quarta-feira, 4 de novembro de 2026

Dom de Iludir (Netflix/2026)

    Dom de Iludir (Netflix/2026) começa com uma exposição no Museu de Arte Contemporânea de Niterói (MAC/RJ) e um belo Portinari (Mulher com filho morto/1955) como parte da trama. Essa obra liga o início ao final explicativo comportamental da matriarca Lúcia Rosseti (Marieta Severo). Claro que é uma produção para a série, assim como as demais obras apresentadas com a devida autorização dos herdeiros de Candido Portinari, Victor Brecheret e Di Cavalcanti. Para os apreciadores dos artistas, vale muito a pena. 



    Pois bem! Após a morte do seu marido no dia da exposição que dá abertura a série, Lúcia precisa se inclinar aos cuidados materno de uma doença não diagnosticada de Maíra. Filha única e totalmente limitada e direcionada pela super proteção da mãe, ela participa de um plano nada ético para conseguir ter a liberdade financeira que tanto merece. Logo, acredita estar fazendo o certo. Nem sempre, pois percebemos uma Maíra manipulável e uma mãe disposta a tudo para protegê-la. Ainda que as provas direcionem a cumplicidade de Maíra na tentativa de golpe sofrida por Lúcia. 

    O que torna essa trama mais interessante é a possiblidade de ter tido como base o golpe sofrido com as mesmas características, ou seja, envolvimento de golpe espiritual, o caso da família Boghici. Deixemos claro que a Netflix apresenta Dom de Iludir como obra de ficção e que não é uma adaptação direta. Hum, hum! Ela finge que sim e nós fingimos que acreditamos. Não me custa apresentar um dos maiores casos de estelionato e desvios de obra de arte da vida real, até para evitar mais spoiler. 

    Conheci o falecido marchand e colecionador de arte Jean Boghici dias átras e até escrevi aqui no blog Citação Jean Boghici. Após a sua morte em 2015, o estelionato teve início e Geneviéve Boghici se torna vítima de uma mãe de santo que afirma que sua filha, Sabine Boghici, corria risco de vida. Se na trama, os sintomas apontam para a necessidade de uma cura, na trama real, o risco da tragédia faz a mãe levar um prejuízo de 725 milhões. O caso vem à tona em 2022 e ambas as tramas apresentam a herdeira dando informações e sendo vitimizada pela mãe, ainda que tenha sido mantida em cárcere privado na própria casa. A necessidade de limpeza espiritual, assim como na série, foi o motivo que enganou e levou obras de Tarsila do Amaral, Di Cavalcanti, Cícero Dias, Rubens Gercham e outros. Reportagem sobre o caso Boghici


    O elenco está divino e dispensa comentários sobre a atuação de cada um. Só achei um pouco cansativa a parte investigativa, mas deu para maratonar em uma sentada só. Indico! Até para conhecer as possíveis lavagens de dinheiro usando pinturas. 

terça-feira, 3 de novembro de 2026

A vida e a história de madame C.J.Walker (Netflix/2020)

 


 A atriz Octávia Spencer (imagem acima) deu vida a madame C.J.Walker na série de apenas 4 episódios "A vida e a história de madame C.J.Walker" (Netflix/2020). Sarah Breedlove (1867-1919) nasceu em Louisiana e não teve uma vida muito fácil. A série não foca muito no seu passado antes de 1908, não cita seus casamentos anteriores, como viveu após perder seus pais e como se tornou lavadeira. O primeiro episódio inicia  com Sarah sendo atendida por Addie Munroe (Carmen Ejogo), que pagava as lavagens das suas roupas em troca do tratamento capilar na protagonista. 

Madame C.J. Walker

    Addie provavelmente foi inspirada em Annie Malone (1869-1957) e ainda que a série tenha como base a biografia de Sarah escrita por sua trineta, a modificação entre a relação de Annie e Sarah foi radical. Se na realidade, Sarah foi vendedora do produto caseiro para tratamento capilar afro de produção própria de Annie, a série apresenta outra versão para justificar a concorrência entre as duas. Sarah desejava ser vendedora de Addie e ansiava em mostrar o resultado positivo que o produto causou para ela. 

    

    A série apresenta uma Addie mais clara e com cabelos menos crespos e, para ela, ter uma representante com traços afro-retintos não seria o ideal. Annie Malone também ficou milionária com a produção e venda de produtos para a estética afro-americana, mas na série, a biografia no papel de Addie, só demonstra a sede de competir e ver o fracasso da madame Walker, que inclusive deu o nome do (ex) marido para o seu império. É lamentável esse viés escolhido para apresentar a relação das duas. 


