sábado, 10 de janeiro de 2026

A hora da Estrela (Sobre o livro, filme e Clarice)

 Asssiti nos primeiros dias de janeiro pela milésima vez A hora da Estrela (1985) que chegou final do ano passado na Netiflix. Confesso que se não estivesse tão atarefada, daria o prazer da leitura de uma obra ímpar que foi lançada no ano do meu nascimento, 1977. Quando li a primeira vez, eu era estudante e a leitura era obrigatória. Até hoje como um flasback da primeira leitura, a única lembrança que tenho é da aspirina. Mas, vamos por partes. De lá pra cá eu aprendi muito sobre Macabéa, o contexto histórico e Clarice Lispector. Inclusive, é uma obra autobiográfica, o último romance da autora e faz parte da Terceira Geração Modernista. 


    Na adaptação literária para o cinema, não temos o narrador Rodrigo S.M. Claro que faz falta quando o assunto é compreender a mente da autora, Clarice Lispector. Mas ao escolher a atriz Marcélia de Souza Cartaxo, que, inclusive, fez seu primeiro papel, a diretora conseguiu transmitir o sentimento de inadequação. Conhecendo um pouco a autora, e, assistindo várias vezes a sua última entrevista, Macábea (filme) e Clarice (autora) estão em sintonia. Clarice Lispector e Macabéa entrevista

    Sei que muitos leitores não vão concordar comigo, mas eu compreendi muito uma protagonista após a adaptação literária para o cinema. Confesso que só aconteceu duas vezes: A hora da estrela (1985) e Orgulho e Preconceito (2005). Me pergunto se tivesse um remake ou uma nova adaptação, quem poderia ser a atriz escolhida? Alguma sugestão? Na era dos influencer com mais seguidores, eu não quero que alguma tragédia possa corromper essas duas obras primas. 

    Macabéa é uma pessoinha que dá vontade de colocar no bolso e não deixar sair para enfrentar os problemas da cidade grande. Nordestina, 19 anos, órfã, virgem, alheia a tudo e a todos. Ela é alheia até sobre o cheio que exala ou a opinião negativa que alguém pode ter sobre a sua aparência. Ela apenas acorda e vai trabalhar. Datilógrafa (eu fiz esse curso!), aceita o salário mínimo em um pequeno escritório após a morte da sua tia. Ela não tem interesse no Rio de Janeiro. Ela começa a se interessar aos poucos pelo pequeno núcleo que está ali a sua volta. 


    Quando o assunto for a análise tanto do livro quanto do filme, é importante o olhar humano sobre a crítica social e existencial que expõe a invisibilidade dos oprimidos na cidade grande. Macabéa, assim como José Olimpo, são personificações de pessoas que saíram de um local para outro em busca de uma sobrevivência e o que diferencia um do outro é a falta de perspectiva da protagonista. A publicação pode ter sido no século passado, mas os diálogos são atuais: cabelo "crespo", preconceito, padrão de beleza, aborto, machismo, racismo, sexualidade, anseios, marginalizados, trabalho, exploração e etc. 


    Macabéa não se percebe e quando começa a questionar é criticada. Ela é alheia e isso permite conviver em uma nova realidade, seja moradia ou trabalho. É aceita, ou melhor, tolerada por aceitar um salário tão baixo como datilógrafa. Percebe sua colega de trabalho, Glória, e na minha opinião, começa o problema. Quer fazer igual sem os atributos físicos e malícia da colega. Conhece um homem e acha que suas dúvidas podem ser uma forma de dialogar. Porém, o metalúrgico, também ignorante dos temas que Macabéa indaga, prefere diminuir a jovem ao invés de simplesmente afirmar a sua falta de conhecimento. 

    Glória, a mulher também vítima de um sistema que usa o seu corpo e a sua sexualidade, acha como solução tomar a única conquista de Macabéa, o namorado. Mesmo ciente que a sua sexualidade não vai permitir um final romântico feliz, ela opta pela ilusão fornecida pela cartomante. Essa só quer cliente. Clarice Lispector no link fornecido cita a experiência que teve com uma cartomante. No final, todos os personagens parte da massa terminam sem um final feliz. Macabéa tem a sua hora da estrela de forma trágica, afinal, também decidiu acreditar. Ela acreditava em tudo. Eis a sua inocência que foi até o fim. 


Eu gosto do livro. Eu gosto do filme. Eis a minha verdade. Se eu tivesse tempo, estaria aqui lendo novamente, como fiz algumas vezes. Ato que não vai acontecer com o Uma aprendizgem ou livro dos prazeres. De todos os livros e contos, esse, nunca mais. Doeu... Mas eu digo, Clarice Lispector e suas obras precisam ser apresentadas antes. Se na sala de aula? Não sei. Eu terei o maior prazer de apresentar Macabéa antes de dar o play ou indicar a leitura. Indico! 






O Filho de Mil Homens - Valter Hugo Mãe (Netflix/2025)

     Primeirante eu quero começar essa resenha com um desabafo sobre várias coisas que tem relação com o filme a ser abordado. Pra começar, quando fico sabendo sobre a produção de um filme baseado em uma obra literária, eu corro para ver se dá tempo de ler, se é do meu interesse, se já li e coisas de leitor. Bom, nem todo leitor gosta de adaptação, mas vamos lá. Quando foi citado o autor Valter Hugo Mãe só me veio a lembrança de um livro que me deixou com azia literária pelo seu desfecho. Se você citar o autor eu vou lembrar desse livro. A saber: O Remorso de Baltazar Serapião

    Eu não sabia que o impacto literário de O Remorso de Baltazar Serapião era tão forte em mim a ponto de fazer eu esquecer que li O Filho de Mil Homens. Bom, eu explico. Eu tenho duas plataformas de leitura: skoob https://www.skoob.com.br/ e publisko https://publisko.com/. A segunda meio que depende da primeira, pois eu sicronizei as duas e a publisko não faz histórico de leitura, apenas resenhas. Bom, a Skoob passou por uma transição com a Skeelo e não tem mais as datas de leituras antigas. Bom, sumiram vários dados de leituras e históricos e isso me chateou bastante. Já não bastasse esquecer toda uma leitura, eu não tenho mais a segurança virtual para me amparar.

