No filme, acompanhamos Goreng (Ivan Massagué), que acorda numa prisão vertical ao lado do companheiro de cela, Trimagasi (Zorion Eguileor). Nessa prisão, a comida é distribuída de cima para baixo. Quem está nos andares de cima come à vontade. Todo o filme, principalmente seu final inusitado e muito aberto, deixou muitas interrogações. Indico muito!
Do que leio, assisto, sinto e absorvo. Nunca será uma verdade absoluta, apenas um ponto de vista ou a vista de um ponto. Talvez uma dedução equivocada do meu olhar diante do mundo. Um olhar humano cheio de CID´s sem a presença da IA. Ela não devaneia. Então pra mim não serve. Eu quero o luxo do erro da falta de coesão textual. Aqui na solidão impossível de quem lê e carrega personagens e enredos dentro de si, me leio e releio. Para mim, é o suficiente. Os devaneios são meus, é tudo que tenho.
domingo, 26 de abril de 2020
Milagre da Cela 7 (Netflix)
Milagre da cela 7 – a inocência transcende a violência
No filme turco “Milagre da cela 7”, Memo é injustamente acusado de um crime grave, preso e condenado à morte. Por sua grande deficiência intelectual não tem condições de se defender e de sequer ter clareza do que estava acontecendo. Toda a sua defesa fica por conta da luta de sua filha, Ova, que fica tentando, impotente, sensibilizar as autoridades. Ambos eram cuidados pela avó de Memo, que, quando Ova pergunta se o pai é maluco, responde que ele apenas tem a mesma idade mental dela. Ova fica feliz com a resposta, pois encontra no pai um companheiro para brincadeiras.
Memo é duramente espancado na cela pelos outros presos revoltados com seu suposto crime. O milagre a que o titulo do filme alude me parece ser toda a transformação sofrida pelos presos da cela 7 quando começam a perceber a idade mental de Memo e a sua óbvia inocência. A inocência diante da violência sofrida, a falta de revide, a atitude amistosa para com os agressores são próprias do olhar simples e ingênuo diante da vida. Porque só os inocentes podem não perceber a agressividade dirigida contra si, podem não ser capturados pelas armadilhas de um ego ferido. Só os inocentes têm a leveza suficiente para andar sobre as águas sem perceber.
Memo não percebe a hostilidade contra ele e trata a todos como amigos. Talvez seja o primeiro sinal para eles de sua “ausência de cérebro”. Não tinha ele todos os estragos sofridos pela idade adulta. Sua mente procurava pelos passarinhos no pátio e voava com eles, era incontidamente afetuoso, pois não tinha aprendido a conter-se até a anorexia afetiva que caracteriza o individuo normal. Os outros presos não puderam se defender da ingenuidade autentica que favorecia o natural florescimento da bondade.
Sensibilizados, foram se apercebendo mais de si próprios, como quando acontece quando um centro de inocência da psique atinge a consciência. Um centro que funciona como um chamado às origens da própria humanidade, da condição de fazer parte, da base primal de ser uma pessoa. A condição ingênua, despretensiosa, desinteressada é o que permite o florescimento da bondade autêntica, bem como a restauração da integridade psíquica.
Memo no centro da cela lembra aquele ponto virtualmente central da psique, violentado pela sua fragmentação, mas capaz de produzir a sua reintegração quando deixado livre, o que pode ser vivido como uma espécie de luz vinda de não sei onde.
Alexandre Xavier
sexta-feira, 10 de abril de 2020
Filme Agnus Dei
Filme: Agnus Dei (2015) Netflix. No fim da Segunda Guerra Mundial (1945), uma enfermeira francesa voluntária da Cruz Vermelha, Mathilde Beaulieu, atende franceses sobreviventes dos campos de concentração da Alemanha. Ela acaba se envolvendo com um mosteiro da Ordem Beneditina, na Polônia, onde freiras sofrerem abusos sexuais praticados por soldados soviéticos e, consequentemente, engravidaram. Os discursos e análises de fé versus ateísmo, solidariedade versus violência fazem parte do enredo. Mesmo com o tema cruel (baseado em fatos reais), a diretora conseguiu não focar na ação daqueles que se acharam no direito ao abuso, e sim, na permanência da fé diante da crueldade humana e do auxílio ao próximo.
domingo, 5 de abril de 2020
Literatura #dicas #isolamento #covid19
Nesse vídeo bem curto, a historiadora Lilia Schwarz, indica seis livros para ler no isolamento.