    Após ser rejeitada como vendedora (versão Netflix), Sarah começa uma busca por um produto com um cheiro mais agradável e que dê certo tanto quanto o produto de Addie. Deixa de ser lavadeira da ex-cabelereira e se muda com a família para Indianópolis. De porta em porta e envolvendo toda a família Walker, Sarah passa a conviver com o machismo estrutural para conseguir apoiadores para o seu produto. Após um incêndio da sua casa e futura fábrica e a chegada de Addie que tenta roubar a sua clientela, a série demonstra a garra da protagonista, porém, com o objetivo de vencer no ringue pessoal a concorrente. 


    Nesses poucos episódios, outros temas são apresentados além do machismo. O racismo e a violência contra os negros nos EUA no período da segregação racial, a relação de homoafetividade, a padronização da estética feminina entre as mulheres negras e o silêncio que protegia as mulheres diplomadas e esposas de homens importantes. Elas só podiam falar entre elas e o risco de uma mulher avançar e passar a ganhar mais que os homens é apresentado sem nenhuma cerimônia. 


    Mas a intenção da diretora Nicole Asher não era colocar uma âncora nos sofrimentos de Sarah, que, álias, são vários. A visão de oportunidade de madame Walker, não apenas para ela, onde só enxergavam limitação, é o que possibilitou várias mulheres negras a ganharem dinheiro em um período em que apenas os serviços domésticos eram permitidos. Sem herança familiar ou por mérito do casamento, Sarah se torna uma das primeiras mulheres negras que enriqueceram com produtos estéticos para a população negra. Não a única, pois se pesquisarmos a biografia de Annie Malone, são bem parecidas.  Além da oportunidade de emprego e ganho de custos, Sarah auxiliou na área da filantropia e no ativismo político pelos direitos dos negros nos EUA. Uma biografia inspiradora! 


domingo, 25 de outubro de 2026

Light Novel - volume 1 Diários de uma apotecária (capítulos 3 e 4)

     Os capítulos 3 (Jinshi) e 4 (O sorriso de ninfa celestial) apesar de apresentarem Jinshi, o eunuco mais amado e odiado pelos fãs, há muita repetição sobre os temas já abordados nas postagens anteriores sobre a divisão interna das servas, consortes, culinária e a maquiagem Capítulo 1 Capítulo 2. Então, nessa postagem vou tentar acrescentar outras curiosidades sem dar spoiler.


    Vou começar pela descrição física sobre o Jinshi, descrito como possuidor de um sorriso leve, tão gracioso quanto o de uma ninfa celestial. "De cabelos como fios de seda, contornos suaves e finos, olhos alongados e sobrancelhas cheias como salgueiros. As ninfas celestiais pintadas nas pergaminhos ilustrados jamais poderiam competir com tamanha beleza". Na arte japonesa, uma Tennyo é a figura mais próxima da figura da ninfa ocidental. É uma donzela celestial ou mulher alada que é derivada das apsaras indianas, que passaram pela influência da cultura chinesa e budista no Japão. 


    A sua imagem tem algumas diferenças conforme o illustrador. A versão em mangá ilutrada por Nekokurage (pseudônimo de Erika Ikeda) e publicada pela Square Enix na revista Monthly Big Gangan serviu de base para o visual do anime. Os mangás que temos acesso da editora Panini no Brasil, são baseados nessa versão. Foi essa ilustradora que teve condenação por evasão fiscal. O mangá versão Kurata (mangaká)  é disponibilizado na revista Monthly Sunday Gene-X da editora Shogakukan. Hyuganatsu, a autora, vendeu o direito para as duas empresas sem exclusividade, simples assim, sem maiores explicações. A ilustração da versão light novel é feita por Touko Shino e sua versão também foi referência para a designer de personagens, Yukiko Nakatani, criar o Jinshi da animação. Conforme a versão, o personagem pode sofrer alterações comportamentais, mas vou não me prolongar no tema. 
versão square enix (esquerdo) versão shogakukan (direito)

    No capítulo 3, ficamos sabendo que o bilhete escrito por Maomao foi deixado em um talo de rododendro. Essa planta vai aparecer muito, pelo menos na versão animação. Originária da China, Japão, Tibete e região do Himalaia, ela é conhecida por nós como azaleia e tem mais de mil espécies e cores, podendo chegar até 6 metros de altura. 




    No capítulo 4, mais uma vez temos a informação da divisão sobre as servas, que podem ser de famílias rurais, da cidade e filhas de oficiais da corte. Maomao finge não saber ler, mesmo sabendo que poderia receber mais, pois a maioria das servas comuns são analfabetas. Ela vai explicar o motivo mais pra frente, pois ela tem o objetivo de trabalhar durante dois anos e voltar para seu lugar de origem. Substituir uma serva alfabetizada seria muito difícil e isso a prenderia mais tempo no palácio interno. Sem contar um salário mais alto, logo, seus sequestradores receberiam mais, o que ela acha um absurdo (capítulo 5 sendo adiantado). Ah! As consortes também recebiam salário, pois essa posição era vista como ofício. 

