, meu pai mudou, se tornou bravo e sovina. Ele nunca tentou se comparar a Deus, mas, quando se é criança, é difícil não transpor um para o outro". (43).

Desejou muito ser fiel a Deus, mas de forma quase paranoica, o que levou a uma bulimia. Seu fracasso no amor e na carreira levou algumas vezes ao afastamento de Deus. Experimentou várias igrejas e doutrinas e no fim, percebeu que o que mais lhe faltou foi paciência. Um excelente livro para refletir sobre vida espiritual e conflitos que muitas doutrinas impõe sem necessidade. Indico! 

A Cabana do Pai Tomás - Harriet B. Stowe


A Cabana do Pai Tomás é um clássico norte-americano que só agora tive a oportunidade de ler. Acredito piamente que ele pode ser sugerido como leitura para os alunos que começarem a estudar a Guerra Civil (Guerra da Secessão), processo abolicionista e afins. Claro que nos passa a ideia de um escravo sempre passivo e pacífico, sem contar que ele era totalmente cristão (religião imposta pelo escravizador), o que não me faz acreditar em toda essa influência que dizem que essa obra teve para libertação dos escravos ("Foi a senhora que, com seu livro, causou essa grande guerra" Esta consideração do então presidente Abraham Lincoln ao encontrar-se com Harriet Beecher Stowe). Fora essas análises, podemos ver a luta pela liberdade (fuga para o Canadá), o auxílio dos quaker´s, o debate entre o Sul e o Norte sobre a escravidão (levando em conta que foi um livro escrito às portas da Guerra Civil -  lançado em março/1852 -, logo o assunto estava em pauta) e etc. Pai Tomás em particular é um escravo admirado, generoso, obediente, temente a Deus e teve seu destino dirigido pela escravidão. Estou atrás de filmes que soube que tem e de uma série da Rede Globo com um protagonista branco (Sérgio Cardoso). 

domingo, 24 de dezembro de 2017

A África explicada aos meus filhos - Alberto da Costa e Silva


A África explicada aos meus filhos - Alberto da Costa e Silva 
Um excelente livro para abordar o tema em sala de aula. Dividido por conversas, vamos analisar algumas mentiras que nos são passadas sobre o continente; sobre as políticas africanas e como surgiram os primeiros reinos na África. Também analisaremos as relações comerciais dos litorais da África com os árabes, os persas, os indianos e os indonésios. Obviamente, não sendo um povo tão isolado, está explanado os portos africanos no fim do século XV e o comércio transatlântico de escravos controlado pelos grandes da terra, pelos poderosos da Europa, da África e das Américas. Finalizado com os temas imperialismo, apartheid e África atual. Ótimo material de apoio. Indico! 

Retrospectiva literária 2017

Listinha de livros lidos em 2017: 


01 – LOWER, Wendy. As mulheres do nazismo. RJ: Rocco, 2014.
02 – KARNAL, Leandro. A detração: breve ensaio sobre o maldizer. RS: Unisinos, 2016.
03 – CORTELLA, Mário Sérgio; DIMENSTEIN, Gilberto; KARNAL, Leandro e PONDÉ, Luiz Felipe. Verdades e mentiras: ética e democracia no Brasil. Campinas, SP: Papirus 7 Mares, 2016.
04 – SILVA, Alberto da Costa e. A África: explicada aos meus filhos. RJ: Agir, 2008.
05 – GONÇALVES, Pam; RODRIGUES, Bel; FRANCIONI, Hugo e PEREIRA, Pedro. O amor nos tempos de #likes. RJ: Galera Record, 20166.
06 – GOWING, Lawrence. O Renascimento. Folio. História da Arte.
07 – HUIZINGA, Johan. O outono da Idade Média.
08 – SCHLINK, Bernhard. O leitor. RJ: Editora Record Ltda, 2009. 2ª Ed.
09 – SERRES, Alain. Picasso e o Guernica. SP: Edições SM, 2016.
10 – LUCIANA, Dalila; REGO, Lígia. Emiliano de Cavalcanti: patriarca da pintura moderna brasileira. SP: Moderna, 2003.
11 – YALOM, Irvin D. Criaturas de um dia. RJ: Agir, 2015.
12 – LOPEZ, Luiz Roberto. História do Brasil contemporâneo. Porto Alegre: Mercado Aberto, 1990. 5ª Ed.
13 – LACEY, Robert. O ano 1000: a vida no início do primeiro milênio. RJ: Campus, 1999.
14 – GOWING, Lawrence. História da Arte: do neoclassicismo ao pós-impressionismo. Folio, SA.
15 – ISAACS, Susan E. Conversas iradas com Deus: uma autêntica e bem humorada memória espiritual. SP: Versus, 2011.
16 – PRIORE, Mary Del. Beije-me onde o sol não alcança: uma história de amor no século XIX. SP: Planeta do Brasil, 2015.
17 – FREITAS, Pedro Chagas. Prometo Falhar. Novo Conceito, 2015.
18 – STOWE, Harriet B. A cabana do Pai Tomás. RJ: Ediouro, 1969. 

Meta compartilhada no site http://www.skoob.com.br (uma excelente dica para leitores apaixonados). 


terça-feira, 17 de janeiro de 2017

Prometo falhar - Pedro Chagas Freitas


O que me chamou a atenção no livro Prometo Falhar, do autor português, Pedro Chagas Freitas, foi o título. Que liberdade é poder dizer "prometo falhar". A promessa mais óbvia do ser humano. Bem, é um livro de crônicas sobre o amor, principalmente aquele entre lençóis. Também fala de despedidas, de amores platônicos, mas o amor está presente em quase todas as páginas. Bom, confesso que ficou cansativo no final, talvez pelo excesso dos mesmos temas. Tinha crônica que se igualava à outra. Mas, uma leitura suave. Indico. 