    Escrito todo o desabafo acima, prossigamos com minhas deduções sobre a adaptação em questão. Primeiro, eu tinha que assistir pelo nosso querido ator brasileiro, Rodrigo Santoro. Prata da casa! Eu acompanhei seu desenvolvimento e também quando ele se tornou um ator internacional. Já quero deixar registrado que ele não deixa em nada a desejar no filme. Segundo, adaptação de uma obra (que, ainda que eu não lembre da leitura) de Valter Hugo Mãe. Você já leu esse autor? Ele tem algumas peculiaridades que são deles e de nenhum outro autor. No início do meu contato com ele até o comparei com Saramago, mas são distintos. Não é a questão do uso das minúsculas, é a forma dele escrever temas profundos e delicados. Logo, fiquei bem curiosa pela adaptação. 



SPOILER (é possível que tenha)

    Crisóstomos (Rodrigo Santoro) é um pescador taciturno que tem desejo de ter um filho. Sabe aquele desejo de ocupar um lugar do qual não se tem referência? Ele é um homem solitário que sai para pescar, tem sua casa arrumadinha, faz vendas dos peixes e tem um boneco que significa o filho que ele deseja. Com o desandar do enredo percebemos que ele deseja ser aquilo que não teve, pai. Um dos seus bilhetes pousa na mão certa e Camilo chega para ser seu filho. 

    Bom, Camilo é um menino encontrado bem no início do filme e sabemos durante a trama que é filho de Juliana, a anã da cidade que tinha uma vida sexual ativa com alguns homens da pequena cidade. Camilo não sabe da sua mãe. A avó, que na verdade é a médica parteira, cria Camilo e não conta sobre Juliana. Não vou dar tantos detalhes para evitar ao máximo spoiler. A conexão entre Crisóstomos e Camilo é imediata pela urgência do que falta: um pai e um filho. Assim eles se completam. 

    Camilo aponta uma necessidade a Crisóstomos: uma companheira para o pai. A partir daí surge outro desejo que direciona a outros personagens que vão se conectar na trama do pescador. Antonino, um artista que sofre por sua sexualidade acaba casando com Isaura. Já essa, após entregar sua inocência e sofrer por não escutar a sua mãe, acaba aceitando casar com Antonino. Esses personagens vão se encontrar com a vida do pescador e a relação entre eles vai demonstrar a busca pelo afeto entre pessoas que não fazem parte do padrão da sociedade. 

    O diretor, Daniel Rezende, conseguiu manter a essência do autor nas questões humanas. Camilo, que aprendeu com o avô adotivo o preconceito, precisa desaprender com a simplicidade de Crisóstomos que todos somos iguais em busca do amor. Não há violência no ensinamento, há vivência. Há o ensino da tolerância na convivência. A redenção de Camilo é um momento único diante do que absorve de Crisóstomos:

"Tá vendo todas essas pessoas? Todo mundo é filho de um momento de mãe e pai. A gente vem de tanta gente! É tudo meio-irmão. É tanto sonho que vai passando de um pro outro, que ninguem nunva vai tá sozinho".

Não pense é um melodrama romanceado, a violência diante da sexualidade alheia está estampada a todo tempo. Seja com Antonino, seja com Juliana ou seja com a mãe do próprio Crisóstomos. A solidão protege, mas não preenche. O desejo, quando atendido, precisa ser moldado diante da realidade que cada um dos personagens estão inseridos. Afinal: "quem tanto pede o que lhe pertence, assim o mundo convence". 

As cenas produzidas em Búzios (RJ) e na Chapada Diamantina (BA) foram o toque de Midas. Não sei bem como explicar, mas certas cenas reacenderam na minha memória o cheiro de maresia. Os personagens se comunicam com o silêncio e isso é afirmar que a escolha dos atores foi um acerto e tanto. Quando o tema é família fora do padrão o recado é passado: família pode ser feita de muitas coisas é que o amor é espera e não o problema. Indico! Para dias com chuva e sem pressa. 


Que Chita Bacana - 1º Livro 2026


     Eis a minha primeira leitura de 2026: que chita bacana, escrito por Renata Mellão e Renato Imbroisi. Foi um presente do meu esposo que sabe que amo tolhas, cortinas, paninhos de mesa de chita. Não é um livro comercial, acho que ele ganhou em algum trabalho de cenografia ou algo assim. A autora, Renata Mellão, é fundadora do Museu A Casa do Objeto Brasileiro e eu acho que o tema do livro e o nome do museu tem muita relação. 

    Acredito que o livro foi idealizado para alguma exposição em específico sobre o tecido no museu. Tem um link sobre o livro https://www.acasa.org.br/livro-que-chita-bacana e como só fiquei conhecendo o Museu por causa do livro, dei uma boa navegada e vi sobre a exposição aqui nesse link Exposição A Chita na Moda. Essa exposição passou pela minha cidade e eu náo tive o prazer de ir admirar. Acredite, todo o trabalho do Museu A Casa do Objeto Brasileiro é muito admirável e valoriza muito a cultura popular brasileira. 

