quarta-feira, 17 de junho de 2026

Studio Ghibli (41 anos) e o meu TCC sobre A Viagem de Chihiro (2001)

 Em abril de 2024 eu fiz um desabafo e decidi voltar a alimentar o meu blog com um diário da pesquisa para o meu TCC (dez/2025) na gradução em Licenciatura em Artes Visuais. Até alimentei durante um tempo, com espaços entre as postagens pela dinâmica das responsabilidades da vida adulta, mas foi bem pouco perto do que eu desejava. 

Segue os links 

Animação Japonesa Através dos Tempos Vitor Danko 

O menino e a garça 

Literatura nas animações do Studio Ghibli 

Os pais de Chihiro 

    O meu último semestre com a a Instituição de Ensino não foi fácil, e isso foi um gatilho de saúde mental tão forte, que fiquei muito tempo sem poder absorver a alegria de ter escrito um trabalho tão lindo sobre algo que amo e tem muita relevância pra mim. 

A Viagem de Chihiro: o uso da animação em sala de aula para análise da cultura ocidental e o estudo da sua intersecção na cultura tradicional japonesa
TCC - Licenciatura Artes Visuais 

    Achei válido, diante da data de 15 de junho/2026 - aniversário de 41 anos da fundação do Estúdio Ghibli, registrar aqui um pouco do resultado da minha produção acadêmica. Até para aquecer a minha apresentação com o escritor que foi uma grande referência bibliográfica, pois o vasto material que temos sobre Ghibli, sempre são em sua grande maioria de cunho psicológico. Abro aqui um espaço para citar o trabalho de Ana Flávia Moreira que fez uma excelente trabalho sobre a aquitetura de A Viagem de Chihiro  e Flávia de Morais sobre o mangá e anime no ensino de artes visuais. 



    Para começar, achei válido conxtetualizar a História da Arte japonesa até a Era Meiji (1868-1912). A arte japonesa começa com a influência chinesa e coreana e a partir de um dado momento, segue com características próprias até a influência ocidental. Retornar a esse passado se faz necessário por elementos presentes na animação japonesa A Viagem de Chihiro (2001), logo, achei válido um capítulo que vai fazer sentido mais pra frente. Finalizei o capítulo sobre o assunto com uma BREVE narrativa sobre a animação japonesa. 

Chihiro e um Dosojin  Arte do período Jomon (14.000 a.C – 300 a.C).

    No capítulo que abordei sobre a animação como recurso educativo em sala de aula, abri com um capítulo sobre a origem do Estúdio Ghibli em 1985 até o fenômeno cinematrográfico mundial. Escolhi a animação A Viagem de Chihiro (2001) por suas premiações e estar até hoje entre as dez mais assistidas fora do Japão.  há um vasto material sobre os conflitos entre Humanidade e Natureza (como Nausicaa, Mononoke, Ponyo e outros), para quem está entrando agora no mundo ghibliano.



    Foi em A Viagem de Chihiro que eu consegui conciliar o meu objetivo (título do meu trabalho) com a crítica mais forte presente na maioria das animações do Estúdio Ghibli que é a ocidentalização e seus costumes culturais e exploratórios (Casa de Banho e Yubaba) e o abandono do tradicional (Zeniba) e religioso (xintoísmo/budismo - A Casa de Banho, local de limpeza dos espíritos nas águas termais japonesas acaba sendo corrompida pelas ambições da proprietária).  


    Claro que o capítulo mais difícil foi separar os frames e detalhar elementos culturais nipônicos e de culturas ocidentais, não apenas concretos, mas comportamentais. Não tem como não conciliar (citação do cerimônia do chá japonês que faço e as modificações comportamentais das fuligens - Susuwataris - que mudam radicalmente suas funções de Meu vizinho Totoro para proletários explorados por uma porção de prazer fulgas como pagamento). 



Abaixo apenas algumas imagens, pois é coisa pra CARAMBA!



Abóbodas de nervura, bancos de madeira, lamparinas ocidentais presentes na animação 

A cômoda em que um crânio no estilo shakespeariano se encontra é de modelo bombê, um estilo clássico francês. A poltrona em frente a mesa redonda na cor vermelha, é um modelo de móvel também francês ao estilo da cadeira de Louis XIV


    Claro que escolhi o Ensino Médio como segmento, mas bem sei que cumprir o currículo nem sempre é analisar o que o educando consome no seu dia-a-dia. O currículo segue aquele mesmo padrão, sem levar em conta que nossos alunos consomem animações japonesas, doramas e outras culturas. Com a intencionalidade de uma Pedagogia dialógica, perceber que a globalização trouxe para os nossos alunos outras possibilidades de consumo é primordial para a construção do conhecimento. Não podemos nos limitar apenas as imagens canônicas da arte eurocêntrica. Cada arte, à sua maneira, tem a capacidade de concretizar uma síntese que suscita grande número de significados.

Nada aqui, na entrada de Yubaba, é tradicional nipônico, por mais que a Casa de Banho seja um espaço secular e religioso. 

