sexta-feira, 23 de outubro de 2026

Light Novel - volume 1 Diários de uma apotecária (capítulo 2)

    No capítulo 2 (As duas consortes) da light novel, Diários de uma apotecária, vou abordar algumas informações sobre o funcionamento do palácio interno da ficção e tentar conciliar com a minha formação acadêmica (História). Claro que, disponibilizando meus devaneios. Caso você não conheça, fica a indicação das três versões (temporada 1 na Netflix, temporada 1, 2 e atualmente a 3 na plataforma Crunchyroll da animação japonesa/mangás e light novel). Confesso que as versões impressas não são tão acessíveis pelo valor e o quesito exclusividade tornou o produto mais caro. A versão light novel traduzida aqui no Brasil ainda está no volume 2.

    A primeira imagem (acima), característica do estilo light novel (preto e branco), é de Maomao e Xiaolin no refeitório. A refeição dos servos, sopa e mingau de cereais, já aponta que, a divisão de classes existia desde sempre, pois esse tipo de refeição, historicamente falando, era para servos e camponeses. Na Antiguidade Oriental, já que estamos tratando de um sistema baseado (ou não) no palácio da China/Coreia, a sopa e o mingau de cereais eram a base da alimentação. Não era exclusivo apenas na China, a receita com grãos também era comum para os hebreus, egípcios, mesopotâmicos e outros.



    O que é muito interessante, é que, se citarmos essa receita hoje, ela pode ser algo rejeitado pela estética ou com um valor alto por ser uma culinária diferente. Não é informado os ingredientes da sopa ou do mingau de cereais, apenas que era o desjejum (café-da-manhã para nós). Diferente dos ocidentais, para os orientais, principalmente os chineses, o consumo de alimentos quentes e de fácil absorção logo cedo, era e é medicinal, pois auxilia o despertar do sistema disgestivo. No norte do território chinês, o milhete (painço - imagem acima) era consumido e já no sul úmido, o arroz. Pesquisei os benefícios de vários grãos da culinária asiática e é sensacional. Uma curiosidade, por causa dos mingaus e o seu cozimento, a cerâmica teve o seu desenvolvimento impulsionado na China pré-histórica (Neolítico, mano! Era da Revolução da Agricultura). 



    Beleza! Escrevi demais sobre o desjejum da Maomao e Xiaolin, mas antes de findar a parte culinária, quero citar sobre o chá de ervas com alcaçuz. Em forma de agradecimento pela fofoca do momento, Maomao dá esse chá para Xiaolin, e isso é muito interessante, pois já demonstra que nossa protagonista tem conhecimento apotecários/boticários (são termos históricos e sinônimos que designam o antigo profissional responsável por manipular, preparar e vender remédios, ervas e drogas nas tradicionais boticas, antes da regulamentação da farmácia moderna). Ela faz o chá com plantas que colheu no pátio central (não é qualquer pátio, hein...) e após afirmar que estava com um cheiro forte de remédio, cita que também estava doce. Pois então, aí está o pulo do gato: o alcaçuz. Essa raiz foi consumida no Mediterrâneo, Egito e na China há mais ou menos 2.300 anos atrás. Sua raiz doce contém glicirrizina, um composto que é 50 vezes mais doce que o açúcar da cana. A própria Maomao informa que servas tinham poucas opotunidades de consumir doce e nem precisamos reforçar que o motivo era a posição social delas. 



    Qual era a fofoca entre as servas no refeitório que aproximou Maomao e Xiaolin? Sim, pois Maomao desde o início tem características taciturnas (um adjetivo da língua portuguesa que descreve quem fala pouco, é calado, reservado ou silencioso) e totalmente contrária a tagarela, extrovertida e animada Xiaolin. A fofoca é a frequência do médicon real em visitar as consortes, Lihua e Gyokuyou, sendo mais frequente em visitar a primeira. Pois bem, Lihua teve um filho (sexo masculino!) e Gyukuyou teve uma menina, logo explica a frequência das visitas. Por mais que, os filhos e as filhas das consortes fossem herdeiros do imperador, apenas os filhos poderiam substituir o imperador. Maomao descartou a hipótese de envenenamento, pois nas mortes passadas, duas eram meninas e um era menino (filhos de outras consortes). Para ela, não fazia sentido envenenar princesas. Maldição? Maomao odeia essa linha de raciocínio sobrenatural e vai rejeitar essa visão sempre. 



    Quem são essas consortes de alto escalão? Na ficção, temos quatro nessa posição de importância. Nesse capítulo, sabemos que Lihua (imagem abaixo) tem o maior pavilhão e naquele momento, era a mulher mais poderosa ali, pois era mãe de um menino. Mas, o fato de ser a consorte do maior pavilhão, é anterior ao nascimento do herdeiro do imperador (acho que soltei um spoiler na postagem anterior). Gyokuyou, é a preferida do imperador e tem sangue do oeste. A localização da capital ocidental justifica os traços da consorte de cabelos vermelhos e olhos verdes. Mas, por agora, não vou me prolongar, os debates sobre a origem dela são extensos e interessantes (. A ficção apenas na 3ª temporada e mais ou menos 5º volulme light novel, demonstraram a importância do clã de Gyokuyou). 


