domingo, 3 de janeiro de 2021

Ponciá Vicêncio 1/2021



Ponciá Vicêncio foi a primeira publicação solo de Conceição Evaristo financiada integralmente pela própria autora. Passado pouco tempo, a obra pode ser lida em língua inglesa, francesa e em espanhol. Com adendo, foi material solicitado aos vestibulandos da UFMG, CEFET/Minas e da Universidade de Londrina (2009 e 2010).

Conceição Evaristo é Mestre em Literatura Brasileira/PUC-Rio e Doutora em Literatura Comparada/UFF. Ela afirma que a história de Ponciá Vicêncio não é a sua história, mas quando chamada por Ponciá, quando trocam o seu nome pelo dela, orgulhosamente ela responde: presente! 

Ponciá desde a sua infância teve contato com o medo. Ao buscar barro nas margens do rio e ao ver a grande cobra celeste colorida no céu, tem medo de se transformar em homem ao passar por debaixo do arco-íris. Gostava de ser menina! Não sabia ainda que o seu trabalho e o de sua mãe com o barro um dia seria arte exposta pelos brancos. Produziam juntas copos, pratos e utensílios para presentear e vender nos povoados vizinhos. A mãe que determinava destino e preço e o pai quando retornava da colheita dos brancos acabava cedendo às ordens da mulher: "Era tão bom ser mulher!" Ponciá pensava ao ver a mãe tão segura de si, mesmo tendo o homem e o filho ausentes por longos períodos nas colheitas dos brancos. 

Seu sobrenome é a herança do passado dos seus ancestrais ("uma lâmina afiada a torturar-lhe o corpo", pois havia na assinatura dela a marca do poderio do coronel Vicêncio). Aliás, não gostava do nome. Seu avô, teve três ou quatro filhos nascidos do Ventre Livre e ainda assim, foram vendidos. O pai de Ponciá, filho de ex-escravos, foi pajem do sinhôzinho. Tinha a obrigação de brincar e se submeter as tiranias infantis do filho do dono da terra. Se eram livres, por que continuavam ali? Odiava o pai, principalmente depois da doença mental que o acometia após o "Fato". Ria e chorava. Ponciá ainda de colo, de forma inexplicável se lembrava do avô. 

Aprendeu a ler com os missionários do povoado com permissão da mãe. Para sua genitora era importante saber das letras e também saber os aprendizados da roça: fazer garrafadas, fases da lua, tempo de plantio e de colheita e as benzeduras que curavam dos males da carne e da alma. Aos 19 anos, sem conseguir explicar bem para a sua mãe, foi embora. Sua odisseia começa com o descaso do sagrado urbano em relação aos necessitados, diante do luxo do templo que adentra, pensa "Era tudo tão belo. Deus bem que deveria gostar de todo aquele luxo".

Com a missão de buscar a família (mãe e irmão) começa a trabalhar e compra um quarto suburbano. Conhece seu homem, mas percebe que falta ambição e que, para muitos, o pão nosso de cada dia é o suficiente. Retorna para a sua casa, o barro chama, a saudade chama, quer sua família perto. Ambos passaram pelo saída do lar como ela fez anos antes. Ponciá não retorna mais a mesma depois dessa descoberta. Começou a passar todo o tempo com o pensar, com o recordar. Relembrava a vida passada, pensava no presente, mas não sonhava e nem inventava nada para o futuro. Voltou introspectiva e seu homem estranhou a ponto de agredi-la. 

Seu irmão, na cidade, queria ser soldado para ter voz de mando. Também teve a sua odisseia. sua mãe, seguia os conselhos da anciã do povoado e não se submetia a própria vontade de ter com os filhos. Mas, os três, viviam desesperados com o desejo do encontro. Cada personagem que passa pelos Vicêncios são marcados de profundas ausências e vazios, mas como resultados de pobreza, desamparo e sucessivas perdas. O passado e o presente se mesclam e tudo que o urbano ilude é apresentado de forma dolorida: a exploração da zona rural é a mesma na cidade. A herança do avô cobra a sua vez na vida de Ponciá, é preciso trilhar o destino. É preciso que haja o reencontro. Leitura visceral e de uma poética que nos encanta e faz refletir sobre caminhos de busca por identidade num ambiente marcado por desigualdades sociais. 

quinta-feira, 26 de novembro de 2020

Hibisco Roxo


 Último livro de 2020 do grupo virtual da Biblioteca Nacional de Brasília, Hibisco Roxo - Chimamanda Ngozi Adichie. 