    A animação pode ser um instrumento que interage com a metodologia utilizada em sala de aula, além de ser uma estratégia para o desenvolvimento das habilidades e competências no ensino da Arte. Animês e mangás são produtos importantes da cultura pop japonesa e atualmente consumidos em grande escala pelo público brasileiro https://gqcanimes.com.br/brasil-e-um-dos-maiores-mercados-de-anime-do-mundo-revela-diretora-da-crunchyroll/. A realidade dos estudantes da atualidade é a vivência em um tempo real e virtual ao mesmo tempo, o que exige dos docentes a promoção de um ensino-aprendizagem que conecte os saberes dos estudantes com o contexto escolar.


    Ao escolher uma cultura diferente da nossa, levei em consideração a competência 3 da BNCC que procura que o estudante possa valorizar e fruir as diversas manifestações artísticas e culturais, das locais às mundiais, e participar de práticas diversificadas da produção artístico-cultural. A classificação de idade da animação japonesa A Viagem de Chihiro é livre, porém, para o meu objetivo de análise, acreditei que algumas cenas não seriam de fácil compreensão para crianças das séries iniciais do Fundamental I, como a cena dos porcos, e sem fundamentação pedagógica para as séries finais do Fundamental II. 


    Compreender que há a necessidade intencional e pedagógica de auxiliar o estudante no processo de consumo cultural faz parte do objetivo para que ele tenha autonomia e criticidade diante do que decide de forma voluntária consumir. Com o auxílio de capturas de imagens da animação, apontei elementos culturais do ocidente e do oriente com o objetivo auxiliar na percepção das características visuais de cada elemento e com base na contextualização qual a sua origem. 


    Educar o olhar do estudante utilizando de mídias que dialoguem com os seus interesses é uma habilidade que o docente deve obter no processo ensino-aprendizagem. Não há mais barreiras culturais após o advento da globalização e precisamos renunciar a processos pedagógicos que focam apenas na teoria e memorização. Utilizar novas tecnologias em um contexto educacional que não tem mais como retroceder, é buscar o diálogo com o nosso aluno, permitindo o uso de uma linguagem visual já conhecida por eles fora do contexto escolar. 


    A animação japonesa escolhida, muito além da possiblidade de contextualizar e analisar processo históricos artísticos, também possibilita a reflexão sobre identidade, desafios, relações de trabalho, consumo e outros temas que são abordados. No processo ensino-aprendizagem atual, não há mais a disciplina isolada, pelo contrário, de forma interdisciplinar e intencional, ela deve dialogar com outras linguagens para que o maior beneficiado seja o nosso estudante. 

Quarto do filho (Boah) de Yubaba.
O excesso do luxo que aumentava o ego da criança. Luxo importado a possível a partir da exploração do proletariado. 

    A família de Chihiro faz parte de um momento histórico e pontual de uma crise de inflação imobiliária que se conectou ao consumo desenfreado resultando em parques temáticos abandonados. Seus pais, vítimas do pensamento consumista, são transformados em porcos pelo desrespeito ao espaço alheio e religioso. Mesmo não sendo o objetivo deste trabalho, só na introdução da animação, já temos material para interdisciplinaridade. Podemos traçar paralelos entre o encontro cultural entre ocidente e oriente em cenários escolhidos propositalmente pelo diretor Hayao Miyazaki. 


    Ao conhecermos sua biografia e a forma como ele insere em seus trabalhos a sua opinião sobre vários assuntos, percebemos que a posse de Yubaba de objetos artísticos do ocidente/oriente é uma crítica ao modelo ocidental de consumismo para ostentação e divisão de classes. Por isso Zeniba é a manualidade artesanal que conecta quem faz com o resultado da obra (que é a cura do Sem Face e do filho de Yubaba - Boh, que querendo ou não, é sobrinho de Zeniba. A animação japonesa foi feita para o público japonês, claro que há a intencionalidade em aconselhar a nova geração. Como eu amo a cena abaixo e as várias reflexões possíveis, mesmo fugindo do meu tema).  


    As possiblidades extrapolam o meu objetivo principal, pois a animação A Viagem de Chihiro demonstra claramente que a modernidade capitalista resulta em conflitos e se faz necessário o restauro da sacralidade da Natureza. Chihiro, nossa protagonista, não segue o exemplo dos pais, sua coragem é que vai salvá-los. Finalizei o meu trabalho para além do objetivo pedagógico e acadêmico com a esperança de que alunos também possam captar a mensagem e nos salvar dos modelos de consumo que desumanizam e exploram cada vez mais os recursos naturais. Utópico? Talvez. 




segunda-feira, 15 de junho de 2026

Como se tornar um tirano (Netflix, 2021)

 


    Sábado foi dia de assistir a produção da Netflix, Como se tornar um tirano (How to because a tyrant) produzida em 2021. Narrada e produzida pelo ator Peter Dinklage (Tyrion Lannister de Game of Thrones) eu assisti na versão dublada com Márcio Simões (Vox Mundi),  logo, parecia ser Samuel Jackson na minha cabeça (ele dubla ambos os atores). Só uma observação, em nada atrapalha o documentário. 

    Como se tornar um tirano tem uma pitada sarcástica para talvez, aliviar o comportamento de genocidas históricos. Baseado no livro de 2011, O manual do ditador: por que o mau comportamento e quase sempre boa política dos cientistas políticos Bruce Bueno de Mesquista e Alastair Smith, a produção conseguiu fazer uma versão meio tiktoniana com 6 episódios de 30 minutos. 

