sexta-feira, 23 de outubro de 2026

Light Novel - volume 1 Diários de uma apotecária (capítulo 2)

    No capítulo 2 (As duas consortes) da light novel, Diários de uma apotecária, vou abordar algumas informações sobre o funcionamento do palácio interno da ficção e tentar conciliar com a minha formação acadêmica (História). Claro que, disponibilizando meus devaneios. Caso você não conheça, fica a indicação das três versões (temporada 1 na Netflix, temporada 1, 2 e atualmente a 3 na plataforma Crunchyroll da animação japonesa/mangás e light novel). Confesso que as versões impressas não são tão acessíveis pelo valor e o quesito exclusividade tornou o produto mais caro. A versão light novel traduzida aqui no Brasil ainda está no volume 2.

    A primeira imagem (acima), característica do estilo light novel (preto e branco), é de Maomao e Xiaolin no refeitório. A refeição dos servos, sopa e mingau de cereais, já aponta que, a divisão de classes existia desde sempre, pois esse tipo de refeição, historicamente falando, era para servos e camponeses. Na Antiguidade Oriental, já que estamos tratando de um sistema baseado (ou não) no palácio da China/Coreia, a sopa e o mingau de cereais eram a base da alimentação. Não era exclusivo apenas na China, a receita com grãos também era comum para os hebreus, egípcios, mesopotâmicos e outros.



    O que é muito interessante, é que, se citarmos essa receita hoje, ela pode ser algo rejeitado pela estética ou com um valor alto por ser uma culinária diferente. Não é informado os ingredientes da sopa ou do mingau de cereais, apenas que era o desjejum (café-da-manhã para nós). Diferente dos ocidentais, para os orientais, principalmente os chineses, o consumo de alimentos quentes e de fácil absorção logo cedo, era e é medicinal, pois auxilia o despertar do sistema disgestivo. No norte do território chinês, o milhete (painço - imagem acima) era consumido e já no sul úmido, o arroz. Pesquisei os benefícios de vários grãos da culinária asiática e é sensacional. Uma curiosidade, por causa dos mingaus e o seu cozimento, a cerâmica teve o seu desenvolvimento impulsionado na China pré-histórica (Neolítico, mano! Era da Revolução da Agricultura). 



    Beleza! Escrevi demais sobre o desjejum da Maomao e Xiaolin, mas antes de findar a parte culinária, quero citar sobre o chá de ervas com alcaçuz. Em forma de agradecimento pela fofoca do momento, Maomao dá esse chá para Xiaolin, e isso é muito interessante, pois já demonstra que nossa protagonista tem conhecimento apotecários/boticários (são termos históricos e sinônimos que designam o antigo profissional responsável por manipular, preparar e vender remédios, ervas e drogas nas tradicionais boticas, antes da regulamentação da farmácia moderna). Ela faz o chá com plantas que colheu no pátio central (não é qualquer pátio, hein...) e após afirmar que estava com um cheiro forte de remédio, cita que também estava doce. Pois então, aí está o pulo do gato: o alcaçuz. Essa raiz foi consumida no Mediterrâneo, Egito e na China há mais ou menos 2.300 anos atrás. Sua raiz doce contém glicirrizina, um composto que é 50 vezes mais doce que o açúcar da cana. A própria Maomao informa que servas tinham poucas opotunidades de consumir doce e nem precisamos reforçar que o motivo era a posição social delas. 



    Qual era a fofoca entre as servas no refeitório que aproximou Maomao e Xiaolin? Sim, pois Maomao desde o início tem características taciturnas (um adjetivo da língua portuguesa que descreve quem fala pouco, é calado, reservado ou silencioso) e totalmente contrária a tagarela, extrovertida e animada Xiaolin. A fofoca é a frequência do médicon real em visitar as consortes, Lihua e Gyokuyou, sendo mais frequente em visitar a primeira. Pois bem, Lihua teve um filho (sexo masculino!) e Gyukuyou teve uma menina, logo explica a frequência das visitas. Por mais que, os filhos e as filhas das consortes fossem herdeiros do imperador, apenas os filhos poderiam substituir o imperador. Maomao descartou a hipótese de envenenamento, pois nas mortes passadas, duas eram meninas e um era menino (filhos de outras consortes). Para ela, não fazia sentido envenenar princesas. Maldição? Maomao odeia essa linha de raciocínio sobrenatural e vai rejeitar essa visão sempre. 