    Bem, Maomao fica interessada nessa fofoca e após os sintomas dos herdeiros serem citados, ela precisa verificar o que está acontecendo (a curiosidade matou o gato e como Maomao significa gato, o ditado diz muito sobre a nossa protagonista). Ela troca de lugar com uma lavadora de seda do pátio oeste, já que ela é do pátio leste. Cita uma curiosidade sobre a deteriorização da seda, tecido nobre, e que à sombra, seca sem danificar. São informações bobas que passam despercebidas, mas que na época, faziam toda a diferença, principalmente para uma garota qualquer de 17 anos. 


    Essa serva do pátio oeste, troca de lugar sem exitar, pois quer ver o eunuco com beleza extraordinária, e mais uma vez, Maomao fala das possiblidades de casamento com eunucos. Se do lado de fora do pátio interno, ser sequestrada para ser algo em relação ao eunuco era rejeitado e temido, do lado de dentro, era a única esperança para as damas da corte quando deixassem o trabalho. As damas da corte tinham uma função diferente das servas, mesmo que cuidassem de serviços domésticos e higiene pessoal da princesa, consorte ou alguém de linhagem nobre. Interessante essa informação logo de início, pois o que mais eu escuto, são desejos de que Maomao tenha um romance com mulher ou com esse eunuco de beleza extraordinária que vou apresentar nas próximas postagens. 

    "Volta e meia era possível ouvir sobre damas da corte que se tornariam esposas de eunucos quando deixassem seu trabalho. isso, presumivelmente, era considerado mais salutar do que se sentirem atraídas pelo gênero feminino, mas Maomao realmente não conseguia compreender. Será que um dia eu vou acabar me tornando como elas? Diante da pergunta retórica, Maomao cruzou os braços em grunhiu. Ela não tinha esse tipo de interesse." Provavelmente a autora se refere aos rompantes apaixonados, pois se ela ainda não era dama da corte, como serva, não poderia desejar um casamento com eunuco. Meu devaneio, Mas algo fica claro já de início, Maomao não tem interesses românticos. A cobrança do público é desproporcional, se levarmos em conta que não é o centro da trama. 




    Maomao chega dentro do pátio central das consortes de alto escalão pela "primeira" vez. Então, ela percebeu algo na estética da consorte Lihua, a palidez. Citei na postagem do volume 1 Capítulo 1 Light novel que Maomao acabou se tornando serva por ser magra e ter a pele natural. Maquiagem não era algo barato e ter a pele páilda significava que aquela mulher era da nobreza ou da elite, pois não precisava trabalhar ao ar livre. Em poemas antigos, a pele clara era relacionada a elementos da natureza como neve e jade. 


    Para obter essa brancura extrema, os cosméticos continham pó de chumbo sintético e por mais que já existisse uma base de farinha de arroz, o chumbo tinha uma melhor aderência, opacidade convicente e cobertura perfeita. Como a morte das crianças na ficção foi na fase de amamentação, nem precisamos escrever muito sobre a contaminação de mãe para filho. Essa questão da maquiagem não foi algo exclusivo do Oriente, também alcançou o ocidente (seja para definir classe social ou disfarçar doenças), pois as trocas culturais, acompanharam as comerciais durante a História da Humanidade. Só para acrescentar, que alguns itens de maquiagem, surgiram com objetivos de proteção, por exemplo, o batom e o kajal no Egito antigo. 

Rainha Elizabeth para esconder as cicatrizes deixadas pela varíola que contraiu em 1562 e projetar uma imagem pálida de pureza ("Rainha Virgem"), ela usava uma pasta branca feita de chumbo branco misturado com vinagre.

    Bom, o episódio das consortes acontece no pátio central e uma observação para findar essa postagem é a descrição dos entalhes e pilares. Para quem já assistiu a animação japonesa, deve ter percebido a arquitetura, que por mais que, se assemelhe a Cidade Proibida da China (teve esse nome, pois apenas o imperador podia acessar), tem mesclagens de alguns períodos da China e Japão. Deixo o link aqui para verificar a fala da autora sobre essa questão Natsu Hyuga e ambientação. Logo, vamos para o capítulo 3. Sem pressa, pelo menos por aqui. 


terça-feira, 20 de outubro de 2026

O diabo veste prada 2 - devaneios de uma decepção

     Não assisti o filme O diabo veste prada 2 (2026) no cinema. Hoje, eu sou muito controlada sobre o "hype" (é uma grande expectativa ou alvoroço gerado em torno de um produto, lançamento, evento ou tendência que está "bombando" nas redes sociais e na mídia virtual) de certos lançamentos cinematográficos. Mas, vamos lá! O diabo veste prada 1 foi lançado em 2006 e eu te pergunto: quantos anos você tinha? Eu tinha 29 anos. Na onda dos blogs (esse aqui é de 2007), vlogs, facebook, orkut e memes, quem nunca conheceu Miranda julgando as vestes de alguém? 




