quarta-feira, 4 de novembro de 2026

Dom de Iludir (Netflix/2026)

    Dom de Iludir (Netflix/2026) começa com uma exposição no Museu de Arte Contemporânea de Niterói (MAC/RJ) e um belo Portinari (Mulher com filho morto/1955) como parte da trama. Essa obra liga o início ao final explicativo comportamental da matriarca Lúcia Rosseti (Marieta Severo). Claro que é uma produção para a série, assim como as demais obras apresentadas com a devida autorização dos herdeiros de Candido Portinari, Victor Brecheret e Di Cavalcanti. Para os apreciadores dos artistas, vale muito a pena. 



    Pois bem! Após a morte do seu marido no dia da exposição que dá abertura a série, Lúcia precisa se inclinar aos cuidados materno de uma doença não diagnosticada de Maíra. Filha única e totalmente limitada e direcionada pela super proteção da mãe, ela participa de um plano nada ético para conseguir ter a liberdade financeira que tanto merece. Logo, acredita estar fazendo o certo. Nem sempre, pois percebemos uma Maíra manipulável e uma mãe disposta a tudo para protegê-la. Ainda que as provas direcionem a cumplicidade de Maíra na tentativa de golpe sofrida por Lúcia. 

    O que torna essa trama mais interessante é a possiblidade de ter tido como base o golpe sofrido com as mesmas características, ou seja, envolvimento de golpe espiritual, o caso da família Boghici. Deixemos claro que a Netflix apresenta Dom de Iludir como obra de ficção e que não é uma adaptação direta. Hum, hum! Ela finge que sim e nós fingimos que acreditamos. Não me custa apresentar um dos maiores casos de estelionato e desvios de obra de arte da vida real, até para evitar mais spoiler. 

    Conheci o falecido marchand e colecionador de arte Jean Boghici dias átras e até escrevi aqui no blog Citação Jean Boghici. Após a sua morte em 2015, o estelionato teve início e Geneviéve Boghici se torna vítima de uma mãe de santo que afirma que sua filha, Sabine Boghici, corria risco de vida. Se na trama, os sintomas apontam para a necessidade de uma cura, na trama real, o risco da tragédia faz a mãe levar um prejuízo de 725 milhões. O caso vem à tona em 2022 e ambas as tramas apresentam a herdeira dando informações e sendo vitimizada pela mãe, ainda que tenha sido mantida em cárcere privado na própria casa. A necessidade de limpeza espiritual, assim como na série, foi o motivo que enganou e levou obras de Tarsila do Amaral, Di Cavalcanti, Cícero Dias, Rubens Gercham e outros. Reportagem sobre o caso Boghici


    O elenco está divino e dispensa comentários sobre a atuação de cada um. Só achei um pouco cansativa a parte investigativa, mas deu para maratonar em uma sentada só. Indico! Até para conhecer as possíveis lavagens de dinheiro usando pinturas. 

terça-feira, 3 de novembro de 2026

A vida e a história de madame C.J.Walker (Netflix/2020)

 


 A atriz Octávia Spencer (imagem acima) deu vida a madame C.J.Walker na série de apenas 4 episódios "A vida e a história de madame C.J.Walker" (Netflix/2020). Sarah Breedlove (1867-1919) nasceu em Louisiana e não teve uma vida muito fácil. A série não foca muito no seu passado antes de 1908, não cita seus casamentos anteriores, como viveu após perder seus pais e como se tornou lavadeira. O primeiro episódio inicia  com Sarah sendo atendida por Addie Munroe (Carmen Ejogo), que pagava as lavagens das suas roupas em troca do tratamento capilar na protagonista. 

Madame C.J. Walker

    Addie provavelmente foi inspirada em Annie Malone (1869-1957) e ainda que a série tenha como base a biografia de Sarah escrita por sua trineta, a modificação entre a relação de Annie e Sarah foi radical. Se na realidade, Sarah foi vendedora do produto caseiro para tratamento capilar afro de produção própria de Annie, a série apresenta outra versão para justificar a concorrência entre as duas. Sarah desejava ser vendedora de Addie e ansiava em mostrar o resultado positivo que o produto causou para ela. 

    

    A série apresenta uma Addie mais clara e com cabelos menos crespos e, para ela, ter uma representante com traços afro-retintos não seria o ideal. Annie Malone também ficou milionária com a produção e venda de produtos para a estética afro-americana, mas na série, a biografia no papel de Addie, só demonstra a sede de competir e ver o fracasso da madame Walker, que inclusive deu o nome do (ex) marido para o seu império. É lamentável esse viés escolhido para apresentar a relação das duas. 


    Após ser rejeitada como vendedora (versão Netflix), Sarah começa uma busca por um produto com um cheiro mais agradável e que dê certo tanto quanto o produto de Addie. Deixa de ser lavadeira da ex-cabelereira e se muda com a família para Indianópolis. De porta em porta e envolvendo toda a família Walker, Sarah passa a conviver com o machismo estrutural para conseguir apoiadores para o seu produto. Após um incêndio da sua casa e futura fábrica e a chegada de Addie que tenta roubar a sua clientela, a série demonstra a garra da protagonista, porém, com o objetivo de vencer no ringue pessoal a concorrente. 


    Nesses poucos episódios, outros temas são apresentados além do machismo. O racismo e a violência contra os negros nos EUA no período da segregação racial, a relação de homoafetividade, a padronização da estética feminina entre as mulheres negras e o silêncio que protegia as mulheres diplomadas e esposas de homens importantes. Elas só podiam falar entre elas e o risco de uma mulher avançar e passar a ganhar mais que os homens é apresentado sem nenhuma cerimônia. 


    Mas a intenção da diretora Nicole Asher não era colocar uma âncora nos sofrimentos de Sarah, que, álias, são vários. A visão de oportunidade de madame Walker, não apenas para ela, onde só enxergavam limitação, é o que possibilitou várias mulheres negras a ganharem dinheiro em um período em que apenas os serviços domésticos eram permitidos. Sem herança familiar ou por mérito do casamento, Sarah se torna uma das primeiras mulheres negras que enriqueceram com produtos estéticos para a população negra. Não a única, pois se pesquisarmos a biografia de Annie Malone, são bem parecidas.  Além da oportunidade de emprego e ganho de custos, Sarah auxiliou na área da filantropia e no ativismo político pelos direitos dos negros nos EUA. Uma biografia inspiradora!