sábado, 22 de outubro de 2016

A hora da estrela - Clarice Lispector



Clarice Lispector cria um falso autor para narrar seu livro (Rodrigo S.M.), mas não consegue se esconder. "Pensar é um ato. Sentir é um fato". Quem perde esse começo, esse sentido, não entende muito o objetivo da autora: o livro é sobre uma moça nordestina com olhar perdido no Rio de Janeiro. "Como a nordestina, há milhares de moças espalhadas por cortiços, vagas de cama num quarto, atrás de balcões trabalhando até a estafa. Não notam sequer que são facilmente substituíveis e que tanto existiriam como não existiriam. Poucas se queixam e ao que eu saiba nenhuma reclama por não saber a quem. Esse quem será que existe?" "Mas quando escrevo não minto. A classe mais alta me tem como um monstro esquisito, a média com desconfiança de que eu possa desequilibrá-la, a classe baixa nunca vem a mim". O segredo de todo o livo está "escondido" nesses momento, de porta-voz e protagonista ao mesmo tempo. Sem contar que parece a visão da classe média sobre o povo nordestino. Sim, pois Macabéa é uma datilógrafa alagoana que parte para o Rio de Janeiro e lá vive uma vida sem luz e sem sombra. Sua rotina pálida vai cruzar com Olímpico de Jesus, nordestino ambicioso e diferente dela, e Glória, carioca da gema. A hora da estrela, sem dar spoiler, é o momento que morremos e deixamos de ser invisíveis. Leitura rápida. Indico livro e filme. 


O livro negro do Cristianismo

O livro negro do Cristianismo indaga em sua introdução, algo que todos nós queremos saber: como uma religião que pregava o amor, pôde ter se tornado justificativa para atrocidades em nome da mesma? Bom, como resposta, a priori, o Império Romano explica uma parcela, uma cultura mesclada em nome do Estado ao Cristianismo primitivo, que nem aceitou bem essa mesclagem na época. Mas, de fato, toda religião que se tornou oficial, tem como característica a violência para manutenção do poder. 

Alguns tópicos importantes:
Na primeira parte: quando o cristianismo se tornou religião de Estado, e as acusações de heresias e as disputas teológicas que se tornaram pretextos para jogos de poder. Quando pouco mais de cem anos após a morte de Jesus, já existiam movimentos que lamentavam a corrupção e a decadência da Igreja. Como Constantino transformou os bispos em funcionários do Império e lhes isentou do pagamento de impostos. Esses há muito tinham deixado de ser simples porta-vozes das comunidades cristãs eleitos pelas igrejas, tornando-se verdadeiros senhores que administravam a seu bel-prazer os bens da Igreja.A Igreja cristã do Oriente; Império Bizantino; conflitos entre doutrinas do Ocidente e do Oriente; Iconoclastia. Tudo resolvido na base da espada.

Carlos Magno (as conquistas e os crimes): Assim como Constantino, antes dele, Carlos também entendeu perfeitamente a formidável função agregadora e de instrumento de domínio espiritual que o cristianismo tinha em uma Europa ainda desunida e com as fronteiras ainda ameaçadas. Por essa razão, adotara uma política decisiva de cristianização dos povos a ele submetidos.

Na segunda parte: Idade Média, literalmente, das TREVAS! Quanto sangue em nome de "deus", com aquele anexo do motivo chamado política. Teria dito um fulano: "Papa, como saberemos distinguir os "hereges" dos cristãos?" "Mate a todos, que Deus reconheça os seus". Era desse modelo.

Na terceira parte: Os cristãos eram proibidos de ler a Bíblia (em alguns períodos, traduzir a Bíblia para uma língua compreensível pelo povo era crime que podia custar a vida. Ter o Evangelho em casa era proibido a quem não fosse sacerdote. Motivo: os hereges e aqueles que contestavam o poder da Igreja utilizavam as Sagradas Escrituras para demonstrar para o povo como a Igreja oficial havia se distanciado do mandamento originário de humildade). Os que fossem pegos estudando, traduzindo ou pregando a Bíblia eram acusados de hereges e mandados para a fogueira. A invenção da prensa e as novas proibições.