"O amor acontece quando desistimos de ser perfeitos". 

"...pessoas como nós não procuram explicações mas sobrevivências, Deveríamos aprender a querer devagar,..." 

 "... a literatura tem a solução para tudo..." 

"As pessoas que eu amo. As pessoas que eu amo não são as melhores pessoas do mundo. Mas são pessoas. Basta-me isso para poder amá-las." 

As mulheres do nazismo - Wendy Lower


A autora (Wendy Lower), após anos de pesquisa, participa de uma análise em Zhytomyr (ex playground nazista). Nos documentos que sobreviveram a dois ataques (a evacuação nazista pela terra devastada e a destruição da cidade durante 1943), ela encontrou nomes de jovens alemãs que tiveram participação ativa na construção do império de Hitler na região.O livro aborda sobre mulheres que, tendo crescido na confusão de um mundo em rápida urbanização, nas oscilações de crises econômicas e tumultuosas políticas de massa, tiveram que encontrar um rumo no Terceiro Reich de Hitler. Horrorizadas com a violência da guerra e do Holocausto, muitas mulheres encontraram meios de se distanciar daquilo e minimizar seu papel como agentes de um regime criminoso. Já outras, por exemplo, as mulheres dos territórios do Leste, testemunharam e cometeram atrocidades num sistema aberto, e como parte do que elas viam como uma oportunidade profissional e uma experiência libertadora. A autora traz à tona, testemunhos particulares de mulheres, esposas, cúmplices e testemunhas, citando também a enfermeira como a primeira assassina em massa. Finaliza com o destino dessas mulheres que foram algumas julgadas por tribunais criados para crimes de guerra. A maioria delas não foram condenadas. Indico. 

"Supor que a violência não é uma característica feminina, e que as mulheres não são capazes de assassinato em massa, tem um apelo óbvio: dá esperança de que pelo menos uma metade da raça humana não vai devorar a outra, que vai proteger crianças e, assim, salvaguardar o futuro. Mas minimizar o comportamento violento das mulheres cria um falso escudo contra uma confrontação mais direta com o genocídio e suas desconcertantes realidade". (172)

Biografia de Charles Bukowski - Howard Sounes


O autor (Howard Sounes) teve como base para elaboração da biografia do poeta Charles Bukowski, entrevistas de amigos próximos, amantes, parceiros de copo, colegas de trabalho, escritores, editores e membros da família. Também contou com cartas do poeta, ainda inéditas, e entrevistas filmadas e impressas. Óbvio, seus mais de quarenta e cinco livros de poesias e prosas, sem mencionar as centenas de revistas onde seu trabalho apareceu. Eis a biografia do escritor profano, vadio e bêbado. Quando sóbrio, calmo, educado e respeitoso. Porém, quando bêbado, transformava-se em "Bukowski, o Maldito": malicioso, polêmico e até mesmo violento. Tímido, afirmava que a bebida não era uma muleta, e sim uma necessidade.
O livro relata nas primeiras páginas eventos importantes na vida do poeta, como por exemplo: o casamento dos pais na Alemanha; a ida para América em 1923 pelo colapso da economia alemã; as várias surras que levou do pai, também por causa da dislexia  (odiou seu pai sempre); as piadas por causa da sua aparência dos amigos da escola  (teve tanta acne, que chegou a ficar um semestre sem aula para tratar). Ao ser expulso de casa, fez várias viagens e teve moradas em locais inóspitos (casos que ele escreveu em seus poemas). 
Dissecando um pouco do poeta e da biografia:
Charles  fez a escolha pela poesia, pois para ele "é a maneira mais curta, bonita e explosiva" de dizer o que queria. O relacionamento (primeiro) com Jane Cooney Baker (personagens: Betty, Laura e Wanda no filme Barfly). Esse relacionamento desastroso e movido a muito álcool levou Charles a hostilizar suas amantes várias vezes (fora a noção de feiura que perseguia desde a infância). Jane que apresentou o outro vício que ele levaria por toda a vida, corrida de cavalos.
Casamento com Barbara Frye (a personagem Joyce, de Cartas na Rua), que o persuadiu a se matricular em um curso de Artes. Ele não ficou. Ela não conseguia entender como um homem que havia sido publicado em uma revista com Jean-Paul Sartre podia vadiar pela casa bebendo cerveja e lendo folhetos de corridas. Ele voltou a trabalhar no correio como trainee de encarregado de distribuição. Após o aborto, sua esposa arrumou um amante e deu entrada no divórcio, acusando de crueldade mental. A morte da mãe de câncer e anos depois do pai, de ataque cardíaco. Primeiro livro publicado em 1960.
FrancyEye engravida de Bukowski e ela nega o pedido inesperado de casamento da parte dele. Moraram juntos, mas incompatíveis desde o início. Nascimento de Marina e logo a separação. Bukowski sempre ajudaria sua ex e única filha. Publicação do segundo livro.  Ironia (umas das...) da carreira de Bukowski é que seu sucesso final deveu-se, em grande parte, ao trabalho árduo de um cientista cristão que não bebia nada além de chá gelado (seu empresário). Bukowski começar a alcançar o estilo perseguido desdes os vinte anos, inspirado pelo estilo de prosa direta de John Fante e pela poesia de Pablo Neruda. Com o nascimento da coluna semanal no jornal O Open City de John Bryan nascia também o personagem "O velho safado".
Havia uma diferença entre o Bukowski das cartas e o de carne e osso. Blazek afirmava que, nas cartas, Bukowski se permitia ficar vulnerável porque estava distante e seguro. Seu antagonismo e agressividade afloravam quando ficava frente a frente com as pessoas. Os pequenos livros de Black Sparrow Press e a coluna no Open City o transforam em uma celebridade local, e algumas pessoas no correio ressentiram-se disso. A administração chegou a mandar investigar sua vida, até que chegaram a conclusão que ele não era um comunista. Bukowski arrisca-se ao sair do emprego para se lançar à literatura.
Depois de Jane Baker, o grande amor da vida do poeta foi a escultora Linda King, que ele conheceu em 1970. Era morena e tinha 30 anos e logo após o seu casamento teve um sério colapso mental. O romance dela com Bukowski se deu por causa da escultura da cabeça dele, pois ela não tinha interesse nele, a princípio. Fez com que ele parasse de beber, mando-o parar de tomar Valium e o fez entrar em uma dieta e praticar exercícios. Ela ficou desconcertada com a intensidade dos sentimentos dele... e ciúmes. De tal maneira que chegou a golpeá-la, a ponto de quebrar o seu nariz. O relacionamento acabou em 1972, depois de idas e vindas.
Bukowski ficando famoso: seus livros vendiam bem, sua personalidade chamava a atenção e sua obra também. Vale ressaltar que Bukowski usava uma linguagem baixa para se referir a mulheres e relação sexual. Já no seu romance Factotum, não há 'putas'. São todas mulheres com quem ele tenta se relacionar. Ele as admira de longe e acha que não está à altura delas. Em suas obras, o poeta descrevia os seus passos, amores e desamores. A biografia relata seu sucesso na Europa, as filmagens sobre sua vida (em vida deu vários palpites). Finaliza, obviamente, com sua luta contra um câncer e várias fotos. Para os apaixonados, muito indicado. 

