Cidade Proibida (Pequim, China, século VXII - assim como na obra ficcional, apenas imperadores e pessoas permitidas podiam adentrar na corte imperial)
Meninas frequentemente eram sequestradas (China Era Ming 1368-1644) para a corte imperial, seja para arranjo matrimonial, seja para trabalhos domésticos na corte ou como filhas substitutas de eunucos. Os eunucos existiam desde as civilizações antigas, constando sua existência em registros históricos desde o século XIV a.C. A prática da castração de um homem tinha como objetivo não ser possível a prática sexual nos haréns ou cortes reais em qualquer função de confiança. Escravizados ou contratados, esses homens poderiam ser guardas, camareiros, espiões e até comandantes militares. Nos séculos XVI e XVIII, na Europa, adolescentes eram castrados para manterem vozes agudas (os castrati).

Para quem já conhece o eunuco com beleza de ninfa da corte imperial que vai ter um papel fundamental juntamente com Maomao, só uma informação sem spoiler: faz muito sentido a beleza andrógina de Jinshi. A castração alterava o desenvolvimento hormonal, impedindo a puberdade masculina com as características mais masculinizadas. Para quem é cristão, certamente já leu sobre os eunucos na Bíblia (Gn 40:02, 2Rs 23:11, 2Rs 25:19, Jr 52:25, Dn 1:11, Mt 19: 11, 12). A intenção não é explicar muito a parte biológica e funcional dos eunucos, mas no início da light novel, Maomao comenta sobre meninas que eram sequestradas para serem substitutas das filhas dos eunucos.
Na China imperial e na Coreia (Reino de Joseon - 1392 a 1897), eunucos do alto escalão poderiam ser ricos e até se casavam. A adoção era uma possibilidade viável, já que biologicamente, os eunucos eram estéreis devido à castração. O objetivo não era apenas a herança, mas arrumar alguém que cuidasse do eunuco durante a velhice e realizasse os ritos tradicionais de culto aos ancestrais. Em algumas culturas asiáticas, a prática espiritual de cultuar os mortos é fortemente enraizada, assim como a crença de que os falecidos continuam a existir e têm o poder de influenciar a vida dos seus descendentes. Sem contar que a figura masculina era veemente cultuada no pós-morte, então o sequestro dessas jovens tinha uma importância muito lógica para a época.
É nesse contexto que Maomao foi habitar no palácio interno, entre consortes, mulheres da corte, eunucos e serviçais. Um séquito de 3.000 pessoas, conforme a própria protagonista nos informou. Recebia-se um salário pelo serviço prestado, já que Maomao não foi selecionada para matrimônio arranjado e nem como substituta de filha de algum eunuco. O motivo, ela mesma nos informou no primeiro capítulo: não tinha corpo voluptuoso e nem pele branca, logo não servia nem para concubina de baixo escalão. Maomao tem uma pele saudável e sardenta e ela é muito magra. Interessante a citação da sua pele saudável, pois já liga ao primeiro mistério que ela vai solucionar e mudar a sua trajetória no palácio interno. A fixação por uma pele muito branca era um preço muito alto que falaremos mais pra frente (aqui, apenas o volume 1 introdutório).
Maomao usava o traje da imagem acima, e o vestuário era algo que indicava a posição da pessoa naquela sociedade. Para quem é distraído, pode passar desapercebido as roupas usadas pela protagonista durante a trama, mas conforme ela mudava de função, mudava de posição e de veste. Ela, além do salário recebido, que parte iria para os sequestradores, também poderia receber a liberdade em um tempo após serviços prestados. Nossa protagonista começou lavando roupas no pátio central nos fundos da construção (não é óbvio na leitura que construção é essa).
Na light novel, há uma separação complexa das palavras consorte e imperatriz, e isso vai muito da tradução e da editora. A animação apresenta apenas as quatro consortes de alto escalão do imperador, mas a light novel nos apresenta outras posições e como funcionava a ascensão dessas consortes. Ficamos sabendo que na posição de consorte de baixo escalão, era possível receber um quarto luxuoso com direito a duas damas de companhia e que o quarto era provavelmente da filha de um comerciante rico.
O local que essas "consortes de baixo escalão" habitavam, era distante para ser visto pelo imperador e serem vistas, era a possibilidade de subir na hierarquia de importância. Se ele (imperador) passasse uma noite com uma consorte de baixo escalão, essa mulher poderia mudar de aposento. Se acontecesse de ter uma segunda noite com o imperador, seria a ascensão desejada por elas para uma posição que ia além da mudança de quarto.
As relações eram complexas e o funcionamento respeitava uma hierarquia cultural dentro do palácio interno. Para essa posição citada no parágrado anterior, as serviçais não respondiam a uma senhora específica, então, Maomao lavava roupas de algumas consortes em troca de salário. Caso essas mulheres passassem da idade, o imperador fazia arranjos matrimoniais com membros da corte e somos informados que o grande temor era ser entregue a um eunuco. Se por via de regra, era proibido o acesso de homens e apenas o imperador, parentes consanguíneos e eunucos tinham autorização para circular no palácio interno, essas casamentos eram feitos âs cegas.
Importante finalizar com o significado consorte que aparece nas três versões (anime mangá e light novel), pois o significado pode variar bastante até nas animações japonesas. A consorte era a esposa com título e posição oficial, mas para nós (nas três versões), é apresentada como imperatriz. Confesso que é bem confuso para nós que não temos essa cultura como herança.
Nas cortes antigas orientais, essas consortes eram as concubinas, divididas por graus de importância e muitas ocupavam essa posição como parte de aliança política entre o rei e a família (a consorte Lihua, por exemplo, tem parentesco com o imperador, enquanto que, Gyokuyou é a representante do Ocidente, com relações comerciais consideráveis). Acredito que a escolha, talvez da própria autora ou da editora em não usar a palavra concubina, tenha sido proposital, pois acabamos lembrando muito de hárens. Devaneio meu!
No ocidente, reis não tinha concubinas ou consortes no modelo oriental. Eles tinham amantes reais com influências políticas consideráveis (Madame de Pompadour, Diane de Poitiers, Domitila...). Já nos Diários de uma apotecária, em nenhum momento as consortes se envolvem diretamente com a política do reino (pelo menos até agora dentro do meu conhecimento e leitura), a grande preocupação era gerar um herdeiro para o imperador e de preferência do sexo masculino. Deixemos claro que, a autora não está nos apresentando um retrato fidedigno dos reinos orientais, e sim, uma corte com características próprias. Na História real, existiram concubinas que se tornaram consortes (Roxelana, Wu Zetian, Cixi, Yang Guifei...) e se tornaram mulheres poderosas, mas isso é assunto para outro momento.
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