A Inquisição: já existia no século XI e XII as penas de morte para os hereges, mas a maioria do corpo eclesiástico ainda relutava em aceitar a situação. Em suma, na Igreja, observava-se várias tendências sobre como lidar com os "hereges". Clemente III que deu um passo muito importante para o nascimento da futura Inquisição, ele daria ordens para os bispos de investigar hereges mesmo com base em meras suspeitas. Em 1229, um concílio reunido em Toulose, criou oficialmente o Tribunal da Santa Inquisição. Papa Gregório IX tirou dos bispos o controle dos processos e os confiou a comissários escolhidos entre os dominicanos e franciscanos. Papa Inocêncio IV que deliberou o recurso à tortura, que deveria ser realizada por autoridade secular, mas depois, por questões práticas, por inquisidores. A aliança entre o trono e o altar. A inquisição medieval chegou ao seu ápice no século XIV para chegar a um lenta decadência nos 150 anos sucessivos. Só depois da difusão da Reforma em toda Europa, a Cúria romana relançou a inquisição, com a intenção de impedir a difusão das ideias protestantes em territórios sob controle da Sé. (A Inquisição espanhola, a Inquisição romana).

A caça às bruxas: (1480-1520 relativa pausa e retorno em 1580-1670). XI-XIII a atenção era dada mais às heresias (cátaros e valdenses). O mundo do ocultismo era até então ignorado. Com o nascimento da inquisição, o demônio se torna um ser físico com exército e a guerra acontece na terra. Ser bruxa é ser herege. Com o martelo das feiticeiras, negar a existência é heresia. Homens nobres foram para à fogueira, mas a grande maioria era mulheres pobres, parteiras e curandeiras. Casos isolados de pessoas contrárias às execuções e exageros (e que exageros!) durante a caça às bruxas.

A Guerra dos Trinta Anos. A Reforma Protestante havia dividido a Europa em duas; A divisão percorria o próprio Sacro Império Romano: a maior parte dos Estados alemães setentrionais tornou-se luterana ou calvinista, enquanto os meridionais continuariam com Roma. Nesses anos de guerra, nem os soberanos protestantes nem a fé católica na França não hesitariam em se aliar até mesmo com o "infiel" por definição: o Império Turco Otomano; As divergências religiosas dariam vida a um conflito assustador com milhões de mortos, comparável às duas Guerras Mundiais; Cabe sublinhar o fato de que praticamente não houve país europeu que não tenha sido atingido pela guerra durante uma fase ou outra do conflito, direta ou indiretamente. Além de que o elemento do fanatismo religioso desempenhou um papel fundamental na longa duração e na dureza do conflito; Provavelmente uma guerra normal para redefinir fronteiras e áreas de influência teria terminado antes de levar à repetida aniquilação de exércitos inteiros, ao pesado endividamento de príncipes e reis, à total e deliberada destruição de países invadidos, quando, pelo contrário, um conquistador teria todo o interesse de que seus novos domínios fossem ricos e prósperos.

Sobre a Idade Contemporânea e a Igreja: a Igreja e o regime nazista; Pinochet, a Igreja e as ditaduras (com a aversão ao marxismo e às doutrinas marxistas, consideraram regimes extremistas como mal menor. As ditaduras foram consideradas um "fenômeno transitório); a oposição à Teologia da Libertação; as finanças do Vaticano; os escândalos da pedofilia; Opus Dei. Apêndices extras.

Indico. Com ressalvas, pois tem que ter estômago. Sem ser anacrônica, pois isso acaba nos isentando dos males praticados, dá muita vergonha de sustentar a "religião" como bandeira.


domingo, 11 de setembro de 2016

Enterrada viva - A biografia de Janis Joplin


Todos sabem da minha paixão por Janis Joplin, inclusive nome dado à minha gata. Nada mais justo do que ler sua biografia, que aliás, é difícil encontrar. O livro começa tratando sobre sua cidade natal, Port Arthur, cidade petrolífera do Texas, e a mudança de perfil dos seus habitantes, que de forma geral eram conservadores. O pai de Janis, o senhor Seth Joplin  era suave, introspectivo, intelectual e a sra. Dorothy Joplin era disciplinada, trabalhadora e tinha o temperamento agressivo. O nascimento de Janis Lyn Joplin se deu em 19 de janeiro de 1943, sua infância foi normal, e ela foi dotada de dom para artes plásticas, leitura e música, com a participação em coro da igreja e conjunto vocal do colégio. Sua mudança de comportamento começou no décimo ano, quando estabeleceu estranhas identificações e com uma necessidade gritante de ser aceita

Então veio o desleixo com o corpo, a participação em grupo que a rejeitava, comportamentos bizarros que aumentava o ódio geral por ela e as experiências sexuais não existentes. Fatos e atos que fizeram parte do final do ano acadêmico de Janis. No fim do ginásio, o começo do contato com a música (cantando), a faculdade, a ida a Los Angeles e o contato com a cultura beatniks (começa seu jeito excêntrico de se vestir) em Venice. Além da biografia, a autora faz uma explanação da sociedade à margem do politicamente correto da época. 

