Comecei recentemente a devorar o livro Imagens da Branquitude (a presença da ausência) da autora Lilia Moritz Schwarz (editora Companhia das Letras) e vou escrever, vez ou outra, sobre a minha leitura em postagens futuras. A importância da temática é a justificativa de não esperar terminar a leitura para fazer a resenha/postagem. A autora recebeu o Prêmio Jabuti Acadêmico 2025 na categoria História e Arqueologia.
A autora começa explicando a imagem da capa:
A presença do piano e do violoncelo, já demonstra a classe social da família presente na pintura. No Brasil Colônia (1500-1822), Império (1822-1889) e início da República, ter um violoncelo e um piano, em saraus particulares funcionava como exibição de riqueza, mas nem sempre a maiorida dos músicos profissionais pertencia às classes mais altas. Os figurantes na imagem acima, são pessoas brancas, mas o nosso olhar é direcionado para uma figura menor, no fundo da pintura. Uma mulher negra que provavelmente faz parte de quem serve e não de quem aprecia a menina tocando o piano.
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| Gordon Brow e Paulo Pedro Leal em fotografia publicada no jornal ‘A Manhã’, em 19 de outubro de 1952. Reprodução. |
O autor da tela é Paulo Pedro Leal (1894-1968), nascido no RJ, filho de pais que partiram da Bahia para a capital em busca de melhores oportunidades. Assinava "PPL" e também acrescentava em algumas pinturas a letra "E", de espiritual, pois alguns clientes também o procuravam como pai de santo. Passei um tempo pesquisando sobre o artista, pois eu não o conhecia e, sobre ele, a autora nos informa que se dedicou a diferentes ocupações, como empregado doméstico na casa de uma família francesa, funcionário em uma cervejaria, auxiliar de pedreiro e estivador. Pintou durante tempo sobre papelão e durante uma exposição no Passeio Público (RJ), foi descoberto pelo marchand (comerciante e agenciador de obras de arte) Jean Boghici (1928-205). O artista PPL passou então a pintar sobre tela, tulizando tinta e óleo de linhaça.

A pintura acima, conheci a partir da pesquisa após ler a introdução sobre a imagem da capa. Fiquei admirada com muitas obras, mas essa em especial, me deixou impactada. Afogamento dos mendigos (1965) é um relato iconográfico da Operação mata-mendigos que ocorreu em 1963 no governo de Carlos Lacerda, que jogou pessoas em situação de rua no rio Guandu. Uma política eugenista no Estado pré-ditadura militar.
O estilo de PPL faz jus ao nome da exposição que segue até 08/11/2026 com o título "Paulo Pedro Leal: trágico subúrbio", na Pinacoteca de São Paulo. Precisamos conhecer outras narrativas diferentes das narrativas oficiais.
Considerado por muitos como artista naïve (naif), artistas negros dessa geração estão passando por uma reconfiguração do cânone das artes e isso é muito importante para a nossa História. Principalmente por ser a visão de uma testemunha ocular do início do Brasil República (1889) até os primeiros anos da ditadura civil-militar (1964). Vale lembrar que o artista também foi testemunha da capital em seu processo de reubarnização rotulada como "belle époque". Além do cenário doméstico, a representação dos conflitos de classes em espaços públicos também fazem parte do seu trabalho. Sem contar a representação de conflitos da Grande Guerra que ouviu relatos durante o tempo que foi doméstico de uma família francesa.
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| Naufrágio 1953 |