    O livro começa com muitas imagens desse pano atual que conhecemos nas festas juninas. Talvez seja o que mantém ainda vivo a existência desse modelo de pano que já foi muito usado pelas famílias brasileiras. Mas até chegar a esse ponto de uso popular, muita história rolou. Confesso que foi a parte que mais me deliciei: a forma sucinta, concisa e séria da chegada do pano até os dias atuais. Isso é um trabalho digno de parabenização. Eu como historiadora deixo aqui o meu louvor para todos aqueles que participaram da edição desse trabalho. 

    Primeira grande surpresa: esse pano que eu amo pelo seu colorido e flores em tamanhos consideravelmente possíveis de se ver de longe é de origem indiana do período medieval. Já citei sobre o tamanho das flores, pois ele não começou com essas medidas. É um pano muito usado por nós aqui em casa, pois tem muitas sobras dos trabalhos cenográficos do meu esposo em festas juninas, então eu aproveito bastante.Só que o tecido que eu conheço é o chitão e as "características de estampas florais bem grandes, em cores vivas, com traços de grafite delineando contornos, e que cobrem toda a trama do tecido engomado só ganhou esse nome e características na década dos anos 50". Alguém sabia disso?

    Em sua origem, a estampa de chita é floral e se as flores forem miudinhas recebe o nome de chitinha. Se as flores forem de tamanho médio, recebe o nome de chita. Nós, acredito eu, chamamos chita e pronto, né!? A entrada do pano se deu com as relações comerciais das grandes navegações europeias dos séculos XV e XVI. O que diferenciava os indianos dos europeus na técnica de tingimento de tecidos era o uso do mordente, uma substância agregada ao tingimento com a função específica de manter a durabilidade da cor. Por isso que os tecidos indianos resistiam mais do que os europeus às lavagens e exposição ao sol. 

    Os motivos estampados pelos indianos levavam em consideração os preceitos do hinduísmo e do islamismo. Ressaltando que a última proíbe representações figurativas, então a predominância dos temas eram florais, arabescos e figuras geométricas, com algumas representações de animais. Com as trocas comerciais, o interesse dos europeus foi imediato, seja para consumir ou para fazer um modelo próprio a partir desse padrão indiano. 

    O nome "tecido indiano" passou a ser usado em Portugal para designar esses tecidos, mas na Índia era chamado de "chint", que significa "pinta" ou "mancha". Na Inglaterra, foi batizado de chintz, termo utilizado até os dias de hoje, mas para designar um tipo de tecido estampado usado para decoração. O chintz é descendente direto das chitas indianas. 




    Portugal demorou bastante em relação aos outros países a criar o seu próprio tecido estampado. Os motivos são diversos: riqueza derivada das navegações e colonialismo, dependência com a Inglaterra que foi seu fornecedor durante muito tempo dos tecidos manufaturados e também a tradicional rejeição lusitana ao trabalho manual. Claro que tudo isso vai respingar no Brasil que foi colônia de Portugal até 1822. Durante a leitura você vai passar por todo processo histórico e não vai ser cansativo. Até a revolução têxtil inglesa e a Guerra da Secessão norte-americana são explanadas fazendo ligação com a evolução do tecido chita aqui no Brasil. 

    Com um pulo grotesco historicamente falando, chego na montagem da indústria têxtil brasileira que aproveitou a falta de algodão norte-americano. Foi a transferência do capital agrícola para a indústria em São Paulo. A Cedro foi fundanda em 1868 em Curvelo pelos irmãos Mascarenhas. Depois a Cedro & Cachoeira e com a crise internacional pós 1ª Guerra Mundial, descobriram a chita e fabricaram esse unicamente esse tecido até 1961. De lá pra cá outras empresa têxtis fundaram, outras fecharam, crises internacionais, desenvolvimento da malha ferroviária brasileira, política café-com-leite impactaram a produção têxtil, seja de forma positiva ou negativa. 

    Na década de 50, com os teares mais largos, há o começo da produção de tecidos com larguras maiores e surge o chitão que eu tanto utilizo em casa. Nesse meio tempo, o tecido passou de decoração e uso sofisticado pela elite para o uso popular, mas não era mais 100% algodão (morim). Com o aparecimento de produtos mais baratos para a produção, o poliéster começou a fazer parte do tecido que conhecemos atualmente. Tudo foi parte do processo de cotação de insumos e acompanhamento da produção mundial e influências internacionais. 

 A chita se tornou popularmente e culturalmente para uso de festejos religiosos e atos com origem folclóricas e mitológicas. Estilistas lançam vestuários com a presença das estampas coloridas colocando o Brasil no eixo da moda, como fez Zuzu Angel


    A Literatura eterniza a presença do tecidos, álias, durante a leitura você vai ler trechos de livros citando a chita, o que mais uma vez comprova uma curadoria muito bem realizada pelos autores do livro. 

"Nacib tirou o paletó, pendurou na cadeira, arrancou a camisa. O perfume ficara na sala, um perfume de cravo. No dia seguinte compraria um vestido para ela, de chita, umas chinelas também. Daria de presente sem descontar no ordenado. (...) Queria-a tão bem vestida como a senhora mais rica, como se isso apagasse seu passado, as queimaduras do fogão, o sem jeito de Gabriela. Vestidos pendurados no armário; em casa ela andava de chita, em chinelas ou descalça, às voltas com o gato e com a cozinha". 
(trechos Gabriela Cravo e Cranela - Jorge Amado/Imagem internet: Sônia Braga interpretando Gabriela TV Globo)


    Eu amei a experiência por ser algo que aprecio e claro que acabou ressignificando a presença das chitas e chitões aqui em casa. As roupas e peças criadas pelas estilistas convidadas pelo Museu A Casa demonstraram que a criatividade não tem limite e que tudo é possível com esse tecido que para alguns só aparece em junho e julho. Indico a leitura! 

