sábado, 27 de junho de 2026

Devaneios sobre o conde Drácula

    Semana passada assisti Drácula: uma história de amor eterno (2025) dirigido por Luc Besson. Escreverei uma outra postagem sobre cenários, figurinos e devaneios sob a minha ótica histórica. Aqui, eu quero "devaneiar" sobre esse Drácula de Luc Besson e o Drácula de Bram Stocker, dirigido por Francis Ford Coppola de 1992. Deixando claro que há vários filmes sobre a temática, mas o meu grande apreço é o filme baseado no romance de Bram Stocker (1897).

Drácula: uma história de amor eterno 2025 

Drácula de Bram Stocker 1992


    Bram Stocker (1847-1912), escritor irlandês, lançou o seu mais conhecido livro Drácula em 1897. O seu conde Drácula, foi baseado na figura histórica, Vlad Tep III - participante da Ordem do Dragão (Dracul em romeno) como defensor da cristandade contra as ameaças contínuas de invasão otomana após a queda de Constantinopla em 1453. 


    Uma curiosidade sobre Vlad, é que ele cresceu no Cristianismo Ortodoxo e se converteu ao Catolicismo romano por estratégia política e militar (talvez após o Concílio de Mântua em 1459). Para maiores detalhes, pesquise O Grande Cisma do Oriente em 1054, não vou aprofundar muito aqui O Grande Cisma. Em ambos os filmes, o conde conversa com religiosos ortodoxos e batalha em uma espécie de Cruzada contra os infiéis (sob a visão e ótica histórica da época). Porém, o segundo filme (2025) vai trazer um padre católico romano após 400 anos para libertar a alma de Drácula. Achei intencional 😐.


Ator Gary Oldman como conde Drácula 1992

Caleb Landry Jones como princípe Vladimir 2025

    Os motivos dos dois Dráculas sofrem diferenciações para a maldição que carregaram por 400 anos até o reencontro com a sua amada Elisabetah/a. O Drácula de Coppola nega a Deus após a sua amada cometer o auto-extermínio e não ser enterrada pela Igreja. Ela acreditava que seu amado havia morrido e toma essa atitude trágica, o que, conforme preceitos religiosos, fez com a sua alma não achasse descanso pelo sacrilégio cometido. Drácula então crava a sua espada na cruz, renuncia a Deus e bebe o sangue que jorra dos objetos sacros no local. 

Winona Ryder como Elisabeth/Mina 1992

    Já a Elisabeta de Besson morre e por esse motivo, o conde mata o padre, pois esse não intercedeu o suficiente para mantê-la viva. Pelos dicursos, já se percebe a diferença sutil entre ambos, pois o Vladminir de Besson defende a sua tese que Deus tem que fazer a sua parte que era cuidar de Elisabeta, enquanto ele assumia o maior risco, ou seja, defender o reino, a Santa Igreja e lutar contras os infiés. É pedir muito? Acho que vai muito de encontro com a crença contemporânea de uma divindade utilitária atual. Enquanto que o primeiro, age por impulso diante da dor de perder e saber que eternamente a alma da sua amada não terá paz, o segundo, culpa a Deus e se vê como herói que não teve o seu pagamento realizado. 

Zoe Sidel como Elisabeta 2025

    É até interessante relatar isso, pois a diferença entre os objetivos dos filmes é perceptível. O primeiro (1992) romantiza e humaniza mais o protagonista, pois na obra literária, Drácula não tem nada de romântico. O conde de 1992 em um diálogo com o advogado em sua residência, cita a relação dos feitos dos seus ancentrais para com a Igreja e como a relação não é tão proporcional com o divino. Quando Jonathan (Keanu Reaves) ri, Drácula toma a espada e se sente ofendido. Ambos, cada qual ao seu modo, renegam a Deus diante do contrato de fé não cumprido na perspectiva de cada um. 

O advogado não sabe que o homem do quadro é Vlad mais novo

    Na obra literária, o autor narra as impressões de Jonathan Harker (na trama um advogado de imobiliária e o personagem no filme de 1992 se aproxima mais da obra literária) em seu diário sobre a Transilvânia, quando foi fechar a venda de um mosteiro na Inglaterra para o conde Drácula. Em ambas as versões, o vampiro acaba descobrindo que a noiva do advogado é a sua amada reencarnada. Presos, o advogado de 1992 foge e acaba em um mosteiro, enquanto o segundo de 2025 foge e aparece magicamente na pensão que está acomodada a sua noiva. O casamento entre Mina (Elisabeth) e Jonathan no filme tem a cenografia ortodoxa que vale a pena perceber as diferenças. 