Há vários relatos dos amigos que em um dado momento mudaram de rumo e entenderam tudo que era moda (heroína, maconha, anfetaminas...) era apenas uma fase. Porém, Janis viajou para São Francisco, depois para Nova York, retornando a Port Arthur em 1965. Matricula-se em Sociologia e passa dez meses limpas de drogas. Para ela só havia dois extremos: um mundo de impulsos primitivos e irrefreados ou um clima policiador. Travis Rivers chega para levar Janis de volta à Califórnia para participar da banda Big Brother and The Holding Company. 

Aos 24 anos, o aborto no México, os ensaios, a mudança física e o começo da carreira rumo ao sucesso. A banda Big Brother and The Holding Company vai se tornando conhecida, com a mistura de rock e folk. A personalidade excêntrica e singular de Janis se sobressai nas apresentações e chama a atenção do jornalismo rock, fenômeno da imprensa que surgiu em 1968. O Big Brother assina contrato com a CBS. O sucesso repentino, tendo a banda como pano de fundo apenas. Problemas entre Janis e a banda, na verdade, críticas de músicos em relação à banda, resultando em ausência de novas composições. 

A personalidade de Janis era egocêntrica, paranoica, megalomania e frágil ao mesmo tempo. O uso do seu corpo e aparência, que envolviam seu narcisismo como o seu desgosto de si própria. Quando se sentia bem e segura, o seu charme e a sua gentileza eram incomparáveis. O ano de 1969, ano que Janis costumava chamar de o ano dos Kozmic blues. Já tinha um Porsche, dinheiro, uma corporação e uma companhia editora dos seus discos. Tinha gastos moderados e até certa organização com suas finanças. Quando Janis rompeu com a banda, ela  se sentia culpada e infeliz. 

O clima agora era de profissionalismo. A crítica ao novo agrupamento foi ácida, cruel e Janis reagiu mal. Diferente da mídia americana, a Europa a recepcionou super bem. Mas, isso não a manteve longe da fuga na heroína. A prisão em novembro, Flórida, por desacato. Por pressão de amigos, o tratamento contra as drogas com Dr. Rothschild: "Intelectualmente, ela era quase brilhante, podia, realmente, manobrar muita gente. Um dos seus problemas era ser intelectualmente tão adiantada enquanto que as suas emoções eram infantis e incontroláveis. Tinha sempre a necessidade de falar. Não podia ficar quieta. Comia de forma completamente indisciplinada, se gabava da sua vida sexual. Eu não achava que isso fosse coisa para se gabar e, como ser humano, me chocava que alguém se vangloriasse de uma coisa que devia ser íntima 

Janis muitas vezes, por causa do seu complexo de inferioridade, conseguia ser imbecil de forma exibicionista. Exigia atenção, apregoava sua importância e exigia consideração especial. O terceiro e último conjunto de Janis (Full-Tilt Boogie) teve bons resultados devido a iniciativa de Janis tentar parar com as drogas. No entusiasmo da abstinência, ela sentiu-se mais confiante, musicalmente, do que nunca. Talvez o segundo conjunto tivesse sido melhor sucedido se não fosse o contrapeso da sua dependência do vício. Porém, não aconteceu uma metamorfose. O comportamento desesperado de Janis com os homens continuava, bem como as suas roupas extravagantes, os acesso de mau humor, o apego medroso aos símbolos da fama. Tudo isso era mais forte do que a música e a libertação do consumo de drogas. 

Aliás, ela ainda não se libertara de outra droga: o álcool. Encorajava os outros a beber como eles a encorajavam, numa espécie de patologia de grupo que propiciava um estímulo em círculo vicioso para um constante estado de intoxicação. Janis dera a si própria um outro nome, Pearl. A ideia partira de Dave Richards, e fora apenas uma brincadeira. Mas Janis levou-a a sério. De um lado, Pearl, desbocada-farrista-promíscua-beberrona, florescendo sob a tirania de um aplauso que não vinha apenas das galerias. De outro, Janis, vivendo num isolamento tão doloroso quanto o de qualquer solitária de prisão. Para ela não havia aplausos, apenas o tédio, a solidão, o riso vazio, a revolta contra o ambiente que a rodeava, o horror à embriaguez. Mas Janis sabia quem aplaudia uma e outra. Quanto à troca de papeis, acontecia com uma rapidez alarmante, suas adaptações às exigências do momento perfeitas a ponto de quase não poderem se detectar. 