     



quarta-feira, 7 de janeiro de 2026

A Grande Inundação - Netflix (dezembro/2025)

 

    O filme A Grande Inundação (dezembro/2025), dirigido por Kim Byung-Woo, ficou entre os mais assistidos na plataforma de streaming Netflix durante algum tempo em dezembro do ano passado. Porém, portanto e contudo, ser o mais assistido não significa ser o mais compreendido. Muita gente acabou não gostando por não ter compreendido a ficção científica sul-coreana sobre uma mãe tentando salvar seu filho durante uma catástrofe mundial. Mas, vamos por partes. Deixando claro que é a minha opinião pessoal sobre o filme e leituras rápidas e rasas em alguns sites. De fato, dá um nó na cabeça. Não assista sem prestar atenção!

    A pesquisadora An Na acorda em seu apartamento com o seu pequeno filho Ja-In e a manhã sai da normalidade com uma ligação sobre uma inundação que está acontencendo e é percebido pela protagonista que já começou a atingir o seu prédio. Um asteróide caiu na Terra e com o derretimento das calotas polares da Antártica o planeta será exterminado com a Humanidade. Hee Jo faz parte de uma equipe de segurança e tem a missão de salvar a pesquisadora para que essa possa dar continuidade a pesquisa sobre um gerador de emoções e assim começar uma nova Humanidade.

    SPOILER A PARTIR DAQUI

    Bom, descobrimos que após uma fuga com bastante possiblidades de afogamentos, Ja In não pode acompanhar An Na e a partir daí todos os detalhes são importantes. An Na sai em um foguete e participa de um experimento sendo a cobaia para uma mãe matriz e sendo ela pesquisadora de IA e do experimento do gerador de emoções vai passar por várias tentativas para achar Ja In, que já na tentativa de número 1, descobrimos que não é seu filho biológico. 

    Ela passa por milhares de tentativas de encontrar a criança Ja In e em um primeiro momento, parece que ela está sendo castigada por ter escolhido não continuar sendo a mãe do menino após um acidente de carro que a deixou viúva. Nessas várias tentativas, a memória criada entre uma tentativa e outra é a pista necessária para que ela consiga encontrar Ja In. Mas, não é tão simples assim. O experimento é esse! A cada tentativa há a geração da emoção, do vínculo, do afeto entre An Na e Ja In. Inclusive, a criança que já era um experimento científico já tinha ciência e acaba agindo para o desfecho final. 

    Bom, até agora essa é a minha análise crítica sobre o filme que a princípio achei meio que efeito borboleta. Porém, refletindo um pouco, pareceu um pouco sugestivo sobre a mulher que tem a sua profissão e estudo e precisa regastar a sua maternidade. A mulher passar por todo aquele sufoco (acredite, uma fobia louca com tanta água) para salvar a Humanidade e a temática da maternidade no meio, é um filme que eu não assistiria novamente. Claro que temos a maternidade como a salvadora da Humanidade, afinal, sem ela seremos extintos e todo essa temática, mas eu achei bem forçado. 

    Claro que Hee Joo também tem seu vínculo modificado com o passar das tentativas, convencido pela Eva benigna a cada encontro. Ele que foi abandonado pela mãe experimento na infância, acompanhou An Na com a certeza que ela abandonaria a criança. O homem abandonado pela mãe no passado coloca mais uma vez a maternidade como culpada pela atitude do homem e vai ser outra mulher e suas várias tentativas que vai mudando o comportamento dele. Devaneios e devaneios. Mas conhecendo um pouco da cultura do país de origem, será que estou tão errada assim? 


A Natureza da Mordida - Carla Madeira

 


    A obra A Natureza da Mordida (2018), da autora brasileira, Carla Madeira, foi o último livro de 2025. Quando usamos a palavra "natureza" no sentido do título do livro, acredito que a intenção foi de explicar a origem de algo, no caso a mordida (uma dedução pessoal). Volto ao título logo mais. Carla Madeira ficou conhecida pelo seu livro Tudo é Rio (2014) e foi uma das autoras mais lidas nos anos de 2024 e 2025. 

"O que você não tem mais que te entristece tanto?"

    Essa foi a pergunta que Biá, uma psicanalista aposentada, fez a Olívia, uma jovem jornalista em uma banca de jornal (sebo do Rodolfo em BH). Assim deu início a uma amizade inesperada com conversas profundas entre as duas mulheres que, apesar da diferença de idade entre elas, carregavam uma mordida na alma: o abandono sem explicação. Cada uma ao seu modo foi abandonada por quem amava e a conversa entre ambas é a revisão do passado para conseguir compreender com o olhar alheio o motivo do rompimento traumático que mudou a ambas. 

    É um livro sobre percas e perdas, memórias, incertezas, culpa e o sentido da vida que precisa ser encontrado para que possamos dar continuidade com a dúvida do que levou o outro a tomar uma atitude tão drástica que acaba abalando nossas vidas. Olívia, órfã de pai, foi criada por Laura, uma mulher que teve que ser forte e declinar de várias investidas de homens que não suportavam ver uma mulher tão jovem e linda vivendo sozinha. Olívia, carregada de rejeições das meninas da sua própria idade, encontrou em Rita uma amizade profunda, verdadeira e única que é rompida sem nenhuma explicação aparente no final do colegial.

