sábado, 10 de janeiro de 2026

O Filho de Mil Homens - Valter Hugo Mãe (Netflix/2025)

     Primeirante eu quero começar essa resenha com um desabafo sobre várias coisas que tem relação com o filme a ser abordado. Pra começar, quando fico sabendo sobre a produção de um filme baseado em uma obra literária, eu corro para ver se dá tempo de ler, se é do meu interesse, se já li e coisas de leitor. Bom, nem todo leitor gosta de adaptação, mas vamos lá. Quando foi citado o autor Valter Hugo Mãe só me veio a lembrança de um livro que me deixou com azia literária pelo seu desfecho. Se você citar o autor eu vou lembrar desse livro. A saber: O Remorso de Baltazar Serapião

    Eu não sabia que o impacto literário de O Remorso de Baltazar Serapião era tão forte em mim a ponto de fazer eu esquecer que li O Filho de Mil Homens. Bom, eu explico. Eu tenho duas plataformas de leitura: skoob https://www.skoob.com.br/ e publisko https://publisko.com/. A segunda meio que depende da primeira, pois eu sicronizei as duas e a publisko não faz histórico de leitura, apenas resenhas. Bom, a Skoob passou por uma transição com a Skeelo e não tem mais as datas de leituras antigas. Bom, sumiram vários dados de leituras e históricos e isso me chateou bastante. Já não bastasse esquecer toda uma leitura, eu não tenho mais a segurança virtual para me amparar.

    Escrito todo o desabafo acima, prossigamos com minhas deduções sobre a adaptação em questão. Primeiro, eu tinha que assistir pelo nosso querido ator brasileiro, Rodrigo Santoro. Prata da casa! Eu acompanhei seu desenvolvimento e também quando ele se tornou um ator internacional. Já quero deixar registrado que ele não deixa em nada a desejar no filme. Segundo, adaptação de uma obra (que, ainda que eu não lembre da leitura) de Valter Hugo Mãe. Você já leu esse autor? Ele tem algumas peculiaridades que são deles e de nenhum outro autor. No início do meu contato com ele até o comparei com Saramago, mas são distintos. Não é a questão do uso das minúsculas, é a forma dele escrever temas profundos e delicados. Logo, fiquei bem curiosa pela adaptação. 



SPOILER (é possível que tenha)

    Crisóstomos (Rodrigo Santoro) é um pescador taciturno que tem desejo de ter um filho. Sabe aquele desejo de ocupar um lugar do qual não se tem referência? Ele é um homem solitário que sai para pescar, tem sua casa arrumadinha, faz vendas dos peixes e tem um boneco que significa o filho que ele deseja. Com o desandar do enredo percebemos que ele deseja ser aquilo que não teve, pai. Um dos seus bilhetes pousa na mão certa e Camilo chega para ser seu filho. 

    Bom, Camilo é um menino encontrado bem no início do filme e sabemos durante a trama que é filho de Juliana, a anã da cidade que tinha uma vida sexual ativa com alguns homens da pequena cidade. Camilo não sabe da sua mãe. A avó, que na verdade é a médica parteira, cria Camilo e não conta sobre Juliana. Não vou dar tantos detalhes para evitar ao máximo spoiler. A conexão entre Crisóstomos e Camilo é imediata pela urgência do que falta: um pai e um filho. Assim eles se completam. 

    Camilo aponta uma necessidade a Crisóstomos: uma companheira para o pai. A partir daí surge outro desejo que direciona a outros personagens que vão se conectar na trama do pescador. Antonino, um artista que sofre por sua sexualidade acaba casando com Isaura. Já essa, após entregar sua inocência e sofrer por não escutar a sua mãe, acaba aceitando casar com Antonino. Esses personagens vão se encontrar com a vida do pescador e a relação entre eles vai demonstrar a busca pelo afeto entre pessoas que não fazem parte do padrão da sociedade. 

    O diretor, Daniel Rezende, conseguiu manter a essência do autor nas questões humanas. Camilo, que aprendeu com o avô adotivo o preconceito, precisa desaprender com a simplicidade de Crisóstomos que todos somos iguais em busca do amor. Não há violência no ensinamento, há vivência. Há o ensino da tolerância na convivência. A redenção de Camilo é um momento único diante do que absorve de Crisóstomos:

"Tá vendo todas essas pessoas? Todo mundo é filho de um momento de mãe e pai. A gente vem de tanta gente! É tudo meio-irmão. É tanto sonho que vai passando de um pro outro, que ninguem nunva vai tá sozinho".

Não pense é um melodrama romanceado, a violência diante da sexualidade alheia está estampada a todo tempo. Seja com Antonino, seja com Juliana ou seja com a mãe do próprio Crisóstomos. A solidão protege, mas não preenche. O desejo, quando atendido, precisa ser moldado diante da realidade que cada um dos personagens estão inseridos. Afinal: "quem tanto pede o que lhe pertence, assim o mundo convence". 

As cenas produzidas em Búzios (RJ) e na Chapada Diamantina (BA) foram o toque de Midas. Não sei bem como explicar, mas certas cenas reacenderam na minha memória o cheiro de maresia. Os personagens se comunicam com o silêncio e isso é afirmar que a escolha dos atores foi um acerto e tanto. Quando o tema é família fora do padrão o recado é passado: família pode ser feita de muitas coisas é que o amor é espera e não o problema. Indico! Para dias com chuva e sem pressa.