1 - A Peste - Camus
2 - Ensaio sobre a cegueira - Saramago
3 - O amor nos tempos do cólera - Gabriel García Marquez
4 - Chão de ferro - Pedro Nava
5 - O deserto dos tártaros - Dino Buzzati
6- 1984 - Orwell
#dica #livros #fiqueemcasa #literatura
1 - A Peste - Camus
2 - Ensaio sobre a cegueira - Saramago
3 - O amor nos tempos do cólera - Gabriel García Marquez
4 - Chão de ferro - Pedro Nava
5 - O deserto dos tártaros - Dino Buzzati
6- 1984 - Orwell
#dica #livros #fiqueemcasa #literatura
terça-feira, 31 de março de 2020
Pequena Abelha - Chris Cleave

Pequena Abelha é uma leitura que consegue ser pesada (pela realidade do tema abordado) e leve (sutileza das personagens) ao mesmo tempo. Você adentra nos dilemas de cada personagem e, não é julgamento que antecede cada sentimento em relação aos personagens, surge empatia. Até mesmo quando o tema é ilegalidade.
Pois então, antes de começar, quero falar um pouco sobre o autor. Chris Cleave é um escritor e jornalista britânico. Pequena Abelha é é o seu segundo romance publicado e ele foi inspirado a escrevê-lo ainda em sua infância na África Ocidental. O livro será adaptado para o cinema com a participação da Nicole Kidman.
Pequena Abelha é uma adolescente de 16 anos que no início do romance está saindo do Centro de Detenção de Imigração (Essex) na Grã-Bretanha. Lá, permaneceu por dois anos após entrar ilegalmente no país. O motivo da sua entrada foi a fuga das guerras do petróleo em seu país, a Nigéria.
Sobre a República Federal da Nigéria, a sua grande riqueza é o petróleo. É um país rico em recursos naturais e reservas de petróleo. Mas, a verba de arrecadação da receita não beneficia a população. O desvio de verbas é um grande problema, mesmo o petróleo sendo 95% das exportações, 80% da receita e 20% do PIB. O autor não quis focar nessa questão, mas acredito que pela escolha do tema, é possível deduzir que, vários habitantes passam por problemas relacionados à exploração petrolífera.
"Pequena Abelha" é essa menina que acaba de sair da detenção e procura pelo casal Andrew e Sarah. Ambos são jornalistas e levam suas vidas pacatas no subúrbio inglês. O filho do casal se chama Charlie que não tira a roupa do personagem Batman. Sua rotina está baseada em ser um herói e enfrentar vilões. Esse encontro se deve a um incidente entre os três ocorrido no país de "Pequena Abelha" dois anos atrás em uma viagem do casal.
Vou parar por aqui, pois como pediu o autor:
"Depois de ler este livro, você vai querer comentá-lo com seus amigos. Quando o fizer, não lhes diga o que acontece. O encanto está sobretudo na maneira como esta narrativa se desenrola".
Concordo e confirmo sobre a narrativa. Prepare o coração.
sábado, 28 de março de 2020
Nós - Ievguêni Zamiátin
"Nós" foi escrito na década de 1920 apenas quatro anos após a Revolução Russa. Seu gênero literário é a distopia, onde a relação de poder é de cima para baixo. Onde há a manipulação, alienação e censura pelos órgãos do Estado. Qualquer discordância desse governo totalitário é destruída pela morte ou tortura.
Nós é a crítica ao Estado Único (Benfeitor/Stalin) e a coletivização da sociedade (URSS). O protagonista, D-503, é um matemático que já havia absorvido as regras e vivia para servir e construir a Integral. Nessa sociedade, as pessoas são números e não há indivíduos, há apenas o NÓS:
"compreendiam isso e entendiam que a resignação é uma virtude, enquanto o orgulho é um vício, e que "Nós" provém de Deus, enquanto "Eu" provém do diabo".
Há a padronização de horários (lazer, trabalho, dormir, comer e fazer sexo) e de uniformes. Tudo é mecanizado e lógico. Até que aparece I-330, personagem que burla as regras e faz D-503 ficar confuso em relação ao status-quo. Confesso que não esperava pelo final apresentado mediante tamanha batalha pessoal do personagem, mas fez todo sentido. Indico.