Eu gostaria muito de afirmar que é apenas um enredo triste, que é algo que acontece apenas na Nigéria, mas infelizmente eu consigo refazer passos dentro do meu país, do microcosmo da minha vizinhança, do meu passado, de tudo que podemos chamar de raízes colonizadoras cristãs. Calma, não é um ataque ao Cristianismo, é, como disse a autora em outro momento, o perigo da história única. Da pregação do medo, do ódio, do julgamento divino, da regra, da doutrina em nome da religião. Isso explica tanta intolerância religiosa no nosso país. Estamos colonizados pelo fundamentalismo. 

A protagonista é Kambili, uma adolescente de classe média alta. Talvez esse seja o primeiro aspecto "diferente" para todos nós que temos a história única em relação a África. A personagem estuda em boa escola, é rica, e nada lhe falta. Em uma TED talk, a autora citou um relato sobre a autenticidade das suas personagens:

"O professor me disse que minhas personagens pareciam-se muito com ele, um homem educado de classe média. Minhas personagens dirigiam carros, elas não estavam famintas. Por isso, elas não eram autenticamente africanas."

Seu pai, Eugene, é um homem que possui certo poder local pelo seu capital, caridade e rigidez religiosa. Entremos então no contexto sem dar spoiler. O amor que os beneficiados sentem por Eugene, é diferente do amor que os filhos e esposa sentem por ele. Eles conhecem um outro lado violento, seja físico ou psicológico. Tudo em nome da religião. Religião essa que Kambili muitas vezes não se identifica, um Jesus loiro e se tratando da Nigéria, costumes que não aceitam as tradições dos seus ancestrais. Eugene não fala com seu próprio pai (que não é católico). 

Beatrice, esposa, submissa no limite do medo e aceitação, vê, assim como os filhos, que todo mal que Eugene faz, no fundo, é necessário. O perigo da história única. Eugene tem o poder financeiro e psicológico sobre a família. 

"É impossível falar sobre única história sem falar sobre poder. Há uma palavra, uma palavra da tribo Igbo, que eu lembro sempre que penso sobre as estruturas de poder do mundo, e a palavra é nkali. É um substantivo, que livremente se traduz: "ser maior do que o outro." (TED talk)

Mas esse poder não submete a sua irmã, Ifeoma. Professora universitária, viúva, mãe de três filhos, consegue conciliar a ancestralidade dos ritos nigerianos com as doutrinas católica e criar os seus filhos com a liberdade crítica de expressão, mesmo que passem necessidade financeira. Pois Eugene sempre tem propostas, desde que a conversão seja completa e submissa. 

Será nesse contato entre Kambili e seu irmão Jaja com a família de Ifeoma que a história única será descontruída. Além do florescer da adolescente do seu interno para o externo, do seu conflito emocional em relação ao padre Amadi e a sua prima Amaka, vemos o susto diante da liberdade, do conhecer a religião do outro e não ver nela nenhum pecado, em reconhecer seu potencial nessa cisão do ser. 

Bom, o que eu posso relatar é que não tem como passar despercebido nas entrelinhas o peso da herança colonizadora com a imposição da cultura europeia que nunca respeitou e nem respeita a tradição africana que até hoje luta por permanência. As sequelas que essa violência deixa nas personagens é a mesma que vemos quando o fanatismo, repressão, intolerância protagonizam pelo viés do poder. Que os dias ganhem cores de hibiscos. 



