quarta-feira, 7 de janeiro de 2026

A Grande Inundação - Netflix (dezembro/2025)

 

    O filme A Grande Inundação (dezembro/2025), dirigido por Kim Byung-Woo, ficou entre os mais assistidos na plataforma de streaming Netflix durante algum tempo em dezembro do ano passado. Porém, portanto e contudo, ser o mais assistido não significa ser o mais compreendido. Muita gente acabou não gostando por não ter compreendido a ficção científica sul-coreana sobre uma mãe tentando salvar seu filho durante uma catástrofe mundial. Mas, vamos por partes. Deixando claro que é a minha opinião pessoal sobre o filme e leituras rápidas e rasas em alguns sites. De fato, dá um nó na cabeça. Não assista sem prestar atenção!

    A pesquisadora An Na acorda em seu apartamento com o seu pequeno filho Ja-In e a manhã sai da normalidade com uma ligação sobre uma inundação que está acontencendo e é percebido pela protagonista que já começou a atingir o seu prédio. Um asteróide caiu na Terra e com o derretimento das calotas polares da Antártica o planeta será exterminado com a Humanidade. Hee Jo faz parte de uma equipe de segurança e tem a missão de salvar a pesquisadora para que essa possa dar continuidade a pesquisa sobre um gerador de emoções e assim começar uma nova Humanidade.

    SPOILER A PARTIR DAQUI

    Bom, descobrimos que após uma fuga com bastante possiblidades de afogamentos, Ja In não pode acompanhar An Na e a partir daí todos os detalhes são importantes. An Na sai em um foguete e participa de um experimento sendo a cobaia para uma mãe matriz e sendo ela pesquisadora de IA e do experimento do gerador de emoções vai passar por várias tentativas para achar Ja In, que já na tentativa de número 1, descobrimos que não é seu filho biológico. 

    Ela passa por milhares de tentativas de encontrar a criança Ja In e em um primeiro momento, parece que ela está sendo castigada por ter escolhido não continuar sendo a mãe do menino após um acidente de carro que a deixou viúva. Nessas várias tentativas, a memória criada entre uma tentativa e outra é a pista necessária para que ela consiga encontrar Ja In. Mas, não é tão simples assim. O experimento é esse! A cada tentativa há a geração da emoção, do vínculo, do afeto entre An Na e Ja In. Inclusive, a criança que já era um experimento científico já tinha ciência e acaba agindo para o desfecho final. 

    Bom, até agora essa é a minha análise crítica sobre o filme que a princípio achei meio que efeito borboleta. Porém, refletindo um pouco, pareceu um pouco sugestivo sobre a mulher que tem a sua profissão e estudo e precisa regastar a sua maternidade. A mulher passar por todo aquele sufoco (acredite, uma fobia louca com tanta água) para salvar a Humanidade e a temática da maternidade no meio, é um filme que eu não assistiria novamente. Claro que temos a maternidade como a salvadora da Humanidade, afinal, sem ela seremos extintos e todo essa temática, mas eu achei bem forçado. 

    Claro que Hee Joo também tem seu vínculo modificado com o passar das tentativas, convencido pela Eva benigna a cada encontro. Ele que foi abandonado pela mãe experimento na infância, acompanhou An Na com a certeza que ela abandonaria a criança. O homem abandonado pela mãe no passado coloca mais uma vez a maternidade como culpada pela atitude do homem e vai ser outra mulher e suas várias tentativas que vai mudando o comportamento dele. Devaneios e devaneios. Mas conhecendo um pouco da cultura do país de origem, será que estou tão errada assim? 


A Natureza da Mordida - Carla Madeira

 


    A obra A Natureza da Mordida (2018), da autora brasileira, Carla Madeira, foi o último livro de 2025. Quando usamos a palavra "natureza" no sentido do título do livro, acredito que a intenção foi de explicar a origem de algo, no caso a mordida (uma dedução pessoal). Volto ao título logo mais. Carla Madeira ficou conhecida pelo seu livro Tudo é Rio (2014) e foi uma das autoras mais lidas nos anos de 2024 e 2025. 

"O que você não tem mais que te entristece tanto?"

    Essa foi a pergunta que Biá, uma psicanalista aposentada, fez a Olívia, uma jovem jornalista em uma banca de jornal (sebo do Rodolfo em BH). Assim deu início a uma amizade inesperada com conversas profundas entre as duas mulheres que, apesar da diferença de idade entre elas, carregavam uma mordida na alma: o abandono sem explicação. Cada uma ao seu modo foi abandonada por quem amava e a conversa entre ambas é a revisão do passado para conseguir compreender com o olhar alheio o motivo do rompimento traumático que mudou a ambas. 

    É um livro sobre percas e perdas, memórias, incertezas, culpa e o sentido da vida que precisa ser encontrado para que possamos dar continuidade com a dúvida do que levou o outro a tomar uma atitude tão drástica que acaba abalando nossas vidas. Olívia, órfã de pai, foi criada por Laura, uma mulher que teve que ser forte e declinar de várias investidas de homens que não suportavam ver uma mulher tão jovem e linda vivendo sozinha. Olívia, carregada de rejeições das meninas da sua própria idade, encontrou em Rita uma amizade profunda, verdadeira e única que é rompida sem nenhuma explicação aparente no final do colegial.

    Biá, uma mulher amada por seu marido em um lar aparentemente saudável, leitora e dotada de uma inteligência ímpar, tem seu casamento rompido repentinamente. Esse fato fez essa mulher perder seus passos firmes e tornou o seu relacionamento com a única filha, Teresa, insuportável. Durante esses encontros entre Biá e Olívia que conseguiremos perceber as mordidas que cada uma causou a partir da mordida original. Biá mordeu sua filha com o mesmo abandono e isso também foi igual com Olívia e sua mãe. O fato de não saber o motivo do abandono do outro tornou a mordida um resultado entre os relacionamentos. 

    As histórias vão sendo intercaladas e vão se fechando com o sumiço de Biá na banca de jornal por motivo de enfermidade. Então Olívia passa a conhecer uma terceira versão, a da filha de Biá, também dotada de mordidas. Acredito que aí começamos nesse momento da leitura a perceber a "natureza", ou seja, a origem das mordidas. Acredito que cada leitor vai ter a sua interpretação pessoal da leitura, pois são tantas deduções que se passaram na minha cabeça até conhecer a natureza da mordida que finalizei a leitura com muita empatia a Biá, Teresa, Olívia, Laura e até Rita (que no fundo também não sabia da verdade na época que abandonou Olívia). 

    O abandono sem explicações tornou essas pessoas que abandonaram presentes pela dúvida e isso foi um luto impossível de ser vencido. Claro que seria mais fácil perguntar com insistência como fez Teresa com Biá (sem sucesso), mas quando o assunto é emoção, nem sempre o próximo passo é tão racional. O trauma tem um poder comportamental em cada um dos personagens, pois até Téo, pai de Teresa, tem um comportamento após um trauma familiar não superado. Biá, que na verdade se chama Emma, na minha opinião poderia por sua bagagem intelectual ter poupado Teresa de tanta dor, mas quem disse que inteligência emocional é paralela a inteligência racional? Bem dolorido para todos ali e eu fiquei bem em choque com o destino de Rita. Bom, tentei ao máximo não dar spoiler. Indico!