Casamento cristão ortodoxo entre Mina e Jonathan na versão 1992

    Confesso que a versão de 2025 com gárgulas animadas ao estilo Walt Disney me decepcionou bastante. Já a versão de 1992, nós temos as súcubas noivas de Drácula sedentas por sangue. Na versão de Coppola,  a nudez e a sensualizada são mais exploradas, seja em Lucy (amiga de Mirna/Elisabeth) ou nas noivas súcubas. Na versão de Besson (2025), há apenas no início a intimidade entre o casal, Vlad e Elisabeta, e nada mais. 

Súcubos
Noivas de Drácula (súcubas) com trajes orientais (grego) 1992 


Gárgulas animadas servem o conde Drácula 2025 

     O personagem histórico (Vlad Tep) na obra literária é citado várias vezes, demonstrando que Stocker conhecia seus feitos e que ele escolheu a versão que enaltece o conde como herói nacional que cuidou do seu reino, pois seu apelido "O Empalador" não foi à toa. 


[...] Quem, senão um homem da minha raça que, como nobre, cruzou o Danúbio e derrotou os turcos em seus próprios domínios! Este era um Drácula de fato. Quem era esse, cujo irmão indigno, quando derrotado, vendeu seu povo aos turcos e derramou a vergonha da escravidão sobre eles! Não era senão esse Drácula, na realidade, que deu inspiração aos outros de sua raça e que, mais tarde, levou suas forças repetidamente por sobre o rio até a Turquia; ele que, quando voltou derrotado, voltou de novo, e de novo, embora tenha retornado do campo sangrento onde suas forças tinham sido massacradas, pois sabia que sozinho poderia finalmente triunfar! Dizem que ele só pensava em si. Bah! Para que servem os camponeses sem um líder? Onde termina a guerra sem um cérebro e um coração para conduzi-la? Novamente, quando após a batalha de Mohacs, nos libertamos do julgo dos húngaros, nós, os Drácula, estávamos entre os líderes, pois nosso espírito não podia tolerar que não fôssemos livres. [...] (STOKER, 2002)

O empalamento era um padrão da Antiguidade com a função de avisar os inimigos e desobedientes dos castigos possíveis.
Vários reinos praticavam e foi até a Idade Média/Moderna

    Vale constar que os métodos violentos de Vlad III não eram inéditos e já faziam parte em guerras entre povos antigos (Gênesis 40:19 e 2 Reis 19:8). Houveram acréscimos interessantes que acentuaram as lendas vampirescas, mas em nada comprova o princípe da Valáquia (um principado que se uniu à Moldávia em 1859 para formar a Romênia – no período entre 1448 e 1476) com a prática de beber sangue. Porém, há manuscritos eslavos e alemães que descrevem Vlad embebedando o alimento com sangue dos inimigos, resta saber se a visão do inimigo é fidedigna ou não. 

Personagens secundários e Christopher Walz como padre na versão de 2025 


    O castelo que foi fonte inspiração para o filme de Coppola é o Castelo de Bran, porém não há confirmações que Vlad III frequentou, morou ou algo assim. Construído em 1212 no estilo neogótico e localizado entre a fronteira da Romênia e a Valáquia, é um local turístico por ter sido apresentado como residência do Drácula na ficção literária e cinematográfica. Uma curiosidade, o autor Bram Stocker nunca visitou pessoalmente o local. 



    Em ambas as versões, o castelo remete ao terror gótico, erguido sobre um penhasco e cercado de florestas e abismos. A sensação é de passado e presente, com um peso emocional transmitido pela arquitetura de mausoléu. A penumbra cumpre o seu papel de desorientar e manter alerta quem assiste. Na versão mais recente (2005), a riqueza presente porém desorganizada (na minha opinião) apresenta a decadência do protagonista. Sim, porque vamos combinar, dez minutos de filme para abordar um perfume que atrai quem ele quer, uma dança que demonstra a manipulação sobre os outros sem nenhum propósito, é uma possibilidade. 
Versão 2025 de Besson 

    Se em Drácula de Coppola baseado na obra de Bram Stocker, vamos pular 400 anos para o auge da Era Vitoriana (1837 a 1901), fazendo contrastes entre os avanços tecnológicos ingleses, moda, ostentação, luxo contra o atraso da superstição do ente mítico, em Besson, há a passagem desses 400 anos em forma de dança, figurino, a frangância perfeita (com um histórico) e a Paris da Bélle Époque que está prestes a comemorar o centenário da Revolução Francesa (1889). Como historiadora, eu amei, mas como espectadora, pra quê? Faltou narrativa e foco para ligar as tramas. 