    O episódio 1 começa com nada mais e nada menos que o nazista Adolf Hitler (1889-1945), em como esse austríaco conseguiu passar de um desconhecido para um líder condutor das maiores atrocidades cometidas pela Alemanha nazista. Não vou escrever muito, pois ficará para a próxima postagem sobre outra série da Netflix sobre os atos nazistas de Hitler e alta patente alemã. Mas, resumidamente é sobre como assumir o controle a partir de insatisfação coletiva (Tratado de Versalhes e Crise de 1929 na Alemanha pós 1ª Guerra Mundial) e a criação de um bode expiatório (judeus e minorias). 

Imagem DW

    Saddam Hussein (1937-2006), ditador iraquiano, morto em 2006 por enforcamento é o tema do episódio 2. A tática era a ameaça aos seus rivais, por exemplo, ameaçar de tortura aos familiares e após conseguir uma confissão falsa, eliminar literalmente seus opositores. Nem sempre esses opositores faziam parte dos inimigos de Saddam. Ele começou com a prática dentro dos seus aliados que não concordavam com alguns comportamentos tidos como desproporcionais, ou seja, violentos. Claro que deixarei aqui a minha crítica histórica a produtora do documentário, pois faltou muitos líderes "democráticos" que levaram "democracia" para algumas nações e as ações militares em nada deixaram a desejar as práticas militares dos ditadores abordados. Leia-se ocupação norte-americana em países do Oriente. 

Imagem BBC

    Ainda sobre o episódio 2, a Netflix cita algumas ações relacionando com Hitler e Hussein: esteja em toda parte (Polícia Secreta) com uma rede de informações confiante. Também explana bem as táticas de ambos os ditadores de manipulação e humilhação a todos a sua volta. No episódio 3, eu conheci um pouco de Id Amin (1925-2003) e como não conhecia muito, fui pesquisar. O tema central é reine pelo terror e eu não vejo outro título melhor. As ações do ex-pugilista de 1,90 e 110 quilos são terrivelmente inenarráveis aqui no meu blog (citei as características físicas,  pois ele intimidava pela altura). Só um adendo para a tática muito conhecida de usar Deus como justificativa para as atitudes de muitos que ele usou para expulsar milhares de asiáticos de Uganda, pois para ele, o Divino determinou tornar o País totalmente negro. Esses asiáticos eram imigrantes do Império Britânico na Índia, e claro, continuo aguardado documentários sobre o tema. 

Imagem Internet

    Quero abrir um parentese aqui sobre a frase usada em um dos episódios "quem controla o passado, controla o futuro". Foi colocado como frase de origem a um oficial de alta patente alemã, mas essa frase é de George Orwell (1903-1950) em sua distopia 1984 para representar um Estado totalitário. Inclusive, como alguns comportamentos atuais nas democracias estão "cheirando" a fascismo, essa frase está sendo repetida diversas vezes  e muitas explicações no Tik Tok e vídeos curtos do Instagram não citam a fonte da frase. Por exemplo, novilingua também é um termo do mesmo livro, e é uma língua oficial fictícia com a função de reduzir o vocabulário e impedir qualquer oposição política. Totalitário, porém uma observação necessária. Conhece o programa Big Brother? Criado a partir do Grande Irmão, o olho que tudo vê, também parte do romance distópico de Orwell. 

Imagem Internet


    Já li muito sobre o regime totalitário de esquerda de Josef Stálin (1922-1953), mas foi um fato novo a manipulação que ele fazia em fotografias que há anos seguem como fidedignas ao contexto histórico. Sim, como caracteristíca de regime totalitários (seja de extrema direita ou esquerda) a manipulação da mídia e propaganda é quase um modo operante de manual básico. Mas eu achei a tecnologia avançada para a época (me  julguem, eu sei que fui inocente). Claro que as fotos que ele modificou auxiliaram e muito no objetivo dele ser aceito pela ala que aceitava Lênin (1870-1924 - foto acima) e esse controle da verdade era algo que justificava suas atrocidades até com ex-aliados do Partido Comunista (Leia-se Trotski 1879-1940, que exilado no México foi assassinado por ordem de Stálin). Na foto abaixo ele mudou até as suas características físicas, pois teve váriola e a imagem está sem nenhuma marca comum a quem teve a doença.

Imagem internet

    No episódio 5, o tido como revolucionário Muammar Gadaffi (1942-2011) em sua busca por criar uma nova sociedade usou como táticas o controle social pela mudança de pensamento. No Livro Verde, o ditador criava uma Terceira Teoria Universal que ia contra a temas que são usados em palcos políticos até hoje: o anticomunismo (soviético) e o anti-capitalismo ocidental. Os regimes totalitários sempre vão usar o pluripartidarismo como uma ameça e defender o unipartidarismo de Estado como uma solução. Claro que na democracia, nem todos os partidos políticos defendem as causas da população. As opiniões sobre Gadaffi são controversas, pois de uma lado ele subiu o índice de desenvolvimento com o petróleo local e possibilitou a educação feminina. 


    Porém, quando o assunto é "coloque a mulher no seu devido lugar", os relatos biográficos recentes sobre a Guarda Amazônica de Gadaffi relatam abusos sexuais e essas mulheres virgens após relações íntimas com o ditador, não voltavam para as suas famílias de maioria islâmica. A propaganda de empoderamento feminino convencia dentro e fora do seu controle social, pois há relatos de amazona que entrou na frente de Gadaffi e morreu com vários tiros para protegê-lo. O seu nacionalismo árabe e o pan-africanismo unidos ao anti-imperialismo manteve o controle social na Líbia e após a intervenção norte-americana, deixou como herança guerra civil e crise humanitária. 