    Todos  no palácio interno entram de luto, até os servos, eunucos e consortes de baixo e alto escalão. Sem nomear o falecido, a culinária mais uma vez nos leva ao passado e presente de algumas culturas orientais. Somos informados que, durante sete dias, a carne, que já era parca, fora eliminada por completo das refeições. a carne era considerada um alimento de luxo e associado a festividade e prazeres terrenos e os enlutados deviam e devem manter uma dieta extremamente simples, focada apenas em mingaus e sopas. 

    Não dá para estender sobre o assunto, pois os ritos de luto são bem diferentes do nosso, e também passou por mudanças nas próprias sociedades japonesa, chinesa e coreana. Até os nossos aqui no ocidente, são diferenciados, após contato de culturas. Veja o dia de finados no Brasil e o dia de todos os mortos no México (só para exemplificar). Após o período de luto, sem as faixas pretas e sem a abstinência de carne, o menu do dia era sopa com minúsculos pedaços de peixe. Será que podemos chamar de caldo? Até então ela vai receber uma convocação que vai mudar a sua trajetória ali dentro do palácio interno. O eunuco sabe que foi ela a autora do bilhete deixado para a consorte, mãe da princesa, Lingli. 

    Antes de findar, deixo aqui uma descrição da Maomao sobre a edificação onde ficava a chefe das servidoras da corte: em cada um dos parapeitos havia entalhes gravados e dragões em cores vívidas enfeitavam os pilares vermelhos. Deixo a imagem abaixo (site free) de um templo na Malásia e outro na China, pois a característica de dragões nos pilares, coloridos ou não, é presente na arquitetura dos templos na China, Japão e outros na Ásia. 



sábado, 24 de outubro de 2026

Imagens da Branquitude - Lilia Moritz - Sobre a imagem da capa e artista

     Comecei recentemente a devorar o livro Imagens da Branquitude (a presença da ausência) da autora Lilia Moritz Schwarz (editora Companhia das Letras) e vou escrever, vez ou outra, sobre a minha leitura em postagens futuras. A importância da temática é a justificativa de não esperar terminar a leitura para fazer a resenha/postagem. A autora recebeu o Prêmio Jabuti Acadêmico 2025 na categoria História e Arqueologia.


    A autora começa explicando a imagem da capa:


    A presença do piano e do violoncelo, já demonstra a classe social da família presente na pintura. No Brasil Colônia (1500-1822), Império (1822-1889)  e início da República, ter um violoncelo e um piano, em saraus particulares funcionava como exibição de riqueza, mas nem sempre a maiorida dos músicos profissionais pertencia às classes mais altas. Os figurantes na imagem acima, são pessoas brancas, mas o nosso olhar é direcionado para uma figura menor, no fundo da pintura. Uma mulher negra que provavelmente faz parte de quem serve e não de quem aprecia a menina tocando o piano. 

Gordon Brow e Paulo Pedro Leal em fotografia publicada no jornal ‘A Manhã’, em 19 de outubro de 1952. Reprodução.

    O autor da tela é Paulo Pedro Leal (1894-1968), nascido no RJ, filho de pais que partiram da Bahia para a capital em busca de melhores oportunidades. Assinava "PPL" e também acrescentava em algumas pinturas a letra "E", de espiritual, pois alguns clientes também o procuravam como pai de santo. Passei um tempo pesquisando sobre o artista, pois eu não o conhecia e, sobre ele, a autora nos informa que se dedicou a diferentes ocupações, como empregado doméstico na casa de uma família francesa, funcionário em uma cervejaria, auxiliar de pedreiro e estivador. Pintou durante tempo sobre papelão e durante uma exposição no Passeio Público (RJ), foi descoberto pelo marchand (comerciante e agenciador de obras de arte) Jean Boghici (1928-205). O artista PPL passou então a pintar sobre tela, tulizando tinta e óleo de linhaça. 


    A pintura acima, conheci a partir da pesquisa após ler a introdução sobre a imagem da capa. Fiquei admirada com muitas obras, mas essa em especial, me deixou impactada. Afogamento dos mendigos (1965) é um relato iconográfico da Operação mata-mendigos que ocorreu em 1963 no governo de Carlos Lacerda, que jogou pessoas em situação de rua no rio Guandu. Uma política eugenista no Estado pré-ditadura militar. 




    O estilo de PPL faz jus ao nome da exposição que segue até 08/11/2026 com o título "Paulo Pedro Leal: trágico subúrbio", na Pinacoteca de São Paulo. Precisamos conhecer outras narrativas diferentes das narrativas oficiais. 