    De uma forma corrida na versão de 2025,  Maria (Matilda de Angelis), a amiga, parece enciumada, afasta Vladimir de Elisabeta, o noivo reaparece, um sacerdote ocidentalizado (Christoph Walz), um exército invadindo o castelo, um diálogo raso e "the end!". Ao meu ver, a figura religiosa, que subtitui Van Helsing (Anthony Hopkins), impõe todo um propósito maior divino para salvar a alma do vampiro. Parece uma cópia do projeto de salvação cristã,  onde um  morre para salvar os demais. Infelizmente, na tentativa estilo Guilherme del Toro em humanizar o vilão, a sensação (minha) foi de 400 anos sendo bem playboy e no final, com auxílio lá do alto, ser salvo em um ato heróico.


    Ambos os filmes dão um show de figurino, fotografia e cenografia. Para finalizar,  o Drácula de Coppola apresenta um lobisomem que carnaliza com a Lucy (Sadie Frost) e faz de bebês, vítimas de vampiras, coisa inaceitável em qualquer produção atual. Cada qual com o seu propósito e trama e com a liberdade de produção fidedigna ou não a obra literária, imortalizou mais uma vez Vlad e Drácula. 



segunda-feira, 22 de junho de 2026

Hitler e o Nazismo: início, meio e fim (Netflix, 2024)

 


    Confesso que estou escrevendo após assistir a série duas vezes, pois preciso confessar, eu sempre assisto mais de uma vez qualquer conteúdo histórico como historiadora e espectadora comum (sim, eu sou!). A série Hitler e o Nazismo: começo, meio e fim da plataforma de streaming Netflix de 2024 é indicada (por mim) pela linearidade excelente que vai de Adolf Hitler (1889-1945), um desconhecido, até o auge como chanceler da Alemanha nazista e os crimes cometidos que resultaram na bárbarie sem precendente na História Mundial. 

    Não que traga algo novo historicamente falando, mas a linearidade (já citada) e a linguagem acessível possibilita a compreensão que, como pessoas comuns podem convencer e fazer um grande estrago. O documentário vai do período anterior a ascensão de Hitler até a sua atuação na 1ª Guerra Mundial ou Grande Guerra (1914-1918) até o julgamento de Nuremberg, sem esquecer que passa pelo Holocausto ou Solução Final. Uso certos termos, pois tenho alunos como leitores.

    O julgamento no Tribunal de Nuremberg é na perspectiva do jornalista, historiador e escritor estadunidense  William L. Shirer (1904-1993), que foi testemunha dentro da Alemanha no início da 2ª Guerra Mundial (1939-1945) e escreveu relatos significativos sobre o nazismo e sobre o julgamento de Nuremberg. Ele morreu em 1993 e a voz narrativa no documentário é IA (inteligência artificial). Além das recriações que permitem contextos da época, o documentário possue áudios novos e nunca escutados.


    Bom, eu quero aqui registrar situações que me chamaram a atenção como historiadora, professora de História e pessoa comum (sim, eu sou e são posições diferentes!):

    O fato de Franz von Papen (1879-1969), que foi chanceler em 1932 e vice chanceler de Hitler de 1933 e 1934. Ele  acreditou que teria controle sobre Hitler e permitiu a sua ascensão, pois tinha interesses em enfraquecer a República de Weimar (1919-1933). 

    Mas, Sally, não é muito devaneio? People, Hitler não faria nada do que fez sem degraus para a sua subida ao poder. Enquanto não enterdermos isso, acharemos que Hitler chegou e fez o que fez sozinho, e não foi bem assim. Estamos falando de uma nação estava fértil para as suas ideologias contra o Tratado de Versalhes pós 1ª Guerra Mundial e oportunidade diante da crise do Liberalismo econômico de 1929 nos EUA. 