    O que eu quero dizer, é que, o filme atravessou gerações e sem ninguém esperar, divulgaram o 2º volume baseado (assim como o volume 1) no livro de Lauren Weisberger, que era assistente da poderosa Anna Wintour da revista de moda, Vogue. Muitas de nós nunca tivemos contato com essa revista, mas a maioria de nós, sabíamos e sabemos quem é a Miranda Priestly (Meryl Streep) e a evolução de Andrea Sachs (Anne Hathaway) e a sua decisão em não pertencer a esse mundo tóxico da moda (final filme 1). Pois bem ... 


    Peguei um dia e resolvi assistir via streaming o volume 2, lançado em 2026, com uma certa expectativa sobre o desenvolvimento dos personagens. Talvez aí, eu tenha errado feio. Não li e não sei se seguiu o livro ou seguiu a liberdade do diretor (mesma equipe em ambas as produções - diretor David Frankel e produção Wendy Fineirman). Mas, confesso que esperava mais de uma personagem em especial e isso tem uma relação direta com o meu devaneio. Quando findou o "volume" 1 e Andrea Sachs se afastou de Miranda Priestly (Meryl Streep), puts! Pensei: ela vai se tornar uma mulher pica das galáxias! 

Meryl Streep e Anna Wintour

    O diabo veste prada 2 aborda o declínio da mídia impressa, e isso, eu entendo bem. Parte da geração que teve acesso às notícias via mídia impressa e agora via digital, entendo bem o conflito apresentado. Claro que não é só isso que é apresentado, acredito que posso usar como exemplo o último desfile (18/out/2026) da Victoria´s secret Fashion Show 2026 em Los Angeles EUA, quando Kylie Jenner foi escolhida para desfilar com o sutiã de US$ 50 milhões. Não interessa as modelos experientes, o que importa atualmente, é o número de seguidores. A influência virtual passou por cima da experiência nas passarelas. Esse complemento é apenas para demonstrar que a arte sempre vai demonstrar a sociedade na qual estamos inseridos. O conflito entre gerações e aquilo que cada uma dá importância é apresentado no volume 2. 

Kylie Jenner - desfile Victoria´s Secrets Fashion Show 2026

        A moda é mais política do que deduzimos! 

     Pois bem! Andrea Sachs (Anne Hathaway), ex-assistente de Miranda na versão 1, perde o cargo de assistente da Runway e de forma atropelada, retorna ao contato com a antiga chefe. Nessa versão, ela se torna a salvadora de equipe do antigo emprego (Runway) e eu esperava muito dela. A decepção foi grande. Insegura, despreparada e vítima do acaso, acaba resolvendo questões, com uma bondade ingênua, da sua antiga chefe. Sem vínculo algum, se liga a antiga chefe e a colega, Emily (Emily Blunt), sem que ninguém peça. Qual o problema em deixar Miranda se lascar? 

    Não vou ler o desabafo biográfico de Lauren, mas confesso que gostaria muito de não ter assistido. Vinte anos depois, a ex-assistente da poderosa Miranda, gagueja e é enganada por Emily, sua ex-colega soberba de trabalho. Só uma observação: todas entregam muito! Mas o roteiro é estranho diante do desfecho do filme de 2006. Aparece até um affair para Andrea, mas, para mim, é Emily que está bem inserida no meio da moda com filhos e ex-marido. Miranda, diante de um herdeiro e mudanças de geração, acaba participando de um quarto menos melhor que parece ser uma crise econômica. (e não é! A geração nutella que deseja comandar). Quanto atropelo!


     Claro que é de muito bom tom citar Amari (Simone Ashley), demonstrando que, por mais que a mídia de comunicação mude, o padrão (tóxico) continua intacto. Esse local foi muito bem interpretado por Emily na versão 1. Sem contar que, o talentoso Nigel (Stanley Tucci), tão desprezado por Miranda, precisou do heroísmo de Andrea para ocupar o seu lugar de merecimento, caso contrário, mesmo criticando as vestes promocionais (leia-se BRECHÓ) de Andrea, continuaria na sombra. 


    Na verdade, todos nós fomos vítimas de traillers que prometeram muito e de ações promocionais de influencers midiáticos que juraram valer a pena. Mas, no meu caso, nada disso tem culpa. Eu absorvi o desfecho da versão de 2006 e esperava muito mais de Andrea Sachs. Os demais personagens, nenhum susto, mas não quero que me levem muito a sério. São vinte anos e assim como os contos de fada, ninguém sabe o que acontece após o "the end". É um devaneio bem pessoal. 


segunda-feira, 19 de outubro de 2026

Light Novel volume 1 - Diários de uma apotecária (capítulo 1)


    Que eu amo a Maomao, é sabido por todos! Que já tem um tempo que eu desejo escrever sobre ela aqui, talvez nem todos saibam. Diários de uma apotecária ganhou o mundo após o lançamentos da 1º temporada na Netflix  (1ª e 2ª e desde outubro/2026 a 3ª temporada na plataforma Crunchyroll). A versão mangá e light novel traduzida para o português demorou um pouco a chegar para os fãs no Brasil. Então, a maioria de nós conhecemos primeiro a Maomao versão anime, e realmente não sei o número de pessoas que conheceram também a versão mangá e por último, a versão light novel. As três versões são maravilhosas, mas confesso que a versão light novel é sensacional. 