    Considerado por muitos como artista naïve (naif), artistas negros dessa geração estão passando por uma reconfiguração do cânone das artes e isso é muito importante para a nossa História. Principalmente por ser a visão de uma testemunha ocular do início do Brasil República (1889) até os primeiros anos da ditadura civil-militar (1964). Vale lembrar que o artista também foi testemunha da capital em seu processo de reubarnização rotulada como "belle époque". Além do cenário doméstico, a representação dos conflitos de classes em espaços públicos também fazem parte do seu trabalho. Sem contar a representação de conflitos da Grande Guerra que ouviu relatos durante o tempo que foi doméstico de uma família francesa. 
Naufrágio 1953


sexta-feira, 23 de outubro de 2026

Light Novel - volume 1 Diários de uma apotecária (capítulo 2)

    No capítulo 2 (As duas consortes) da light novel, Diários de uma apotecária, vou abordar algumas informações sobre o funcionamento do palácio interno da ficção e tentar conciliar com a minha formação acadêmica (História). Claro que, disponibilizando meus devaneios. Caso você não conheça, fica a indicação das três versões (temporada 1 na Netflix, temporada 1, 2 e atualmente a 3 na plataforma Crunchyroll da animação japonesa/mangás e light novel). Confesso que as versões impressas não são tão acessíveis pelo valor e o quesito exclusividade tornou o produto mais caro. A versão light novel traduzida aqui no Brasil ainda está no volume 2.

    A primeira imagem (acima), característica do estilo light novel (preto e branco), é de Maomao e Xiaolin no refeitório. A refeição dos servos, sopa e mingau de cereais, já aponta que, a divisão de classes existia desde sempre, pois esse tipo de refeição, historicamente falando, era para servos e camponeses. Na Antiguidade Oriental, já que estamos tratando de um sistema baseado (ou não) no palácio da China/Coreia, a sopa e o mingau de cereais eram a base da alimentação. Não era exclusivo apenas na China, a receita com grãos também era comum para os hebreus, egípcios, mesopotâmicos e outros.



    O que é muito interessante, é que, se citarmos essa receita hoje, ela pode ser algo rejeitado pela estética ou com um valor alto por ser uma culinária diferente. Não é informado os ingredientes da sopa ou do mingau de cereais, apenas que era o desjejum (café-da-manhã para nós). Diferente dos ocidentais, para os orientais, principalmente os chineses, o consumo de alimentos quentes e de fácil absorção logo cedo, era e é medicinal, pois auxilia o despertar do sistema disgestivo. No norte do território chinês, o milhete (painço - imagem acima) era consumido e já no sul úmido, o arroz. Pesquisei os benefícios de vários grãos da culinária asiática e é sensacional. Uma curiosidade, por causa dos mingaus e o seu cozimento, a cerâmica teve o seu desenvolvimento impulsionado na China pré-histórica (Neolítico, mano! Era da Revolução da Agricultura). 



    Beleza! Escrevi demais sobre o desjejum da Maomao e Xiaolin, mas antes de findar a parte culinária, quero citar sobre o chá de ervas com alcaçuz. Em forma de agradecimento pela fofoca do momento, Maomao dá esse chá para Xiaolin, e isso é muito interessante, pois já demonstra que nossa protagonista tem conhecimento apotecários/boticários (são termos históricos e sinônimos que designam o antigo profissional responsável por manipular, preparar e vender remédios, ervas e drogas nas tradicionais boticas, antes da regulamentação da farmácia moderna). Ela faz o chá com plantas que colheu no pátio central (não é qualquer pátio, hein...) e após afirmar que estava com um cheiro forte de remédio, cita que também estava doce. Pois então, aí está o pulo do gato: o alcaçuz. Essa raiz foi consumida no Mediterrâneo, Egito e na China há mais ou menos 2.300 anos atrás. Sua raiz doce contém glicirrizina, um composto que é 50 vezes mais doce que o açúcar da cana. A própria Maomao informa que servas tinham poucas opotunidades de consumir doce e nem precisamos reforçar que o motivo era a posição social delas. 



    Qual era a fofoca entre as servas no refeitório que aproximou Maomao e Xiaolin? Sim, pois Maomao desde o início tem características taciturnas (um adjetivo da língua portuguesa que descreve quem fala pouco, é calado, reservado ou silencioso) e totalmente contrária a tagarela, extrovertida e animada Xiaolin. A fofoca é a frequência do médicon real em visitar as consortes, Lihua e Gyokuyou, sendo mais frequente em visitar a primeira. Pois bem, Lihua teve um filho (sexo masculino!) e Gyukuyou teve uma menina, logo explica a frequência das visitas. Por mais que, os filhos e as filhas das consortes fossem herdeiros do imperador, apenas os filhos poderiam substituir o imperador. Maomao descartou a hipótese de envenenamento, pois nas mortes passadas, duas eram meninas e um era menino (filhos de outras consortes). Para ela, não fazia sentido envenenar princesas. Maldição? Maomao odeia essa linha de raciocínio sobrenatural e vai rejeitar essa visão sempre. 



