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domingo, 5 de julho de 2026

Disputa em Tokyo: a corrida do Edo/Heliot G. Lima

 

Link Livro Amazon

    Essa resenha deveria ter saído há mais tempo, mas confesso que eu absorvi a leitura de uma maneira bem particular. Explico! Primeiro, tive acesso em período turbulento de faculdade e estágio obrigatório e é um livro recheado de detalhes culturais. Não dá pra ler sem um caderno de anotações e sem um tempo hábil pela excelência da escrita. Outro detalhe importante: é um livro escrito por um amigo aqui de Brasília (que inclusive está escrevendo seu segundo livro), o autor Heliot G. Lima Link Ebook Amazon @disputaemtokyo Instagram 

    A aventura começa quando o atual  imperador japonês, após a reconstrução de um antigo rio da capital japonesa, Tokyo, resolve fazer uma disputa para escolher os novos protetores do lendário Rio Edo. Mas, tal corrida vai trazer à tona antigos conflitos que envolvem os atuais participantes. Não apenas conflitos, mas a ganância de poderosos que, aliada às inovações tecnológicas, anseiam em lucrar com as águas milenares do rio. Ser parte dos clãs protetores é a melhor oportunidade para alcançar o objetivo da rica e poderosa família Fuuté e se preparem para conhecer métodos desonestos para alcançar o objetivo, ter o domínio do Rio Edo. 

Antigo local de Edo e atual localização de Tóquio

    Nessa fantasia, conhecemos as irmãs Toshiko e Harumy, parte do clã Nawa, acusado de ser o responsável pela extinção completa da Rio. Sim, o curso do rio foi afetado pelas catástrofes da região e com o passar do tempo as nascentes foram soterradas e suas águas contaminadas. O crescimento da cidade também afetou a tradicional "serpente azul que cuspia arco-íris" e com o passar das gerações e avanço da tecnologia, muitos duvidavam da existência no passado desses clãs protetores. A disputa se dá após a ação do imperador e emergir o Rio Edo e os templos que ficavam à margem do "dragão azul". 

Edo: a barragem do rio Otonashioji. Impressão japonesa de Utagawa Hiroshige (1797-1858) século XIX. Coleção particular.

    Para além de restabeler um patrimônio material, o imperador procurava anular intermediários capitalistas sobre o Rio. Por isso, os descendentes dos clãs protetores foram convocados para uma corrida no próprio Rio. É aqui que os destinos se encontram, ligando as irmãs com os jovens Catatau e Ken Tetsuo, divulgadores de vídeos sensacionalistas na web. Ken, um jovem paulistano e Catatau, brasiliense da Capital do Brasil, caem de paraquedas e auxiliam as irmãs não apenas a avançar na corrida, mas a combater as táticas assassinas da Corporação Fuuté. 


    Essa corporação não conta apenas com forças humanas, mas com o auxílio de máquinas que desejam o extermínio da raça humana. É nessa ficção científica e aventura fantasiosa que vamos conhecer detalhes da cultura nipônica. A riqueza de detalhes da mitologia, arquitetura, costumes, hidrografia, lutas marciais tornam o enredo uma enciclopédia rica para os leitores que apreciam o universo japonês. O autor demonstra todo o seu conhecimento baseado em seus estudos na antiga capital japonesa, apresentando para nós detalhes das Eras passadas e características de drenagem e conservação dos canais hidrográficos. São 360 páginas de muita contribuição e se preparem para a reviravolta inesperada (pelo menos por mim) do final. Indico! 



segunda-feira, 29 de junho de 2026

A Cabeça do Santo - Socorro Acioli

     Como um livro publicado em 2014 se tornou um fenômeno em vendas dez anos depois? O que colocou a escritora, jornalista e professora Socorro Acioli e o seu livro A Cabeça do Santo entre os mais vendidos e emprestado na plataforma da Biblioteca MEC Digital? FLip 2023 Busca Mec Digital MEC A Cabeça do Santo 

    Socorro Acioli já escrevia histórias infantis e paralelo a isso, guardava reportagens sobre uma escultura colossal que estava sem a cabeça no munícipio de Caridade (97 km de Fortaleza, sua terra natal). Única brasileira a participar da oficina de roteiro em 2006/Cuba com o consagrado Gabriel García Marquez (1927-2014), escreveu em dois dias o resumo do atual best-seller que conquistou brasileiros e já foi traduzido para outros idiomas. 