Chimamanda Ngozi Adichie (Enugu15 de setembro de 1977) é uma feminista e escritora nigeriana. Ela é reconhecida como uma das mais importantes jovens autoras anglófonas de sucesso, atraindo uma nova geração de leitores de literatura africana.


terça-feira, 24 de novembro de 2020

Notas do Subsolo


 

Tive o privilégio de ler Fiòdor Dostoiévski (1821-1881) em 2020. Primeiro, li O Duplo e agora Notas do Subsolo, publicado em 1864. Bom, de forma resumida, o escritor russo teve em sua vida uns altos e baixos. Prisão na Sibéria (acusado de conspirações contra o czar), viuvez da primeira esposa, perda do seu irmão (no mesmo ano da publicação do livro). Muitos escritores se inspiraram nele. 

O autor começou bem sua carreira após a publicação do seu livro Gente Pobre, mas levou um tempo para voltar aos louros literários da crítica russa. Notas do Subsolo faz parte desse período. Um ex-funcionário civil, 40 anos, em forma de monólogo, demonstra o anti-herói. O livro é dividido em duas partes "O subterrâneo" e "A propósito da neve derretida". 

Precursor do existencialismo, o homem do subsolo é um sofredor em busca de ser amado, e essa busca, o torna mau. Aqui seria o resumo do livro. Mas, por se tratar de Dostoiévski, não é o suficiente, pois sua escrita descreve a desorientação do homem diante de um mundo sem sentido e absurdo. 

"Sou um homem doente... um homem mau. Um homem desagradável. Creio que sofro do fígado".

Essa ambivalência envolve o leitor entre redenção e condenação do homem do subterrâneo. Ele não tem nada contra a medicina, mas não quer se tratar, é apenas raiva. Com muita lucidez, ele sabe que a única vítima do seu comportamento será ele mesmo. 

"Fui um funcionário maldoso, com prazer na maldade, em magoar"

"Nunca pude tornar-me mau"

A sociedade por ele descrita, é aquela que homens imbecis conseguem se tornar algo, enquanto os inteligentes, vivem à sombra dessa causa "natural" do funcionamento da sociedade. 

Contradição, autojustificativa e definições na primeira parte nos envolvem sem saber se há em nós amor ou ódio (quem sabe até semelhança). 

"O homem se vinga por que acredita que é justo"

"Penso que a melhor definição do homem seja: um bípedes ingrato"

O homem subterrâneo se sente escravo e covarde, é a sua condição "normal". Sente arrependimento, repulsa, acostuma-se a suportar tudo e refugia-se então no que fosse "belo e sublime". Vive de devaneios para suportar o subterrâneo. "Deixa-nos sozinhos, sem um livro, e imediatamente ficaremos confusos, vamos perder-nos"

"Eu sou sozinho, e eles são todos" Seria então a melhor definição da segunda parte do livro. 

Ficamos nos indagando qual o motivo dele precisar tomar certas atitudes e persegui-las a ponto de se mostrar imbecil para os demais. 

Confesso que, o momento de maior lucidez, foi o seu momento de embriaguez e quase, por um momento, acreditei em tudo que ele disse a Liz. (sem spoiler)

"Pois para a mulher é no amor que consiste toda a ressurreição; toda a salvação de qualquer desgraça e toda regeneração não podem ser reveladas de outro modo"

"Em primeiro lugar, eu não podia mais apaixonar-me, porque, repito, amar significava para mim tiranizar e dominar moralmente. Chego a pensar por vezes que o amor consiste justamente no direito que o objeto amado voluntariamente nos concede de exercer tirania sobre ele"

Sua consciência de subterrâneo também faz ele confessar que por falta de hábito não praticava a "viva a vida". Pessoas que "viva a vida" chegam a irritar e incomodar, e que, muitos subterrâneos, acostumados a entender a "viva vida" como um emprego, trabalho, rotina, estão entregues e distantes do "belo e sublime".

Sobre esse homem de práticas ruins e não compreendido:

"Cometi essa crueldade, ainda que intencionalmente, mas não com o coração, e sim com a minha cabeça má"

Sobre sofrer:

"O que é melhor, uma felicidade barata ou um sofrimento elevado?"

