terça-feira, 19 de julho de 2016

Um copo de cólera - Raduan Nassar


Fui na pilha do livro que resenhei na última postagem (Lavoura Arcaica), do mesmo autor, e devorei esse livro de poucas páginas chamado Um Copo de Cólera.  Escrito em 1970, foi publicado somente em 1978, momento político no Brasil de ausência de liberdade de expressão política devido à Ditadura Militar. Nessa obra, o estilo não é o lírico e novelesco. Me atrevo a chamá-la de um tratado sobre o Id do início ao fim, sexo e cólera, em todos os sentidos. O autor, Raduan Nassar,nasceu em Pindorama e cresceu em São Paulo, onde cursou Direito e Filosofia pela USP. Depois do seu terceiro livro, Menina a Caminho, deixou de escrever. Bom, o livro é dividido em pequenas partes: A chegada, na cama, o levantar, o banho, o café-da-manhã, o esporro e a chegada (mesmo título inicial). Na chegada, a amante chega e o clima entre os dois (ele o espera em uma chácara distante nos arredores de São Paulo - conforme filme que vou citar mais à frente) dá a entender que são apenas isso, amantes. Logo mais, podemos desfazer esse pensamento. Não há diálogo, e pelo monologo do amante, ele acredita que quanto mais a despreza, mais ela depende emocionalmente dele. Na cama, enquanto ele a espera, reflete quanto é apreciado por ela, levando em conta sua tara por seus pés (comparados a lírios), No levantar, ela se agarra a ele e no banho, há mais pitadas de sensualidade entre os dois. No café-da-manhã, ele volta ao seu silêncio espartano, chamando pela terceira personagem, Mariana, a típica empregada protestante. No esporro, aí que o tumulto parece... ele em silêncio, ela após indagar sobre tal, toma o seu café e de repente, ele se levanta, deixando todos atônitos. Motivo: saúvas que romperam sua cerca! Ao retornar da sua luta quase que corporal para combater tais insetos, a amante diz: "é pra tanto, mocinho?". Para ele, não passa de uma inveja, pois ele não usou do mesmo ardor na cama e "ela não teve o bastante, só o suficiente". Se antes do sexo pareciam estranhos, que compartilhavam intimidades apenas carnais, agora no momento de cólera, pois chega a esse ponto, ambos vão mostrar suas verdadeiras opiniões em relação ao outro. Opiniões que vão desde "sua jornalista de merda" - lembrando que ele a despreza por ser fêmea emancipada e acredita que tudo que ela sabe, deve a ele -  a "seu fascista!". Nesses diálogos carregados de cólera, que percebemos o poder na linguagem para a defesa quando somos provocados. E sim, vejo diálogos com fundo politizado, uma linguagem engajada perfeita, que cita temas proibidos na época. Para tal, o autor escolheu nada mais que, um ex-ativista e uma jornalista politizada. No filme que deduzimos que ele é um ex-ativista. Falemos sobre o filme, então. Lançado em 1999, estilo drama, direção de Aluizio Abranches traz como protagonistas, Júlia Lemmertz e Alexandre Borges (na época, já casados). Também, Ruth de Souza (Mariana), Linneu Dias (Antônio) e participação especial de Marieta Severa (mãe). Informo que, são 20 minutos de cenas de sexo já no início do filme e que as cenas são fidedignas. Li em uma matéria que aconteceu de fato, já que ambos eram casados, não sei se é verdade. No filme, fica muito nítido a questão masculina de tentar dominar pela dependência e sobre o medo de perder a cerca. Não deixou a desejar, os dois arrebentaram. E se ela parte, após a violência física, retorna em A chegada, sendo a narradora, estando ele à sua espera. Dependente... 


"Ninguém dirige aquele que Deus extravia!"

"Hosana! eis chegado o macho! Narciso! sempre remoto e frágil, rebento do anarquismo"

terça-feira, 14 de junho de 2016

Lavoura Arcaica - livro e filme


Lavoura Arcaica foi um acidente literário de percurso. Na primeira feira de troca de livros do Planetário, ele estava lá disponível. Claro, já conhecia de nome, por isso, o escolhi. O autor, Raduan Nassar, nasceu em Pindorama e cresceu em São Paulo, onde cursou Direito e Filosofia pela USP. Estreou na literatura em Lavoura Arcaica em 1975, autor também da obra Um copo de cólera (próximo dele na lista de espera).