Felicidade ou morte - Clóvis e Karnal




"E também a ideia de atrelar a felicidade a coisas denúncia uma impossibilidade de satisfação, porque basta ir à rua para percebermos que não temos muito mais do que temos. E sempre será assim. A grande promessa da nossa sociedade é que sempre haverá aquilo que não temos e, portanto, desejamos" (Clóvis) "Associamos felicidade à possibilidade de muitas escolhas, e a realidade parece contrariar esse desejo: mais escolhas parecem ofuscar a felicidade". (Karnal).

A obra acabou se tornando algo que Karnal critica, um livro de auto ajuda, só que para intelectuais. E no caso desse, aconselho assistir as palestras também. Indico o livro, obviamente! Nele está registrado a erudição de Karnal e a simplicidade intelectual (sim, é possível) de Clóvis sobre um tema sempre em pauta, a felicidade. As citações de Karnal enriquecem, e Clóvis tem umas sacadas tipo humanas sobre o tema. De gente como a gente. Filosofia e História com um final de auto ajuda (fala final do Karnal, aliás ambos deixam uns conselhos no capítulo final). Indico! Leitura rápida. 

sábado, 22 de outubro de 2016

Deus o ama do jeito que você é ...

26/2016 - Já li muita coisa do Manning, achei justo conhecer sua auto-biografia. A apresentação foi feita por outro autor que também gosto muito,  Philip YanceySensacional a sinceridade de Manning: "este livro foi escrito por alguém que imaginava estar muito longe agora, mas não está; foi escrito por um preso que prometeu à comissão da condicional que se comportaria, mas não se comportou; foi escrito por um míope que mostrou o caminho a outros, mas vivia se perdendo..." "Contudo, este livro também foi escrito para os mansos que passaram a vida em meio a lobos; este livro é para mim mesmo, e também para os que já passaram por tanta coisa por aí, e a tal ponto, que agora já podemos espalhar sem receio a notícia que nós, maltrapilhos, temos que dar: tudo é graça". Em resumo, ele foi para si mesmo, um filho indesejado, alcoólatra e evangelista itinerante. De forma resumida, ele conta os problemas que teve com sua mãe, na verdade, a ausência do amor materno. Não que ele não enxergasse ela vítima da própria estória, mas suas palavras o desmotivaram por muitos anos. Foi tão dolorida a relação dos dois, que ele se embebedou no dia do enterro dela. Manning também relatou nessa obra, como passou das Forças Armadas para à vida religiosa. Conta diversas experiências. Claro, seu contato com o álcool aos dezesseis anos e o alcoolismo que enfrentou durante toda a sua vida adulta. Contou como conheceu sua ex-esposa, Roslyn, os anos de casamento e os motivos para a separação. Contou seus últimos dias (câncer) sendo amparado pelos outros para poder sobreviver. No final, relatos de pessoas que fizeram questão de registrar o quanto ele é amado. Apaixonante! Deus e o seu amor pelos maltrapilhos. Indico!