    Por último, a dinastia Kim da Coreia do Norte, onde o culto a personalidade é usada para garantir o poder a longo prazo, haja vista já é o terceiro membro da disnastia que ocupa atualmente o poder. Primeiro Kim II-sung (1948-1994), Kim Jong-il (1994-2011) e atualmente Kim Jong-un desde 2011 (as datas dentro dos parenteses são dos anos de governo de cada um). O primeiro da imagem abaixo governou desde a fundação do País em 1948 com o auxílio da União Soviética e assinou o fim do armísticio que encerrou a Guerra da Coreia. Aqui começa uma característica muito forte em regimes totalitários, o culto ao líder. 

Imagem internet

    Mas, não vou escrever muito, pois há muitos desencontros de informações sobre o calendário Juche (que começa com o nascimento do fundador em 1912) e seu desuso, isso ou aquilo sobre a Coreia do Norte e, para não colocar relatos permitidos pelo regime ou visões ocidentais, prefiro pesquisar mais e terminar indicando o documentário. A linguagem é acessível, o tom do manual de como se tornar um tirano é proposital e logo quem desconhece a História, tem uma breve resumo de como pessoas comuns conseguiram convencer multidões por ideologias, inimigos em comum, controle midiático e uso de violência militarizada. "A cadela do fascismo está sempre no cio", pensamento adaptado de Bertold Bretch (1898-1956), no mostra que devemos ficar atentos e desconhecer é permitir novamente. 

segunda-feira, 8 de junho de 2026

Arte e artista da cena do filme Bastardos e Inglórios - Tarantino (2009)

 Há muitos anos átras (na época da Licenciatura em História) eu fiz um mini curso sobre A História do Cinema e lembro até hoje dos divisores de águas (segundo o palestrante do curso -  não guardei muitas informações. Lembro que foi na Caixa Cultural/DF para pegar horas complementares ...) que foi o fato de fazer um filme sobre uma dupla de criminosos Bonnie and Clyde: uma rajada de balas (1967) e como Tarantino mudou a forma de fazer cinema.

 Lembro que no dia, levantei a bola do filme O bom, o mau e o feio (Sergio Leone, 1966), mas fui informada que não entrava nesse divisor por pertencer ao gênero dos faroestes (Ué! então tá! Como se Faroeste e a marcha para o Oeste... bem deixa pra lá). Uma observação: conheço o filme pela música de Ennio Morricone apresentada pelo meu pai. Fica a dica! Música The good, the bad, the ugly

Visitei a Feira Tesourinha @feira_tesourinha (instagram) no dia 17/05 no Centro Cultural Renato Russo e adquiri algumas artes do artista @mandakarunohana de filmes da minha época: Bastardos e inglórios (2009), Pulp Fiction (1994) e Um drink no inferno (1996). O último salvo engano, Tarantino participou como ator. Depois farei uma postagem sobre cada um deles. Hoje é para escrever sobre Bastardos e Inglórios. 

Quando participei do curso, conhecia bem pouco sobre Tarantino. Confesso que o curso me fez consumir o que eu conseguia na época (locação de DVD´s). Hoje tenho alguns filmes em DVD (apesar que poucos ainda tem esse aparelho em casa) e não somos mais da época de levar filmes para passar em sala de aula (como professor). Tudo é streaming. Mesmo não conseguindo gostar de 50% dos filmes de Tarantino, quando se trata de História, eu me rendo totalmente. Por isso que, em cada postagem, vou explicar o motivo. 

Cena: Taverna - Bastardos e Inglórios (releitura artista Luissandro 2018 - publicado com autorização)


A minha intenção não é fazer resenha sobre o filme, temos vasto material virtual há anos! Só deixar uma acréscimo: é um final paralelo sobre a Segunda Guerra Mundial (1939-1945) dividido em capítulos, e, eu acho que, erroneamente (minha opinião pessoal), dão muito glamour a Brad Pitt. Não vou perder o meu foco!

Gente, Tarantino vai no mais profundo da cultura para dirigir essa obra prima. Quem estuda superficialmente, não entende cenas tipo: capítulo do leite (início), capítulo do strudel com creme de leite entre Shosanna (Melanie Laurent) e coronel Hans Land (Cristoph Waltz) e o capítulo na taverna de La Louisiane (minhas cenas prediletas). Só um acréscimo, Cristoph Waltz recebeu uma premiação como melhor ator coadjuvante e a maioria dos idiomas que ele falou no filme, ele tinha fluência. Super merecido! (Também recebeu em Django - 2012). 

A cena do strudel com creme de leite é um teste para Shosanna, já que vai banha de porco (na receita tradicional austro-hungara) e Hans Land (Cristoph Waltz) saiba (talvez) da sua identidade judia (kosher). A cena introdutória do leite é material para uma postagem sobre o uso da bebida e a ideologia de supremancia branca (deixemos para depois). 

