quarta-feira, 17 de junho de 2026

Studio Ghibli (41 anos) e o meu TCC sobre A Viagem de Chihiro (2001)

 Em abril de 2024 eu fiz um desabafo e decidi voltar a alimentar o meu blog com um diário da pesquisa para o meu TCC (dez/2025) na gradução em Licenciatura em Artes Visuais. Até alimentei durante um tempo, com espaços entre as postagens pela dinâmica das responsabilidades da vida adulta, mas foi bem pouco perto do que eu desejava. 

Segue os links 

Animação Japonesa Através dos Tempos Vitor Danko 

O menino e a garça 

Literatura nas animações do Studio Ghibli 

Os pais de Chihiro 

    O meu último semestre com a a Instituição de Ensino não foi fácil, e isso foi um gatilho de saúde mental tão forte, que fiquei muito tempo sem poder absorver a alegria de ter escrito um trabalho tão lindo sobre algo que amo e tem muita relevância pra mim. 

A Viagem de Chihiro: o uso da animação em sala de aula para análise da cultura ocidental e o estudo da sua intersecção na cultura tradicional japonesa
TCC - Licenciatura Artes Visuais 

    Achei válido, diante da data de 15 de junho/2026 - aniversário de 41 anos da fundação do Estúdio Ghibli, registrar aqui um pouco do resultado da minha produção acadêmica. Até para aquecer a minha apresentação com o escritor que foi uma grande referência bibliográfica, pois o vasto material que temos sobre Ghibli, sempre são em sua grande maioria de cunho psicológico. Abro aqui um espaço para citar o trabalho de Ana Flávia Moreira que fez uma excelente trabalho sobre a aquitetura de A Viagem de Chihiro  e Flávia de Morais sobre o mangá e anime no ensino de artes visuais. 



    Para começar, achei válido conxtetualizar a História da Arte japonesa até a Era Meiji (1868-1912). A arte japonesa começa com a influência chinesa e coreana e a partir de um dado momento, segue com características próprias até a influência ocidental. Retornar a esse passado se faz necessário por elementos presentes na animação japonesa A Viagem de Chihiro (2001), logo, achei válido um capítulo que vai fazer sentido mais pra frente. Finalizei o capítulo sobre o assunto com uma BREVE narrativa sobre a animação japonesa. 

Chihiro e um Dosojin  Arte do período Jomon (14.000 a.C – 300 a.C).

    No capítulo que abordei sobre a animação como recurso educativo em sala de aula, abri com um capítulo sobre a origem do Estúdio Ghibli em 1985 até o fenômeno cinematrográfico mundial. Escolhi a animação A Viagem de Chihiro (2001) por suas premiações e estar até hoje entre as dez mais assistidas fora do Japão.  há um vasto material sobre os conflitos entre Humanidade e Natureza (como Nausicaa, Mononoke, Ponyo e outros), para quem está entrando agora no mundo ghibliano.



    Foi em A Viagem de Chihiro que eu consegui conciliar o meu objetivo (título do meu trabalho) com a crítica mais forte presente na maioria das animações do Estúdio Ghibli que é a ocidentalização e seus costumes culturais e exploratórios (Casa de Banho e Yubaba) e o abandono do tradicional (Zeniba) e religioso (xintoísmo/budismo - A Casa de Banho, local de limpeza dos espíritos nas águas termais japonesas acaba sendo corrompida pelas ambições da proprietária).  


    Claro que o capítulo mais difícil foi separar os frames e detalhar elementos culturais nipônicos e de culturas ocidentais, não apenas concretos, mas comportamentais. Não tem como não conciliar (citação do cerimônia do chá japonês que faço e as modificações comportamentais das fuligens - Susuwataris - que mudam radicalmente suas funções de Meu vizinho Totoro para proletários explorados por uma porção de prazer fulgas como pagamento). 



Abaixo apenas algumas imagens, pois é coisa pra CARAMBA!



Abóbodas de nervura, bancos de madeira, lamparinas ocidentais presentes na animação 

A cômoda em que um crânio no estilo shakespeariano se encontra é de modelo bombê, um estilo clássico francês. A poltrona em frente a mesa redonda na cor vermelha, é um modelo de móvel também francês ao estilo da cadeira de Louis XIV


    Claro que escolhi o Ensino Médio como segmento, mas bem sei que cumprir o currículo nem sempre é analisar o que o educando consome no seu dia-a-dia. O currículo segue aquele mesmo padrão, sem levar em conta que nossos alunos consomem animações japonesas, doramas e outras culturas. Com a intencionalidade de uma Pedagogia dialógica, perceber que a globalização trouxe para os nossos alunos outras possibilidades de consumo é primordial para a construção do conhecimento. Não podemos nos limitar apenas as imagens canônicas da arte eurocêntrica. Cada arte, à sua maneira, tem a capacidade de concretizar uma síntese que suscita grande número de significados.