    Uma light novel é um estilo de literatura de origem japonesa com ilustrações esparsas no estilo com o mangá. O estilo pode ser romance, ação ou fantasia. O que diferencia do livro é o tamanho do paragráfo e a linguagem que é mais simples, pois seu público em geral são adolescentes e jovens. Já o livro tradicional pode ter a linguagem mais densa ou erudita. Não é uma romance curto, e sim, um estilo narrativo. Surgiu no Japão na década de 90 e atualmente rompeu a bolha e globalizou o estilo para vários países. Importante essa introdução, pois vamos ter alguns detalhes precisos, como por exemplo, a tradução, a editora e isso pode influenciar no resultado final. Explicarei mais pra frente usando o exemplo da tradução e significado de "concubina" e "consorte". 


   Mesmo tendo lido até o volume 8 do mangá (Editora Panini) e estar acompanhando a 3º temporada, escreverei aqui a partir da leitura que estou fazendo da versão light novel (Editora Globo Alt, 2026). Partirei do início em comum nos três estilos, o sequestro da protagonista que foi vendida para a corte imperial enquanto procurava ervas na floresta.  Maomao, que morava com o pai adotivo, um apotecário muito competente, e que foi expulso da corte imperial,  vai contra a sua vontade ser uma serviçal no palácio interno. 

Cidade Proibida (Pequim, China, século VXII - assim como na obra ficcional, apenas imperadores e pessoas permitidas podiam adentrar na corte imperial)

    Meninas frequentemente eram sequestradas (China Era Ming 1368-1644) para a corte imperial, seja para arranjo matrimonial, seja para trabalhos domésticos na corte ou como filhas substitutas de eunucos. Os eunucos existiam desde as civilizações antigas, constando sua existência em registros históricos desde o século XIV a.C.  A prática da castração de um homem tinha como objetivo não ser possível a prática sexual nos haréns ou cortes reais em qualquer função de confiança. Escravizados ou contratados, esses homens poderiam ser guardas, camareiros, espiões e até comandantes militares. Nos séculos XVI e XVIII, na Europa, adolescentes eram castrados para manterem vozes agudas (os castrati). 



    Para quem já conhece o eunuco com beleza de ninfa da corte imperial que vai ter um papel fundamental juntamente com Maomao, só uma informação sem spoiler: faz muito sentido a beleza andrógina de Jinshi.  A castração alterava o desenvolvimento hormonal, impedindo a puberdade masculina com as características mais masculinizadas. Para quem é cristão, certamente já leu sobre os eunucos na Bíblia (Gn 40:02, 2Rs 23:11, 2Rs 25:19, Jr 52:25, Dn 1:11, Mt 19: 11, 12). A intenção não é explicar muito a parte biológica e funcional dos eunucos, mas no início da light novel, Maomao comenta sobre meninas que eram sequestradas para serem substitutas das filhas dos eunucos. 
    
    Na China imperial e na Coreia (Reino de Joseon - 1392 a 1897), eunucos do alto escalão poderiam ser ricos e até se casavam. A adoção era uma possibilidade viável, já que biologicamente, os eunucos eram estéreis devido à castração. O objetivo não era apenas a herança, mas arrumar alguém que cuidasse do eunuco durante a velhice e realizasse os ritos tradicionais de culto aos ancestrais. Em algumas culturas asiáticas, a prática espiritual de cultuar os mortos é fortemente enraizada, assim como a crença de que os falecidos continuam a existir e têm o poder de influenciar a vida dos seus descendentes. Sem contar que a figura masculina era veemente cultuada no pós-morte, então o sequestro dessas jovens tinha uma importância muito lógica para a época. 


    É nesse contexto que Maomao foi habitar no palácio interno, entre consortes, mulheres da corte, eunucos e serviçais. Um séquito de 3.000 pessoas, conforme a própria protagonista nos informou. Recebia-se um salário pelo serviço prestado, já que Maomao não foi selecionada para matrimônio arranjado e nem como substituta de filha de algum eunuco. O motivo, ela mesma nos informou no primeiro capítulo: não tinha corpo voluptuoso e nem pele branca, logo não servia nem para concubina de baixo escalão. Maomao tem uma pele saudável e sardenta e ela é muito magra. Interessante a citação da sua pele saudável, pois já liga ao primeiro mistério que ela vai solucionar e mudar a sua trajetória no palácio interno. A fixação por uma pele muito branca era um preço muito alto que falaremos mais pra frente (aqui, apenas o volume 1 introdutório). 



