Eis a minha primeira leitura de 2026: que chita bacana, escrito por Renata Mellão e Renato Imbroisi. Foi um presente do meu esposo que sabe que amo tolhas, cortinas, paninhos de mesa de chita. Não é um livro comercial, acho que ele ganhou em algum trabalho de cenografia ou algo assim. A autora, Renata Mellão, é fundadora do Museu A Casa do Objeto Brasileiro e eu acho que o tema do livro e o nome do museu tem muita relação.
Acredito que o livro foi idealizado para alguma exposição em específico sobre o tecido no museu. Tem um link sobre o livro https://www.acasa.org.br/livro-que-chita-bacana e como só fiquei conhecendo o Museu por causa do livro, dei uma boa navegada e vi sobre a exposição aqui nesse link Exposição A Chita na Moda. Essa exposição passou pela minha cidade e eu náo tive o prazer de ir admirar. Acredite, todo o trabalho do Museu A Casa do Objeto Brasileiro é muito admirável e valoriza muito a cultura popular brasileira.
O livro começa com muitas imagens desse pano atual que conhecemos nas festas juninas. Talvez seja o que mantém ainda vivo a existência desse modelo de pano que já foi muito usado pelas famílias brasileiras. Mas até chegar a esse ponto de uso popular, muita história rolou. Confesso que foi a parte que mais me deliciei: a forma sucinta, concisa e séria da chegada do pano até os dias atuais. Isso é um trabalho digno de parabenização. Eu como historiadora deixo aqui o meu louvor para todos aqueles que participaram da edição desse trabalho.
Primeira grande surpresa: esse pano que eu amo pelo seu colorido e flores em tamanhos consideravelmente possíveis de se ver de longe é de origem indiana do período medieval. Já citei sobre o tamanho das flores, pois ele não começou com essas medidas. É um pano muito usado por nós aqui em casa, pois tem muitas sobras dos trabalhos cenográficos do meu esposo em festas juninas, então eu aproveito bastante.Só que o tecido que eu conheço é o chitão e as "características de estampas florais bem grandes, em cores vivas, com traços de grafite delineando contornos, e que cobrem toda a trama do tecido engomado só ganhou esse nome e características na década dos anos 50". Alguém sabia disso?
Em sua origem, a estampa de chita é floral e se as flores forem miudinhas recebe o nome de chitinha. Se as flores forem de tamanho médio, recebe o nome de chita. Nós, acredito eu, chamamos chita e pronto, né!? A entrada do pano se deu com as relações comerciais das grandes navegações europeias dos séculos XV e XVI. O que diferenciava os indianos dos europeus na técnica de tingimento de tecidos era o uso do mordente, uma substância agregada ao tingimento com a função específica de manter a durabilidade da cor. Por isso que os tecidos indianos resistiam mais do que os europeus às lavagens e exposição ao sol.
Os motivos estampados pelos indianos levavam em consideração os preceitos do hinduísmo e do islamismo. Ressaltando que a última proíbe representações figurativas, então a predominância dos temas eram florais, arabescos e figuras geométricas, com algumas representações de animais. Com as trocas comerciais, o interesse dos europeus foi imediato, seja para consumir ou para fazer um modelo próprio a partir desse padrão indiano.
O nome "tecido indiano" passou a ser usado em Portugal para designar esses tecidos, mas na Índia era chamado de "chint", que significa "pinta" ou "mancha". Na Inglaterra, foi batizado de chintz, termo utilizado até os dias de hoje, mas para designar um tipo de tecido estampado usado para decoração. O chintz é descendente direto das chitas indianas.
Portugal demorou bastante em relação aos outros países a criar o seu próprio tecido estampado. Os motivos são diversos: riqueza derivada das navegações e colonialismo, dependência com a Inglaterra que foi seu fornecedor durante muito tempo dos tecidos manufaturados e também a tradicional rejeição lusitana ao trabalho manual. Claro que tudo isso vai respingar no Brasil que foi colônia de Portugal até 1822. Durante a leitura você vai passar por todo processo histórico e não vai ser cansativo. Até a revolução têxtil inglesa e a Guerra da Secessão norte-americana são explanadas fazendo ligação com a evolução do tecido chita aqui no Brasil.
Com um pulo grotesco historicamente falando, chego na montagem da indústria têxtil brasileira que aproveitou a falta de algodão norte-americano. Foi a transferência do capital agrícola para a indústria em São Paulo. A Cedro foi fundanda em 1868 em Curvelo pelos irmãos Mascarenhas. Depois a Cedro & Cachoeira e com a crise internacional pós 1ª Guerra Mundial, descobriram a chita e fabricaram esse unicamente esse tecido até 1961. De lá pra cá outras empresa têxtis fundaram, outras fecharam, crises internacionais, desenvolvimento da malha ferroviária brasileira, política café-com-leite impactaram a produção têxtil, seja de forma positiva ou negativa.
Na década de 50, com os teares mais largos, há o começo da produção de tecidos com larguras maiores e surge o chitão que eu tanto utilizo em casa. Nesse meio tempo, o tecido passou de decoração e uso sofisticado pela elite para o uso popular, mas não era mais 100% algodão (morim). Com o aparecimento de produtos mais baratos para a produção, o poliéster começou a fazer parte do tecido que conhecemos atualmente. Tudo foi parte do processo de cotação de insumos e acompanhamento da produção mundial e influências internacionais.
A chita se tornou popularmente e culturalmente para uso de festejos religiosos e atos com origem folclóricas e mitológicas. Estilistas lançam vestuários com a presença das estampas coloridas colocando o Brasil no eixo da moda, como fez Zuzu Angel.
A Literatura eterniza a presença do tecidos, álias, durante a leitura você vai ler trechos de livros citando a chita, o que mais uma vez comprova uma curadoria muito bem realizada pelos autores do livro.
"Nacib tirou o paletó, pendurou na cadeira, arrancou a camisa. O perfume ficara
na sala, um perfume de cravo. No dia seguinte compraria um vestido para ela, de chita, umas
chinelas também. Daria de presente sem descontar no ordenado. (...) Queria-a tão bem vestida como a
senhora mais rica, como se isso apagasse seu passado, as queimaduras do fogão, o sem jeito de
Gabriela. Vestidos pendurados no armário; em casa ela andava de chita, em chinelas ou descalça,
às voltas com o gato e com a cozinha".
(trechos Gabriela Cravo e Cranela - Jorge Amado/Imagem internet: Sônia Braga interpretando Gabriela TV Globo)
Eu amei a experiência por ser algo que aprecio e claro que acabou ressignificando a presença das chitas e chitões aqui em casa. As roupas e peças criadas pelas estilistas convidadas pelo Museu A Casa demonstraram que a criatividade não tem limite e que tudo é possível com esse tecido que para alguns só aparece em junho e julho. Indico a leitura!