Não obstante, embora Janis sempre tivesse gostado de falar, no seu último ano de vida ela se tornara mestra em pirotécnica verbal, mesmo sem precisar ser encorajada. À maneira que a sua carreira progredia, ela ia ficando cada vez menos escrupulosa com a sinceridade dos seus comentários e, muitas vezes Janis distorcia completamente a verdade. Janis começou a citar a frase "Vou esperar oito meses e meio... e, se a coisa não melhorar... vou acabar com tudo." Frase citada a partir de abril último, pois fora o mês que ela abandonara o vício e formara um novo conjunto. Seu tom era implorativo, além de pedir apenas um pouco de atenção.

Então, infelizmente, Janis sucumbiu ao vício e uma dose de heroína pura a fez morrer vítima de uma dose excessiva no dia 04 de outubro de 1970. No seu sangue havia também álcool e seu fígado mostrava os efeitos de anos e anos de bebidas. Janis estava apaixonada e falava em casamento. Falava a seu noivo (Seth) que planejava diminuir o ritmo da carreira. Apesar da queda nas paradas de sucesso, a tentação de retomar a agulha parecia ser (segundo a autora) uma forma de danação:
- Sabe de uma coisa? - falei - Acho que você não suportar ser feliz.
Janis suspirou: "Você tem razão". 

Vou chamar a polícia - Dr. Yalom

Quinto livro do autor! 

"Esse sujeito, que ao falar pode identificar as raízes de seus sintomas, embora silenciados pela ciência em um dado momento, nunca deixou de viver nas tradições orais, nas narrativas épicas e mitológicas, na poesia e no romance e moderno. O que convencionamos chamar de literatura evidencia a necessidade que tem o homem de dar uma forma a seu sofrimento e de compreender melhor a complexidade dos dramas que o afligem."

"Vou chamar a polícia", primeiro capítulo do livro, é uma narrativa sobre seu amigo, Robert L. Berger. Devido um episódio na vida adulta, Robert faz um link com uma ação que estava recalcada em si mesmo. O autor então demonstra a importância da psicoterapia para auxiliar o paciente nesses feedbacks. Para o autor, a literatura pode instrumentar a psicologia, e para demonstrar o seu pensamento,  recorre, com frequência, a grandes autores, em busca de uma frase ou de um recurso literário que possibilite uma forte e clara compreensão. Também aborda temas como: Isolamento interpessoal, isolamento intrapessoal e isolamento existencial. O autor traça paralelos com a obra "Todomundo" (famosa peça medieval sobre a moralidade); Sobre isolamento existencial, ele utiliza Lewis Carroll para discutir uma dessas funções: usar o outro para corroborar nossa existência (e etc: Camus, A Queda; Guerra e Paz, Tolstói; As moscas, Sartre; Grendel, John Gardner). No capítulo "A viagem da psicoterapia à ficção", Yalom rescreve episódios sobre pacientes presentes no seu livro "O carrasco do amor". No capítulo: "O romance pedagógico", Yaslom trata sobre seu livro "Quando Nietzsche chorou". Interessante, pois muito do que sabemos sobre o filósofo está filtrado pela ação da sua irmã Elisabeth, e isso não é fonte segura e nem justa sobre ele. Yaslom traz muitas observações das suas pesquisas para elaboração da obra.No capítulo final  "Romance psicológico", ele conta sua experiência sobre seu livro, "Mentiras no divã". Na minha opinião, seu melhor livro ficcional. A grosso modo, esse livro é um diário sobre seu trabalho como escritor, que serve para autores e psicoterapeutas. Eu, como sempre, indico! 