Sim, saímos da leitura sem julgamento. É um grande começo. 

terça-feira, 10 de novembro de 2020

A Imensidão Íntima dos Carneiro


 

Não lembro quem me indicou. Saí perguntando para os meus amigos e ninguém conhecia. Pedi pela estante skoob e dei dois créditos nele. Então, me prontifiquei a lê-lo antes dos demais da fila. 

Bom, suponhamos que eu não conheça a minha avó, mas carregue em mim uma herança familiar e por ser pesada demais, preciso refazer seus passos e conhecer o início de tudo. 

Assim é a obra A imensidão Íntima dos Carneiros do escritor brasileiro Marcelo Maluf. Os eventos citados não são leves, mas a maneira de escrevê-los é poética. Confesso que tive que voltar algumas vezes para compreender a quem pertencia as lembranças. O escritor mescla realismo fantástico, símbolos e sentimentos familiares na possibilidade que a oralidade permite. 

Marcelo perpassa por três gerações (avô, pai, filho) e investiga o passado, tendo a liberdade de reinventar e recriar o enredo familiar por meio da literatura. 

Das montanhas do Zahle, da Guerra Civil do Líbano, das barbáries sofridas por sua família, da infância em Santa Bárbara do Oeste, as vozes do neto e do avô se misturam. Marcelo precisa se libertar da herança familiar, pois:

"O medo estava no princípio de tudo".


terça-feira, 20 de outubro de 2020

Cultura Letrada: Literatura e Leitura

 



Acho o assunto muito pertinente. É um livro fino, mas o seu conteúdo e a possibilidade de reflexão valem muito a pena. Bom, no término do século XX, a imprensa começou a se dedicar nas escolhas dos melhores representantes dos anos mil e novecentos em diversas categorias. Eleições dos melhores romances e autores de ficção (mundial e brasileiro) foram promovidas. Nem preciso informar que desde então surgiu duas classes de literatura: a popular e a erudita. A escola ensina a ler e a gostar da literatura, entretanto o que quase todos aprendem é o que devem dizer sobre determinados livros e autores, independentemente de seu verdadeiro gosto pessoal. 

Para que uma obra seja considerada Grande Literatura ela precisa ser declarada literária pelas chamadas "instâncias de legitimação". Universidades, jornais, revistas especializadas, livros didáticos... Assim, o que torna um texto literário não são as suas características internas, e sim o espaço que lhe é destinado pela crítica. O prestígio social dos intelectuais encarregados de definir Literatura faz que suas ideias e seu gosto sejam tidos não como uma opinião, mas como a única verdade, como um padrão a ser seguido. 

Infelizmente, a escola tende a aproximar-se da opinião dos intelectuais e esquecer (ou estigmatizar) o gosto das pessoas comuns. Obras não eruditas são avaliadas como imperfeitas e inferiores, quando na verdade são apenas diferentes. Podemos sim, nas escolas, ler os livros preferidos pelos alunos e discuti-los em classe. Podemos comparar com texto eruditos para entender e analisar como diferentes grupos culturais lidam e lidaram com questões semelhantes ao longo do tempo. 

quarta-feira, 14 de outubro de 2020

Angústia Graciliano Ramos

 

Luís da Silva, 35 anos, neto de Trajano Pereira de Aquino Cavalcante e Silva, funcionário público em um jornal, residente de um subúrbio em Maceió na década de 30. Dos vários personagens, que valem várias resenhas, a ênfase do livro está em suas recordações:

"Há nas minhas recordações estranhos hiatos"

Seria suas angústias os hiatos de suas recordações ou suas recordações os hiatos de suas angústias?

O que sabemos é que o início e o fim do romance dão-se com o estado profundo de angústia que domina o Sr. Luís da Silva. A sua capacidade de consciência vai engendrando matematicamente passado e presente, construindo com a memória o seu futuro crime. 

Daqueles que o cercam, um constante sentimento de desconforto e deslocamento:

"Insuportável!" (Diante dos desfavorecidos)

"Não podemos ser amigos!" (Diante dos mais abastados)

Homem introvertido que luta para ter a "dignidade dos bípedes" torna-se revoltado contra tudo e todos à medida que a memória incumbe-se de selecionar suas lembranças. 