Bom, pelo que li na internet, o estilo é entre o novelesco e o lírico, com bastante recursos poéticos. Isso me fez apaixonar pelo seu estilo. O narrador é em primeira pessoa, o tempo não é linear e na obra conhecemos o núcleo de uma família de imigrantes árabes do Líbano no Brasil. Assisti hoje o filme, então vou colocar o nome dos personagens em parênteses, para economizar tempo. O livro é dividido em duas partes: A partida e O retorno.

André (Selton Mello), personagem principal, criado no meio rural arcaico, foge para uma cidade pequena, no interior. Ele luta contra a rigidez moral, contra a estrutura social análoga à Idade Média, contra a opressão da tradição e contra seu sentimento incestuoso em relação a sua irmã Ana (Simone Spoladore). A mando do pai, Pedro (Leonardo Medeiros), o primogênito, vai buscá-lo. O pai, Iohána (Raul Cortez), figura patriarcal, mantém a família dentro dos padrões impostos pela tradição milenar e familiar. 

À mesa, há a presença da diferenciação, a saber o pai à cabeceira, o ramo do afeto, contendo a mãe, André, Ana e Lula, e o ramo da tradição, com Pedro, Rosa, Zuleika e Huda. O outro lugar da cabeceira, pertencente ao avô, permaneceu vazio, desde a sua morte:

"Eram esses os nossos lugares à mesa na hora das refeições ou na hora dos sermões: O pai à cabeceira; à sua direita, por ordem de idade, vinham primeiro Pedro, seguido de Rosa, Zuleika e Huda; à sua esquerda vinha a mãe, em seguida eu, Ana e Lula, o caçula. O galho da direita era um desenvolvimento espontâneo do tronco, desde as suas raízes. Já o da esquerda trazia o estigma de uma cicatriz, como se a mãe, que era por onde começava o segundo galho, fosse uma anomalia, uma protuberância mórbida, pela carga de afeto."

Os dilemas de André, colocados de forma poética são espetaculares. Os sermões do pai à mesa, sobre o tema "Tempo", também. André retorna ao lar, mas isso não significa a paz, muito pelo contrário, significa a tragédia e o desmoronamento dessa família. Falando sobre desmoronamento, quero ressaltar aqui, a forma espetacular como Ana (Simone Spoladore) foi interpretada. É nela que vamos perceber o limbo entre o sagrado e o profano, a presença da figura cigana, sensual e mediterrânea. Simone não fala uma só palavra no filme, mas sua interpretação é maravilhosa. Sua dança final,... sem palavras. Inclusive, foi a que mais ensaiou. 

Essa com certeza, foi considerada a melhor cena do filme, dirigido por Luiz Fernando Carvalho (seu primeiro e único filme). A cena da conversa final entre André e o pai (Raul Cortez) também não deixou a desejar. Raul simplesmente arrebenta. A face da mãe (Juliana Carneiro da Cunha) carregada de dor, nos convence, marcando também. O filme dá primazia ao diálogo, por isso que para muitos é considerado cansativo. Mas, eu tirei o chapéu para Selton Mello, que pelo visto, se entregou de corpo e alma. Assim é a versão do filho pródigo de Nassar. Indico livro e filme. 

sexta-feira, 10 de junho de 2016

O grande desafio - Pedro Bandeira


Meu 14° livro! Obra para o sétimo ano e que legal, com a possibilidade de conciliar com o conteúdo do 2° trimestre. A saber, Renascimento. Quem está lendo, vai conseguir identificar. Bom, sem mais delonga, e sem informar muito, pois senão torna impossível o spoiler. Queria antes de mais nada informar que é o meu primeiro livro do autor Pedro Bandeira. Sim, eu sei. Logo eu que aclamo tanto os autores brasileiros. Gostei desse nosso primeiro contato, pois o autor trata de forma literária a inclusão de portadores de necessidades especiais.  Afinal, o personagem principal (Toni) vai demonstrando aos poucos suas habilidades, pois ele tem deficiência visual (ops, falei! Foi mal!). Mas, o que quero deixar aqui registrado é que, podemos tudo. Isso é a frase que a mãe (dona Marta) dele vivia dizendo, e a responsabilidade dessa frase a colocou dentro da aventura. "Você pode fazer tudo..." Resumindo, o enredo se passa no colégio Cidinha Moura, que tem um século de fundação. Toni é um aluno de baixa renda, assim como Carla, e ambos vão participar de uma aventura para investigar a prisão do pai dela. Mas, não vamos nos apegar apenas ao passo a passo dos personagens, e sim a possibilidade de acessibilidade. Essa é uma ótima mensagem. Claro, no meu ponto de vista. 