Gabo e Socorro Acioli no workshop em Cuba 2006


    Gabo aprovou e incentivou uma produção cinematográfica, fato que está atualmente em planejamento pela produtora Joana Mariani. No quesito realismo mágico (gênero literário), o autor não teve dúvidas sobre as possiblidades daquele resumo de Socorro Acioli. O livro foi publicado em 2014 pela Companhia das Letras e foi seguindo a trajetória árdua conhecida pelos autores nacionais. . 


     Claro que o talento da escrita da autora é uma explicação óbvia para que a indicação boca-a-boca continue, sendo em 2026 leitura em vários grupos literários. Mas, devemos concordar que o advento das parcerias entre editoras e influencers deu um up nas redes sociais. A geração tiktokiana passou a conhecer em poucas páginas uma crítica social da exploração econômica e política e a força que há na fé de um povo limitado materialmente. 


    O município de Caridade/CE (década de 80), tinha como prefeito o sr. Raul Linhares Teixeira, que desejava a partir de uma escultura de 33  metros aquecer a economia local com o turismo religioso. Contratou o artista Francisco Barbosa de Oliveira (Franzé D´Aurora) para o trabalho. Eu fiquei bem curiosa sobre a verba disponível de um município para tal façanha e provavelmente foi limitada, o que explica a não continuidade. Primeiramente não seria no local que o corpo do santo encontra-se, mas diante de uma adversidade no início da construção mudaram o local e por causa dos ventos fortes e a necessidade de fortalecer internamente, não havia mais dinheiro e colocar a cabeça seria um risco real. 

Por volta de 1980 quando o fabriqueiro Raimundo Lopes Ferreira e muitos outros que trabalhavam na edificação do primeiro nicho, uma parede inteira desabou por cima dos operários e ninguém se machucou”, conta, Margarida Linhares, esposa do então prefeito à época. Seguindo este rastro, resolveu o Prefeito, erigir no alto do Serrote Cágado, nome primitivo do município, um monumento que em tamanho seria o terceiro maior do mundo, com templo, praça pública e dotada de uma infraestrutura necessária para transformar-se num polo de atração dos fiéis e recanto de beleza turística e lazer da região. A proposta foi encaminhada ao professor Alexandre Diógenes da Universidade Federal do Ceará-UFC, assim como, o escultor e artista plástico, Franzé D’Aurora, que elaboraram o projeto do monumento. Apesar das inúmeras dificuldades, principalmente no que se refere ao aspecto financeiro, o projeto foi iniciado usando uma tecnologia nova para época. Numa última analise, constatou o professor, que a estrutura de tamanha magnitude já praticamente concluída precisaria de um reforço interno, devido à intensidade e a força dos ventos naquela altitude, se assim não o fizesse ela não suportaria o peso de tamanha cabeça. A mudança inesperada alterou o orçamento fazendo com que a conclusão fosse adiada por tempo indeterminado. Fonte
    Como historiadora, eu tenho muitas dúvidas sobre a aprovação de uma obra a nível municipal, mas eu não vou me aprofundar nessa temática. O tio do ex-prefeito na época era deputado e fazia parte da equipe do governo e vale lembrar que no período do regime militar, essas obras faraônicas eram padrão e muitas empreiteiras se beneficiaram. Não estou acusando ninguém de nada, só fazendo uma observação que para a época, seria aprovada tranquilamente sem muitas indagações e quando o assunto é religião, a devoção ganha o apreço popular. 
     O livro começa com Mariinha fazendo um pedido para o seu filho Samuel antes de morrer. Que ele acenda três velas em pés de santos diferentes e que vá atrás da sua avó paterna e seu pai desconhecido. Mesmo sem ter a devoção da mãe, Samuel aceita o pedido contrariado. Mariinha, expulsa de casa pelo próprio pai quando descobriu estar grávida de Samuel, acha em uma empreendedora local de artigos religiosos, abrigo. Samuel acende a vela para Padre Cícero, na colina do Horto em Juazeiro do Norte (figura acima - 1969); para São Francisco na cidade de Canindé (figura abaixo - 2005) e para Santo Antônio na fictícia cidade de Candeia. O contato com a sua avó não é afetuoso, mas é ela quem indica a cabeça do santo como abrigo. 