A cena da taverna traz uma desconfiança do sotaque (ou ausência dele) do tenente Archie Hicox (Michael Fassbender), espião britânico disfarçado de alemão, no final da música que estava rolando. Desde a unificação da Alemanha (1871), o militarismo passou a ter uma característica lacônica (quase espartana). Então um tenente emocionado em um período de tensão militar, já não pegou muito bem. 


Antes da cena dos três dedos britânico, a solicitação de um whisky (Scoth, bebida da Escócia) ao invés de cerveja (tipicamente alemã), já estava deixando claro que algo estava errado. Talvez para nós brasileiros não faça o menor sentido. O sotaque faz todo sentido! Já pensou: eu de Brasília (culturalmente sem sotaque) me passar por mineira? Sem chance! Tudo bem, a taverna é francesa (La Louisiane - vila de Nadine - norte França), País que estava ocupado desde 1940 pelas tropas alemãs, mas o cidadão em questão se passava por um oficial alemão. A sobrevivente Bridget Hammersmark (Diane Kruger) demonstra como um alemão culturalmente pede três (polegar, indicar e dedo médio). 



Parece besteira, né? Mas é adentrar na cultura de uma nação para fazer um roteiro. Isso torna Tarantino excepcional. É chamado de semiótica: nada comunica apenas o que aparenta. Claro que Hinox sabia, mas algo repetido várias vezes na própria cultura acabou denunciando a sua origem. A tensão presente nas três cenas que descrevi como as minhas preferidas aqui, fazem parte da característica de Tarantino: a tensão que descarta o diálogo. 

Tenho como crítica (deixando claro que sou um pequeno grão de areia e minha opinião é bem pessoal e não digna de verdade absoluta) é que colocam norte-americanos como heróis (típicos do cinema norte-americano). Por ter sido baseado na Operação Greenupa e nos combatentes que operavam na área da vegetação (maquis) para atacar tropas nazistas de surpresa, acabamos (como sempre) louvando a ação estadunidense nos conflitos de guerras mundiais. Mas, é ficção! Que estudemos História para apreciar com um olhar crítico qualquer produção e deixando claro, é uma obra-prima louvável de vários prêmios que foram recebidos. 




sábado, 11 de abril de 2026

Frankestein do diretor Del Toro

 Juro que eu tinha esquecido do Frankestein  (ou Prometeu Moderno de 1818) de Guilherme del Toro, apesar de ter me apaixonado na primeira assistida (assisti 3x). Aliás, eu sou apaixonada pela forma em que Guilherme del Toro humaniza monstros e demonstra o verdadeiro monstro. Mas... esses dias meu esposo quis assistir e decidi escrever. 


Precisamos dar os devidos créditos a autora:A ideia para Frankenstein surgiu em uma noite chuvosa de verão na Suíça, onde Mary Shelley passava férias ao lado de dois poetas ingleses: Percy Bysshe Shelley, seu futuro marido, e o célebre Lord Byron, locatário da residência onde o casal estava hospedado. Como os três estavam presos em casa em função da tempestade, Lord Byron sugeriu um passatempo. O poeta, ícone do romantismo, desafiou cada um dos presentes a escrever uma história de fantasmas (e não poderia haver atmosfera mais adequada à temática!).

 Em um primeiro momento, Mary Shelley relutou em aceitar o desafio. Alguns dias depois, entretanto, na madrugada de 16 de junho de 1816, a escritora teve a visão de um jovem estudante dando vida a ossos que havia recolhido de uma sepultura. Assim, com apenas 18 anos, Mary Shelley criou Frankenstein. A ideia virou um conto e foi apresentado aos demais presentes na casa.Porém, não levou assinatura e não era comum a publicação de livros sem assinatura e nem assinados por mulheres. https://www.nationalgeographicbrasil.com/cultura/2024/02/os-5-dados-sobre-a-historia-do-carnaval-no-brasil-que-voce-nao-sabia

Fora isso, eu só gostaria de citar a forma como Guilherme del Toro dá voz aos monstros e o Frankestein (Netflix) possibilita ver a opinião de todos os envolvidos. Eu sou apaixonada por esse diretor! Então não quero escrever muito, só aconselhar a assistir. A fotografia, figurino, fotografia estão sensacionais. 





sábado, 10 de janeiro de 2026

A hora da Estrela (Sobre o livro, filme e Clarice)

 Asssiti nos primeiros dias de janeiro pela milésima vez A hora da Estrela (1985) que chegou final do ano passado na Netiflix. Confesso que se não estivesse tão atarefada, daria o prazer da leitura de uma obra ímpar que foi lançada no ano do meu nascimento, 1977. Quando li a primeira vez, eu era estudante e a leitura era obrigatória. Até hoje como um flasback da primeira leitura, a única lembrança que tenho é da aspirina. Mas, vamos por partes. De lá pra cá eu aprendi muito sobre Macabéa, o contexto histórico e Clarice Lispector. Inclusive, é uma obra autobiográfica, o último romance da autora e faz parte da Terceira Geração Modernista. 