    Quem são essas consortes de alto escalão? Na ficção, temos quatro nessa posição de importância. Nesse capítulo, sabemos que Lihua (imagem abaixo) tem o maior pavilhão e naquele momento, era a mulher mais poderosa ali, pois era mãe de um menino. Mas, o fato de ser a consorte do maior pavilhão, é anterior ao nascimento do herdeiro do imperador (acho que soltei um spoiler na postagem anterior). Gyokuyou, é a preferida do imperador e tem sangue do oeste. A localização da capital ocidental justifica os traços da consorte de cabelos vermelhos e olhos verdes. Mas, por agora, não vou me prolongar, os debates sobre a origem dela são extensos e interessantes (. A ficção apenas na 3ª temporada e mais ou menos 5º volulme light novel, demonstraram a importância do clã de Gyokuyou). 


    Bem, Maomao fica interessada nessa fofoca e após os sintomas dos herdeiros serem citados, ela precisa verificar o que está acontecendo (a curiosidade matou o gato e como Maomao significa gato, o ditado diz muito sobre a nossa protagonista). Ela troca de lugar com uma lavadora de seda do pátio oeste, já que ela é do pátio leste. Cita uma curiosidade sobre a deteriorização da seda, tecido nobre, e que à sombra, seca sem danificar. São informações bobas que passam despercebidas, mas que na época, faziam toda a diferença, principalmente para uma garota qualquer de 17 anos. 


    Essa serva do pátio oeste, troca de lugar sem exitar, pois quer ver o eunuco com beleza extraordinária, e mais uma vez, Maomao fala das possiblidades de casamento com eunucos. Se do lado de fora do pátio interno, ser sequestrada para ser algo em relação ao eunuco era rejeitado e temido, do lado de dentro, era a única esperança para as damas da corte quando deixassem o trabalho. As damas da corte tinham uma função diferente das servas, mesmo que cuidassem de serviços domésticos e higiene pessoal da princesa, consorte ou alguém de linhagem nobre. Interessante essa informação logo de início, pois o que mais eu escuto, são desejos de que Maomao tenha um romance com mulher ou com esse eunuco de beleza extraordinária que vou apresentar nas próximas postagens. 

    "Volta e meia era possível ouvir sobre damas da corte que se tornariam esposas de eunucos quando deixassem seu trabalho. isso, presumivelmente, era considerado mais salutar do que se sentirem atraídas pelo gênero feminino, mas Maomao realmente não conseguia compreender. Será que um dia eu vou acabar me tornando como elas? Diante da pergunta retórica, Maomao cruzou os braços em grunhiu. Ela não tinha esse tipo de interesse." Provavelmente a autora se refere aos rompantes apaixonados, pois se ela ainda não era dama da corte, como serva, não poderia desejar um casamento com eunuco. Meu devaneio, Mas algo fica claro já de início, Maomao não tem interesses românticos. A cobrança do público é desproporcional, se levarmos em conta que não é o centro da trama. 




    Maomao chega dentro do pátio central das consortes de alto escalão pela "primeira" vez. Então, ela percebeu algo na estética da consorte Lihua, a palidez. Citei na postagem do volume 1 Capítulo 1 Light novel que Maomao acabou se tornando serva por ser magra e ter a pele natural. Maquiagem não era algo barato e ter a pele páilda significava que aquela mulher era da nobreza ou da elite, pois não precisava trabalhar ao ar livre. Em poemas antigos, a pele clara era relacionada a elementos da natureza como neve e jade. 


    Para obter essa brancura extrema, os cosméticos continham pó de chumbo sintético e por mais que já existisse uma base de farinha de arroz, o chumbo tinha uma melhor aderência, opacidade convicente e cobertura perfeita. Como a morte das crianças na ficção foi na fase de amamentação, nem precisamos escrever muito sobre a contaminação de mãe para filho. Essa questão da maquiagem não foi algo exclusivo do Oriente, também alcançou o ocidente (seja para definir classe social ou disfarçar doenças), pois as trocas culturais, acompanharam as comerciais durante a História da Humanidade. Só para acrescentar, que alguns itens de maquiagem, surgiram com objetivos de proteção, por exemplo, o batom e o kajal no Egito antigo. 

Rainha Elizabeth para esconder as cicatrizes deixadas pela varíola que contraiu em 1562 e projetar uma imagem pálida de pureza ("Rainha Virgem"), ela usava uma pasta branca feita de chumbo branco misturado com vinagre.