    Falemos bem pouco sobre Geli Raubal (1908-1931), a sobrinha parte da grande fofoca entre historiadores, mas sem grandes provas até então. O que sabemos de fontes oficiais era que o líder nazista afirmava ser comprometido com a Alemanha (Nacionalismo) e sem tempo para romances. Mas, a fofoca era que ele era bem tóxico com a sua sobrinha. Que cada um assista e tire as suas conclusões. 


    Um fato que quero registrar aqui é sobre o navio com +900 judeus rejeitados por Cuba e EUA em 1939 e como Joseph Goebbels (1897-1945), ministro de Propaganda Nazista usou esse fato a favor da Solução Final contra os judeus e minorias:

O navio em questão é o transatlântico alemão MS St. Louis, que zarpou de Hamburgo em maio de 1939 transportando 937 refugiados judeus (em sua maioria alemães) que fugiam do regime nazista. A embarcação ficou mundialmente conhecida após ter sua entrada negada por Cuba, pelos Estados Unidos e pelo Canadá, sendo forçada a retornar à EuropaFonte

    Outros episódios relatados na série e que merecem o registro da minha parte (então é bem pessoal):

    Claus von Stauffenberg (1907-1944), um oficial NOBRE, que participou da invasão da Polônia (causa do início da 2ª GM) e entre outras operações militares, da Operação Barbarossa (GENTE, invasão da URSS) como oficial de estado maior. Porque tipo assim, precisamos tirar essa venda dos olhos em acreditar que todos assistiam aos exageros de Hitler e apoiavam. Chegou a um limite e podemos citar a Operação Valquíria, planejada por oficiais alemães que NÃO deu certo, mas que, comprova que alguns, até dentro do alto escalão, perceberam o exagero do ditador nazista. Certo, assisti o filme com Tom Cruise de 2008, mas não quero indicar por motivos bem pessoais. 




    Prefiro indicar A Menina que roubava Livros (filme 2014 e livro 2009), se o assunto for a não aceitação das atitudes nazistas dentro da Alemanha. 

Fonte citada na imagem


    Evan Braun (1912-1945) e seu amor cego pelo ditador nazista, citemos rapidamente. Por que quero falar sobre ela? Para demonstrar que, muitas mulheres se encantaram e pagam preços altos pela aceitação de homens que não desejam o mesmo. Vale citar que, quando preso, Hitler foi bem tietado. Amante do homem CONSERVADOR que amou durante anos, casou um dia antes da sua morte. A maioria dos vídeos que temos acesso atualmente se deve a prática de Eva em filmar o dia-a-dia de Hitler. Uma curiosidade: Eva era tão progressista perto da propaganda conservadora de Hitler, que nos faz refletir sobre muitos desejos masculinos conservadores atuais que condenam mulheres progressistas e exaltam mulheres conservadoras, mas que no íntimo ... 

    Outra situação levantada pela série é a relação entre Ernst Röhm (1887-1934)  e Hitler. O primeiro era cofundador e líder da SA (tropa paramilitar nazista e grande amigo de Hitler), assassinado na Noite das Facas Longas (30/06 a 1º/07 de 1934). Para demonstrar como o grande ditador teve que começar a perseguir grupos (minorias e homoafetivos) por pressão do próprio grupo. Claro que nada justifica as suas atitudes, mas como no percurso o discurso moralista prevaleceu como verdade. 

  Uma das coisas que mais me embrulhou o estômago (de novo e de novo), além das cenas filmadas de enforcamento dos julgados no Tribunal de Nuremberg, foi o fato que muitos foram poupados na Operação Paperclipe e levados para os EUA para lidar com a URSS durante a Guerra Fria. Passaram pelo julgamento com imunidade e dane-se o que fizeram, pois a necessidade de enfrentar a URSS foi mais importante que a culpa pelos seus feitos. 



Acho válido como historiadora, professora de História e espectadora comum. 

quarta-feira, 17 de junho de 2026

Studio Ghibli (41 anos) e o meu TCC sobre A Viagem de Chihiro (2001)

 Em abril de 2024 eu fiz um desabafo e decidi voltar a alimentar o meu blog com um diário da pesquisa para o meu TCC (dez/2025) na gradução em Licenciatura em Artes Visuais. Até alimentei durante um tempo, com espaços entre as postagens pela dinâmica das responsabilidades da vida adulta, mas foi bem pouco perto do que eu desejava. 