terça-feira, 26 de abril de 2016

Cartas do Inferno - C.S.Lewis


Cartas do Inferno (Cartas de um diabo a seu aprendiz) do célebre autor C.S.Lewis é uma ficção satírica sobre como o cristão é tentado na sua trajetória cristã. Inicialmente, eram cartas publicadas no The Guardian e em fevereiro de 1942, foi lançado como livro e dedicado a J.R.R. Tolkien.  

 Nessa ficção, Screwtape (Fitafuso), um demônio experiente, ensina ao seu sobrinho, Wormwood (Absinto) a como tentar seu recém-convertido. Eles chamam o cristão de paciente. Digo eles, mas temos acesso apenas às cartas de Fitafuso. Deus é chamado de O Inimigo, e nós, volta e meia chamados de vermes e bípedes.

Como pano de fundo, a Segunda Guerra Mundial, Fitafuso vai indicar como desviar seu paciente da fé genuína. O interesse não é desviar da igreja, mas da possibilidade de relacionamento e transformação. Ele explica para Absinto que O Inimigo leva os cristãos algumas vezes a momentos difíceis, mas o esquecimento de vitórias passadas mina a fé, principalmente por não ser atendido. 

O ataque tem muito maiores chances de ser bem sucedido quando por alguma razão o mundo interior seu homem estiver desmazelado, frio e vazio.

Muito interessante como Fitafuso liga os problemas de infância do paciente com a mãe e ensina a Absinto usar comportamentos repetitivos que irrite-o. Para ele, o cotidiano deve ser recheado de comportamento irritantes, como o levantar da sobrancelha. Algo simples, mas vai no subconsciente do paciente sem que ele perceba. 

Fitafuso também aborda sobre a não oração, o esfriamento com o grupo da igreja, a necessidade de trocar de igreja (há duas em análise com características próprias), sobre a tentação sexual, e sobre o orgulho que nasce de forma inocente. Subliminar. 

Quando o paciente se apaixona, Fitafuso informa sobre seu ódio ao prazer e acusa o Amor com o momento de discórdia entre O Inimigo e o diabo. Achei muito interessante e refleti bastante sobre a questão do passado e presente:


Desejamos que ele fique na máxima incerteza, e que sua mente fique cheia de aspectos contraditórios do futuro, para que cada um desses aspectos provoque nele esperanças e receios. Não há nada como o suspense e a ansiedade para levantar pela mente humana uma autêntica barricada contra o Inimigo. Ele deseja homens ocupados com o que fazem, ao passo que nós trabalhamos para deixá-los preocupados com o que irá acontecer a eles.



Indico. Leitura rápida e atual. 

segunda-feira, 25 de abril de 2016

Depois de você (continuação Como eu era antes de você) Jojo Moyes



O sucesso Como eu era antes de você tem a estreia prevista nas telas brasileiras, dia 30 de junho de 2016. Um romance que fez muita gente chorar pelo seu final, não tão esperado. Estou ansiosa para ver como Emilia Clarke e Sam Claflin irão dar vida aos personagens, Louise Clark e Will Traynor

Bem, li várias resenhas na estante Skoob e na internet sobre a continuação Depois de Você, da mesma autora, Jojo Moyes. Respeito muito as opiniões, mas parece que estamos acostumados com finais felizes e a vida é mais cinza do que parece. Muitas leitoras afirmam que é desnecessário dar continuidade ao romance. Como assim? Sem debater os motivos de Will, as pessoas permaneceram, com toda a bagagem de dor por causa da decisão dele. Falo de uma mãe, de um pai e da própria Lou, que se sentia muito desconfortável pelo sentimento que se formou em seis meses e pela impotência diante da decisão de Will. 