    Bom, o episódio das consortes acontece no pátio central e uma observação para findar essa postagem é a descrição dos entalhes e pilares. Para quem já assistiu a animação japonesa, deve ter percebido a arquitetura, que por mais que, se assemelhe a Cidade Proibida da China (teve esse nome, pois apenas o imperador podia acessar), tem mesclagens de alguns períodos da China e Japão. Deixo o link aqui para verificar a fala da autora sobre essa questão Natsu Hyuga e ambientação. Logo, vamos para o capítulo 3. Sem pressa, pelo menos por aqui. 


terça-feira, 20 de outubro de 2026

O diabo veste prada 2 - devaneios de uma decepção

     Não assisti o filme O diabo veste prada 2 (2026) no cinema. Hoje, eu sou muito controlada sobre o "hype" (é uma grande expectativa ou alvoroço gerado em torno de um produto, lançamento, evento ou tendência que está "bombando" nas redes sociais e na mídia virtual) de certos lançamentos cinematográficos. Mas, vamos lá! O diabo veste prada 1 foi lançado em 2006 e eu te pergunto: quantos anos você tinha? Eu tinha 29 anos. Na onda dos blogs (esse aqui é de 2007), vlogs, facebook, orkut e memes, quem nunca conheceu Miranda julgando as vestes de alguém? 




    O que eu quero dizer, é que, o filme atravessou gerações e sem ninguém esperar, divulgaram o 2º volume baseado (assim como o volume 1) no livro de Lauren Weisberger, que era assistente da poderosa Anna Wintour da revista de moda, Vogue. Muitas de nós nunca tivemos contato com essa revista, mas a maioria de nós, sabíamos e sabemos quem é a Miranda Priestly (Meryl Streep) e a evolução de Andrea Sachs (Anne Hathaway) e a sua decisão em não pertencer a esse mundo tóxico da moda (final filme 1). Pois bem ... 


    Peguei um dia e resolvi assistir via streaming o volume 2, lançado em 2026, com uma certa expectativa sobre o desenvolvimento dos personagens. Talvez aí, eu tenha errado feio. Não li e não sei se seguiu o livro ou seguiu a liberdade do diretor (mesma equipe em ambas as produções - diretor David Frankel e produção Wendy Fineirman). Mas, confesso que esperava mais de uma personagem em especial e isso tem uma relação direta com o meu devaneio. Quando findou o "volume" 1 e Andrea Sachs se afastou de Miranda Priestly (Meryl Streep), puts! Pensei: ela vai se tornar uma mulher pica das galáxias! 

Meryl Streep e Anna Wintour

    O diabo veste prada 2 aborda o declínio da mídia impressa, e isso, eu entendo bem. Parte da geração que teve acesso às notícias via mídia impressa e agora via digital, entendo bem o conflito apresentado. Claro que não é só isso que é apresentado, acredito que posso usar como exemplo o último desfile (18/out/2026) da Victoria´s secret Fashion Show 2026 em Los Angeles EUA, quando Kylie Jenner foi escolhida para desfilar com o sutiã de US$ 50 milhões. Não interessa as modelos experientes, o que importa atualmente, é o número de seguidores. A influência virtual passou por cima da experiência nas passarelas. Esse complemento é apenas para demonstrar que a arte sempre vai demonstrar a sociedade na qual estamos inseridos. O conflito entre gerações e aquilo que cada uma dá importância é apresentado no volume 2. 

Kylie Jenner - desfile Victoria´s Secrets Fashion Show 2026

        A moda é mais política do que deduzimos! 

     Pois bem! Andrea Sachs (Anne Hathaway), ex-assistente de Miranda na versão 1, perde o cargo de assistente da Runway e de forma atropelada, retorna ao contato com a antiga chefe. Nessa versão, ela se torna a salvadora de equipe do antigo emprego (Runway) e eu esperava muito dela. A decepção foi grande. Insegura, despreparada e vítima do acaso, acaba resolvendo questões, com uma bondade ingênua, da sua antiga chefe. Sem vínculo algum, se liga a antiga chefe e a colega, Emily (Emily Blunt), sem que ninguém peça. Qual o problema em deixar Miranda se lascar? 

    Não vou ler o desabafo biográfico de Lauren, mas confesso que gostaria muito de não ter assistido. Vinte anos depois, a ex-assistente da poderosa Miranda, gagueja e é enganada por Emily, sua ex-colega soberba de trabalho. Só uma observação: todas entregam muito! Mas o roteiro é estranho diante do desfecho do filme de 2006. Aparece até um affair para Andrea, mas, para mim, é Emily que está bem inserida no meio da moda com filhos e ex-marido. Miranda, diante de um herdeiro e mudanças de geração, acaba participando de um quarto menos melhor que parece ser uma crise econômica. (e não é! A geração nutella que deseja comandar). Quanto atropelo!


     Claro que é de muito bom tom citar Amari (Simone Ashley), demonstrando que, por mais que a mídia de comunicação mude, o padrão (tóxico) continua intacto. Esse local foi muito bem interpretado por Emily na versão 1. Sem contar que, o talentoso Nigel (Stanley Tucci), tão desprezado por Miranda, precisou do heroísmo de Andrea para ocupar o seu lugar de merecimento, caso contrário, mesmo criticando as vestes promocionais (leia-se BRECHÓ) de Andrea, continuaria na sombra. 