Segue os links 

Animação Japonesa Através dos Tempos Vitor Danko 

O menino e a garça 

Literatura nas animações do Studio Ghibli 

Os pais de Chihiro 

    O meu último semestre com a a Instituição de Ensino não foi fácil, e isso foi um gatilho de saúde mental tão forte, que fiquei muito tempo sem poder absorver a alegria de ter escrito um trabalho tão lindo sobre algo que amo e tem muita relevância pra mim. 

A Viagem de Chihiro: o uso da animação em sala de aula para análise da cultura ocidental e o estudo da sua intersecção na cultura tradicional japonesa
TCC - Licenciatura Artes Visuais 

    Achei válido, diante da data de 15 de junho/2026 - aniversário de 41 anos da fundação do Estúdio Ghibli, registrar aqui um pouco do resultado da minha produção acadêmica. Até para aquecer a minha apresentação com o escritor que foi uma grande referência bibliográfica, pois o vasto material que temos sobre Ghibli, sempre são em sua grande maioria de cunho psicológico. Abro aqui um espaço para citar o trabalho de Ana Flávia Moreira que fez uma excelente trabalho sobre a aquitetura de A Viagem de Chihiro  e Flávia de Morais sobre o mangá e anime no ensino de artes visuais. 



    Para começar, achei válido conxtetualizar a História da Arte japonesa até a Era Meiji (1868-1912). A arte japonesa começa com a influência chinesa e coreana e a partir de um dado momento, segue com características próprias até a influência ocidental. Retornar a esse passado se faz necessário por elementos presentes na animação japonesa A Viagem de Chihiro (2001), logo, achei válido um capítulo que vai fazer sentido mais pra frente. Finalizei o capítulo sobre o assunto com uma BREVE narrativa sobre a animação japonesa. 

Chihiro e um Dosojin  Arte do período Jomon (14.000 a.C – 300 a.C).

    No capítulo que abordei sobre a animação como recurso educativo em sala de aula, abri com um capítulo sobre a origem do Estúdio Ghibli em 1985 até o fenômeno cinematrográfico mundial. Escolhi a animação A Viagem de Chihiro (2001) por suas premiações e estar até hoje entre as dez mais assistidas fora do Japão.  há um vasto material sobre os conflitos entre Humanidade e Natureza (como Nausicaa, Mononoke, Ponyo e outros), para quem está entrando agora no mundo ghibliano.



    Foi em A Viagem de Chihiro que eu consegui conciliar o meu objetivo (título do meu trabalho) com a crítica mais forte presente na maioria das animações do Estúdio Ghibli que é a ocidentalização e seus costumes culturais e exploratórios (Casa de Banho e Yubaba) e o abandono do tradicional (Zeniba) e religioso (xintoísmo/budismo - A Casa de Banho, local de limpeza dos espíritos nas águas termais japonesas acaba sendo corrompida pelas ambições da proprietária).  


    Claro que o capítulo mais difícil foi separar os frames e detalhar elementos culturais nipônicos e de culturas ocidentais, não apenas concretos, mas comportamentais. Não tem como não conciliar (citação do cerimônia do chá japonês que faço e as modificações comportamentais das fuligens - Susuwataris - que mudam radicalmente suas funções de Meu vizinho Totoro para proletários explorados por uma porção de prazer fulgas como pagamento). 



Abaixo apenas algumas imagens, pois é coisa pra CARAMBA!



Abóbodas de nervura, bancos de madeira, lamparinas ocidentais presentes na animação 

A cômoda em que um crânio no estilo shakespeariano se encontra é de modelo bombê, um estilo clássico francês. A poltrona em frente a mesa redonda na cor vermelha, é um modelo de móvel também francês ao estilo da cadeira de Louis XIV


    Claro que escolhi o Ensino Médio como segmento, mas bem sei que cumprir o currículo nem sempre é analisar o que o educando consome no seu dia-a-dia. O currículo segue aquele mesmo padrão, sem levar em conta que nossos alunos consomem animações japonesas, doramas e outras culturas. Com a intencionalidade de uma Pedagogia dialógica, perceber que a globalização trouxe para os nossos alunos outras possibilidades de consumo é primordial para a construção do conhecimento. Não podemos nos limitar apenas as imagens canônicas da arte eurocêntrica. Cada arte, à sua maneira, tem a capacidade de concretizar uma síntese que suscita grande número de significados.