Logo, Depois de Você aborda a vida de todos depois de Will. Não é apenas sobre Lou. Na minha opinião o livro começa massante, e percebo que Jojo tem essa característica, ela faz da sua obra uma montanha-russa, pois de uma hora pra outra, acontece algo que joga adrenalina literária em nós. Sim, do nada (vou tentar não dar spoiler). Lou e sua saúde, bem no início, o aparecimento de uma personagem que tem relação com Will e o tiro que um personagem leva já quase no final. Esse último item, eu achei tão surreal, que tive que reler. 

O que as pessoas não percebem, é que Lou tem uma característica que precisa ser confrontada: a autossabotagem. O episódio que lhe ocorreu no castelo (livro anterior) trouxe consequências profundas, de inércia em relação à própria vida e apenas sua irmã a confronta. Então chega Lily, que até agora não li nada positivo sobre ela. Falta um olhar mais profundo sobre tudo o que acontece no enredo. Temas como morte, superação, autossabotagem, feminismo (SIM!) e mãe solteira são abordados. Quando nos deparamos com Lily, reparamos com facilidade toda sua rebeldia e comportamento agressivo com a doce Lou. Mas, é Lily que desperta várias vezes Lou do seu marasmo existencial. Muito mais que Sam Fildeng. Lily também tem uma bagagem de dor. 

Falando sobre ele, fica escancarado que o terceiro livro já deve estar no forno e eu não me assustaria se fosse cheio de crises existenciais, pois Lou se prende às tragédias para não ser feliz. Mas, o final da obra já demonstra que ela está começando a ser cúmplice do seu destino. Sim, a autora foi feliz em dar continuidade não apenas para Lou, mas a forma como os pais de Will conseguem amadurecer a superação é algo a elogiar. Fatos inéditos, que eu nem imaginava aparecer, apareceram, demonstrando como um autor pode mesclar com maestria personagens e fatos. Leia-se o tema feminismo, que a princípio achei um pouco exagerado, mas demonstra que sempre é hora de se empoderar, independente da idade. 

Palmas para os discursos daqueles que perderam alguém para morte e do mais, indico. 

Nenhum de nós segue em frente sem olhar para trás. Seguimos em frente sempre levando aqueles que perdemos.

quarta-feira, 30 de março de 2016

Zelota - A vida e a época de Jesus de Nazaré

Reza Aslan, foi muçulmano até os seus 15 anos, pois nascer no Irã era carregar a tradição religiosa como a própria pele. Esse fato esfriou drasticamente após a revolução no seu país, o que obrigou sua família a fugir para América. Vale ressaltar que na década de 1980, Jesus era a América. Aceitar seu sacrifício, seu enredo, por mais bizarro que pudesse ser, era o mais perto que alguém poderia fazer para se sentir americano. 

Após sua conversão (aos 15 anos), Reza começou a compartilhar as boas-novas de Jesus com todos. Mas, o inesperado aconteceu. Quanto mais sondava a Bíblia para se armar contra as dúvidas dos incrédulos, mais profundo ficava o abismo por ele percebido entre o Jesus dos evangelhos e o Jesus da história. Na faculdade, no estudo formal da história das religiões, o desconforto se tornou pessoal e as dúvidas, próprias. Assim começou sua Odisseia à fé em Jesus que havia sido descartada como falsa. 

Aslan deu continuidade ao seu trabalho acadêmico não como um crente incondicional, mas como um estudioso inquisitivo. Nessa altura do campeonato, já havia repensado a fé e a cultura dos seus antepassados e reconectado com mais familiaridade. Duas décadas de pesquisas sobre as origens do Cristianismo o tornaram um discípulo de Jesus de Nazaré (o histórico), que jamais um dia foi de Jesus Cristo (Jesus dos evangelhos). Como assim? Como isso aconteceu?

Aqui entra o meu conselho: não leia se você é um crente que tem como base, que cada palavra da Bíblia é literal e infalível. Se você não consegue conviver com o fato de que Nela há evidentes erros e contradições, tal como seria de esperar de um documento escrito por centenas de mãos diferentes através de milhares de anos. Não veja como heresia da minha parte, sou cristã e tenho na Bíblia um manual e modelo de vida. Por esse parágrafo, já deixo claro que a leitura pode ser indigesta. 