    Na verdade, todos nós fomos vítimas de traillers que prometeram muito e de ações promocionais de influencers midiáticos que juraram valer a pena. Mas, no meu caso, nada disso tem culpa. Eu absorvi o desfecho da versão de 2006 e esperava muito mais de Andrea Sachs. Os demais personagens, nenhum susto, mas não quero que me levem muito a sério. São vinte anos e assim como os contos de fada, ninguém sabe o que acontece após o "the end". É um devaneio bem pessoal. 


segunda-feira, 19 de outubro de 2026

Light Novel volume 1 - Diários de uma apotecária (capítulo 1)


    Que eu amo a Maomao, é sabido por todos! Que já tem um tempo que eu desejo escrever sobre ela aqui, talvez nem todos saibam. Diários de uma apotecária ganhou o mundo após o lançamentos da 1º temporada na Netflix  (1ª e 2ª e desde outubro/2026 a 3ª temporada na plataforma Crunchyroll). A versão mangá e light novel traduzida para o português demorou um pouco a chegar para os fãs no Brasil. Então, a maioria de nós conhecemos primeiro a Maomao versão anime, e realmente não sei o número de pessoas que conheceram também a versão mangá e por último, a versão light novel. As três versões são maravilhosas, mas confesso que a versão light novel é sensacional. 



    Uma light novel é um estilo de literatura de origem japonesa com ilustrações esparsas no estilo com o mangá. O estilo pode ser romance, ação ou fantasia. O que diferencia do livro é o tamanho do paragráfo e a linguagem que é mais simples, pois seu público em geral são adolescentes e jovens. Já o livro tradicional pode ter a linguagem mais densa ou erudita. Não é uma romance curto, e sim, um estilo narrativo. Surgiu no Japão na década de 90 e atualmente rompeu a bolha e globalizou o estilo para vários países. Importante essa introdução, pois vamos ter alguns detalhes precisos, como por exemplo, a tradução, a editora e isso pode influenciar no resultado final. Explicarei mais pra frente usando o exemplo da tradução e significado de "concubina" e "consorte". 


   Mesmo tendo lido até o volume 8 do mangá (Editora Panini) e estar acompanhando a 3º temporada, escreverei aqui a partir da leitura que estou fazendo da versão light novel (Editora Globo Alt, 2026). Partirei do início em comum nos três estilos, o sequestro da protagonista que foi vendida para a corte imperial enquanto procurava ervas na floresta.  Maomao, que morava com o pai adotivo, um apotecário muito competente, e que foi expulso da corte imperial,  vai contra a sua vontade ser uma serviçal no palácio interno. 

Cidade Proibida (Pequim, China, século VXII - assim como na obra ficcional, apenas imperadores e pessoas permitidas podiam adentrar na corte imperial)

    Meninas frequentemente eram sequestradas (China Era Ming 1368-1644) para a corte imperial, seja para arranjo matrimonial, seja para trabalhos domésticos na corte ou como filhas substitutas de eunucos. Os eunucos existiam desde as civilizações antigas, constando sua existência em registros históricos desde o século XIV a.C.  A prática da castração de um homem tinha como objetivo não ser possível a prática sexual nos haréns ou cortes reais em qualquer função de confiança. Escravizados ou contratados, esses homens poderiam ser guardas, camareiros, espiões e até comandantes militares. Nos séculos XVI e XVIII, na Europa, adolescentes eram castrados para manterem vozes agudas (os castrati). 



    Para quem já conhece o eunuco com beleza de ninfa da corte imperial que vai ter um papel fundamental juntamente com Maomao, só uma informação sem spoiler: faz muito sentido a beleza andrógina de Jinshi.  A castração alterava o desenvolvimento hormonal, impedindo a puberdade masculina com as características mais masculinizadas. Para quem é cristão, certamente já leu sobre os eunucos na Bíblia (Gn 40:02, 2Rs 23:11, 2Rs 25:19, Jr 52:25, Dn 1:11, Mt 19: 11, 12). A intenção não é explicar muito a parte biológica e funcional dos eunucos, mas no início da light novel, Maomao comenta sobre meninas que eram sequestradas para serem substitutas das filhas dos eunucos. 
    
    Na China imperial e na Coreia (Reino de Joseon - 1392 a 1897), eunucos do alto escalão poderiam ser ricos e até se casavam. A adoção era uma possibilidade viável, já que biologicamente, os eunucos eram estéreis devido à castração. O objetivo não era apenas a herança, mas arrumar alguém que cuidasse do eunuco durante a velhice e realizasse os ritos tradicionais de culto aos ancestrais. Em algumas culturas asiáticas, a prática espiritual de cultuar os mortos é fortemente enraizada, assim como a crença de que os falecidos continuam a existir e têm o poder de influenciar a vida dos seus descendentes. Sem contar que a figura masculina era veemente cultuada no pós-morte, então o sequestro dessas jovens tinha uma importância muito lógica para a época. 