Dançando sobre cacos de vidro

(Resumo tirado do site Skoob): Lucy Houston e Mickey Chandler não deveriam se apaixonar. Os dois sofrem de doenças genéticas: Lucy tem um histórico familiar de câncer de mama muito agressivo e Mickey, um grave transtorno bipolar. No entanto, quando seus caminhos se cruzam, é impossível negar a atração entre eles.
Contrariando toda a lógica que indicava que sua história não teria futuro, eles se casam e firmam – por escrito – um compromisso para fazer o relacionamento dar certo. Mickey promete tomar os remédios. Lucy promete não culpá-lo pelas coisas que ele não pode controlar. Mickey será sempre honesto. Lucy será paciente.
Como em qualquer relação, eles têm dias bons e dias ruins – alguns terríveis. Depois que Lucy quase perde uma batalha contra o câncer, eles criam mais uma regra: nunca terão filhos, para não passar adiante sua herança genética.
Porém, em seu 11° aniversário de casamento, durante uma consulta de rotina, Lucy é surpreendida com uma notícia extraordinária, quase um milagre, que vai mudar tudo o que ela e Mickey haviam planejado. De uma hora para outra todas as regras são jogadas pela janela e eles terão que redescobrir o verdadeiro significado do amor.Dançando sobre cacos de vidro é a história de um amor inspirador que supera todos os obstáculos para se tornar possível.

Cativante! Sem muito a declarar, pois não tem como não dar spoiler. Muito propício aos interessados em conhecer um pouco o universo do transtorno de humor bipolar. A autora é enfermeira e tem especialização em psiquiatria, o que justifica o domínio ao abordar os temas câncer e transtorno bipolar. Somente a literatura consegue romantizar ou florear a dor da realidade. Torná-la suportável. Indico! Garantia de lágrimas.


A hora da estrela - Clarice Lispector



Clarice Lispector cria um falso autor para narrar seu livro (Rodrigo S.M.), mas não consegue se esconder. "Pensar é um ato. Sentir é um fato". Quem perde esse começo, esse sentido, não entende muito o objetivo da autora: o livro é sobre uma moça nordestina com olhar perdido no Rio de Janeiro. "Como a nordestina, há milhares de moças espalhadas por cortiços, vagas de cama num quarto, atrás de balcões trabalhando até a estafa. Não notam sequer que são facilmente substituíveis e que tanto existiriam como não existiriam. Poucas se queixam e ao que eu saiba nenhuma reclama por não saber a quem. Esse quem será que existe?" "Mas quando escrevo não minto. A classe mais alta me tem como um monstro esquisito, a média com desconfiança de que eu possa desequilibrá-la, a classe baixa nunca vem a mim". O segredo de todo o livo está "escondido" nesses momento, de porta-voz e protagonista ao mesmo tempo. Sem contar que parece a visão da classe média sobre o povo nordestino. Sim, pois Macabéa é uma datilógrafa alagoana que parte para o Rio de Janeiro e lá vive uma vida sem luz e sem sombra. Sua rotina pálida vai cruzar com Olímpico de Jesus, nordestino ambicioso e diferente dela, e Glória, carioca da gema. A hora da estrela, sem dar spoiler, é o momento que morremos e deixamos de ser invisíveis. Leitura rápida. Indico livro e filme. 


O livro negro do Cristianismo

O livro negro do Cristianismo indaga em sua introdução, algo que todos nós queremos saber: como uma religião que pregava o amor, pôde ter se tornado justificativa para atrocidades em nome da mesma? Bom, como resposta, a priori, o Império Romano explica uma parcela, uma cultura mesclada em nome do Estado ao Cristianismo primitivo, que nem aceitou bem essa mesclagem na época. Mas, de fato, toda religião que se tornou oficial, tem como característica a violência para manutenção do poder. 

Alguns tópicos importantes:
Na primeira parte: quando o cristianismo se tornou religião de Estado, e as acusações de heresias e as disputas teológicas que se tornaram pretextos para jogos de poder. Quando pouco mais de cem anos após a morte de Jesus, já existiam movimentos que lamentavam a corrupção e a decadência da Igreja. Como Constantino transformou os bispos em funcionários do Império e lhes isentou do pagamento de impostos. Esses há muito tinham deixado de ser simples porta-vozes das comunidades cristãs eleitos pelas igrejas, tornando-se verdadeiros senhores que administravam a seu bel-prazer os bens da Igreja.A Igreja cristã do Oriente; Império Bizantino; conflitos entre doutrinas do Ocidente e do Oriente; Iconoclastia. Tudo resolvido na base da espada.

Carlos Magno (as conquistas e os crimes): Assim como Constantino, antes dele, Carlos também entendeu perfeitamente a formidável função agregadora e de instrumento de domínio espiritual que o cristianismo tinha em uma Europa ainda desunida e com as fronteiras ainda ameaçadas. Por essa razão, adotara uma política decisiva de cristianização dos povos a ele submetidos.

Na segunda parte: Idade Média, literalmente, das TREVAS! Quanto sangue em nome de "deus", com aquele anexo do motivo chamado política. Teria dito um fulano: "Papa, como saberemos distinguir os "hereges" dos cristãos?" "Mate a todos, que Deus reconheça os seus". Era desse modelo.

Na terceira parte: Os cristãos eram proibidos de ler a Bíblia (em alguns períodos, traduzir a Bíblia para uma língua compreensível pelo povo era crime que podia custar a vida. Ter o Evangelho em casa era proibido a quem não fosse sacerdote. Motivo: os hereges e aqueles que contestavam o poder da Igreja utilizavam as Sagradas Escrituras para demonstrar para o povo como a Igreja oficial havia se distanciado do mandamento originário de humildade). Os que fossem pegos estudando, traduzindo ou pregando a Bíblia eram acusados de hereges e mandados para a fogueira. A invenção da prensa e as novas proibições.