Mas, para o autor, que não esteve mais acorrentado à suposição de inefabilidade bíblica, foi o despertar da fé. Quanto mais ele aprendia sobre Jesus histórico, o mundo turbulento em que Ele viveu e a brutalidade da ocupação romana que Ele desafiou, mais se sentiu atraído. Jesus não era mais o ser sobrenatural apresentado para ele na igreja. Era alguém, como ele afirma no final (233), que vale a pena acreditar

É apresentado em sua obra fatos que vão desde a formação de identidade judaica (valores e ritos), invasões estrangeiras em Jerusalém, revoltas e rebeldes messiânicos até a canonização do Novo Testamento sob o governo romano (o que fala por si só, opinião pessoal). Com textos que não fazem parte do Novo Testamento, vamos analisar divergências de opiniões sobre Jesus, não que isso isente o Novo Testamento de divergências de fatos. 

Logo, temos apenas dois fatos históricos efetivos sobre Jesus de Nazaré: primeiro, foi um judeu que liderou um movimento popular judaico na Palestina no início do século I d.C; segundo, é que Roma o crucificou por isso (sedição).  Combinando esses dois fatos com relatos históricos da época em que Jesus viveu e relatos romanos é possível ter precisão histórica do Jesus de Nazaré. Também é possível conhecer o florescimento do Cristianismo e o processo de transformação do Jesus nacionalista judeu revolucionário em um líder espiritual pacífico, sem interesse em qualquer assunto terreno. 

Eis o intuito do autor: expôr as reivindicações dos evangelhos ao calor da análise histórica, limpando seus floreios literários e teológicos. Colocar Jesus firme dentro do contexto social, religiosa e político da época em que viveu. Assim, sua biografia se escreve por si só. Mas, na leitura, talvez não seja o Jesus esperado, nem o reconhecido hoje. Apenas o único que podemos acessar por meios históricos. Como Aslan escreve "todo o resto é uma questão de fé" (24). Indico! Resenha da minha segunda leitura. 

"A priori, é um milagre que saibamos algo, sobre o homem chamado Jesus de Nazaré. O pregador itinerante, vagando de cidade em cidade, clamando sobre o fim do mundo e sendo seguido por um bando de maltrapilhos, era uma visão comum no tempo de Jesus, uma espécie de caricatura entre a elite romana" (16)

"Os evangelhos não são relatos de testemunhas oculares das palavras e atos de Jesus. Eles são testemunhos de fé compostos por comunidades de fé e escritos muitos anos depois dos acontecimentos que o descrevem. Simplificando, os evangelhos nos dizem sobre Jesus, o Cristo, e não sobre Jesus, o homem". 

quinta-feira, 24 de março de 2016

A era do ressentimento







"Nietzsche costumava dizer que nós sonhamos com um sol que se preocupe com o que a gente sente. E ele dizia que no final das contas, quando a gente descobre que o sol não está nem aí pra nós, que as estrelas não brilham pra nós, que o mar não existe pra que a gente nade nele, a gente entra num desespero que ele chamava de ressentimento. O que é o ressentimento? É você achar que todos deviam te amar mais do que amam, você achar que todo mundo devia reconhecer em você grandes valores que você não tem. Do século XIX pra cá, o ressentimento piorou muito. Ele está em toda parte. Você não pode falar nada que todo mundo se ofende, se você fizer uma crítica, todo mundo toma como pessoal. Provavelmente, daqui mil anos, não vão lembrar da nossa época como a época do iPad. Vão lembrar da nossa época como a era do ressentimento. Somos uma civilização de mimados que não é capaz de escutar nenhuma crítica sem achar que é uma questão de ofensa pessoal".

Bom, lá fui eu novamente, depois do impacto da leitura do "Guia...", ler Luiz Felipe Pondé. Para não tirar conclusões apenas com uma leitura. Bom, não tiro a razão dele nessa obra A era do ressentimento. Estamos vivendo na era da mediocridade contemporânea. Fazemos parte de uma geração de narcisistas, mimados e egocêntricos. Seus ensaios procuram demonstrar o quão é importante desprezar o mundo (exemplo: não ser escravo do facebook) e não se achar o centro do mundo. Só que novamente é estranho o posicionamento dele em relação às mulheres. Seu contato com grupos radicais de feministas podem explicar, mas não justificar tanta acidez e maldade literária. Para ele, somos praticamente culpadas por tudo. Não vou entrar no mérito de dissecar seu pensamento, ele já é considerado polêmico. Tenho ambivalências em relação à sua obra, mas não acho que foi perca de tempo. Há muito para absorver dos seus pensamentos. 