    Biá, uma mulher amada por seu marido em um lar aparentemente saudável, leitora e dotada de uma inteligência ímpar, tem seu casamento rompido repentinamente. Esse fato fez essa mulher perder seus passos firmes e tornou o seu relacionamento com a única filha, Teresa, insuportável. Durante esses encontros entre Biá e Olívia que conseguiremos perceber as mordidas que cada uma causou a partir da mordida original. Biá mordeu sua filha com o mesmo abandono e isso também foi igual com Olívia e sua mãe. O fato de não saber o motivo do abandono do outro tornou a mordida um resultado entre os relacionamentos. 

    As histórias vão sendo intercaladas e vão se fechando com o sumiço de Biá na banca de jornal por motivo de enfermidade. Então Olívia passa a conhecer uma terceira versão, a da filha de Biá, também dotada de mordidas. Acredito que aí começamos nesse momento da leitura a perceber a "natureza", ou seja, a origem das mordidas. Acredito que cada leitor vai ter a sua interpretação pessoal da leitura, pois são tantas deduções que se passaram na minha cabeça até conhecer a natureza da mordida que finalizei a leitura com muita empatia a Biá, Teresa, Olívia, Laura e até Rita (que no fundo também não sabia da verdade na época que abandonou Olívia). 

    O abandono sem explicações tornou essas pessoas que abandonaram presentes pela dúvida e isso foi um luto impossível de ser vencido. Claro que seria mais fácil perguntar com insistência como fez Teresa com Biá (sem sucesso), mas quando o assunto é emoção, nem sempre o próximo passo é tão racional. O trauma tem um poder comportamental em cada um dos personagens, pois até Téo, pai de Teresa, tem um comportamento após um trauma familiar não superado. Biá, que na verdade se chama Emma, na minha opinião poderia por sua bagagem intelectual ter poupado Teresa de tanta dor, mas quem disse que inteligência emocional é paralela a inteligência racional? Bem dolorido para todos ali e eu fiquei bem em choque com o destino de Rita. Bom, tentei ao máximo não dar spoiler. Indico! 



    

sábado, 6 de dezembro de 2025

Frankenstein de Guilherme Del Toro (Netflix/2025)

 A versão do diretor mexicano, Guilherme del Toro da obra Frankenstein (Netflix/2025) viralizou e aparentemente foi bem recebida pela maioria. Mas... como sei que, infelizmente, o Brasil não é composto por uma maioria de leitores, me sinto na obrigação de começar a postagem citando a autora da obra de 1818, Mary Shelley (1797-1851). Há afastamentos da obra literária e da obra cinematográfica. Não é a intenção aqui pontuar uma por uma. 


O livro foi escrito durante uma competição de Shelley com seu amante e futuro marido (Percy Bysshe Shelley) na casa de um amigo (Lord Byron) em um verão chuvoso. Interessante saber que Shelley participava de conversas com teor científico. O galvanismo era um assunto em alta na época. Os experimentos com eletricidade em cadáveres entre os séculos XVIII e XIX para a reanimação de mortos prendeu a atenção da escritora. O debate moral sobre a responsabilidade científica também estava presente. Alquimia, galvinismo e ideias ocultistas povoavam o imaginário da época e não passaram despercebidos por Shelley. 

Seu livro foi publicado inicialmente sem os devidos créditos autorais. Ela, com 19 anos, havia criado uma criatura que transitava entre os debates científicos, a moral cristã e a mitologia grega. Frankenstein, sobrenome de uma família que tivera contato, e Prometeu, o titã que apresentou o fogo roubado para a humanidade fazem parte de uma obra de terror gótico que influencia produções artísticas até os dias atuais. 

A criatura de Shelley é perversa e quase não digna de compaixão. Claro que não podemos ser anacrônicos. A época pedia esse resultado desastroso da ação humana em desejar criar com a capacidade divina. O sopro da vida era dado por Deus e o homem não poderia ultrapassar o seu papel de criatura sem sofrer as terríveis consequências. Mas, quando o assunto é o monstro de Del Toro, já sabemos que não será bem assim. Meu segundo contato com o diretor foi em A Forma da Água (2017). Já havia assistido O Labirinto do Fauno (2006), mas levei mais em conta o contexto do conflito da Guerra Civil Espanhola por estar   História na época. Sou apaixonada pelos monstros de Del Toro. 


Seus monstros são inocentados em suas obras e o diretor consegue demonstrar beleza no caos e na monstruosidade. Seus temas rebatem o autoritarismo e a perversidade humana, apontando que a maldade está em nós. Sempre! Conhecemos Frankestein em diversas versões. Até Maurício de Sousa apresentou a criatura na Turma do Penadinho. Mesmo seguindo características não apresentadas por Shelley, temos no nosso imaginário esse ser alto, verde e de ausência de maldade. Podemos citar o mordomo Tropeço da Família Adams (o tempo vai suavizando a maldade da criatura original. Logo não temos que julgar Del Toro pelo monstro que nos apresentou). 


Victor Frankestein na obra de Del Toro tem uma obsessão em criar um ser a partir do galvinismo. Conflitos familiares o empurram para o espaço acadêmico e sua fixação resulta na criatura gerada a partir de cadáveres da Guerra da Crimeia (1853-1856). A obra de Shelley é de 1818, então já é manifesto o distanciamento das versões da criatura e criador. Del Toro desde criança quis produzir algo sobre Pinóquio e Frankenstein. Cumpriu! Se você pesquisar o processo de pesquisa até a produção, verá o resultado de várias obras que ele cita em entrevistas. Uma criatura a partir dele. Será que Victor é um tipo de alter ego de Guilherme Del Toro? Devaneios meu. 