Nada aqui, na entrada de Yubaba, é tradicional nipônico, por mais que a Casa de Banho seja um espaço secular e religioso. 

    A animação pode ser um instrumento que interage com a metodologia utilizada em sala de aula, além de ser uma estratégia para o desenvolvimento das habilidades e competências no ensino da Arte. Animês e mangás são produtos importantes da cultura pop japonesa e atualmente consumidos em grande escala pelo público brasileiro https://gqcanimes.com.br/brasil-e-um-dos-maiores-mercados-de-anime-do-mundo-revela-diretora-da-crunchyroll/. A realidade dos estudantes da atualidade é a vivência em um tempo real e virtual ao mesmo tempo, o que exige dos docentes a promoção de um ensino-aprendizagem que conecte os saberes dos estudantes com o contexto escolar.


    Ao escolher uma cultura diferente da nossa, levei em consideração a competência 3 da BNCC que procura que o estudante possa valorizar e fruir as diversas manifestações artísticas e culturais, das locais às mundiais, e participar de práticas diversificadas da produção artístico-cultural. A classificação de idade da animação japonesa A Viagem de Chihiro é livre, porém, para o meu objetivo de análise, acreditei que algumas cenas não seriam de fácil compreensão para crianças das séries iniciais do Fundamental I, como a cena dos porcos, e sem fundamentação pedagógica para as séries finais do Fundamental II. 


    Compreender que há a necessidade intencional e pedagógica de auxiliar o estudante no processo de consumo cultural faz parte do objetivo para que ele tenha autonomia e criticidade diante do que decide de forma voluntária consumir. Com o auxílio de capturas de imagens da animação, apontei elementos culturais do ocidente e do oriente com o objetivo auxiliar na percepção das características visuais de cada elemento e com base na contextualização qual a sua origem. 


    Educar o olhar do estudante utilizando de mídias que dialoguem com os seus interesses é uma habilidade que o docente deve obter no processo ensino-aprendizagem. Não há mais barreiras culturais após o advento da globalização e precisamos renunciar a processos pedagógicos que focam apenas na teoria e memorização. Utilizar novas tecnologias em um contexto educacional que não tem mais como retroceder, é buscar o diálogo com o nosso aluno, permitindo o uso de uma linguagem visual já conhecida por eles fora do contexto escolar. 


    A animação japonesa escolhida, muito além da possiblidade de contextualizar e analisar processo históricos artísticos, também possibilita a reflexão sobre identidade, desafios, relações de trabalho, consumo e outros temas que são abordados. No processo ensino-aprendizagem atual, não há mais a disciplina isolada, pelo contrário, de forma interdisciplinar e intencional, ela deve dialogar com outras linguagens para que o maior beneficiado seja o nosso estudante. 

Quarto do filho (Boah) de Yubaba.
O excesso do luxo que aumentava o ego da criança. Luxo importado a possível a partir da exploração do proletariado. 

    A família de Chihiro faz parte de um momento histórico e pontual de uma crise de inflação imobiliária que se conectou ao consumo desenfreado resultando em parques temáticos abandonados. Seus pais, vítimas do pensamento consumista, são transformados em porcos pelo desrespeito ao espaço alheio e religioso. Mesmo não sendo o objetivo deste trabalho, só na introdução da animação, já temos material para interdisciplinaridade. Podemos traçar paralelos entre o encontro cultural entre ocidente e oriente em cenários escolhidos propositalmente pelo diretor Hayao Miyazaki. 


    Ao conhecermos sua biografia e a forma como ele insere em seus trabalhos a sua opinião sobre vários assuntos, percebemos que a posse de Yubaba de objetos artísticos do ocidente/oriente é uma crítica ao modelo ocidental de consumismo para ostentação e divisão de classes. Por isso Zeniba é a manualidade artesanal que conecta quem faz com o resultado da obra (que é a cura do Sem Face e do filho de Yubaba - Boh, que querendo ou não, é sobrinho de Zeniba. A animação japonesa foi feita para o público japonês, claro que há a intencionalidade em aconselhar a nova geração. Como eu amo a cena abaixo e as várias reflexões possíveis, mesmo fugindo do meu tema).  