    Na adaptação literária para o cinema, não temos o narrador Rodrigo S.M. Claro que faz falta quando o assunto é compreender a mente da autora, Clarice Lispector. Mas ao escolher a atriz Marcélia de Souza Cartaxo, que, inclusive, fez seu primeiro papel, a diretora conseguiu transmitir o sentimento de inadequação. Conhecendo um pouco a autora, e, assistindo várias vezes a sua última entrevista, Macábea (filme) e Clarice (autora) estão em sintonia. Clarice Lispector e Macabéa entrevista

    Sei que muitos leitores não vão concordar comigo, mas eu compreendi muito uma protagonista após a adaptação literária para o cinema. Confesso que só aconteceu duas vezes: A hora da estrela (1985) e Orgulho e Preconceito (2005). Me pergunto se tivesse um remake ou uma nova adaptação, quem poderia ser a atriz escolhida? Alguma sugestão? Na era dos influencer com mais seguidores, eu não quero que alguma tragédia possa corromper essas duas obras primas. 

    Macabéa é uma pessoinha que dá vontade de colocar no bolso e não deixar sair para enfrentar os problemas da cidade grande. Nordestina, 19 anos, órfã, virgem, alheia a tudo e a todos. Ela é alheia até sobre o cheio que exala ou a opinião negativa que alguém pode ter sobre a sua aparência. Ela apenas acorda e vai trabalhar. Datilógrafa (eu fiz esse curso!), aceita o salário mínimo em um pequeno escritório após a morte da sua tia. Ela não tem interesse no Rio de Janeiro. Ela começa a se interessar aos poucos pelo pequeno núcleo que está ali a sua volta. 


    Quando o assunto for a análise tanto do livro quanto do filme, é importante o olhar humano sobre a crítica social e existencial que expõe a invisibilidade dos oprimidos na cidade grande. Macabéa, assim como José Olimpo, são personificações de pessoas que saíram de um local para outro em busca de uma sobrevivência e o que diferencia um do outro é a falta de perspectiva da protagonista. A publicação pode ter sido no século passado, mas os diálogos são atuais: cabelo "crespo", preconceito, padrão de beleza, aborto, machismo, racismo, sexualidade, anseios, marginalizados, trabalho, exploração e etc. 


    Macabéa não se percebe e quando começa a questionar é criticada. Ela é alheia e isso permite conviver em uma nova realidade, seja moradia ou trabalho. É aceita, ou melhor, tolerada por aceitar um salário tão baixo como datilógrafa. Percebe sua colega de trabalho, Glória, e na minha opinião, começa o problema. Quer fazer igual sem os atributos físicos e malícia da colega. Conhece um homem e acha que suas dúvidas podem ser uma forma de dialogar. Porém, o metalúrgico, também ignorante dos temas que Macabéa indaga, prefere diminuir a jovem ao invés de simplesmente afirmar a sua falta de conhecimento. 

    Glória, a mulher também vítima de um sistema que usa o seu corpo e a sua sexualidade, acha como solução tomar a única conquista de Macabéa, o namorado. Mesmo ciente que a sua sexualidade não vai permitir um final romântico feliz, ela opta pela ilusão fornecida pela cartomante. Essa só quer cliente. Clarice Lispector no link fornecido cita a experiência que teve com uma cartomante. No final, todos os personagens parte da massa terminam sem um final feliz. Macabéa tem a sua hora da estrela de forma trágica, afinal, também decidiu acreditar. Ela acreditava em tudo. Eis a sua inocência que foi até o fim. 


Eu gosto do livro. Eu gosto do filme. Eis a minha verdade. Se eu tivesse tempo, estaria aqui lendo novamente, como fiz algumas vezes. Ato que não vai acontecer com o Uma aprendizgem ou livro dos prazeres. De todos os livros e contos, esse, nunca mais. Doeu... Mas eu digo, Clarice Lispector e suas obras precisam ser apresentadas antes. Se na sala de aula? Não sei. Eu terei o maior prazer de apresentar Macabéa antes de dar o play ou indicar a leitura. Indico! 






O Filho de Mil Homens - Valter Hugo Mãe (Netflix/2025)

     Primeirante eu quero começar essa resenha com um desabafo sobre várias coisas que tem relação com o filme a ser abordado. Pra começar, quando fico sabendo sobre a produção de um filme baseado em uma obra literária, eu corro para ver se dá tempo de ler, se é do meu interesse, se já li e coisas de leitor. Bom, nem todo leitor gosta de adaptação, mas vamos lá. Quando foi citado o autor Valter Hugo Mãe só me veio a lembrança de um livro que me deixou com azia literária pelo seu desfecho. Se você citar o autor eu vou lembrar desse livro. A saber: O Remorso de Baltazar Serapião

    Eu não sabia que o impacto literário de O Remorso de Baltazar Serapião era tão forte em mim a ponto de fazer eu esquecer que li O Filho de Mil Homens. Bom, eu explico. Eu tenho duas plataformas de leitura: skoob https://www.skoob.com.br/ e publisko https://publisko.com/. A segunda meio que depende da primeira, pois eu sicronizei as duas e a publisko não faz histórico de leitura, apenas resenhas. Bom, a Skoob passou por uma transição com a Skeelo e não tem mais as datas de leituras antigas. Bom, sumiram vários dados de leituras e históricos e isso me chateou bastante. Já não bastasse esquecer toda uma leitura, eu não tenho mais a segurança virtual para me amparar.