De Aknaton a JK - das pirâmides a Brasília (Iara Kern)
Iara Kern estudou História, Arqueologia e se especializou em Egiptologia. O livro "Aknaton a JK - das Pirâmides a Brasília" apresenta algumas coincidências entre Brasília e o Antigo Egito. Após um trabalho de seis anos de pesquisa e estudos comparativos, o livro também foi roteiro do filme que leva o título "Brasília Secreta" (edição que escreveu com Ernani Figueiras Pimentel).
A primeira comparação é da Ermida D.Bosco (forma piramidal) com a Ermida de Philae. A questão é mais sobre o cercamento de água em volta dos templos. Ela descreve bastante sobre Dom Bosco (que não vou entrar no mérito) e que, igual no Egito, teve um monumento erigido em sua homenagem.
A segunda comparação é sobre os lagos artificiais, a saber, Lago Moeris com o Lago Paranoá.


Sobre a arquitetura, temos a Pirâmide de Degraus de Sakára do rei Djoser. A mais antiga estrutura de pedra talhada, erguida pelo homem, em todo mundo. Sobre guardar a energia , a autora cita a pirâmide de Degraus da CEB (Companhia de Eletricidade de Brasília). É possível ver a forma do pássaro Ibis do alto e de trás do prédio.
É bom ressaltar que o estudo da professora também foi baseado no Tarot Egípcio e na Cabala Hebraica, então há muita descrição de planos, números, força física, força cósmica, e etc. Por exemplo, a Rodoviária do Plano Piloto é um H deitado (ocupa três plano da terra), já o Congresso Nacional é um H em pé (representa o homem espiritual). Cita também a presença do subterrâneo em alguns prédios como a Catedral Metropolitana (sua entrada passa pelo túnel escuro e é finalizada pela iluminação), ... é muita coisa. Muita comparação, numerologia, mas desde já, ela nomeia o capítulo de "coincidência ou simbologia?"
Bom, entramos no Memorial JK! Construído em homenagem ao fundador de Brasília, também guarda-se o sarcófago do presidente JK, igual nas pirâmides egípcias. Na grande pirâmide de Keóps, o sol nascia em cima do sarcófago do faraó no dia de seu aniversário. Em Brasília, na data da fundação, 21 de abril, o sol nasce dentro do H do Congresso e somente neste dia vemos este alvorecer.
Bom, a autora cita que a estrutura social das crianças e jovens que nascem e que vivem em Brasília (1991 a edição), é tão grande e notória, que segundo os espiritualistas são reencarnações da XVIII Dinastia. Exemplo citado é Aknaton e JK! O primeiro construiu a cidade de Aton que serviu de transição religiosa e política do país, e o segundo, construiu Brasília que serviu como transição política e social do Brasil. Ambos viveram apenas 16 anos após a inauguração de suas cidades e ambos tiveram morte violenta.
Bom, li esse livro em 2006 (início da graduação em História) e ao reler agora, claro que houve muita mudança de opinião sobre o assunto. Mas, quero deixar aqui apenas o resumo do livro e não a minha opinião. Inclusive, esse livro teve outra edição com o Ernani Pimentel e tem muitos vídeos sobre o livro com o título "Brasília Secreta" (como já foi dito anteriormente).
domingo, 24 de novembro de 2019
Olhar a África - Regina Claro
O livro oferece 12 capítulos\oficinas que têm como objetivo estimular o estudo da África através da utilização de imagens. Diante de uma ausência de estudos sobre a África e os afrodescendentes, a autora percorre o longo caminho que articula as pinturas rupestres às produções artísticas africanas contemporâneas.
A visão eurocêntrica acerca da África criou uma série de estereótipos que dificultou a construção de uma identidade positiva sobre os africanos e permitiu a profusão de ideias equivocadas. O conhecimento da História da África é condição para o entendimento da formação da sociedade brasileira. Há muito reducionismo que ignora ou oculta as contribuições africanas na sociedade brasileira, fato que está sendo mudado aos poucos desde 2002 com a lei federal 10.639 (torna obrigatório o ensino da História da África e da cultura afro-brasileira do ensino fundamental ao médio).
É certo que a imagem não ilustra e nem reproduz a realidade, ela a constrói a partir de uma linguagem própria que é produzida num dado contexto histórico. Para análise da imagem, os professores (mediadores), estimulam os alunos a investigarem por meio da problematização das imagens estudadas (sondagem, descrição, análise, interpretação, contextualização, fechamento do trabalho). Excelente material!