Como conversar com um fascista



Indicação do professor Leandro Karnal em sua page do Facebook. Na apresentação, Rubens R.R. Casara explica o que foi fascismo ontem e que o fascista atual é aquele que não quer diálogo e incita ao ódio. Prefácio escrito por Jean Wyllys. 

Bom, em linhas gerais, para exterminar a democracia como desejo é preciso que o povo odeie e é isso o que o autoritarismo é e faz. Ele é o cultivo do ódio, de maneiras e intensidades diferentes em tempos diferentes. Às vezes um ódio mais fraco, ás vezes um ódio mais intenso servem à aniquilação do desejo de democracia. O fascismo é sinônimo do autoritarismo.

O fascismo sobrevive na animosidade. Ora, quem é atacado nos posicionamentos discursivos e práticos do fascismo não deve contentar-se com a posição de vítima. Essa pode ser simbolicamente útil para construir direitos, mas também para destruir lutas. Achei esse pensamento da autora, muito interessante. O fascismo tem um ódio especial direcionado às minorias. 

Assim como, em sendo questionada, a palavra "Deus" gera o estigma do herege ou do ateu, a palavra "capitalista", quando questionada, gera o estigma do " comunista", ele mesmo tratado como um tipo de ateu em sua descrença crítica do sistema. Achei interessante escrever sobre isso, pois nesse período de crise política, temos visto pelas ruas pessoas sendo agredidas devido à cor de suas vestes.

A neurose é uma categoria psicanalítica... O neurótico quer provar suas "teorias", que ele pode criar nas mais variadas circunstâncias. E, para prová-las, basta acionar o mecanismo de distorção. A distorção requer interpretação. Em geral, aquilo que se quer provar - a Teoria do neurótico - não tem realidade alguma. Ele quer provar algo sobre si mesmo e o outro lhe serve como caminho da prova. A inversão, por sua vez, não é uma mera projeção, como pode parecer. Ela é uma tática de poder que vai além da neurose e tem com ela a diferença de ser uma desonestidade consciente. Alguém que na esfera privada é neurótico, na esfera pública pode ser um canalha. A posição do canalha é sempre burra, e fácil de desvendar. Mas vivemos no império da canalhice onde a burrice, tanto como categoria cognitiva quanto moral, venceu. Desvendá-la não tem mais muito valor. Ela se transformou no todo do poder.

Meios de comunicação em geral, onde ideologias e indivíduos podem se expressar sem limites de responsabilidade ética e moral, estabelecem compreensões gerais sobre fatos que passam a circular como verdade apenas porque são repetidas. Leia-se Facebook, twitter, e acredite: apenas capas de revistas.

Na verdade, quem pensa que faz um discurso sempre é feito por ele. Sobre xingamentos, o ato de xingar, mostra a impotência para uma crítica concreta e uma estratégia de destruição. A agressividade verbal é uma forma conhecida de violência simbólica. Temos ouvido e visto jornalistas com amplo espaço na televisão falar de modo agressivo e irresponsável em gestos de claro fomento ao ódio. Reprodução do texto: Como escrever para idiotas, que já reproduzi aqui no blog. Muito bom. 

A autora escreve sobre vários temas, rescrevi (trechos do livro) apenas um histórico de leitura que mais me chamou a atenção. Muito bom. Indico. 