    Maomao usava o traje da imagem acima, e o vestuário era algo que indicava a posição da pessoa naquela sociedade. Para quem é distraído, pode passar desapercebido as roupas usadas pela protagonista durante a trama, mas conforme ela mudava de função, mudava de posição e de veste. Ela, além do salário recebido, que parte iria para os sequestradores, também poderia receber a liberdade em um tempo após serviços prestados. Nossa protagonista começou lavando roupas no pátio central nos fundos da construção (não é óbvio na leitura que construção é essa). 

    Na light novel, há uma separação complexa das palavras consorte e imperatriz, e isso vai muito da tradução e da editora. A animação apresenta apenas as quatro consortes de alto escalão do imperador, mas a light novel nos apresenta outras posições e como funcionava a ascensão dessas consortes. Ficamos sabendo que na posição de consorte de baixo escalão, era possível receber um quarto luxuoso com direito a duas damas de companhia e que o quarto era provavelmente  da filha de um comerciante rico. 

    O local que essas "consortes de baixo escalão" habitavam, era distante para ser visto pelo imperador e serem vistas, era a possibilidade de subir na hierarquia de importância. Se ele (imperador) passasse uma noite com uma consorte de baixo escalão, essa mulher poderia mudar de aposento. Se acontecesse de ter uma segunda noite com o imperador, seria a ascensão desejada por elas para uma posição que ia além da mudança de quarto. 

    As relações eram complexas e o funcionamento respeitava uma hierarquia cultural dentro do palácio interno. Para essa posição citada no parágrado anterior,  as serviçais não respondiam a uma senhora específica, então, Maomao lavava roupas de algumas consortes em troca de salário. Caso essas mulheres passassem da idade, o imperador fazia arranjos matrimoniais com membros da corte e somos informados que o grande temor era ser entregue a um eunuco. Se por via de regra, era proibido o acesso de homens e apenas o imperador, parentes consanguíneos e eunucos tinham autorização para circular no palácio interno, essas casamentos eram feitos âs cegas. 

    Importante finalizar com o significado consorte que aparece nas três versões (anime mangá e light novel), pois o significado pode variar bastante até nas animações japonesas. A consorte era a esposa com título e posição oficial, mas para nós (nas três versões), é apresentada como imperatriz. Confesso que é bem confuso para nós que não temos essa cultura como herança. 


    Nas cortes antigas orientais, essas consortes eram as concubinas, divididas por graus de importância e muitas ocupavam essa posição como parte de aliança política entre o rei e a família (a consorte Lihua, por exemplo, tem parentesco com o imperador, enquanto que, Gyokuyou é a representante do Ocidente, com relações comerciais consideráveis).  Acredito que a escolha, talvez da própria autora ou da editora em não usar a palavra concubina, tenha sido proposital, pois acabamos lembrando muito de hárens. Devaneio meu! 


    No ocidente, reis não tinha concubinas ou consortes no modelo oriental. Eles tinham amantes reais com influências políticas consideráveis (Madame de Pompadour, Diane de Poitiers, Domitila...). Já nos Diários de uma apotecária, em nenhum momento as consortes se envolvem diretamente com a política do reino (pelo menos até agora dentro do meu conhecimento e leitura), a grande preocupação era gerar um herdeiro para o imperador e de preferência do sexo masculino. 

    Deixemos claro que, a autora não está nos apresentando um retrato fidedigno dos reinos orientais, e sim, uma corte com características próprias. Na História real, existiram concubinas que se tornaram consortes (Roxelana, Wu Zetian, Cixi, Yang Guifei...) e se tornaram mulheres poderosas, mas isso é assunto para outro momento. 

 

 

quinta-feira, 15 de outubro de 2026

Mandakaru No Hana - Volume 1

     


    Apenas hoje tive o privilégio de ler o volume 1 das aventuras do cangaceiro samurai Mandakaru No Hana (2026). Escrito pelo artista e autor, Luissandro Almeida, a obra é uma mescla das culturas brasileira e japonesa. Para quem é de Brasília, como eu, vai sentir uma conexão durante a leitura. Para quem não é, fica essa dica de literatura que mistura daimyôs de um Congresso Feudal que, enriqueceram às custas de candangos explorados na construção e continuam enriquecendo mantendo os vários povos que habitam nessa cidade reimaginada. Nada distante da realidade.


    Talvez os termos não sejm conhecidos por todos que acessam os meus devaneios, então por isso, algumas observações. Um daimyô, no Japão feudal, era um poderoso senhor proprietário de terras e líder militar. Já o termo candango, com origem africana, tinha um significado ruim e passou por várias transformações. Resumidamente, com o passar do tempo, era um rótulo depreciativo em relaçao aos operários que vieram do Nordeste e do Norte para construir Brasília entre 1956 e 1960. Só que se tornou um signicado de bravura e orgulho. Nós que aqui nascemos, não somos candangos, somos brasilienses. Em Brasília tem  uma homenagem a esses construtores do escultor Bruno Giorgi (1905-1993), chamada Os Operários. 