Fahrenheit 451 - Ray Bradbury
É um romance distópico escrito após a Segunda Guerra Mundial. Antes de mais nada, para alguns é necessário descrever o que é distopia:
Em Filosofia, através da mesma raiz etimológica surge o termo distopia (ou antiutopia) como o oposto de utopia. A distopia é um pensamento filosófico que caracteriza uma sociedade imaginária controlada pelo Estado ou por outros meios extremos de opressão, criando condições de vida insuportáveis aos indivíduos. Normalmente tem como base a realidade da sociedade atual idealizada em condições extremas no futuro.
Alguns traços característicos da sociedade distópica são: poder político totalitário, mantido por uma minoria; privação extrema e desespero de um povo que tende a se tornar corruptível. https://www.significados.com.br/distopia/
Guy Montag é um bombeiro que trabalha com fogo. Ele não combate o fogo. Ele queima qualquer evidência de livros. Nessa sociedade distópica, é proibida a circulação ou leitura de livros. Os meios de comunicação, em especial a TV, manipulam o pensamento, o consumo e a dependência tecnológica. A sociedade está alienada e anestesiada, porém satisfeita. Os incomodados com o sistema, são perseguidos e impedidos de se rebelar contra o status quo. Um povo instruído é um povo em condição de se rebelar contra o sistema. Nesse contexto que Guy vai soltando as amarras após o contato com Clarisse. Escrito como crítica ao pensamento suprimido, o autor também afirmou certa vez ter escrito como crítica a televisão que destrói o interesse pela leitura. Sendo assim, poderia ser considerado como uma metáfora aos dias atuais.
quarta-feira, 20 de novembro de 2019
No palácio do rei Minos
A civilização de Creta era chamada de minoica por causa do rei Minos (apesar que muitos afirmam que ele nunca existiu). A existência de uma estrutura complexa acabou sendo base de muitos para elaborar o mito do Minotauro. Nenhum momento transparece ser mitologia, então não tem a origem do touro no livro. O que podemos analisar na leitura é a presença de classes sociais diferenciadas: escravos, servos e camponeses para o trabalho diário de manutenção da cidade. No palácio há a citação da sua beleza e riqueza. Confirmando a religião dos cretenses antigos, a religião dos residentes minoicos era dedicada à deusas femininas:
"Ó mãe dos homens, dos animais e das plantas, eu, Creta, te chamo".
Várias cidades gregas pagavam tributos a Creta e o ponto chave é o ferro. No livro, o reino que conhecesse a técnica de manusear o ferro seria superior às demais. Estamos falando da Idade do Bronze. Com o sequestro de Aristides, o ferreiro de Creta, Minos, o rei, decide ordenar que o sequestrador, Teseu, seja sacrificado a Minotauro. Todo ano, catorze jovens eram sacrificados para aplacar a fúria da fera. Teseu, filho de Egeu (rei de Atenas) e sequestrador de Aristides, acata a ordem.
O leitor vai reconhecer a presença de muitos personagens mitológicos (Dédalo, Ícaro, Ariadne, ...), mas alguns tens desfechos segundo a vontade do autor. No final, a invasão dos dórios com Teseu finaliza a o reinado de Minos e ascende Atenas como potência grega:
"Como Creta é um mundo diferente do nosso! São ao mesmo tempo, civilizados e bárbaros, possuem riquezas inimagináveis, seus celeiros estão abarrotados, seus navios sulcam todos os mares, seus exércitos conquistam o mundo inteiro. Nossa Atenas é ainda uma jovem camponesa pobre, simples e pudica, mas ainda é a ela que prefiro. Eles deixaram para trás a sua glória e já estão esgotados. Nós temos ainda toda a história à nossa frente..." (p.28)
Sobre os dórios:
"São bárbaros, falam uma língua rude, comem e bem muito,embriagam-se e brigam, não sabem se comportar. Mas seus filhos serão melhores, e os filhos de seus filhos já serão gregos". (p.212)
Também cita Clio, a musa do meu curso:
"Então quem é? Sou uma musa, uma das nove musas. Clio, a musa da história" (p. 248).
Leitura leve, descompromissada com muitas referências para quem curte mitologia e conciliar ficção com fatos históricos.
Sobre o autor, também indico, Zorba, o grego.
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