Que é sabido que a HBO lançou recentemente uma série que é o prelúdio de It: a coisa, talvez não seja novidade. Diante de tanto material virtual produzido sobre os filmes e série, vou me deter no fundo histórico, obviamente por ser historiadora. Bom, só acrescentar antes de tudo que toda essa obra cinematográfica é baseada no romance de terror do autor Stephen King lançado em 1986, It (a coisa).
No livro, os períodos são divididos em dois. O primeiro: 1957-1958 que foi apresentado no primeiro filme It: a coisa (ambientado no final da década de 1980). O segundo período na obra literária: 1984-1985 foi apresentado no segundo filme, It: capítulo 2 (ambientado em 2016).
Já a série It: bem-vindos a Derry, o período vai ser ambientado em 1960, contando a origem da força cósmica que se alimenta de medos, traumas e se apresenta na maioria das vezes como o palhaço Pennywise. Não são as únicas obras produzidas sobre o It, mas cito apenas essas três, pois elas foram produzidas pelo mesmo diretor Andy Muschietti.
O pano de fundo em Derry é o pós-guerra conhecido como período da Guerra Fria (1947-1960), temática que explanei na postagem anterior ao comparar com Stranger Things Stranger Things e It: bem-vindos a Derry. A presença das Forças Armadas norte-americana e de uma missão secreta coexistem com a missão de contar a origem da Coisa. Nos diálogos entre os militares há várias citações sobre o conflito entre EUA e URSS. Em um período que o medo poderia ser uma arma poderosa, a Missão militar e secreta Precept busca achar, capturar e aniquilar o inimigo.
A crítica ao estilo de vida conhecido como American way of life vai sendo percebido quando a violência é aceita passivamente e de forma complacente pela sociedade. Homofobia, racismo e psicofobia são instrumentos utilizados em nome da manutenção de uma aparência idealizada pelo padrão norte-americano. Percebe-se que A Coisa não é o único mal a atuar naquele lugar. O medo não é o único alimento que o fortalece. O mal sistêmico o ampara e o deseja em um projeto de eugenia de tudo que foge do padrão da sociedade de bem.
No segundo episódio, a recém chegada Charlotte Hanlon (Taylour Paige) e uma moradora local conversam sobre a notícia de um homem negro acusado de matar brutalmente crianças dentro de um cinema. O racismo já é exposto nos primeiros episódios, pois o fato desse acusado ser negro, já demonstra a crítica do parágrafo anterior. Charlotte, esposa de um militar que é parte da missão secreta Precept, vai se envolver nesse caso e demontrar a luta pelos direitos civis dos negros norte-americanos. Aliás, aconselho você focar nessa família (Hanlon). Ela está conectada nessa série e nos dois filmes.
Rose (Matamaki Kimberly Norris) é uma nativa local e informa para Charlotte que algumas crianças desapareceram durante a Grande Depressão. Esse período de crise econômica que teve início em 1929 com a quebra da Bolsa de Valores NY e entrou a década de 1930 camuflou a verdadeira causa do sumiço das crianças em Derry. Durante o mesmo diálogo, ela cita a invasão dos colonizadores que invadiram terras indígenas com o uso do Destino Manifesto. Essa ideologia (usada até hoje pelos EUA) teve início no século XIX e acreditava ser um direito dado por Deus de expandir o território americano do Atlântico ao Pacífico. Ela dá embasamento para o atual imperialismo norte-americano.
IT, a Coisa usa do medo e não fica claro como ele conhece os temores mais íntimos do indivíduo. Se ele escuta conversas ou tem poderes de leitura mental (Não lembro da leitura do livro) não fica evidente na série. Que ele influencia comportamentos já é demonstrado nos atos da comunidade, seja a professora, policial ou a passividade coletiva diante da violência contra padrões fora do idealizado. Peguei como exemplo o padre colonizador (medos dos nativos) e o Tio Sam, medo dos soldados que estavam na missão Precept. a frase "Eu quero você" fazia parte da campanha de recrutamento militar estadunidense na 1ª GM (1914-1918).

Bom, até a data que escrevo essa postagem se passaram seis espisódios. O último findou com a chegada de um grupo supremacista branco e anti-negros na base onde soldados negros estão dançando e se divertindo. O grupo mais notório da década de 60 foi a Ku Klux Klan e o período foi crucial para o Movimento dos Direitos Civis nos EUA para a população negra. Táticas de terrorismo, violência e intimidação contra indivíduos negros também estão sendo demonstrados na obra literária e cinematográfica, deixando claro que não é um mero entretenimento banal. Afinal, a obra lida com memórias, traumas e ecos doloridos que são superados com a ação coletiva. Stephen King é um autor e tanto.
Claro que o livro foi escrito em alguns momentos sob efeito de drogas e bebidas e a cena do sexo coletivo que nenhum diretor quis assumir e está presente no livro deixa qualquer um atordoado. Ele já falou a respeito em 2013:
"O ato sexual conecta a infância com a vida adulta. Os tempos mudaram desde que eu escrevi aquela cena e agora existe uma sensibilidade maior em relação ao assunto. A isso eu somaria que acho incrível que existam tantos comentários a respeito de uma única cena de sexo e se fale tão pouco dos múltiplos assassinatos de crianças na trama".
Gosto da forma como ele não deixa cair no esquecimento essas feridas abertas da História. Se algo a mais aparecer nos próximos episódios, registrarei em uma próxima postagem parte II. Enquanto isso, vamos acompanhar e ver como vai ser o desfecho dessa primeira temporada (a promessa é de três temporadas). Lembrando que, quando se trata de HBO eu tenho um temor latente desde GOT. Oremos!