    Escrito todo o desabafo acima, prossigamos com minhas deduções sobre a adaptação em questão. Primeiro, eu tinha que assistir pelo nosso querido ator brasileiro, Rodrigo Santoro. Prata da casa! Eu acompanhei seu desenvolvimento e também quando ele se tornou um ator internacional. Já quero deixar registrado que ele não deixa em nada a desejar no filme. Segundo, adaptação de uma obra (que, ainda que eu não lembre da leitura) de Valter Hugo Mãe. Você já leu esse autor? Ele tem algumas peculiaridades que são deles e de nenhum outro autor. No início do meu contato com ele até o comparei com Saramago, mas são distintos. Não é a questão do uso das minúsculas, é a forma dele escrever temas profundos e delicados. Logo, fiquei bem curiosa pela adaptação. 



SPOILER (é possível que tenha)

    Crisóstomos (Rodrigo Santoro) é um pescador taciturno que tem desejo de ter um filho. Sabe aquele desejo de ocupar um lugar do qual não se tem referência? Ele é um homem solitário que sai para pescar, tem sua casa arrumadinha, faz vendas dos peixes e tem um boneco que significa o filho que ele deseja. Com o desandar do enredo percebemos que ele deseja ser aquilo que não teve, pai. Um dos seus bilhetes pousa na mão certa e Camilo chega para ser seu filho. 

    Bom, Camilo é um menino encontrado bem no início do filme e sabemos durante a trama que é filho de Juliana, a anã da cidade que tinha uma vida sexual ativa com alguns homens da pequena cidade. Camilo não sabe da sua mãe. A avó, que na verdade é a médica parteira, cria Camilo e não conta sobre Juliana. Não vou dar tantos detalhes para evitar ao máximo spoiler. A conexão entre Crisóstomos e Camilo é imediata pela urgência do que falta: um pai e um filho. Assim eles se completam. 

    Camilo aponta uma necessidade a Crisóstomos: uma companheira para o pai. A partir daí surge outro desejo que direciona a outros personagens que vão se conectar na trama do pescador. Antonino, um artista que sofre por sua sexualidade acaba casando com Isaura. Já essa, após entregar sua inocência e sofrer por não escutar a sua mãe, acaba aceitando casar com Antonino. Esses personagens vão se encontrar com a vida do pescador e a relação entre eles vai demonstrar a busca pelo afeto entre pessoas que não fazem parte do padrão da sociedade. 

    O diretor, Daniel Rezende, conseguiu manter a essência do autor nas questões humanas. Camilo, que aprendeu com o avô adotivo o preconceito, precisa desaprender com a simplicidade de Crisóstomos que todos somos iguais em busca do amor. Não há violência no ensinamento, há vivência. Há o ensino da tolerância na convivência. A redenção de Camilo é um momento único diante do que absorve de Crisóstomos:

"Tá vendo todas essas pessoas? Todo mundo é filho de um momento de mãe e pai. A gente vem de tanta gente! É tudo meio-irmão. É tanto sonho que vai passando de um pro outro, que ninguem nunva vai tá sozinho".

Não pense é um melodrama romanceado, a violência diante da sexualidade alheia está estampada a todo tempo. Seja com Antonino, seja com Juliana ou seja com a mãe do próprio Crisóstomos. A solidão protege, mas não preenche. O desejo, quando atendido, precisa ser moldado diante da realidade que cada um dos personagens estão inseridos. Afinal: "quem tanto pede o que lhe pertence, assim o mundo convence". 

As cenas produzidas em Búzios (RJ) e na Chapada Diamantina (BA) foram o toque de Midas. Não sei bem como explicar, mas certas cenas reacenderam na minha memória o cheiro de maresia. Os personagens se comunicam com o silêncio e isso é afirmar que a escolha dos atores foi um acerto e tanto. Quando o tema é família fora do padrão o recado é passado: família pode ser feita de muitas coisas é que o amor é espera e não o problema. Indico! Para dias com chuva e sem pressa. 


Que Chita Bacana - 1º Livro 2026


     Eis a minha primeira leitura de 2026: que chita bacana, escrito por Renata Mellão e Renato Imbroisi. Foi um presente do meu esposo que sabe que amo tolhas, cortinas, paninhos de mesa de chita. Não é um livro comercial, acho que ele ganhou em algum trabalho de cenografia ou algo assim. A autora, Renata Mellão, é fundadora do Museu A Casa do Objeto Brasileiro e eu acho que o tema do livro e o nome do museu tem muita relação. 

    Acredito que o livro foi idealizado para alguma exposição em específico sobre o tecido no museu. Tem um link sobre o livro https://www.acasa.org.br/livro-que-chita-bacana e como só fiquei conhecendo o Museu por causa do livro, dei uma boa navegada e vi sobre a exposição aqui nesse link Exposição A Chita na Moda. Essa exposição passou pela minha cidade e eu náo tive o prazer de ir admirar. Acredite, todo o trabalho do Museu A Casa do Objeto Brasileiro é muito admirável e valoriza muito a cultura popular brasileira. 

    O livro começa com muitas imagens desse pano atual que conhecemos nas festas juninas. Talvez seja o que mantém ainda vivo a existência desse modelo de pano que já foi muito usado pelas famílias brasileiras. Mas até chegar a esse ponto de uso popular, muita história rolou. Confesso que foi a parte que mais me deliciei: a forma sucinta, concisa e séria da chegada do pano até os dias atuais. Isso é um trabalho digno de parabenização. Eu como historiadora deixo aqui o meu louvor para todos aqueles que participaram da edição desse trabalho. 