    Recém chegado em Brasília, após auxiliar no Norte a Bruxa Branca em uma revolução, Mandakaru enfrenta uma luta corporal com um personagem que lembra muito o Dhalsim do jogo Street Fighter. O que mais eu apreciei na leitura, foi essa possibilidade de fazer várias releituras. Meus devaneios, claro! Durante a luta de espada versus facão, temos algumas informações introdutórias sobre o protagonista. 


    Após vencer o oponente, descobrimos que o perdedor faz parte do bando da Coral, moradora do entorno que, com seus parceiros participaram do "Levante". Já incomodei o autor querendo saber desse "Levante" e vai ficar para os próximos volumes 😒. Na primeira leitura,  eu defini Coral como descendente da comunidade japonesa por suas vestes e o uso de uma espada que lembra uma katana. Até divulguei nos meus stories ela como estrangeira, mas após uma segunda leitura, percebi que os personagens não são tão simples assim de definir. 



    No final da HQ, o autor descreve com mais detalhes alguns personagens, porém deixando dúbio, sugestivo e não afirmando a origem de nenhum personagem 😒. Coral tem os traços indígenas e seus olhos são "rasgados". Ela usa dreads em metade da cabeça e anda descalça. Sua roupa é um Yukata, uma vestimenta japonesa usada no verão que é mais leve em relação ao kimono tradicional. A vestimenta na HQ foi adaptada, diminuindo o comprimento e introduzindo um short rendado. Roupa que eu usaria tranquilamente no meu dia-a-dia. 

    A máscara foi inspirada em uma Neko (gata) e adaptada para a nossa fauna brasileira em forma de onça pintada. Eu lembrei muito do Maneki-neko, o gato da sorte com a mão levantada para atrair boas vendas. Uma mescla total no figurino e estilo da Coral, o puro suco do povo brasileiro. Vai acontecer o mesmo com os outros personagens e isso é  muito digno de um desfile de moda e lançamento de tendências. As máscaras também são sensacionais e se eu for descrever todas, vai ficar cansativo. Então já indico que você leia e veja se os meus devaneios fazem sentido. 



     Após mais lutas com outros personagens na Torre de TV (construída em 1967) Coral e Mandakaru trocam dialógos de apresentação após ele vencer todos do bando. Começa então as denúncias sociais que mesclam os candangos durante a construção da Capital com as gerações no presente que estão submetidos a viver à margem no entorno da cidade e sem acesso aos direitos básicos. Coral deseja Mandakaru como aliado e se apresenta com várias habilidades além da persuasão. Ela vai usar algumas habilidades ... sendo que a última me pegou de surpresa.


    Uma baiana (do nada!) anuncia o fim de uma votação no Congresso e ficamos sabendo de um decreto do Inutilismo que vai ser colocado em prática sem o conhecimento da população e com a participação dos militares. É uma tentativa de eugenia aos menos favorecidos. O bando deixa suas diferenças de lado com o protagonista e começa a ação em prol do coletivo. Muitas surpresas boas e ruins, relacionadas com a causa ou a vida particular de Mandakaru, acontecerão até o final do 1º volume. 



    São muitos personagens com figurinos sensacionais que carregam culturas em cada acessório escolhido. A descrição de cada item usado por Mandakaru também é explicado no final da leitura. Temos até Língua de Sinais e personagem surdo. Está muito bacana. 


  
    Você pode ler gratuitamente no https://karikari.app/obra/mandakaru-no-hana, mas nós sabemos que autores independentes no Brasil precisam de ajuda e apoio para continuar produzindo. Então fica a dica para a aquisição do livro físico: Loja Virtual ou no instagram https://www.instagram.com/mandakarunohana/ do autor. Em SP, na Vila Mariana tem a @livraria_comicoff.  Aqui em Brasília tem a galera da Gibitek https://www.gibitek.com.br/ instagram https://www.instagram.com/gibitek/

segunda-feira, 12 de outubro de 2026

Katseye

 


    Eu tenho uma teoria comigo que é a seguinte: sem explorar o mundo do outro, o processo educativo é mais demorado. Bem Paulo Freire (amo!). Minhas alunas e meus alunos amam K-Pop. Decidi assistir o documentário sobre a formação do grupo global Katseye. Dormi com raiva! 

    A grosso modo, foi uma escolha em um show de talentos e a seleção nos demonstra essa indústria que dominou há tempos, a saber, K-Pop. Bom, não é um grupo exportado da Coreia do Sul de K-Pop. É tipo "sabor" K-pop, porém com integrantes do mundo todo. 

    Como sou uma conhecedora tardia e só conheci pela Duda (Leandro e Juliana) e minhas meninas do 8º B que são mentoras firmes, assisti e no final super entendo o hiato da Manon e Sophia. É puxado! Mas, não muito a declarar. Apenas a indicar a adultos que querem conhecer os ídolos que muitas e muitos estão venerando pela onda Tik-Tok e o bom trabalho dessas agências. 