A criatura é vítima do criador e escravo de uma eternidade envolta de solidão e maldade humana. Os únicos que oferecem afeto é Elizabeth e um ancião cego. Ele deseja uma companheira. Seus atos de maldade são reações e jamais iniciadas por uma maldade que tem gênesis em si mesmo. Ele deseja vingança, já que seu criador não vai anestesiar a dor da sua existência. Ele perdoa, mas primeiramente, conta a sua versão. Nessa apresentação da criatura, como sempre, nas obras de Del Toro, tomamos partido. O monstro é o ser mais benevolente do rolê todo. 

Os figurinos, os atores, a fotografia, ... tudo cooperou para a aceitação da obra de Del Toro. Se a autora aprovaria? Acredito que sim. Fruto da nossa época, lembro da autora Chimamanda N. Adichie em O perigo de uma história única. Precisamos conhecer ambas as versões. A obra original não nos convence da legitimidade da criatura em ser mal. Del Toro com sua poética faz isso sem muito esforço. Indico! 


sexta-feira, 5 de dezembro de 2025

It: Bem-vindos a Derry (HBO/2025) - Contexto histórico até o episódio 6

 Que é sabido que a HBO lançou recentemente uma série que é o prelúdio de It: a coisa, talvez não seja novidade. Diante de tanto material virtual produzido sobre os filmes e série, vou me deter no fundo histórico, obviamente por ser historiadora. Bom, só acrescentar antes de tudo que toda essa obra cinematográfica é baseada no romance de terror do autor Stephen King lançado em 1986, It (a coisa). 


No livro, os períodos são divididos em dois. O primeiro: 1957-1958 que foi apresentado no primeiro filme It: a coisa (ambientado no final da década de 1980).

 O segundo período na obra literária: 1984-1985 foi apresentado no segundo filme, It: capítulo 2 (ambientado em 2016). 

Já a série It: bem-vindos a Derry, o período vai ser ambientado em 1960, contando a origem da força cósmica que se alimenta de medos, traumas e se apresenta na maioria das vezes como o palhaço Pennywise. Não são as únicas obras produzidas sobre o It, mas cito apenas essas três, pois elas foram produzidas pelo mesmo diretor Andy Muschietti. 


O pano de fundo em Derry é o pós-guerra  conhecido como período da Guerra Fria (1947-1960), temática que explanei na postagem anterior ao comparar com Stranger Things Stranger Things e It: bem-vindos a Derry. A presença das Forças Armadas norte-americana e de uma missão secreta coexistem com a missão de contar a origem da Coisa. Nos diálogos entre os militares há várias citações sobre o conflito entre EUA e URSS. Em um período que o medo poderia ser uma arma poderosa, a Missão militar e secreta Precept busca achar, capturar e aniquilar o inimigo. 

A crítica ao estilo de vida conhecido como American way of life vai sendo percebido quando a violência é aceita passivamente e de forma complacente pela sociedade. Homofobia, racismo e psicofobia são instrumentos utilizados em nome da manutenção de uma aparência idealizada pelo padrão norte-americano. Percebe-se que A Coisa não é o único mal a atuar naquele lugar. O medo não é o único alimento que o fortalece. O mal sistêmico o ampara e o deseja em um projeto de eugenia de tudo que foge do padrão da sociedade de bem. 


No segundo episódio, a recém chegada Charlotte Hanlon (Taylour Paige) e uma moradora local conversam sobre a notícia de um homem negro acusado de matar brutalmente crianças dentro de um cinema. O racismo já é exposto nos primeiros episódios, pois o fato desse acusado ser negro, já demonstra a crítica do parágrafo anterior. Charlotte, esposa de um militar que é parte da missão secreta Precept, vai se envolver nesse caso e demontrar a luta pelos direitos civis dos negros norte-americanos. Aliás, aconselho você focar nessa família (Hanlon). Ela está conectada nessa série e nos dois filmes. 

Rose (Matamaki Kimberly Norris) é uma nativa local e informa para Charlotte que algumas crianças desapareceram durante a Grande Depressão. Esse período de crise econômica que teve início em 1929 com a quebra da Bolsa de Valores NY e entrou a década de 1930 camuflou a verdadeira causa do sumiço das crianças em Derry. Durante o mesmo diálogo, ela cita a invasão dos colonizadores que invadiram terras indígenas com o uso do Destino Manifesto. Essa ideologia (usada até hoje pelos EUA) teve início no século XIX e acreditava ser um direito dado por Deus de expandir o território americano do Atlântico ao Pacífico. Ela dá embasamento para o atual imperialismo norte-americano. 


IT, a Coisa usa do medo e não fica claro como ele conhece os temores mais íntimos do indivíduo. Se ele escuta conversas ou tem poderes de leitura mental (Não lembro da leitura do livro) não fica evidente na série. Que ele influencia comportamentos já é demonstrado nos atos da comunidade, seja a professora, policial ou a passividade coletiva diante da violência contra padrões fora do idealizado. Peguei como exemplo o padre colonizador (medos dos nativos) e o Tio Sam, medo dos soldados que estavam na missão Precept.  a frase "Eu quero você" fazia parte da campanha de recrutamento militar estadunidense na 1ª GM (1914-1918). 



Bom, até a data que escrevo essa postagem se passaram seis espisódios. O último findou com a chegada de um grupo supremacista branco e anti-negros na base onde soldados negros estão dançando e se divertindo. O grupo mais notório da década de 60 foi a Ku Klux Klan e o período foi crucial para o Movimento dos Direitos Civis nos EUA para a população negra. Táticas de terrorismo, violência e intimidação contra indivíduos negros também estão sendo demonstrados na obra literária e cinematográfica, deixando claro que não é um mero entretenimento banal. Afinal, a obra lida com memórias, traumas e ecos doloridos que são superados com a ação coletiva. Stephen King é um autor e tanto. 