    As possiblidades extrapolam o meu objetivo principal, pois a animação A Viagem de Chihiro demonstra claramente que a modernidade capitalista resulta em conflitos e se faz necessário o restauro da sacralidade da Natureza. Chihiro, nossa protagonista, não segue o exemplo dos pais, sua coragem é que vai salvá-los. Finalizei o meu trabalho para além do objetivo pedagógico e acadêmico com a esperança de que alunos também possam captar a mensagem e nos salvar dos modelos de consumo que desumanizam e exploram cada vez mais os recursos naturais. Utópico? Talvez. 




segunda-feira, 15 de junho de 2026

Como se tornar um tirano (Netflix, 2021)

 


    Sábado foi dia de assistir a produção da Netflix, Como se tornar um tirano (How to because a tyrant) produzida em 2021. Narrada e produzida pelo ator Peter Dinklage (Tyrion Lannister de Game of Thrones) eu assisti na versão dublada com Márcio Simões (Vox Mundi),  logo, parecia ser Samuel Jackson na minha cabeça (ele dubla ambos os atores). Só uma observação, em nada atrapalha o documentário. 

    Como se tornar um tirano tem uma pitada sarcástica para talvez, aliviar o comportamento de genocidas históricos. Baseado no livro de 2011, O manual do ditador: por que o mau comportamento e quase sempre boa política dos cientistas políticos Bruce Bueno de Mesquista e Alastair Smith, a produção conseguiu fazer uma versão meio tiktoniana com 6 episódios de 30 minutos. 

    O episódio 1 começa com nada mais e nada menos que o nazista Adolf Hitler (1889-1945), em como esse austríaco conseguiu passar de um desconhecido para um líder condutor das maiores atrocidades cometidas pela Alemanha nazista. Não vou escrever muito, pois ficará para a próxima postagem sobre outra série da Netflix sobre os atos nazistas de Hitler e alta patente alemã. Mas, resumidamente é sobre como assumir o controle a partir de insatisfação coletiva (Tratado de Versalhes e Crise de 1929 na Alemanha pós 1ª Guerra Mundial) e a criação de um bode expiatório (judeus e minorias). 

Imagem DW

    Saddam Hussein (1937-2006), ditador iraquiano, morto em 2006 por enforcamento é o tema do episódio 2. A tática era a ameaça aos seus rivais, por exemplo, ameaçar de tortura aos familiares e após conseguir uma confissão falsa, eliminar literalmente seus opositores. Nem sempre esses opositores faziam parte dos inimigos de Saddam. Ele começou com a prática dentro dos seus aliados que não concordavam com alguns comportamentos tidos como desproporcionais, ou seja, violentos. Claro que deixarei aqui a minha crítica histórica a produtora do documentário, pois faltou muitos líderes "democráticos" que levaram "democracia" para algumas nações e as ações militares em nada deixaram a desejar as práticas militares dos ditadores abordados. Leia-se ocupação norte-americana em países do Oriente. 

Imagem BBC

    Ainda sobre o episódio 2, a Netflix cita algumas ações relacionando com Hitler e Hussein: esteja em toda parte (Polícia Secreta) com uma rede de informações confiante. Também explana bem as táticas de ambos os ditadores de manipulação e humilhação a todos a sua volta. No episódio 3, eu conheci um pouco de Id Amin (1925-2003) e como não conhecia muito, fui pesquisar. O tema central é reine pelo terror e eu não vejo outro título melhor. As ações do ex-pugilista de 1,90 e 110 quilos são terrivelmente inenarráveis aqui no meu blog (citei as características físicas,  pois ele intimidava pela altura). Só um adendo para a tática muito conhecida de usar Deus como justificativa para as atitudes de muitos que ele usou para expulsar milhares de asiáticos de Uganda, pois para ele, o Divino determinou tornar o País totalmente negro. Esses asiáticos eram imigrantes do Império Britânico na Índia, e claro, continuo aguardado documentários sobre o tema. 