    Quem são essas consortes de alto escalão? Na ficção, temos quatro nessa posição de importância. Nesse capítulo, sabemos que Lihua (imagem abaixo) tem o maior pavilhão e naquele momento, era a mulher mais poderosa ali, pois era mãe de um menino. Mas, o fato de ser a consorte do maior pavilhão, é anterior ao nascimento do herdeiro do imperador (acho que soltei um spoiler na postagem anterior). Gyokuyou, é a preferida do imperador e tem sangue do oeste. A localização da capital ocidental justifica os traços da consorte de cabelos vermelhos e olhos verdes. Mas, por agora, não vou me prolongar, os debates sobre a origem dela são extensos e interessantes (. A ficção apenas na 3ª temporada e mais ou menos 5º volulme light novel, demonstraram a importância do clã de Gyokuyou). 


    Bem, Maomao fica interessada nessa fofoca e após os sintomas dos herdeiros serem citados, ela precisa verificar o que está acontecendo (a curiosidade matou o gato e como Maomao significa gato, o ditado diz muito sobre a nossa protagonista). Ela troca de lugar com uma lavadora de seda do pátio oeste, já que ela é do pátio leste. Cita uma curiosidade sobre a deteriorização da seda, tecido nobre, e que à sombra, seca sem danificar. São informações bobas que passam despercebidas, mas que na época, faziam toda a diferença, principalmente para uma garota qualquer de 17 anos. 


    Essa serva do pátio oeste, troca de lugar sem exitar, pois quer ver o eunuco com beleza extraordinária, e mais uma vez, Maomao fala das possiblidades de casamento com eunucos. Se do lado de fora do pátio interno, ser sequestrada para ser algo em relação ao eunuco era rejeitado e temido, do lado de dentro, era a única esperança para as damas da corte quando deixassem o trabalho. As damas da corte tinham uma função diferente das servas, mesmo que cuidassem de serviços domésticos e higiene pessoal da princesa, consorte ou alguém de linhagem nobre. Interessante essa informação logo de início, pois o que mais eu escuto, são desejos de que Maomao tenha um romance com mulher ou com esse eunuco de beleza extraordinária que vou apresentar nas próximas postagens. 

    "Volta e meia era possível ouvir sobre damas da corte que se tornariam esposas de eunucos quando deixassem seu trabalho. isso, presumivelmente, era considerado mais salutar do que se sentirem atraídas pelo gênero feminino, mas Maomao realmente não conseguia compreender. Será que um dia eu vou acabar me tornando como elas? Diante da pergunta retórica, Maomao cruzou os braços em grunhiu. Ela não tinha esse tipo de interesse." Provavelmente a autora se refere aos rompantes apaixonados, pois se ela ainda não era dama da corte, como serva, não poderia desejar um casamento com eunuco. Meu devaneio, Mas algo fica claro já de início, Maomao não tem interesses românticos. A cobrança do público é desproporcional, se levarmos em conta que não é o centro da trama. 




    Maomao chega dentro do pátio central das consortes de alto escalão pela "primeira" vez. Então, ela percebeu algo na estética da consorte Lihua, a palidez. Citei na postagem do volume 1 Capítulo 1 Light novel que Maomao acabou se tornando serva por ser magra e ter a pele natural. Maquiagem não era algo barato e ter a pele páilda significava que aquela mulher era da nobreza ou da elite, pois não precisava trabalhar ao ar livre. Em poemas antigos, a pele clara era relacionada a elementos da natureza como neve e jade. 


    Para obter essa brancura extrema, os cosméticos continham pó de chumbo sintético e por mais que já existisse uma base de farinha de arroz, o chumbo tinha uma melhor aderência, opacidade convicente e cobertura perfeita. Como a morte das crianças na ficção foi na fase de amamentação, nem precisamos escrever muito sobre a contaminação de mãe para filho. Essa questão da maquiagem não foi algo exclusivo do Oriente, também alcançou o ocidente (seja para definir classe social ou disfarçar doenças), pois as trocas culturais, acompanharam as comerciais durante a História da Humanidade. Só para acrescentar, que alguns itens de maquiagem, surgiram com objetivos de proteção, por exemplo, o batom e o kajal no Egito antigo. 

Rainha Elizabeth para esconder as cicatrizes deixadas pela varíola que contraiu em 1562 e projetar uma imagem pálida de pureza ("Rainha Virgem"), ela usava uma pasta branca feita de chumbo branco misturado com vinagre.

    Bom, o episódio das consortes acontece no pátio central e uma observação para findar essa postagem é a descrição dos entalhes e pilares. Para quem já assistiu a animação japonesa, deve ter percebido a arquitetura, que por mais que, se assemelhe a Cidade Proibida da China (teve esse nome, pois apenas o imperador podia acessar), tem mesclagens de alguns períodos da China e Japão. Deixo o link aqui para verificar a fala da autora sobre essa questão Natsu Hyuga e ambientação. Logo, vamos para o capítulo 3. Sem pressa, pelo menos por aqui.