sábado, 5 de setembro de 2026

Cem anos de solidão (livro e Netflix)

 

    Antes de qualquer coisa, quero avisar que li a obra do autor colombiano, Gabriel García Márquez (Prêmio Nobel da Literatura 1982) duas vezes. Reeiltura. A primeira vez, foi um devoro desproporcional da obra prima que tinha em minhas mãos, e a segunda, um pouco mais lenta e sem tanta paixão. 

    Pois bem! A Netflix adaptou a obra literária em duas partes e vale ressaltar que, Gabo nunca quis saber disso, pois queria preservar a imaginação dos seus leitores (em todos os livros escritos por ele). Sim, é algo bem preciso (imaginação), logo, a sra. Netflix recorreu aos filhos do escritor, Rodrigo García Barcha e Gonzalo García Barcha, que decidiram vender os direitos para a Netflix em 2019. Nós, leitores obcecados, ficamos apreensivos. 

    A bonita prometeu e entregou! Para começar, é bom informar que a obra em suas duas versões, faz parte do estilo literário Realismo Mágico. O que torna sensacional, pois mescla a  naturalidade do absurdo, raízes culturais, crítica social e política. De cabeça, posso indicar Memórias Póstumas de Brás Cubas (1881), Machado de Assis (1839-1908) e Incidentes em Antares (1970) de Erico Verissímo (1905-1975). Indico os dois!


    A primeira parte da obra da Netflix, apresentou a fundação de Macondo e da família Buendía. Finda com as questões ideológicas do Coronel Aureliano Buendía e suas guerras. Só não podemos esquecer que as 32 guerras civis lideradas pelo coronel contra o regime conservador na obra da Netflix, refletem a instabilidade política crônica dos países latino-americanos no século XIX e início do século XX. Assim como os conflitos reais na Colômbia (como a Guerra dos Mil Dias), as lutas do coronel esvaziam-se de ideologia original e viram um ciclo mecânico de violência e poder pelo poder.

    A segunda parte da adaptação de Cem Anos de Solidão na Netflix retrata a profunda transformação de Macondo e o desgaste inevitável da família Buendía sob o peso de suas tragédias e da modernização. Se a primeira parte focou no Coronel, a segunda parte foca na exploração dos trabalhadores e na tentativa de organização primária sindical diante da corporação que controlava extensões de terras na Colômbia e lucrava pagando pouco e oferencendo formas precárias de trabalho. Se não fosse Gabo, o massacre de 1928 jamais seria deflagrado, haja vista o próprio governo apagou vestígios do massacre das Bananeiras. 

    A importância da adaptação e da obra literária (que é atemporal) é o uso do realismo mágico para deflagrar novamente a tentativa da retirada da soberania dos Países da América Latina pelo imperalismo norte-americano. Lembrar é preciso! O enredo da família Buendía, que diante das fracassadas tentativas de resistir ao destino, repete tragédias e são envolvidos nas tramas políticas do povoado, compõe a trama e o urdume que somos todos nós, latinos. 



    De forma espetacular, o fim da estirpe Buendía nos lembra a inevitável Ouroboros, o ciclo do começo e do fim, na criação e da destruição. Aureliano Babilônia e seu filho Aureliano Rodrigo, diante do fim de Macondo, o último sendo consumido pelas formigas, o bebê de cauda, a tal temida cauda das relações incestuosas. "O primeiro da estirpe está amarrado a uma árvore e o último está sendo comido pelas formigas". Sensacional a adaptação! Atores e atrizes! Direção! Fotografia! TUDO!