    É nesse contexto que Maomao foi habitar no palácio interno, entre consortes, mulheres da corte, eunucos e serviçais. Um séquito de 3.000 pessoas, conforme a própria protagonista nos informou. Recebia-se um salário pelo serviço prestado, já que Maomao não foi selecionada para matrimônio arranjado e nem como substituta de filha de algum eunuco. O motivo, ela mesma nos informou no primeiro capítulo: não tinha corpo voluptuoso e nem pele branca, logo não servia nem para concubina de baixo escalão. Maomao tem uma pele saudável e sardenta e ela é muito magra. Interessante a citação da sua pele saudável, pois já liga ao primeiro mistério que ela vai solucionar e mudar a sua trajetória no palácio interno. A fixação por uma pele muito branca era um preço muito alto que falaremos mais pra frente (aqui, apenas o volume 1 introdutório). 



    Maomao usava o traje da imagem acima, e o vestuário era algo que indicava a posição da pessoa naquela sociedade. Para quem é distraído, pode passar desapercebido as roupas usadas pela protagonista durante a trama, mas conforme ela mudava de função, mudava de posição e de veste. Ela, além do salário recebido, que parte iria para os sequestradores, também poderia receber a liberdade em um tempo após serviços prestados. Nossa protagonista começou lavando roupas no pátio central nos fundos da construção (não é óbvio na leitura que construção é essa). 

    Na light novel, há uma separação complexa das palavras consorte e imperatriz, e isso vai muito da tradução e da editora. A animação apresenta apenas as quatro consortes de alto escalão do imperador, mas a light novel nos apresenta outras posições e como funcionava a ascensão dessas consortes. Ficamos sabendo que na posição de consorte de baixo escalão, era possível receber um quarto luxuoso com direito a duas damas de companhia e que o quarto era provavelmente  da filha de um comerciante rico. 

    O local que essas "consortes de baixo escalão" habitavam, era distante para ser visto pelo imperador e serem vistas, era a possibilidade de subir na hierarquia de importância. Se ele (imperador) passasse uma noite com uma consorte de baixo escalão, essa mulher poderia mudar de aposento. Se acontecesse de ter uma segunda noite com o imperador, seria a ascensão desejada por elas para uma posição que ia além da mudança de quarto. 

    As relações eram complexas e o funcionamento respeitava uma hierarquia cultural dentro do palácio interno. Para essa posição citada no parágrado anterior,  as serviçais não respondiam a uma senhora específica, então, Maomao lavava roupas de algumas consortes em troca de salário. Caso essas mulheres passassem da idade, o imperador fazia arranjos matrimoniais com membros da corte e somos informados que o grande temor era ser entregue a um eunuco. Se por via de regra, era proibido o acesso de homens e apenas o imperador, parentes consanguíneos e eunucos tinham autorização para circular no palácio interno, essas casamentos eram feitos âs cegas. 

    Importante finalizar com o significado consorte que aparece nas três versões (anime mangá e light novel), pois o significado pode variar bastante até nas animações japonesas. A consorte era a esposa com título e posição oficial, mas para nós (nas três versões), é apresentada como imperatriz. Confesso que é bem confuso para nós que não temos essa cultura como herança. 


    Nas cortes antigas orientais, essas consortes eram as concubinas, divididas por graus de importância e muitas ocupavam essa posição como parte de aliança política entre o rei e a família (a consorte Lihua, por exemplo, tem parentesco com o imperador, enquanto que, Gyokuyou é a representante do Ocidente, com relações comerciais consideráveis).  Acredito que a escolha, talvez da própria autora ou da editora em não usar a palavra concubina, tenha sido proposital, pois acabamos lembrando muito de hárens. Devaneio meu! 


    No ocidente, reis não tinha concubinas ou consortes no modelo oriental. Eles tinham amantes reais com influências políticas consideráveis (Madame de Pompadour, Diane de Poitiers, Domitila...). Já nos Diários de uma apotecária, em nenhum momento as consortes se envolvem diretamente com a política do reino (pelo menos até agora dentro do meu conhecimento e leitura), a grande preocupação era gerar um herdeiro para o imperador e de preferência do sexo masculino. 

    Deixemos claro que, a autora não está nos apresentando um retrato fidedigno dos reinos orientais, e sim, uma corte com características próprias. Na História real, existiram concubinas que se tornaram consortes (Roxelana, Wu Zetian, Cixi, Yang Guifei...) e se tornaram mulheres poderosas, mas isso é assunto para outro momento.