terça-feira, 19 de julho de 2016

Um copo de cólera - Raduan Nassar


Fui na pilha do livro que resenhei na última postagem (Lavoura Arcaica), do mesmo autor, e devorei esse livro de poucas páginas chamado Um Copo de Cólera.  Escrito em 1970, foi publicado somente em 1978, momento político no Brasil de ausência de liberdade de expressão política devido à Ditadura Militar. Nessa obra, o estilo não é o lírico e novelesco. Me atrevo a chamá-la de um tratado sobre o Id do início ao fim, sexo e cólera, em todos os sentidos. O autor, Raduan Nassar,nasceu em Pindorama e cresceu em São Paulo, onde cursou Direito e Filosofia pela USP. Depois do seu terceiro livro, Menina a Caminho, deixou de escrever. Bom, o livro é dividido em pequenas partes: A chegada, na cama, o levantar, o banho, o café-da-manhã, o esporro e a chegada (mesmo título inicial). Na chegada, a amante chega e o clima entre os dois (ele o espera em uma chácara distante nos arredores de São Paulo - conforme filme que vou citar mais à frente) dá a entender que são apenas isso, amantes. Logo mais, podemos desfazer esse pensamento. Não há diálogo, e pelo monologo do amante, ele acredita que quanto mais a despreza, mais ela depende emocionalmente dele. Na cama, enquanto ele a espera, reflete quanto é apreciado por ela, levando em conta sua tara por seus pés (comparados a lírios), No levantar, ela se agarra a ele e no banho, há mais pitadas de sensualidade entre os dois. No café-da-manhã, ele volta ao seu silêncio espartano, chamando pela terceira personagem, Mariana, a típica empregada protestante. No esporro, aí que o tumulto parece... ele em silêncio, ela após indagar sobre tal, toma o seu café e de repente, ele se levanta, deixando todos atônitos. Motivo: saúvas que romperam sua cerca! Ao retornar da sua luta quase que corporal para combater tais insetos, a amante diz: "é pra tanto, mocinho?". Para ele, não passa de uma inveja, pois ele não usou do mesmo ardor na cama e "ela não teve o bastante, só o suficiente". Se antes do sexo pareciam estranhos, que compartilhavam intimidades apenas carnais, agora no momento de cólera, pois chega a esse ponto, ambos vão mostrar suas verdadeiras opiniões em relação ao outro. Opiniões que vão desde "sua jornalista de merda" - lembrando que ele a despreza por ser fêmea emancipada e acredita que tudo que ela sabe, deve a ele -  a "seu fascista!". Nesses diálogos carregados de cólera, que percebemos o poder na linguagem para a defesa quando somos provocados. E sim, vejo diálogos com fundo politizado, uma linguagem engajada perfeita, que cita temas proibidos na época. Para tal, o autor escolheu nada mais que, um ex-ativista e uma jornalista politizada. No filme que deduzimos que ele é um ex-ativista. Falemos sobre o filme, então. Lançado em 1999, estilo drama, direção de Aluizio Abranches traz como protagonistas, Júlia Lemmertz e Alexandre Borges (na época, já casados). Também, Ruth de Souza (Mariana), Linneu Dias (Antônio) e participação especial de Marieta Severa (mãe). Informo que, são 20 minutos de cenas de sexo já no início do filme e que as cenas são fidedignas. Li em uma matéria que aconteceu de fato, já que ambos eram casados, não sei se é verdade. No filme, fica muito nítido a questão masculina de tentar dominar pela dependência e sobre o medo de perder a cerca. Não deixou a desejar, os dois arrebentaram. E se ela parte, após a violência física, retorna em A chegada, sendo a narradora, estando ele à sua espera. Dependente... 


"Ninguém dirige aquele que Deus extravia!"

"Hosana! eis chegado o macho! Narciso! sempre remoto e frágil, rebento do anarquismo"

terça-feira, 14 de junho de 2016

Lavoura Arcaica - livro e filme


Lavoura Arcaica foi um acidente literário de percurso. Na primeira feira de troca de livros do Planetário, ele estava lá disponível. Claro, já conhecia de nome, por isso, o escolhi. O autor, Raduan Nassar, nasceu em Pindorama e cresceu em São Paulo, onde cursou Direito e Filosofia pela USP. Estreou na literatura em Lavoura Arcaica em 1975, autor também da obra Um copo de cólera (próximo dele na lista de espera).

Bom, pelo que li na internet, o estilo é entre o novelesco e o lírico, com bastante recursos poéticos. Isso me fez apaixonar pelo seu estilo. O narrador é em primeira pessoa, o tempo não é linear e na obra conhecemos o núcleo de uma família de imigrantes árabes do Líbano no Brasil. Assisti hoje o filme, então vou colocar o nome dos personagens em parênteses, para economizar tempo. O livro é dividido em duas partes: A partida e O retorno.

André (Selton Mello), personagem principal, criado no meio rural arcaico, foge para uma cidade pequena, no interior. Ele luta contra a rigidez moral, contra a estrutura social análoga à Idade Média, contra a opressão da tradição e contra seu sentimento incestuoso em relação a sua irmã Ana (Simone Spoladore). A mando do pai, Pedro (Leonardo Medeiros), o primogênito, vai buscá-lo. O pai, Iohána (Raul Cortez), figura patriarcal, mantém a família dentro dos padrões impostos pela tradição milenar e familiar. 