Claro que o livro foi escrito em alguns momentos sob efeito de drogas e bebidas e a cena do sexo coletivo que nenhum diretor quis assumir e está presente no  livro deixa qualquer um atordoado. Ele já falou a respeito em 2013:

"O ato sexual conecta a infância com a vida adulta. Os tempos mudaram desde que eu escrevi aquela cena e agora existe uma sensibilidade maior em relação ao assunto. A isso eu somaria que acho incrível que existam tantos comentários a respeito de uma única cena de sexo e se fale tão pouco dos múltiplos assassinatos de crianças na trama". 


Gosto da forma como ele não deixa cair no esquecimento essas feridas abertas da História. Se algo a mais aparecer nos próximos episódios, registrarei em uma próxima postagem parte II. Enquanto isso, vamos acompanhar e ver como vai ser o desfecho dessa primeira temporada (a promessa é de três temporadas). Lembrando que, quando se trata de HBO eu tenho um temor latente desde GOT. Oremos! 


Stranger Things e It: Bem-vindos a Derry

 O que será que Stranger Things e It, Bem-vindos a Derry tem em comum?


Será apenas o terror psicológico e o combate ao mal?

Será a faixa etária dos grupos que se dispõem a enfrentar a malignidade sobrenatural?

Será o bulling que sofrem no ambiente escolar e os conflitos familiares?



Nessa postagem darei mais ênfase a Stranger Things, já que estamos nos despedindo em 2025 com a 5ª temporada. A NETFLIX vai nos torturar no Natal e no Ano-Novo. Obrigada, infeliz! Já se passaram quatro episódios e os demais serão distribuídos nessas datas de festividades. Que nossas famílias compreendam. 

Stranger Things Netflix e It, bem-vindos a Derry HBO (prelúdio de It: a coisa) são obras ambientadas no período da Guerra Fria (1947-1991). Uma era de polarização ideológica entre EUA e URSS,. Período de corrida armamentista e tecnológica. De envio de foguetes ao espaço (pobre Laika), de espionagens, de KGB e CIA. Toda a paranóia possível aconteceu nesse período. As mais loucas teorias conspiratórias povoaram o imaginário do globo terrestre. Os experimentos que existiram eram vistos como teorias e os devaneios coletivos eram tidos como verdade. 

Claro que a Netflix acertou ao conseguir captar três gerações: meus pais (que eram adultos na época), a minha (que era adolescente) e a de vocês (que estão assistindo agora). A música da cantora britânica Kate Bush (Running up that hill - a deal with God) entrou e voltou para as paradas musicais diversas vezes por causa da série. Conhecíamos a cantora apenas pelo seu sucesso Wuthering Heights, canção da obra literária O morro dos ventos uivantes (1847) de Emile Bront (que será obra cinematrográfica em 2026 com a querida Margot Robbie no papel de Catherine Earnshaw).

Os figurinos e a playlist são excepcionais! As referências são ricas e conectam gerações Referências Irmãos Duffer Nostálgicos! Não tem como não gostar da série, por mais que alguns achem que ela é superestimada. Os irmãos Duffer sabem muito bem o que estão fazendo desde o início. Hawkins é uma cidade baseada em projetos como o MKUltra/CIA (1953-1973)  que objetivava o controle mental e manipulação da consciência. Para tal, era usada drogas psicodélicas, choques e torturas psicológicas. Os criadores da série também conheciam projetos como o Watergate e o Montauk Project. O primeiro levou o presidente da época, Richard Nixon, a renunciar. 

Ora pois, quem está acompanhando na HBO a série It, Bem-Vindo a Derry já deve ter percebido que a ambição do exército norte-americano é usar a força maligna de Derry contra o seu inimigo na época, a União Soviética. Olha a idéia! Para nós  parece absurdo, mas acredite, houveram absurdos de ambas as partes. Como historiadora eu posso te afirmar isso. Mas, estamos falando da sétima arte e suas possiblidades, o que vale lembrar que o diretor cinematográfico nem sempre vai seguir a obra literária (já que It: a coisa é baseado na obra de Stephen King/1986). Triste lembrança do fim de GOT (Game of Thrones/HBO).

Enquanto isso, vamos seguir acompanhando ambas as séries. Um dezembro com ficção científica e terror psicológico com muito fundo histórico. Adoro ser geek! 






A Substância - (Filme/2024)

 Dezembro é mês de colocar em dia todos os filmes e séries que não consegui assistir em tempo oportuno por causa da vida acadêmica. Vamos lá! Ah! Antes quero registrar aqui dois temas de redação em 2025

1º PND (Prova Nacional Docente) - O idadismo como desafio social e educacional no Brasil 

2º Enem - Perspectivas acerca do envelhecimento na sociedade brasileira 

Será que os elaboradores de ambas as provas (INEP) assistiram esse filme? Estou com os meus devaneios, pois pra mim faz muito sentido (hihi)

A Substância é sobre Elizabeth Sparkle, uma LINDA mulher de 50 anos que fez muito sucesso no passado como atriz e até então fazia vídeos sobre ginástica rítimica. Tudo seguia uma rotina até que seu chefe exigiu que ela fosse substituída por estar ultrapassada no quesito idade. 

a atriz que interpreta a protagonista é Demi Moore e vale citar que ela recebeu esse papel após mostrar um livro escrito por ela para a diretora francesa Coralie Fargeat. Em "Inside Out", Demi relata suas dores durante seu processo de sucesso. Quem lembra de "Stripeatease"? Um estilo de filme que marcou a atriz em um padrão cinematográfico que a afeta até os dias atuais. 