"Tão bom José Baía! Ninguém falava alto, ninguém lhe mostrava a cara feia".

Essa insistência da memória em crimes e criminosos soma-se a uma notável influência psíquica que transforma sua inércia em brutalidade. Ato que não correspondeu à expectativa, visto a continuação do círculo vicioso da angústia existencial. 

domingo, 13 de setembro de 2020

O Alienista - Machado de Assis Parte I


Para dar início (depois de tanto tempo) a essa postagem, justifico que inseri essa imagem por achar intrigante a inclusão do autorretrato do artista francês Gustave Coubert. Possível conciliar seu estilo artístico realista, sem esquecer que ele foi contra a pintura literária, vinda da imaginação ou dos sonhos. O nome da obra é "Desespero". Enfim. Vida que segue. Só um adendo. 

Sobre a obra machadiana O Alienista (médico que tratava os alienados da época) não quero ser repetitiva sobre tudo que há no mundo virtual sobre o tema. Estou trabalhando Machado no artigo da minha Pós e me interessei por um curso que aborda Literatura e Loucura. Semana passada foi o Médico e o Monstro. Enfim. Vida que segue. 

O Alienista é um conto para a maioria e uma novela pela sua estrutura narrativa. Informação repetitiva sobre a obra. Publicado em 1882, eu acho. Não podemos esquecer o plano de fundo histórico da literatura machadiana sobre a sociedade do século XIX. Nem deixar passar batido sua  representação de costumes e transformações que ele vivenciou. Seu estilo é repleto de humor e crítica. 

Simão Bacamarte, médico que estudou em Universidades europeias importantes e de renome, não aceita propostas de regências e tal. Volta para Itaguaí, sua cidade natal no Brasil. A Medicina é a sua causa maior. Aí está a chave principal machadiana da obra. Uma elevação exagerada da forma que o médico se enxerga e a forma como exalta a Medicina. No período em questão fervilhavam as teorias científicas, principalmente o empirismo positivista. Não são raras as frases:

"Homem de Ciência, e só de Ciência, nada o consternava fora da Ciência"

"Imagem vivaz do gênio"

"Raro espírito que era"

Até mesmo a escolha da esposa, D. Evarista, demonstra a exaltação em questão, ele não importa com a beleza. Segundo a Ciência, as condições fisiológicas e anatômicas eram suficientes para dar-lhe filhos robustos, sãos e inteligentes. Não aconteceu. Após um vasto estudo sobre as causas e curas da infertilidade da "mulher" e a desistência do tema, começa a Odisseia de Simão em estudar na prática a  patologia cerebral. Isso pode ser um sintoma do final do conto (sem spoiler). O começo da sua empreitada. Aliás, a todo momento percebo que Bacamarte é perfeito aos olhos alheios, mas, para os olhos machadianos, há apontamentos interessantes de perceber no desenrolar do enredo. 

Bom, a Igreja está presente, claro. Seja sem o entendimento, "confessou desconhecer a existência de tantos doidos no mundo" (Padre Lopes); com as explicações bíblicas, "quanto a mim, só se pode explicar...segundo nos conta a Escritura"; ou pela crítica "isso de estudar sempre, sempre, isto não é bom, vira o juízo".Lembrando que a Igreja cuidava em sua grande maioria das caridades aos "dementes" da época. Quando não, a própria família trancava em uma alcova, na própria casa até a morte. 

Dementes. Qual seria a medida de Bacamarte para incluir na Casa de Orates/Casa Verde os seus estudos empíricos? Tudo aquilo que era considerado fora do padrão social da época. Sem querer descrever a história da Loucura, vou citar casos como: furiosos, mansos, monomaníacos, loucos por amor, delirantes, alucinados, todos aqueles considerados mentecaptos para o médico. Com a fusão de tratamentos medievais (sanguessugas) e tratamentos (modernos) paliativos, medicamentosos e influências estrangeiras (literatura árabe e lusitana), ele buscar a causa e a cura. 