A Inquisição: já existia no século XI e XII as penas de morte para os hereges, mas a maioria do corpo eclesiástico ainda relutava em aceitar a situação. Em suma, na Igreja, observava-se várias tendências sobre como lidar com os "hereges". Clemente III que deu um passo muito importante para o nascimento da futura Inquisição, ele daria ordens para os bispos de investigar hereges mesmo com base em meras suspeitas. Em 1229, um concílio reunido em Toulose, criou oficialmente o Tribunal da Santa Inquisição. Papa Gregório IX tirou dos bispos o controle dos processos e os confiou a comissários escolhidos entre os dominicanos e franciscanos. Papa Inocêncio IV que deliberou o recurso à tortura, que deveria ser realizada por autoridade secular, mas depois, por questões práticas, por inquisidores. A aliança entre o trono e o altar. A inquisição medieval chegou ao seu ápice no século XIV para chegar a um lenta decadência nos 150 anos sucessivos. Só depois da difusão da Reforma em toda Europa, a Cúria romana relançou a inquisição, com a intenção de impedir a difusão das ideias protestantes em territórios sob controle da Sé. (A Inquisição espanhola, a Inquisição romana).

A caça às bruxas: (1480-1520 relativa pausa e retorno em 1580-1670). XI-XIII a atenção era dada mais às heresias (cátaros e valdenses). O mundo do ocultismo era até então ignorado. Com o nascimento da inquisição, o demônio se torna um ser físico com exército e a guerra acontece na terra. Ser bruxa é ser herege. Com o martelo das feiticeiras, negar a existência é heresia. Homens nobres foram para à fogueira, mas a grande maioria era mulheres pobres, parteiras e curandeiras. Casos isolados de pessoas contrárias às execuções e exageros (e que exageros!) durante a caça às bruxas.

A Guerra dos Trinta Anos. A Reforma Protestante havia dividido a Europa em duas; A divisão percorria o próprio Sacro Império Romano: a maior parte dos Estados alemães setentrionais tornou-se luterana ou calvinista, enquanto os meridionais continuariam com Roma. Nesses anos de guerra, nem os soberanos protestantes nem a fé católica na França não hesitariam em se aliar até mesmo com o "infiel" por definição: o Império Turco Otomano; As divergências religiosas dariam vida a um conflito assustador com milhões de mortos, comparável às duas Guerras Mundiais; Cabe sublinhar o fato de que praticamente não houve país europeu que não tenha sido atingido pela guerra durante uma fase ou outra do conflito, direta ou indiretamente. Além de que o elemento do fanatismo religioso desempenhou um papel fundamental na longa duração e na dureza do conflito; Provavelmente uma guerra normal para redefinir fronteiras e áreas de influência teria terminado antes de levar à repetida aniquilação de exércitos inteiros, ao pesado endividamento de príncipes e reis, à total e deliberada destruição de países invadidos, quando, pelo contrário, um conquistador teria todo o interesse de que seus novos domínios fossem ricos e prósperos.

Sobre a Idade Contemporânea e a Igreja: a Igreja e o regime nazista; Pinochet, a Igreja e as ditaduras (com a aversão ao marxismo e às doutrinas marxistas, consideraram regimes extremistas como mal menor. As ditaduras foram consideradas um "fenômeno transitório); a oposição à Teologia da Libertação; as finanças do Vaticano; os escândalos da pedofilia; Opus Dei. Apêndices extras.

Indico. Com ressalvas, pois tem que ter estômago. Sem ser anacrônica, pois isso acaba nos isentando dos males praticados, dá muita vergonha de sustentar a "religião" como bandeira.


domingo, 11 de setembro de 2016

Enterrada viva - A biografia de Janis Joplin


Todos sabem da minha paixão por Janis Joplin, inclusive nome dado à minha gata. Nada mais justo do que ler sua biografia, que aliás, é difícil encontrar. O livro começa tratando sobre sua cidade natal, Port Arthur, cidade petrolífera do Texas, e a mudança de perfil dos seus habitantes, que de forma geral eram conservadores. O pai de Janis, o senhor Seth Joplin  era suave, introspectivo, intelectual e a sra. Dorothy Joplin era disciplinada, trabalhadora e tinha o temperamento agressivo. O nascimento de Janis Lyn Joplin se deu em 19 de janeiro de 1943, sua infância foi normal, e ela foi dotada de dom para artes plásticas, leitura e música, com a participação em coro da igreja e conjunto vocal do colégio. Sua mudança de comportamento começou no décimo ano, quando estabeleceu estranhas identificações e com uma necessidade gritante de ser aceita

Então veio o desleixo com o corpo, a participação em grupo que a rejeitava, comportamentos bizarros que aumentava o ódio geral por ela e as experiências sexuais não existentes. Fatos e atos que fizeram parte do final do ano acadêmico de Janis. No fim do ginásio, o começo do contato com a música (cantando), a faculdade, a ida a Los Angeles e o contato com a cultura beatniks (começa seu jeito excêntrico de se vestir) em Venice. Além da biografia, a autora faz uma explanação da sociedade à margem do politicamente correto da época. 

Há vários relatos dos amigos que em um dado momento mudaram de rumo e entenderam tudo que era moda (heroína, maconha, anfetaminas...) era apenas uma fase. Porém, Janis viajou para São Francisco, depois para Nova York, retornando a Port Arthur em 1965. Matricula-se em Sociologia e passa dez meses limpas de drogas. Para ela só havia dois extremos: um mundo de impulsos primitivos e irrefreados ou um clima policiador. Travis Rivers chega para levar Janis de volta à Califórnia para participar da banda Big Brother and The Holding Company. 