À mesa, há a presença da diferenciação, a saber o pai à cabeceira, o ramo do afeto, contendo a mãe, André, Ana e Lula, e o ramo da tradição, com Pedro, Rosa, Zuleika e Huda. O outro lugar da cabeceira, pertencente ao avô, permaneceu vazio, desde a sua morte:

"Eram esses os nossos lugares à mesa na hora das refeições ou na hora dos sermões: O pai à cabeceira; à sua direita, por ordem de idade, vinham primeiro Pedro, seguido de Rosa, Zuleika e Huda; à sua esquerda vinha a mãe, em seguida eu, Ana e Lula, o caçula. O galho da direita era um desenvolvimento espontâneo do tronco, desde as suas raízes. Já o da esquerda trazia o estigma de uma cicatriz, como se a mãe, que era por onde começava o segundo galho, fosse uma anomalia, uma protuberância mórbida, pela carga de afeto."

Os dilemas de André, colocados de forma poética são espetaculares. Os sermões do pai à mesa, sobre o tema "Tempo", também. André retorna ao lar, mas isso não significa a paz, muito pelo contrário, significa a tragédia e o desmoronamento dessa família. Falando sobre desmoronamento, quero ressaltar aqui, a forma espetacular como Ana (Simone Spoladore) foi interpretada. É nela que vamos perceber o limbo entre o sagrado e o profano, a presença da figura cigana, sensual e mediterrânea. Simone não fala uma só palavra no filme, mas sua interpretação é maravilhosa. Sua dança final,... sem palavras. Inclusive, foi a que mais ensaiou. 

Essa com certeza, foi considerada a melhor cena do filme, dirigido por Luiz Fernando Carvalho (seu primeiro e único filme). A cena da conversa final entre André e o pai (Raul Cortez) também não deixou a desejar. Raul simplesmente arrebenta. A face da mãe (Juliana Carneiro da Cunha) carregada de dor, nos convence, marcando também. O filme dá primazia ao diálogo, por isso que para muitos é considerado cansativo. Mas, eu tirei o chapéu para Selton Mello, que pelo visto, se entregou de corpo e alma. Assim é a versão do filho pródigo de Nassar. Indico livro e filme. 

sexta-feira, 10 de junho de 2016

O grande desafio - Pedro Bandeira


Meu 14° livro! Obra para o sétimo ano e que legal, com a possibilidade de conciliar com o conteúdo do 2° trimestre. A saber, Renascimento. Quem está lendo, vai conseguir identificar. Bom, sem mais delonga, e sem informar muito, pois senão torna impossível o spoiler. Queria antes de mais nada informar que é o meu primeiro livro do autor Pedro Bandeira. Sim, eu sei. Logo eu que aclamo tanto os autores brasileiros. Gostei desse nosso primeiro contato, pois o autor trata de forma literária a inclusão de portadores de necessidades especiais.  Afinal, o personagem principal (Toni) vai demonstrando aos poucos suas habilidades, pois ele tem deficiência visual (ops, falei! Foi mal!). Mas, o que quero deixar aqui registrado é que, podemos tudo. Isso é a frase que a mãe (dona Marta) dele vivia dizendo, e a responsabilidade dessa frase a colocou dentro da aventura. "Você pode fazer tudo..." Resumindo, o enredo se passa no colégio Cidinha Moura, que tem um século de fundação. Toni é um aluno de baixa renda, assim como Carla, e ambos vão participar de uma aventura para investigar a prisão do pai dela. Mas, não vamos nos apegar apenas ao passo a passo dos personagens, e sim a possibilidade de acessibilidade. Essa é uma ótima mensagem. Claro, no meu ponto de vista. 


terça-feira, 26 de abril de 2016

Cartas do Inferno - C.S.Lewis


Cartas do Inferno (Cartas de um diabo a seu aprendiz) do célebre autor C.S.Lewis é uma ficção satírica sobre como o cristão é tentado na sua trajetória cristã. Inicialmente, eram cartas publicadas no The Guardian e em fevereiro de 1942, foi lançado como livro e dedicado a J.R.R. Tolkien.  

 Nessa ficção, Screwtape (Fitafuso), um demônio experiente, ensina ao seu sobrinho, Wormwood (Absinto) a como tentar seu recém-convertido. Eles chamam o cristão de paciente. Digo eles, mas temos acesso apenas às cartas de Fitafuso. Deus é chamado de O Inimigo, e nós, volta e meia chamados de vermes e bípedes.

Como pano de fundo, a Segunda Guerra Mundial, Fitafuso vai indicar como desviar seu paciente da fé genuína. O interesse não é desviar da igreja, mas da possibilidade de relacionamento e transformação. Ele explica para Absinto que O Inimigo leva os cristãos algumas vezes a momentos difíceis, mas o esquecimento de vitórias passadas mina a fé, principalmente por não ser atendido. 

O ataque tem muito maiores chances de ser bem sucedido quando por alguma razão o mundo interior seu homem estiver desmazelado, frio e vazio.