quarta-feira, 9 de março de 2016

Guia politicamente incorreto da Filosofia

O título deveria ser "Guia politicamente incorreto do politicamente correto" ao invés de "Guia politicamente incorreto da Filosofia: um ensaio de ironia". A ironia fica, Pondé é bom nisso. Você vai se pegar dando boas risadas do seu humor ácido. Mas, ainda que sempre deixe claro que as piadas contras as minorias são erradas (sempre em parênteses) o livro é uma crítica subjetiva sobre não poder criticar abertamente as minorias como antes. 
A grosso modo, o politicamente correto é "uma suposta política que consiste em tornar a linguagem neutra em termos de discriminação e evitar que possa ser ofensiva para certas pessoas ou grupos sociais, como a linguagem e o imaginário racista ou sexista" (Wikipédia, eu sei, fonte podre de referência). O autor acusa uma tendência de mau caráter dos ditos politicamente corretos. Denuncia o uso político da palavra, que com suas distorções, tem gerado uma massa popular (perigosa) que se ilude e usa mau o termo democracia. 
Ora, desde os gregos, poucos podem governar. Maquiavel também citou a virtude. Mas, fica clichê o autor não se atentar às mudanças históricas de lá pra cá. Parece que as conquistas só geraram poder aquisitivo da massa, aeroportos lotados, pobre por todo lado, um mundo como um grande churrasco na laje. 
Claro, sobrou para as feministas. Confesso que o autor teve seus acertos. A mulher não pode negar suas características biológicas, mas ele não perceber que ela não quer ser inferiorizada por isso, foi erro crasso também. Não sei de onde ele tirou a romantização da mãe solteira, talvez dos grupos feministas radicais, que aliás nem filhos almejam. Mas, boas risadas quando ele aborda sobre as "azedas" e se remete ao neolítico. 
Pautado em grande parte na Psicologia Evolutiva (parece que está em moda), Pondé vai justificando instintos, comportamentos e na boa!? preconceitos. Ele, como muitos, está irritado com o tal do politicamente correto. Mas, basta uma pesquisa rápida no google para perceber a tendência dos contrários. Não que eu não acredite no uso tendencioso e político dos grupos em defender grupos como gays, negros e mulheres (que o autor diz que nem minoria são, puts!).
Bom, é na mesma linha dos "Guias politicamente incorreto", com a diferença que o autor deixa claro que se trata da sua opinião. Diferente de outro autor que usa de charlatanismo, como bem ponderou Leandro Karnal. Indico a leitura para que você possa analisar onde esconde o seu preconceito.
Somente. 

Quem me roubou de mim?


"Há pessoas que nos roubam. Há pessoas que nos devolvem."

O livro nasceu do desassossego provocado por lágrimas que o autor chorou e consolou. Não é uma proposta de ensaio teológico, mas uma reflexão sobre cativeiros afetivos e suas desastrosas consequências.  Pe. Fábio de Melo convoca com a leitura o olhar do leitor para os seus relacionamentos, identificando neles posturas que, em nome do amor, possa nutrir o sequestro da subjetividade. Em nome do amor, nos tornamos vítimas ou algozes. Impomos ou aguentamos fardos; aprisionamos ou nos tornamos prisioneiros; e por ser prática comum, nos sentimos justificados.
Absorvidos pelos cansaços da vida que vivemos, pouco tempo nos resta para o cultivo de uma vida interior (18). Tal realidade nos impede de cultivar o nosso interior, nos empurrando aos braços de outros que vivem a mesma negligência. Os sequestros são iniciados assim.
Sequestros subjetivos são aqueles que perdermos nossas identidades, a posse de nós mesmos, o cativeiro nos leva a ausência de nós mesmos, o esquecimento do nosso ser. Relações saudáveis são relações que nos devolvem a nós mesmos, e, o melhor, devolvem-nos melhorados.
Tornar-se pessoa é estabelecer o equilíbrio entre os dois pilares, disposição de si e disponibilidade para o outro. Em um mundo acelerado, confuso entre prazer e desejo, enraizado no mito do amor romântico, os sequestros são frequentes. Cabe ao ser a superação da idealização, afinal não existe a pessoa ideal, mas sim a pessoa certa.
Para o autor, o sequestro da subjetividade, de alguma forma já nos atingiu. Ou porque promovemos o sequestro de alguém, ou porque estamos vivendo os lamentos de um cativeiro em que fomos colocados. É hora de reação. Não importa onde estamos. O que importa é aonde podemos chegar. Livres... Indico. 


"Temer uma realidade ou uma pessoa é o mesmo que lhe entregar o direito de nos assombrar constantemente" (46)

"Quando somos plurais, só o podemos ser se estivermos na posse de nossa singularidade, caso contrário, a pluralidade nos esmaga" (62)

"É comum que nossa capacidade de amar esteja condicionada pelas nossas necessidades" (75)

"A teologia cristã nos ensina que o conhecimento de Deus nos coloca em contato com o ser humano que Ele deseja que sejamos" (76)

"...ao sujeito cabe a função de realizar a ação do verbo" (92)