Aos 24 anos, o aborto no México, os ensaios, a mudança física e o começo da carreira rumo ao sucesso. A banda Big Brother and The Holding Company vai se tornando conhecida, com a mistura de rock e folk. A personalidade excêntrica e singular de Janis se sobressai nas apresentações e chama a atenção do jornalismo rock, fenômeno da imprensa que surgiu em 1968. O Big Brother assina contrato com a CBS. O sucesso repentino, tendo a banda como pano de fundo apenas. Problemas entre Janis e a banda, na verdade, críticas de músicos em relação à banda, resultando em ausência de novas composições. 

A personalidade de Janis era egocêntrica, paranoica, megalomania e frágil ao mesmo tempo. O uso do seu corpo e aparência, que envolviam seu narcisismo como o seu desgosto de si própria. Quando se sentia bem e segura, o seu charme e a sua gentileza eram incomparáveis. O ano de 1969, ano que Janis costumava chamar de o ano dos Kozmic blues. Já tinha um Porsche, dinheiro, uma corporação e uma companhia editora dos seus discos. Tinha gastos moderados e até certa organização com suas finanças. Quando Janis rompeu com a banda, ela  se sentia culpada e infeliz. 

O clima agora era de profissionalismo. A crítica ao novo agrupamento foi ácida, cruel e Janis reagiu mal. Diferente da mídia americana, a Europa a recepcionou super bem. Mas, isso não a manteve longe da fuga na heroína. A prisão em novembro, Flórida, por desacato. Por pressão de amigos, o tratamento contra as drogas com Dr. Rothschild: "Intelectualmente, ela era quase brilhante, podia, realmente, manobrar muita gente. Um dos seus problemas era ser intelectualmente tão adiantada enquanto que as suas emoções eram infantis e incontroláveis. Tinha sempre a necessidade de falar. Não podia ficar quieta. Comia de forma completamente indisciplinada, se gabava da sua vida sexual. Eu não achava que isso fosse coisa para se gabar e, como ser humano, me chocava que alguém se vangloriasse de uma coisa que devia ser íntima 

Janis muitas vezes, por causa do seu complexo de inferioridade, conseguia ser imbecil de forma exibicionista. Exigia atenção, apregoava sua importância e exigia consideração especial. O terceiro e último conjunto de Janis (Full-Tilt Boogie) teve bons resultados devido a iniciativa de Janis tentar parar com as drogas. No entusiasmo da abstinência, ela sentiu-se mais confiante, musicalmente, do que nunca. Talvez o segundo conjunto tivesse sido melhor sucedido se não fosse o contrapeso da sua dependência do vício. Porém, não aconteceu uma metamorfose. O comportamento desesperado de Janis com os homens continuava, bem como as suas roupas extravagantes, os acesso de mau humor, o apego medroso aos símbolos da fama. Tudo isso era mais forte do que a música e a libertação do consumo de drogas. 

Aliás, ela ainda não se libertara de outra droga: o álcool. Encorajava os outros a beber como eles a encorajavam, numa espécie de patologia de grupo que propiciava um estímulo em círculo vicioso para um constante estado de intoxicação. Janis dera a si própria um outro nome, Pearl. A ideia partira de Dave Richards, e fora apenas uma brincadeira. Mas Janis levou-a a sério. De um lado, Pearl, desbocada-farrista-promíscua-beberrona, florescendo sob a tirania de um aplauso que não vinha apenas das galerias. De outro, Janis, vivendo num isolamento tão doloroso quanto o de qualquer solitária de prisão. Para ela não havia aplausos, apenas o tédio, a solidão, o riso vazio, a revolta contra o ambiente que a rodeava, o horror à embriaguez. Mas Janis sabia quem aplaudia uma e outra. Quanto à troca de papeis, acontecia com uma rapidez alarmante, suas adaptações às exigências do momento perfeitas a ponto de quase não poderem se detectar. 

Não obstante, embora Janis sempre tivesse gostado de falar, no seu último ano de vida ela se tornara mestra em pirotécnica verbal, mesmo sem precisar ser encorajada. À maneira que a sua carreira progredia, ela ia ficando cada vez menos escrupulosa com a sinceridade dos seus comentários e, muitas vezes Janis distorcia completamente a verdade. Janis começou a citar a frase "Vou esperar oito meses e meio... e, se a coisa não melhorar... vou acabar com tudo." Frase citada a partir de abril último, pois fora o mês que ela abandonara o vício e formara um novo conjunto. Seu tom era implorativo, além de pedir apenas um pouco de atenção.

Então, infelizmente, Janis sucumbiu ao vício e uma dose de heroína pura a fez morrer vítima de uma dose excessiva no dia 04 de outubro de 1970. No seu sangue havia também álcool e seu fígado mostrava os efeitos de anos e anos de bebidas. Janis estava apaixonada e falava em casamento. Falava a seu noivo (Seth) que planejava diminuir o ritmo da carreira. Apesar da queda nas paradas de sucesso, a tentação de retomar a agulha parecia ser (segundo a autora) uma forma de danação:
- Sabe de uma coisa? - falei - Acho que você não suportar ser feliz.
Janis suspirou: "Você tem razão". 

Vou chamar a polícia - Dr. Yalom

Quinto livro do autor! 