Imagem Internet

    Quero abrir um parentese aqui sobre a frase usada em um dos episódios "quem controla o passado, controla o futuro". Foi colocado como frase de origem a um oficial de alta patente alemã, mas essa frase é de George Orwell (1903-1950) em sua distopia 1984 para representar um Estado totalitário. Inclusive, como alguns comportamentos atuais nas democracias estão "cheirando" a fascismo, essa frase está sendo repetida diversas vezes  e muitas explicações no Tik Tok e vídeos curtos do Instagram não citam a fonte da frase. Por exemplo, novilingua também é um termo do mesmo livro, e é uma língua oficial fictícia com a função de reduzir o vocabulário e impedir qualquer oposição política. Totalitário, porém uma observação necessária. Conhece o programa Big Brother? Criado a partir do Grande Irmão, o olho que tudo vê, também parte do romance distópico de Orwell. 

Imagem Internet


    Já li muito sobre o regime totalitário de esquerda de Josef Stálin (1922-1953), mas foi um fato novo a manipulação que ele fazia em fotografias que há anos seguem como fidedignas ao contexto histórico. Sim, como caracteristíca de regime totalitários (seja de extrema direita ou esquerda) a manipulação da mídia e propaganda é quase um modo operante de manual básico. Mas eu achei a tecnologia avançada para a época (me  julguem, eu sei que fui inocente). Claro que as fotos que ele modificou auxiliaram e muito no objetivo dele ser aceito pela ala que aceitava Lênin (1870-1924 - foto acima) e esse controle da verdade era algo que justificava suas atrocidades até com ex-aliados do Partido Comunista (Leia-se Trotski 1879-1940, que exilado no México foi assassinado por ordem de Stálin). Na foto abaixo ele mudou até as suas características físicas, pois teve váriola e a imagem está sem nenhuma marca comum a quem teve a doença.

Imagem internet

    No episódio 5, o tido como revolucionário Muammar Gadaffi (1942-2011) em sua busca por criar uma nova sociedade usou como táticas o controle social pela mudança de pensamento. No Livro Verde, o ditador criava uma Terceira Teoria Universal que ia contra a temas que são usados em palcos políticos até hoje: o anticomunismo (soviético) e o anti-capitalismo ocidental. Os regimes totalitários sempre vão usar o pluripartidarismo como uma ameça e defender o unipartidarismo de Estado como uma solução. Claro que na democracia, nem todos os partidos políticos defendem as causas da população. As opiniões sobre Gadaffi são controversas, pois de uma lado ele subiu o índice de desenvolvimento com o petróleo local e possibilitou a educação feminina. 


    Porém, quando o assunto é "coloque a mulher no seu devido lugar", os relatos biográficos recentes sobre a Guarda Amazônica de Gadaffi relatam abusos sexuais e essas mulheres virgens após relações íntimas com o ditador, não voltavam para as suas famílias de maioria islâmica. A propaganda de empoderamento feminino convencia dentro e fora do seu controle social, pois há relatos de amazona que entrou na frente de Gadaffi e morreu com vários tiros para protegê-lo. O seu nacionalismo árabe e o pan-africanismo unidos ao anti-imperialismo manteve o controle social na Líbia e após a intervenção norte-americana, deixou como herança guerra civil e crise humanitária. 


    Por último, a dinastia Kim da Coreia do Norte, onde o culto a personalidade é usada para garantir o poder a longo prazo, haja vista já é o terceiro membro da disnastia que ocupa atualmente o poder. Primeiro Kim II-sung (1948-1994), Kim Jong-il (1994-2011) e atualmente Kim Jong-un desde 2011 (as datas dentro dos parenteses são dos anos de governo de cada um). O primeiro da imagem abaixo governou desde a fundação do País em 1948 com o auxílio da União Soviética e assinou o fim do armísticio que encerrou a Guerra da Coreia. Aqui começa uma característica muito forte em regimes totalitários, o culto ao líder. 

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    Mas, não vou escrever muito, pois há muitos desencontros de informações sobre o calendário Juche (que começa com o nascimento do fundador em 1912) e seu desuso, isso ou aquilo sobre a Coreia do Norte e, para não colocar relatos permitidos pelo regime ou visões ocidentais, prefiro pesquisar mais e terminar indicando o documentário. A linguagem é acessível, o tom do manual de como se tornar um tirano é proposital e logo quem desconhece a História, tem uma breve resumo de como pessoas comuns conseguiram convencer multidões por ideologias, inimigos em comum, controle midiático e uso de violência militarizada. "A cadela do fascismo está sempre no cio", pensamento adaptado de Bertold Bretch (1898-1956), no mostra que devemos ficar atentos e desconhecer é permitir novamente.