    Obs: concordo com as polêmicas 2026! Estão sexualizando demais essas meninas e já na seleção, a produção demonstrou sugar demais delas. Que fiquem bem! 

Beleza Plástica - Netflix

 O Brasil  no ano de 2020 foi o País que mais fez cirurgias plásticas, sendo seguido pelos EUA e México. Parece que, a grosso modo, essa quadro mudou em 2024, quando EUA assumiram a liderança. Dentro desse debate se, devemos ou não, aceitarmos características físicas herdadas pela genética dos nossos pais, a Netflix lançou em setembro/2026 o J-Drama Beleza Plástica (Plastic Beauty). Longe de mim criticar quem se modifica pelo procedimento cirúrgico, só me falta dinheiro! Porém, as reflexões dentro do J-Drama são interessantes, apesar de focar mais no conflito familiar das famílias envolvidas. 


    Comecemos pela visão dos médicos envolvidos na ficção que são contrários aqueles que modificam corpos alheios. Então, em um contexto de conflito familiar e de dívidas, a médica Fumi Numata (Mayu Matsuoka) acaba sendo obrigada a trabalhar na poderosa clínica Toyama do aposentado cirurgião "A mão de Deus". Sua filha, Rin Toyama (Riisa Naka), sucessora da Mão de Deus, é a diretora e chefe da recém contratada Fumi. A princípio, parece ser escrupulosa e interessada apenas no resultado financeiro. Mas, como o passar dos episódios, começamos a perceber que, sua escolha por modificar corpos insatisfeitos, faz parte de um olhar humano sobre quem se olha todos os dias com sofrimento em relação a própria aparência. 

    No meio desse debate ético, temos reflexões sobre alcoolismo, cirurgia estética, padrões japoneses que, ainda que diferentes da nossa cultura brasileira, são dignos de reflexão, e a cada episódio, percebemos que, podemos mudar o nosso posicionamento a partir do momento que decidimos analisar o outro a partir do seu lugar de dor. Citemos a idosa com câncer terminal (não vou dar spoiler). 

    A finalização da série foca mais nos impasses familiares dos núcleos envolvidos. Tentei ao máximo não odiar o presidente Arata Toyama (Atsuro Watabe) pela sua infância e decisões, mas, infelizmente, não deu. Para mim, ele é o grande egoísta! A paciente que ficou cega (Sara), na mesa de procedimento com a Rin, precisamos de uma segunda temporada, pois para mim, prestei bastante atenção que ela tinha problema ocular antes da cirurgia e é uma grande FDP! 

    Seja como for, estamos passando por um momento de harmonizações e canetas emagrecedoras em cada canto da cidade. Volto a repetir, não é uma crítica. A série é muito boa em nos demonstrar esse olhar sobre o que a maioria julga como "desnecessário". Eu, pelo menos, finalizei como outro olhar. Finalizo com a crisálida, muito citada pela clínica Toyama. O processo durante a recuperação pós operatório cirúrgico, esperar as transformações após a mudança. Torço muito para que a Netflix produza uma 2ª temporada. 



sábado, 5 de setembro de 2026

Cem anos de solidão (livro e Netflix)

 

    Antes de qualquer coisa, quero avisar que li a obra do autor colombiano, Gabriel García Márquez (Prêmio Nobel da Literatura 1982) duas vezes. Reeiltura. A primeira vez, foi um devoro desproporcional da obra prima que tinha em minhas mãos, e a segunda, um pouco mais lenta e sem tanta paixão. 

    Pois bem! A Netflix adaptou a obra literária em duas partes e vale ressaltar que, Gabo nunca quis saber disso, pois queria preservar a imaginação dos seus leitores (em todos os livros escritos por ele). Sim, é algo bem preciso (imaginação), logo, a sra. Netflix recorreu aos filhos do escritor, Rodrigo García Barcha e Gonzalo García Barcha, que decidiram vender os direitos para a Netflix em 2019. Nós, leitores obcecados, ficamos apreensivos. 

    A bonita prometeu e entregou! Para começar, é bom informar que a obra em suas duas versões, faz parte do estilo literário Realismo Mágico. O que torna sensacional, pois mescla a  naturalidade do absurdo, raízes culturais, crítica social e política. De cabeça, posso indicar Memórias Póstumas de Brás Cubas (1881), Machado de Assis (1839-1908) e Incidentes em Antares (1970) de Erico Verissímo (1905-1975). Indico os dois!


    A primeira parte da obra da Netflix, apresentou a fundação de Macondo e da família Buendía. Finda com as questões ideológicas do Coronel Aureliano Buendía e suas guerras. Só não podemos esquecer que as 32 guerras civis lideradas pelo coronel contra o regime conservador na obra da Netflix, refletem a instabilidade política crônica dos países latino-americanos no século XIX e início do século XX. Assim como os conflitos reais na Colômbia (como a Guerra dos Mil Dias), as lutas do coronel esvaziam-se de ideologia original e viram um ciclo mecânico de violência e poder pelo poder.