Muito interessante como Fitafuso liga os problemas de infância do paciente com a mãe e ensina a Absinto usar comportamentos repetitivos que irrite-o. Para ele, o cotidiano deve ser recheado de comportamento irritantes, como o levantar da sobrancelha. Algo simples, mas vai no subconsciente do paciente sem que ele perceba. 

Fitafuso também aborda sobre a não oração, o esfriamento com o grupo da igreja, a necessidade de trocar de igreja (há duas em análise com características próprias), sobre a tentação sexual, e sobre o orgulho que nasce de forma inocente. Subliminar. 

Quando o paciente se apaixona, Fitafuso informa sobre seu ódio ao prazer e acusa o Amor com o momento de discórdia entre O Inimigo e o diabo. Achei muito interessante e refleti bastante sobre a questão do passado e presente:


Desejamos que ele fique na máxima incerteza, e que sua mente fique cheia de aspectos contraditórios do futuro, para que cada um desses aspectos provoque nele esperanças e receios. Não há nada como o suspense e a ansiedade para levantar pela mente humana uma autêntica barricada contra o Inimigo. Ele deseja homens ocupados com o que fazem, ao passo que nós trabalhamos para deixá-los preocupados com o que irá acontecer a eles.



Indico. Leitura rápida e atual. 

segunda-feira, 25 de abril de 2016

Depois de você (continuação Como eu era antes de você) Jojo Moyes



O sucesso Como eu era antes de você tem a estreia prevista nas telas brasileiras, dia 30 de junho de 2016. Um romance que fez muita gente chorar pelo seu final, não tão esperado. Estou ansiosa para ver como Emilia Clarke e Sam Claflin irão dar vida aos personagens, Louise Clark e Will Traynor

Bem, li várias resenhas na estante Skoob e na internet sobre a continuação Depois de Você, da mesma autora, Jojo Moyes. Respeito muito as opiniões, mas parece que estamos acostumados com finais felizes e a vida é mais cinza do que parece. Muitas leitoras afirmam que é desnecessário dar continuidade ao romance. Como assim? Sem debater os motivos de Will, as pessoas permaneceram, com toda a bagagem de dor por causa da decisão dele. Falo de uma mãe, de um pai e da própria Lou, que se sentia muito desconfortável pelo sentimento que se formou em seis meses e pela impotência diante da decisão de Will. 

Logo, Depois de Você aborda a vida de todos depois de Will. Não é apenas sobre Lou. Na minha opinião o livro começa massante, e percebo que Jojo tem essa característica, ela faz da sua obra uma montanha-russa, pois de uma hora pra outra, acontece algo que joga adrenalina literária em nós. Sim, do nada (vou tentar não dar spoiler). Lou e sua saúde, bem no início, o aparecimento de uma personagem que tem relação com Will e o tiro que um personagem leva já quase no final. Esse último item, eu achei tão surreal, que tive que reler. 

O que as pessoas não percebem, é que Lou tem uma característica que precisa ser confrontada: a autossabotagem. O episódio que lhe ocorreu no castelo (livro anterior) trouxe consequências profundas, de inércia em relação à própria vida e apenas sua irmã a confronta. Então chega Lily, que até agora não li nada positivo sobre ela. Falta um olhar mais profundo sobre tudo o que acontece no enredo. Temas como morte, superação, autossabotagem, feminismo (SIM!) e mãe solteira são abordados. Quando nos deparamos com Lily, reparamos com facilidade toda sua rebeldia e comportamento agressivo com a doce Lou. Mas, é Lily que desperta várias vezes Lou do seu marasmo existencial. Muito mais que Sam Fildeng. Lily também tem uma bagagem de dor. 

Falando sobre ele, fica escancarado que o terceiro livro já deve estar no forno e eu não me assustaria se fosse cheio de crises existenciais, pois Lou se prende às tragédias para não ser feliz. Mas, o final da obra já demonstra que ela está começando a ser cúmplice do seu destino. Sim, a autora foi feliz em dar continuidade não apenas para Lou, mas a forma como os pais de Will conseguem amadurecer a superação é algo a elogiar. Fatos inéditos, que eu nem imaginava aparecer, apareceram, demonstrando como um autor pode mesclar com maestria personagens e fatos. Leia-se o tema feminismo, que a princípio achei um pouco exagerado, mas demonstra que sempre é hora de se empoderar, independente da idade. 

Palmas para os discursos daqueles que perderam alguém para morte e do mais, indico. 