    Primeira grande surpresa: esse pano que eu amo pelo seu colorido e flores em tamanhos consideravelmente possíveis de se ver de longe é de origem indiana do período medieval. Já citei sobre o tamanho das flores, pois ele não começou com essas medidas. É um pano muito usado por nós aqui em casa, pois tem muitas sobras dos trabalhos cenográficos do meu esposo em festas juninas, então eu aproveito bastante.Só que o tecido que eu conheço é o chitão e as "características de estampas florais bem grandes, em cores vivas, com traços de grafite delineando contornos, e que cobrem toda a trama do tecido engomado só ganhou esse nome e características na década dos anos 50". Alguém sabia disso?

    Em sua origem, a estampa de chita é floral e se as flores forem miudinhas recebe o nome de chitinha. Se as flores forem de tamanho médio, recebe o nome de chita. Nós, acredito eu, chamamos chita e pronto, né!? A entrada do pano se deu com as relações comerciais das grandes navegações europeias dos séculos XV e XVI. O que diferenciava os indianos dos europeus na técnica de tingimento de tecidos era o uso do mordente, uma substância agregada ao tingimento com a função específica de manter a durabilidade da cor. Por isso que os tecidos indianos resistiam mais do que os europeus às lavagens e exposição ao sol. 

    Os motivos estampados pelos indianos levavam em consideração os preceitos do hinduísmo e do islamismo. Ressaltando que a última proíbe representações figurativas, então a predominância dos temas eram florais, arabescos e figuras geométricas, com algumas representações de animais. Com as trocas comerciais, o interesse dos europeus foi imediato, seja para consumir ou para fazer um modelo próprio a partir desse padrão indiano. 

    O nome "tecido indiano" passou a ser usado em Portugal para designar esses tecidos, mas na Índia era chamado de "chint", que significa "pinta" ou "mancha". Na Inglaterra, foi batizado de chintz, termo utilizado até os dias de hoje, mas para designar um tipo de tecido estampado usado para decoração. O chintz é descendente direto das chitas indianas. 




    Portugal demorou bastante em relação aos outros países a criar o seu próprio tecido estampado. Os motivos são diversos: riqueza derivada das navegações e colonialismo, dependência com a Inglaterra que foi seu fornecedor durante muito tempo dos tecidos manufaturados e também a tradicional rejeição lusitana ao trabalho manual. Claro que tudo isso vai respingar no Brasil que foi colônia de Portugal até 1822. Durante a leitura você vai passar por todo processo histórico e não vai ser cansativo. Até a revolução têxtil inglesa e a Guerra da Secessão norte-americana são explanadas fazendo ligação com a evolução do tecido chita aqui no Brasil. 

    Com um pulo grotesco historicamente falando, chego na montagem da indústria têxtil brasileira que aproveitou a falta de algodão norte-americano. Foi a transferência do capital agrícola para a indústria em São Paulo. A Cedro foi fundanda em 1868 em Curvelo pelos irmãos Mascarenhas. Depois a Cedro & Cachoeira e com a crise internacional pós 1ª Guerra Mundial, descobriram a chita e fabricaram esse unicamente esse tecido até 1961. De lá pra cá outras empresa têxtis fundaram, outras fecharam, crises internacionais, desenvolvimento da malha ferroviária brasileira, política café-com-leite impactaram a produção têxtil, seja de forma positiva ou negativa. 

    Na década de 50, com os teares mais largos, há o começo da produção de tecidos com larguras maiores e surge o chitão que eu tanto utilizo em casa. Nesse meio tempo, o tecido passou de decoração e uso sofisticado pela elite para o uso popular, mas não era mais 100% algodão (morim). Com o aparecimento de produtos mais baratos para a produção, o poliéster começou a fazer parte do tecido que conhecemos atualmente. Tudo foi parte do processo de cotação de insumos e acompanhamento da produção mundial e influências internacionais. 

 A chita se tornou popularmente e culturalmente para uso de festejos religiosos e atos com origem folclóricas e mitológicas. Estilistas lançam vestuários com a presença das estampas coloridas colocando o Brasil no eixo da moda, como fez Zuzu Angel


    A Literatura eterniza a presença do tecidos, álias, durante a leitura você vai ler trechos de livros citando a chita, o que mais uma vez comprova uma curadoria muito bem realizada pelos autores do livro. 

"Nacib tirou o paletó, pendurou na cadeira, arrancou a camisa. O perfume ficara na sala, um perfume de cravo. No dia seguinte compraria um vestido para ela, de chita, umas chinelas também. Daria de presente sem descontar no ordenado. (...) Queria-a tão bem vestida como a senhora mais rica, como se isso apagasse seu passado, as queimaduras do fogão, o sem jeito de Gabriela. Vestidos pendurados no armário; em casa ela andava de chita, em chinelas ou descalça, às voltas com o gato e com a cozinha". 
(trechos Gabriela Cravo e Cranela - Jorge Amado/Imagem internet: Sônia Braga interpretando Gabriela TV Globo)


    Eu amei a experiência por ser algo que aprecio e claro que acabou ressignificando a presença das chitas e chitões aqui em casa. As roupas e peças criadas pelas estilistas convidadas pelo Museu A Casa demonstraram que a criatividade não tem limite e que tudo é possível com esse tecido que para alguns só aparece em junho e julho. Indico a leitura!