Ao lidar com essa substituição e refletir sobre isso, Elizabeth sofre um acidente e acaba sendo coptada para um experimento de rejuvenecimento. Vou explanar apenas isso para não dar spoiler do filme. A partir de agora serão descritos apenas meus devaneios sobre tudo o que assisti. 

BOM! ENVELHECER É UMA MERDA! Mas não deveria ser. Para nós mulheres, a percepção do filme é bem mais visceral. Atualmente muitas de nós estamos nos submetendo ao uso de Mounjaro, cirurgias estéticas, filtros em redes sociais, dietas restritivas ... para seguir um padrão imposto de beleza que deve ser mantido a qualquer preço. O filme grita o culto à juventude e tudo que somos capazes para nos manter dentro de um sistema que nos adoece. 


O filme tem um estilo de body terror com cenas explícitas e grotescas de nudez, violência e monstruosidades corporais. Já aviso que se tens horror a sangue, não assista. Confesso desde já que o final me decepcionou um pouco, totalmente desnecessário. Mas nada que extraia a reflexão sobre o envelhecimento feminino. É um soco no estômago. 

Envelhecer nos torna invisíveis e deixa claro que é um grito de todas as mulheres pelo direito de EXISTIR. Seja em qualquer idade. Sabemos que não é bem assim. Que o sistema capitalista é cruel e nos molda a sempre estarmos insatisfeitas com o nosso processo de envelhecimento. Sue (o alter ego jovial de Elizabeth) só tem ambição e sabe do poder do seu corpo e beleza. Basta sorrir. 

Elas não se relacionam durante a trama e quando isso acontece, a capacidade de violência entre as gerações ficou visível e lamentável. "O que foi usado em um lado é perdido no outro lado. Não há como reverter". Esse é o aviso da voz que atende Sue ou Elizabeth e sempre deixa claro: não há a outra. Mas elas guerreiam entre si. Toda a capacidade que temos de nos machucarmos para deixar satisfeito um público que quer apenas aparência sem conteúdo. 

O dano emocional causado pela sociedade etarista e misógina é fortalecido cada vez mais nos padrões impostos para todos. Elizabeth fora do jogo não sabe o que fazer com o seu tempo ativa enquanto Sue está no modo off. O que fazer depois da fase "produtiva"? O que somos depois da carreira? Lançamos toda a incerteza na alimentação errônea. Elizabeth ao tentar uma única vez se relacionar com alguém da sua "época" eterniza todas nós diante do espelho com maquiagens, roupas e desistências de sermos o que devemos ser: nós mesmas. 

Sue, cada vez mais necessitada do tempo de Elizabeth, quebra o equilíbrio e isso avança o envelhecimento da outra (a saber, ela mesma). A caricatura da mulher corcunda e bruxa nos tira da invisibilidade, porém nos coloca no imaginário errôneo do lugar que nos cabe após findar a juventude desejada pelo capital. Ressalto que a obra recebeu o Oscar de melhor maquiagem. Merecido. 


Passei o dia refletindo e acreditando que Sue poderia ter feito outro caminho trilhado por Elizabeth. Mas a voz sempre deixava claro "você é a matriz. Não existe a outra". Sue (Margaret Qualley) era o alter ego jovial e seu desejo era apenas eternizar a glória recebida por sua juventude e beleza.  O que mais Elizabeth ganhou além de aplausos de desconhecidos? O que essa sociedade da aparência e do etretenimento pode oferecer? Dinheiro e fama. Para pessoas como Elizabeth é o suficiente. Temos influenciadoras brasileiras que fazem de tudo para manter esse status quo. Por isso que a nova geração (Sue) não tem mecanismos e nem desejo para fazer diferente. É um ciclo repetitivo. 

O direito de existir é a única perspectiva sobre o envelhecimento em qualquer sociedade, eu começaria assim a minha redação (Enem 2025) se tivesse participado. Indico! Com lenços de papel e a coragem de decidir como vamos atravessar esse processo natural da vida. Um ode a mulher em qualquer idade. Que você possa existir para si mesma. 


sexta-feira, 4 de julho de 2025

A cabeça do santo (ainda não é a resenha)


    Cuidando da minha saúde em tempos de secura, decidi dar uma espiada nas promoções da Amazon (Kindle). Me deparei com esse título, A cabeça do santo, e lembrei de uma entrevista da última Bienal/RJ/2025 onde quase ninguém conseguia citar um título de literatura brasileira (sem ser os clássicos). Mas uma jovem citou e deu um relato muito interessante. No dia pensei "esse livro deve ser muito bom para essa leitora dominar assim a sinopse". Pois bem! Quando dei por mim, baixei e em uma única sentada li 58 páginas, a saber, a primeira parte. Quanto tempo isso não me acontecia ...

    Gente, um livro lançado em 2014 e a forma como "aconteceu" é muito interessante. De forma resumida, a autora precisou de uma narrativa para participar de uma oficina do falecido autor colombiano Gabriel García Marquez em 2006. Ela conseguiu participar. Vou escrever tudo direitinho com maiores detalhes na resenha do livro, pois acredite, a história é fértil e muito interessante. Realmente tem uma cidade chamada Caridade no sertão cearense com uma cabeça de santo. 

    Samuel, após perder a sua querida mãe, Mariinha, viaja para Candeias para cumprir o que prometeu a sua genitora no leito de morte. Eis a aventura, ele acaba dentro de uma cabeça de santo e passa a escutar as orações casamenteiras que mulheres da pequena cidade fazem ao santo para casar. Eu fui sequestrada pela escrita da autora e fui conhecer um pouco mais sobre ela. O livro vai virar filme e já foi traduzido e lançado em outros países. Que demais! Indico e sigo lendo. Logo uma resenha por aqui.