Igreja, política, ciência, sociedade tudo na linha tênue entre loucura e sanidade. Se antes, comportamentos excêntricos e até pobreza eram diagnosticados como loucura, agora a presença de bons costumes é a causa máxima a ser estudada na Casa Verde. Como permanecer moral, piedoso, benevolente, honesto, ... em uma sociedade corrupta e corruptível? (atemporal). 


Muito a dialogar sobre o tema. Por ora, apenas uma degustação. 


 

domingo, 26 de abril de 2020

O Poço (Netflix)


No filme, acompanhamos Goreng (Ivan Massagué), que acorda numa prisão vertical ao lado do companheiro de cela, Trimagasi (Zorion Eguileor). Nessa prisão, a comida é distribuída de cima para baixo. Quem está nos andares de cima come à vontade. Todo o filme, principalmente seu final inusitado e muito aberto, deixou muitas interrogações. Indico muito! 

Milagre da Cela 7 (Netflix)


Milagre da cela 7 – a inocência transcende a violência
No filme turco “Milagre da cela 7”, Memo é injustamente acusado de um crime grave, preso e condenado à morte. Por sua grande deficiência intelectual não tem condições de se defender e de sequer ter clareza do que estava acontecendo. Toda a sua defesa fica por conta da luta de sua filha, Ova, que fica tentando, impotente, sensibilizar as autoridades. Ambos eram cuidados pela avó de Memo, que, quando Ova pergunta se o pai é maluco, responde que ele apenas tem a mesma idade mental dela. Ova fica feliz com a resposta, pois encontra no pai um companheiro para brincadeiras. 

Memo é duramente espancado na cela pelos outros presos revoltados com seu suposto crime. O milagre a que o titulo do filme alude me parece ser toda a transformação sofrida pelos presos da cela 7 quando começam a perceber a idade mental de Memo e a sua óbvia inocência. A inocência diante da violência sofrida, a falta de revide, a atitude amistosa para com os agressores são próprias do olhar simples e ingênuo diante da vida. Porque só os inocentes podem não perceber a agressividade dirigida contra si, podem não ser capturados pelas armadilhas de um ego ferido. Só os inocentes têm a leveza suficiente para andar sobre as águas sem perceber. 

Memo não percebe a hostilidade contra ele e trata a todos como amigos. Talvez seja o primeiro sinal para eles de sua “ausência de cérebro”. Não tinha ele todos os estragos sofridos pela idade adulta. Sua mente procurava pelos passarinhos no pátio e voava com eles, era incontidamente afetuoso, pois não tinha aprendido a conter-se até a anorexia afetiva que caracteriza o individuo normal. Os outros presos não puderam se defender da ingenuidade autentica que favorecia o natural florescimento da bondade. 

Sensibilizados, foram se apercebendo mais de si próprios, como quando acontece quando um centro de inocência da psique atinge a consciência. Um centro que funciona como um chamado às origens da própria humanidade, da condição de fazer parte, da base primal de ser uma pessoa. A condição ingênua, despretensiosa, desinteressada é o que permite o florescimento da bondade autêntica, bem como a restauração da integridade psíquica. 

Memo no centro da cela lembra aquele ponto virtualmente central da psique, violentado pela sua fragmentação, mas capaz de produzir a sua reintegração quando deixado livre, o que pode ser vivido como uma espécie de luz vinda de não sei onde.
Alexandre Xavier

sexta-feira, 10 de abril de 2020

Filme Agnus Dei



Filme: Agnus Dei (2015) Netflix. No fim da Segunda Guerra Mundial (1945), uma enfermeira francesa voluntária da Cruz Vermelha, Mathilde Beaulieu, atende franceses sobreviventes dos campos de concentração da Alemanha. Ela acaba se envolvendo com um mosteiro da Ordem Beneditina, na Polônia, onde freiras sofrerem abusos sexuais praticados por soldados soviéticos e, consequentemente, engravidaram. Os discursos e análises de fé versus ateísmo, solidariedade versus violência fazem parte do enredo. Mesmo com o tema cruel (baseado em fatos reais), a diretora conseguiu não focar na ação daqueles que se acharam no direito ao abuso, e sim, na permanência da fé diante da crueldade humana e do auxílio ao próximo.