Nenhum de nós segue em frente sem olhar para trás. Seguimos em frente sempre levando aqueles que perdemos.

quarta-feira, 30 de março de 2016

Zelota - A vida e a época de Jesus de Nazaré

Reza Aslan, foi muçulmano até os seus 15 anos, pois nascer no Irã era carregar a tradição religiosa como a própria pele. Esse fato esfriou drasticamente após a revolução no seu país, o que obrigou sua família a fugir para América. Vale ressaltar que na década de 1980, Jesus era a América. Aceitar seu sacrifício, seu enredo, por mais bizarro que pudesse ser, era o mais perto que alguém poderia fazer para se sentir americano. 

Após sua conversão (aos 15 anos), Reza começou a compartilhar as boas-novas de Jesus com todos. Mas, o inesperado aconteceu. Quanto mais sondava a Bíblia para se armar contra as dúvidas dos incrédulos, mais profundo ficava o abismo por ele percebido entre o Jesus dos evangelhos e o Jesus da história. Na faculdade, no estudo formal da história das religiões, o desconforto se tornou pessoal e as dúvidas, próprias. Assim começou sua Odisseia à fé em Jesus que havia sido descartada como falsa. 

Aslan deu continuidade ao seu trabalho acadêmico não como um crente incondicional, mas como um estudioso inquisitivo. Nessa altura do campeonato, já havia repensado a fé e a cultura dos seus antepassados e reconectado com mais familiaridade. Duas décadas de pesquisas sobre as origens do Cristianismo o tornaram um discípulo de Jesus de Nazaré (o histórico), que jamais um dia foi de Jesus Cristo (Jesus dos evangelhos). Como assim? Como isso aconteceu?

Aqui entra o meu conselho: não leia se você é um crente que tem como base, que cada palavra da Bíblia é literal e infalível. Se você não consegue conviver com o fato de que Nela há evidentes erros e contradições, tal como seria de esperar de um documento escrito por centenas de mãos diferentes através de milhares de anos. Não veja como heresia da minha parte, sou cristã e tenho na Bíblia um manual e modelo de vida. Por esse parágrafo, já deixo claro que a leitura pode ser indigesta. 

Mas, para o autor, que não esteve mais acorrentado à suposição de inefabilidade bíblica, foi o despertar da fé. Quanto mais ele aprendia sobre Jesus histórico, o mundo turbulento em que Ele viveu e a brutalidade da ocupação romana que Ele desafiou, mais se sentiu atraído. Jesus não era mais o ser sobrenatural apresentado para ele na igreja. Era alguém, como ele afirma no final (233), que vale a pena acreditar

É apresentado em sua obra fatos que vão desde a formação de identidade judaica (valores e ritos), invasões estrangeiras em Jerusalém, revoltas e rebeldes messiânicos até a canonização do Novo Testamento sob o governo romano (o que fala por si só, opinião pessoal). Com textos que não fazem parte do Novo Testamento, vamos analisar divergências de opiniões sobre Jesus, não que isso isente o Novo Testamento de divergências de fatos. 

Logo, temos apenas dois fatos históricos efetivos sobre Jesus de Nazaré: primeiro, foi um judeu que liderou um movimento popular judaico na Palestina no início do século I d.C; segundo, é que Roma o crucificou por isso (sedição).  Combinando esses dois fatos com relatos históricos da época em que Jesus viveu e relatos romanos é possível ter precisão histórica do Jesus de Nazaré. Também é possível conhecer o florescimento do Cristianismo e o processo de transformação do Jesus nacionalista judeu revolucionário em um líder espiritual pacífico, sem interesse em qualquer assunto terreno. 

Eis o intuito do autor: expôr as reivindicações dos evangelhos ao calor da análise histórica, limpando seus floreios literários e teológicos. Colocar Jesus firme dentro do contexto social, religiosa e político da época em que viveu. Assim, sua biografia se escreve por si só. Mas, na leitura, talvez não seja o Jesus esperado, nem o reconhecido hoje. Apenas o único que podemos acessar por meios históricos. Como Aslan escreve "todo o resto é uma questão de fé" (24). Indico! Resenha da minha segunda leitura. 

"A priori, é um milagre que saibamos algo, sobre o homem chamado Jesus de Nazaré. O pregador itinerante, vagando de cidade em cidade, clamando sobre o fim do mundo e sendo seguido por um bando de maltrapilhos, era uma visão comum no tempo de Jesus, uma espécie de caricatura entre a elite romana" (16)

"Os evangelhos não são relatos de testemunhas oculares das palavras e atos de Jesus. Eles são testemunhos de fé compostos por comunidades de fé e escritos muitos anos depois dos acontecimentos que o descrevem. Simplificando, os evangelhos nos dizem sobre Jesus, o Cristo, e não sobre Jesus, o homem".