"Esse sujeito, que ao falar pode identificar as raízes de seus sintomas, embora silenciados pela ciência em um dado momento, nunca deixou de viver nas tradições orais, nas narrativas épicas e mitológicas, na poesia e no romance e moderno. O que convencionamos chamar de literatura evidencia a necessidade que tem o homem de dar uma forma a seu sofrimento e de compreender melhor a complexidade dos dramas que o afligem."

"Vou chamar a polícia", primeiro capítulo do livro, é uma narrativa sobre seu amigo, Robert L. Berger. Devido um episódio na vida adulta, Robert faz um link com uma ação que estava recalcada em si mesmo. O autor então demonstra a importância da psicoterapia para auxiliar o paciente nesses feedbacks. Para o autor, a literatura pode instrumentar a psicologia, e para demonstrar o seu pensamento,  recorre, com frequência, a grandes autores, em busca de uma frase ou de um recurso literário que possibilite uma forte e clara compreensão. Também aborda temas como: Isolamento interpessoal, isolamento intrapessoal e isolamento existencial. O autor traça paralelos com a obra "Todomundo" (famosa peça medieval sobre a moralidade); Sobre isolamento existencial, ele utiliza Lewis Carroll para discutir uma dessas funções: usar o outro para corroborar nossa existência (e etc: Camus, A Queda; Guerra e Paz, Tolstói; As moscas, Sartre; Grendel, John Gardner). No capítulo "A viagem da psicoterapia à ficção", Yalom rescreve episódios sobre pacientes presentes no seu livro "O carrasco do amor". No capítulo: "O romance pedagógico", Yaslom trata sobre seu livro "Quando Nietzsche chorou". Interessante, pois muito do que sabemos sobre o filósofo está filtrado pela ação da sua irmã Elisabeth, e isso não é fonte segura e nem justa sobre ele. Yaslom traz muitas observações das suas pesquisas para elaboração da obra.No capítulo final  "Romance psicológico", ele conta sua experiência sobre seu livro, "Mentiras no divã". Na minha opinião, seu melhor livro ficcional. A grosso modo, esse livro é um diário sobre seu trabalho como escritor, que serve para autores e psicoterapeutas. Eu, como sempre, indico! 





terça-feira, 19 de julho de 2016

Um copo de cólera - Raduan Nassar


Fui na pilha do livro que resenhei na última postagem (Lavoura Arcaica), do mesmo autor, e devorei esse livro de poucas páginas chamado Um Copo de Cólera.  Escrito em 1970, foi publicado somente em 1978, momento político no Brasil de ausência de liberdade de expressão política devido à Ditadura Militar. Nessa obra, o estilo não é o lírico e novelesco. Me atrevo a chamá-la de um tratado sobre o Id do início ao fim, sexo e cólera, em todos os sentidos. O autor, Raduan Nassar,nasceu em Pindorama e cresceu em São Paulo, onde cursou Direito e Filosofia pela USP. Depois do seu terceiro livro, Menina a Caminho, deixou de escrever. Bom, o livro é dividido em pequenas partes: A chegada, na cama, o levantar, o banho, o café-da-manhã, o esporro e a chegada (mesmo título inicial). Na chegada, a amante chega e o clima entre os dois (ele o espera em uma chácara distante nos arredores de São Paulo - conforme filme que vou citar mais à frente) dá a entender que são apenas isso, amantes. Logo mais, podemos desfazer esse pensamento. Não há diálogo, e pelo monologo do amante, ele acredita que quanto mais a despreza, mais ela depende emocionalmente dele. Na cama, enquanto ele a espera, reflete quanto é apreciado por ela, levando em conta sua tara por seus pés (comparados a lírios), No levantar, ela se agarra a ele e no banho, há mais pitadas de sensualidade entre os dois. No café-da-manhã, ele volta ao seu silêncio espartano, chamando pela terceira personagem, Mariana, a típica empregada protestante. No esporro, aí que o tumulto parece... ele em silêncio, ela após indagar sobre tal, toma o seu café e de repente, ele se levanta, deixando todos atônitos. Motivo: saúvas que romperam sua cerca! Ao retornar da sua luta quase que corporal para combater tais insetos, a amante diz: "é pra tanto, mocinho?". Para ele, não passa de uma inveja, pois ele não usou do mesmo ardor na cama e "ela não teve o bastante, só o suficiente". Se antes do sexo pareciam estranhos, que compartilhavam intimidades apenas carnais, agora no momento de cólera, pois chega a esse ponto, ambos vão mostrar suas verdadeiras opiniões em relação ao outro. Opiniões que vão desde "sua jornalista de merda" - lembrando que ele a despreza por ser fêmea emancipada e acredita que tudo que ela sabe, deve a ele -  a "seu fascista!". Nesses diálogos carregados de cólera, que percebemos o poder na linguagem para a defesa quando somos provocados. E sim, vejo diálogos com fundo politizado, uma linguagem engajada perfeita, que cita temas proibidos na época. Para tal, o autor escolheu nada mais que, um ex-ativista e uma jornalista politizada. No filme que deduzimos que ele é um ex-ativista. Falemos sobre o filme, então. Lançado em 1999, estilo drama, direção de Aluizio Abranches traz como protagonistas, Júlia Lemmertz e Alexandre Borges (na época, já casados). Também, Ruth de Souza (Mariana), Linneu Dias (Antônio) e participação especial de Marieta Severa (mãe). Informo que, são 20 minutos de cenas de sexo já no início do filme e que as cenas são fidedignas. Li em uma matéria que aconteceu de fato, já que ambos eram casados, não sei se é verdade. No filme, fica muito nítido a questão masculina de tentar dominar pela dependência e sobre o medo de perder a cerca. Não deixou a desejar, os dois arrebentaram. E se ela parte, após a violência física, retorna em A chegada, sendo a narradora, estando ele à sua espera. Dependente... 