    Samuel sofre um ataque de cães selvagens e dentro da cabeça abandonada, tenta se recuperar da ferida. Ao conhecer Francisco de uma forma nada convencional, comenta que escuta vozes, o que poderia ser um delírio febril por causa da mordida bem inflamada. Seria Samuel dotado de dons espirituais? Francisco, um pré-adolescente, vê nas escutas uma possibilidade de ganhos e após uma primeira tentativa com sucesso, o casamento de Madeinusa e doutor Adriano, a fé perdida pelo corpo sem a cabeça, retorna em forma de romarias das cidades vizinhas e reavivamento da cidade em forma de turismo religioso local. 

    Samuel e Francisco poderiam abusar da crença alheia em prol da sobrevivência? Com estratégias de Francisco e o dom de Samuel, a cidade voltou a existir. Osório e Helenice, casal de políticos, retornam para explorar e lucrar com o ocorrido, demonstrando todo o lado ganancioso de muitos políticos atuais. Esse é o pano de fundo como um retrato da realidade do sertão nordestino que vive sob o descaso político e a sobrevivência pela fé. As personagens não são princesas e nem heroínas, são mulheres que oram e sobrevivem. Não se vitimizam, enfrentam o destino. Elas sonham, apesar da dura realidade. Querem casar, formar família. Não desistem do santo, mas continuam a afogá-lo no copo e ameça-lo no ouvido na cabeça sem corpo, caso não alcancem a benesse. 

    Socorro nos apresenta as romarias, a gastronomia simples, porém rica em nutrientes, a tradição, a exclusão moralista e as feridas da ausência paterna. O livro será tema do samba enredo em 2027/Tijuca, até lá, indico a leitura. Você vai gostar!




sexta-feira, 4 de julho de 2025

A cabeça do santo (ainda não é a resenha)


    Cuidando da minha saúde em tempos de secura, decidi dar uma espiada nas promoções da Amazon (Kindle). Me deparei com esse título, A cabeça do santo, e lembrei de uma entrevista da última Bienal/RJ/2025 onde quase ninguém conseguia citar um título de literatura brasileira (sem ser os clássicos). Mas uma jovem citou e deu um relato muito interessante. No dia pensei "esse livro deve ser muito bom para essa leitora dominar assim a sinopse". Pois bem! Quando dei por mim, baixei e em uma única sentada li 58 páginas, a saber, a primeira parte. Quanto tempo isso não me acontecia ...

    Gente, um livro lançado em 2014 e a forma como "aconteceu" é muito interessante. De forma resumida, a autora precisou de uma narrativa para participar de uma oficina do falecido autor colombiano Gabriel García Marquez em 2006. Ela conseguiu participar. Vou escrever tudo direitinho com maiores detalhes na resenha do livro, pois acredite, a história é fértil e muito interessante. Realmente tem uma cidade chamada Caridade no sertão cearense com uma cabeça de santo. 

    Samuel, após perder a sua querida mãe, Mariinha, viaja para Candeias para cumprir o que prometeu a sua genitora no leito de morte. Eis a aventura, ele acaba dentro de uma cabeça de santo e passa a escutar as orações casamenteiras que mulheres da pequena cidade fazem ao santo para casar. Eu fui sequestrada pela escrita da autora e fui conhecer um pouco mais sobre ela. O livro vai virar filme e já foi traduzido e lançado em outros países. Que demais! Indico e sigo lendo. Logo uma resenha por aqui. 
 

sábado, 17 de julho de 2021

Cem Anos de Solidão (releitura)


Confesso que li Cem Anos de Solidão em três dias no ano de 2008. Devorei! Foi meu primeiro caso de amor com Gabriel García Márquez. Não é o meu preferido, apesar de tão aclamado pelo público literário. Decidi lê-lo novamente, pois essa rapidez me fez esquecer e eu gostaria muito de, após a formação em História, absorver a narrativa histórica subliminar (ou não) na Macondo ficcional. Mas, decidi que seria uma leitura sem pressa, apesar que tediosa pelos Aurelianos, Arcádios, Remédios ... muita calma e atenção. Que mente brilhante! Sem descrever o que todos já sabem, é a narrativa de uma América Latina e seus impasses históricos (liberais versus conservadores, exército, sumiço de corpos, o fanatismo religioso, o massacre das bananeiras, a presença estrangeira, o interesse na botânica, as guerilhas e por fim, a forma como a narrativa real é apagada em livros didáticos e mídias a serviço do poder local ou "imperialista"). Só foi possível analisar Cem Anos de Solidão nessa perspectiva histórica após a leitura As veias abertas da América Latina (Eduardo Galeano). Mas, é um livro com várias possibilidades e certamente eternizou o autor colombiano.