Nada aqui, na entrada de Yubaba, é tradicional nipônico, por mais que a Casa de Banho seja um espaço secular e religioso. 

    A animação pode ser um instrumento que interage com a metodologia utilizada em sala de aula, além de ser uma estratégia para o desenvolvimento das habilidades e competências no ensino da Arte. Animês e mangás são produtos importantes da cultura pop japonesa e atualmente consumidos em grande escala pelo público brasileiro https://gqcanimes.com.br/brasil-e-um-dos-maiores-mercados-de-anime-do-mundo-revela-diretora-da-crunchyroll/. A realidade dos estudantes da atualidade é a vivência em um tempo real e virtual ao mesmo tempo, o que exige dos docentes a promoção de um ensino-aprendizagem que conecte os saberes dos estudantes com o contexto escolar.


    Ao escolher uma cultura diferente da nossa, levei em consideração a competência 3 da BNCC que procura que o estudante possa valorizar e fruir as diversas manifestações artísticas e culturais, das locais às mundiais, e participar de práticas diversificadas da produção artístico-cultural. A classificação de idade da animação japonesa A Viagem de Chihiro é livre, porém, para o meu objetivo de análise, acreditei que algumas cenas não seriam de fácil compreensão para crianças das séries iniciais do Fundamental I, como a cena dos porcos, e sem fundamentação pedagógica para as séries finais do Fundamental II. 


    Compreender que há a necessidade intencional e pedagógica de auxiliar o estudante no processo de consumo cultural faz parte do objetivo para que ele tenha autonomia e criticidade diante do que decide de forma voluntária consumir. Com o auxílio de capturas de imagens da animação, apontei elementos culturais do ocidente e do oriente com o objetivo auxiliar na percepção das características visuais de cada elemento e com base na contextualização qual a sua origem. 


    Educar o olhar do estudante utilizando de mídias que dialoguem com os seus interesses é uma habilidade que o docente deve obter no processo ensino-aprendizagem. Não há mais barreiras culturais após o advento da globalização e precisamos renunciar a processos pedagógicos que focam apenas na teoria e memorização. Utilizar novas tecnologias em um contexto educacional que não tem mais como retroceder, é buscar o diálogo com o nosso aluno, permitindo o uso de uma linguagem visual já conhecida por eles fora do contexto escolar. 


    A animação japonesa escolhida, muito além da possiblidade de contextualizar e analisar processo históricos artísticos, também possibilita a reflexão sobre identidade, desafios, relações de trabalho, consumo e outros temas que são abordados. No processo ensino-aprendizagem atual, não há mais a disciplina isolada, pelo contrário, de forma interdisciplinar e intencional, ela deve dialogar com outras linguagens para que o maior beneficiado seja o nosso estudante. 

Quarto do filho (Boah) de Yubaba.
O excesso do luxo que aumentava o ego da criança. Luxo importado a possível a partir da exploração do proletariado. 

    A família de Chihiro faz parte de um momento histórico e pontual de uma crise de inflação imobiliária que se conectou ao consumo desenfreado resultando em parques temáticos abandonados. Seus pais, vítimas do pensamento consumista, são transformados em porcos pelo desrespeito ao espaço alheio e religioso. Mesmo não sendo o objetivo deste trabalho, só na introdução da animação, já temos material para interdisciplinaridade. Podemos traçar paralelos entre o encontro cultural entre ocidente e oriente em cenários escolhidos propositalmente pelo diretor Hayao Miyazaki. 


    Ao conhecermos sua biografia e a forma como ele insere em seus trabalhos a sua opinião sobre vários assuntos, percebemos que a posse de Yubaba de objetos artísticos do ocidente/oriente é uma crítica ao modelo ocidental de consumismo para ostentação e divisão de classes. Por isso Zeniba é a manualidade artesanal que conecta quem faz com o resultado da obra (que é a cura do Sem Face e do filho de Yubaba - Boh, que querendo ou não, é sobrinho de Zeniba. A animação japonesa foi feita para o público japonês, claro que há a intencionalidade em aconselhar a nova geração. Como eu amo a cena abaixo e as várias reflexões possíveis, mesmo fugindo do meu tema).  


    As possiblidades extrapolam o meu objetivo principal, pois a animação A Viagem de Chihiro demonstra claramente que a modernidade capitalista resulta em conflitos e se faz necessário o restauro da sacralidade da Natureza. Chihiro, nossa protagonista, não segue o exemplo dos pais, sua coragem é que vai salvá-los. Finalizei o meu trabalho para além do objetivo pedagógico e acadêmico com a esperança de que alunos também possam captar a mensagem e nos salvar dos modelos de consumo que desumanizam e exploram cada vez mais os recursos naturais. Utópico? Talvez.