"Ninguém dirige aquele que Deus extravia!"

"Hosana! eis chegado o macho! Narciso! sempre remoto e frágil, rebento do anarquismo"

terça-feira, 14 de junho de 2016

Lavoura Arcaica - livro e filme


Lavoura Arcaica foi um acidente literário de percurso. Na primeira feira de troca de livros do Planetário, ele estava lá disponível. Claro, já conhecia de nome, por isso, o escolhi. O autor, Raduan Nassar, nasceu em Pindorama e cresceu em São Paulo, onde cursou Direito e Filosofia pela USP. Estreou na literatura em Lavoura Arcaica em 1975, autor também da obra Um copo de cólera (próximo dele na lista de espera).

Bom, pelo que li na internet, o estilo é entre o novelesco e o lírico, com bastante recursos poéticos. Isso me fez apaixonar pelo seu estilo. O narrador é em primeira pessoa, o tempo não é linear e na obra conhecemos o núcleo de uma família de imigrantes árabes do Líbano no Brasil. Assisti hoje o filme, então vou colocar o nome dos personagens em parênteses, para economizar tempo. O livro é dividido em duas partes: A partida e O retorno.

André (Selton Mello), personagem principal, criado no meio rural arcaico, foge para uma cidade pequena, no interior. Ele luta contra a rigidez moral, contra a estrutura social análoga à Idade Média, contra a opressão da tradição e contra seu sentimento incestuoso em relação a sua irmã Ana (Simone Spoladore). A mando do pai, Pedro (Leonardo Medeiros), o primogênito, vai buscá-lo. O pai, Iohána (Raul Cortez), figura patriarcal, mantém a família dentro dos padrões impostos pela tradição milenar e familiar. 

À mesa, há a presença da diferenciação, a saber o pai à cabeceira, o ramo do afeto, contendo a mãe, André, Ana e Lula, e o ramo da tradição, com Pedro, Rosa, Zuleika e Huda. O outro lugar da cabeceira, pertencente ao avô, permaneceu vazio, desde a sua morte:

"Eram esses os nossos lugares à mesa na hora das refeições ou na hora dos sermões: O pai à cabeceira; à sua direita, por ordem de idade, vinham primeiro Pedro, seguido de Rosa, Zuleika e Huda; à sua esquerda vinha a mãe, em seguida eu, Ana e Lula, o caçula. O galho da direita era um desenvolvimento espontâneo do tronco, desde as suas raízes. Já o da esquerda trazia o estigma de uma cicatriz, como se a mãe, que era por onde começava o segundo galho, fosse uma anomalia, uma protuberância mórbida, pela carga de afeto."

Os dilemas de André, colocados de forma poética são espetaculares. Os sermões do pai à mesa, sobre o tema "Tempo", também. André retorna ao lar, mas isso não significa a paz, muito pelo contrário, significa a tragédia e o desmoronamento dessa família. Falando sobre desmoronamento, quero ressaltar aqui, a forma espetacular como Ana (Simone Spoladore) foi interpretada. É nela que vamos perceber o limbo entre o sagrado e o profano, a presença da figura cigana, sensual e mediterrânea. Simone não fala uma só palavra no filme, mas sua interpretação é maravilhosa. Sua dança final,... sem palavras. Inclusive, foi a que mais ensaiou. 

Essa com certeza, foi considerada a melhor cena do filme, dirigido por Luiz Fernando Carvalho (seu primeiro e único filme). A cena da conversa final entre André e o pai (Raul Cortez) também não deixou a desejar. Raul simplesmente arrebenta. A face da mãe (Juliana Carneiro da Cunha) carregada de dor, nos convence, marcando também. O filme dá primazia ao diálogo, por isso que para muitos é considerado cansativo. Mas, eu tirei o chapéu para Selton Mello, que pelo visto, se entregou de corpo e alma. Assim é a versão do filho pródigo de Nassar. Indico livro e filme. 

sexta-feira, 10 de junho de 2016

O grande desafio - Pedro Bandeira


Meu 14° livro! Obra para o sétimo ano e que legal, com a possibilidade de conciliar com o conteúdo do 2° trimestre. A saber, Renascimento. Quem está lendo, vai conseguir identificar. Bom, sem mais delonga, e sem informar muito, pois senão torna impossível o spoiler. Queria antes de mais nada informar que é o meu primeiro livro do autor Pedro Bandeira. Sim, eu sei. Logo eu que aclamo tanto os autores brasileiros. Gostei desse nosso primeiro contato, pois o autor trata de forma literária a inclusão de portadores de necessidades especiais.  Afinal, o personagem principal (Toni) vai demonstrando aos poucos suas habilidades, pois ele tem deficiência visual (ops, falei! Foi mal!). Mas, o que quero deixar aqui registrado é que, podemos tudo. Isso é a frase que a mãe (dona Marta) dele vivia dizendo, e a responsabilidade dessa frase a colocou dentro da aventura. "Você pode fazer tudo..." Resumindo, o enredo se passa no colégio Cidinha Moura, que tem um século de fundação. Toni é um aluno de baixa renda, assim como Carla, e ambos vão participar de uma aventura para investigar a prisão do pai dela. Mas, não vamos nos apegar apenas ao passo a passo dos personagens, e sim a possibilidade de acessibilidade. Essa é uma ótima mensagem. Claro, no meu ponto de vista.