    A segunda parte da adaptação de Cem Anos de Solidão na Netflix retrata a profunda transformação de Macondo e o desgaste inevitável da família Buendía sob o peso de suas tragédias e da modernização. Se a primeira parte focou no Coronel, a segunda parte foca na exploração dos trabalhadores e na tentativa de organização primária sindical diante da corporação que controlava extensões de terras na Colômbia e lucrava pagando pouco e oferencendo formas precárias de trabalho. Se não fosse Gabo, o massacre de 1928 jamais seria deflagrado, haja vista o próprio governo apagou vestígios do massacre das Bananeiras. 

    A importância da adaptação e da obra literária (que é atemporal) é o uso do realismo mágico para deflagrar novamente a tentativa da retirada da soberania dos Países da América Latina pelo imperalismo norte-americano. Lembrar é preciso! O enredo da família Buendía, que diante das fracassadas tentativas de resistir ao destino, repete tragédias e são envolvidos nas tramas políticas do povoado, compõe a trama e o urdume que somos todos nós, latinos. 



    De forma espetacular, o fim da estirpe Buendía nos lembra a inevitável Ouroboros, o ciclo do começo e do fim, na criação e da destruição. Aureliano Babilônia e seu filho Aureliano Rodrigo, diante do fim de Macondo, o último sendo consumido pelas formigas, o bebê de cauda, a tal temida cauda das relações incestuosas. "O primeiro da estirpe está amarrado a uma árvore e o último está sendo comido pelas formigas". Sensacional a adaptação! Atores e atrizes! Direção! Fotografia! TUDO! 


domingo, 5 de julho de 2026

Disputa em Tokyo: a corrida do Edo/Heliot G. Lima

 

Link Livro Amazon

    Essa resenha deveria ter saído há mais tempo, mas confesso que eu absorvi a leitura de uma maneira bem particular. Explico! Primeiro, tive acesso em período turbulento de faculdade e estágio obrigatório e é um livro recheado de detalhes culturais. Não dá pra ler sem um caderno de anotações e sem um tempo hábil pela excelência da escrita. Outro detalhe importante: é um livro escrito por um amigo aqui de Brasília (que inclusive está escrevendo seu segundo livro), o autor Heliot G. Lima Link Ebook Amazon @disputaemtokyo Instagram 

    A aventura começa quando o atual  imperador japonês, após a reconstrução de um antigo rio da capital japonesa, Tokyo, resolve fazer uma disputa para escolher os novos protetores do lendário Rio Edo. Mas, tal corrida vai trazer à tona antigos conflitos que envolvem os atuais participantes. Não apenas conflitos, mas a ganância de poderosos que, aliada às inovações tecnológicas, anseiam em lucrar com as águas milenares do rio. Ser parte dos clãs protetores é a melhor oportunidade para alcançar o objetivo da rica e poderosa família Fuuté e se preparem para conhecer métodos desonestos para alcançar o objetivo, ter o domínio do Rio Edo. 

Antigo local de Edo e atual localização de Tóquio

    Nessa fantasia, conhecemos as irmãs Toshiko e Harumy, parte do clã Nawa, acusado de ser o responsável pela extinção completa da Rio. Sim, o curso do rio foi afetado pelas catástrofes da região e com o passar do tempo as nascentes foram soterradas e suas águas contaminadas. O crescimento da cidade também afetou a tradicional "serpente azul que cuspia arco-íris" e com o passar das gerações e avanço da tecnologia, muitos duvidavam da existência no passado desses clãs protetores. A disputa se dá após a ação do imperador e emergir o Rio Edo e os templos que ficavam à margem do "dragão azul". 

Edo: a barragem do rio Otonashioji. Impressão japonesa de Utagawa Hiroshige (1797-1858) século XIX. Coleção particular.

    Para além de restabeler um patrimônio material, o imperador procurava anular intermediários capitalistas sobre o Rio. Por isso, os descendentes dos clãs protetores foram convocados para uma corrida no próprio Rio. É aqui que os destinos se encontram, ligando as irmãs com os jovens Catatau e Ken Tetsuo, divulgadores de vídeos sensacionalistas na web. Ken, um jovem paulistano e Catatau, brasiliense da Capital do Brasil, caem de paraquedas e auxiliam as irmãs não apenas a avançar na corrida, mas a combater as táticas assassinas da Corporação Fuuté. 


    Essa corporação não conta apenas com forças humanas, mas com o auxílio de máquinas que desejam o extermínio da raça humana. É nessa ficção científica e aventura fantasiosa que vamos conhecer detalhes da cultura nipônica. A riqueza de detalhes da mitologia, arquitetura, costumes, hidrografia, lutas marciais tornam o enredo uma enciclopédia rica para os leitores que apreciam o universo japonês. O autor demonstra todo o seu conhecimento baseado em seus estudos na antiga capital japonesa, apresentando para nós detalhes das Eras passadas e características de drenagem e conservação dos canais hidrográficos. São 360 páginas de muita contribuição e se preparem para a reviravolta inesperada (pelo menos por mim) do final. Indico!