segunda-feira, 19 de outubro de 2026

Light Novel volume 1 - Diários de uma apotecária (capítulo 1)


    Que eu amo a Maomao, é sabido por todos! Que já tem um tempo queeu desejo escrever sobre ela aqui, talvez nem todos saibam. Diários de uma apotecária ganhou o mundo após o lançamentos da 1º temporada na Netflix  (1ª e 2ª Crunchyroll e desde outubro/2026 a 3ª temporada). A versão mangá e light novels traduzida para o português demorou um pouco a chegar para os fãs no Brasil. Então, a maioria de nós conhecemos primeiro a Maomao versão anime, e realmente não sei o número de pessoas que conheceram também a versão mangá e por último, a versão light novels. As três versões são maravilhosas, mas confesso que a versão light novel é sensacional. 



    Uma light novel é um estilo de literatura de origem japonesa com ilustrações esparsas no estilo com o mangá. O estilo pode ser romance, ação ou fantasia. O que diferencia do livro é o tamanho do paragráfo e a linguagem que é mais simples, pois seu público em geral são adolescentes e jovens. Já o livro tradicional pode ter a linguagem mais densa ou erudita. Não é uma romance curto, e sim, um estilo narrativo. Surgiu no Japão na década de 90 e atualmente rompeu a bolha e globalizou o estilo para vários países. Importante essa introdução, pois vamos ter alguns detalhes precisos, como por exemplo, a tradução, a editora e isso pode influenciar no resultado final. Explicarei mais pra frente usando o exemplo da tradução e significado de "concubina" e "consorte". 


   Mesmo tendo lido até o volume 8 do mangá (Editora Panini) e estar acompanhando a 3º temporada, escreverei aqui a partir da leitura que estou fazendo da versão light novel (Editora Globo Alt, 2026). Partirei do início emcomum nos três estilos, o sequestro da protagonista que foi vendida para a corte Imperial enquanto procurava ervas na floresta.  Maomao, que morava com o pai adotivo, um apotecário muito competente, e que foi expulso da corte imperial,  vai contra a sua vontade ser uma serviçal no palácio interno. 

Cidade Proibida (Pequim, China, século VXII - assim como na obra ficcional, apenas imperadores e pessoas permitidas podiam adentrar na corte imperial)

    Meninas frequentemente eram sequestradas (China Era Ming 1368-1644) para a corte imperial, seja para arranjo matrimonial, seja para trabalhos domésticos na corte ou como filhas substitutas de eunucos. Os eunucos existiam desde as civilizações antigas, constando sua existência em registros históricos desde o século XIV a.C.  A prática da castração de um homem tinha como objetivo não ser possível a prática sexual nos haréns, cortes reais em qualquer função de confiança. Escravizados ou contratados, esses homens poderiam ser guardas, camareiros, espiões e até comandantes militares. Nos séculos XVI e XVIII, na Europa, adolescentes eram castrados para manterem vozes agudas (os castrati). 



    Para quem já conhece o eunuco com beleza de ninfa da corte imperial que vai ter um papel fundamental juntamente com Maomao, só uma informação sem spoiler: faz muito sentido a beleza andrógina de Jinshi.  A castração alterava o desenvolvimento hormonal, impedindo a puberdade masculina com as características mais masculinizadas. Para quem é cristão, certamente já leu sobre os eunucos na Bíblia (Gn 40:02, 2Rs 23:11, 2Rs 25:19, Jr 52:25, Dn 1:11, Mt 19: 11, 12). A intenção não é explicar muito a parte biológica e funcional dos eunucos, mas no início da light novel, Maomao comenta sobre meninas que eram sequestradas para serem substitutas das filhas dos eunucos. 
    
    Na China imperial e na Coreia (Reino de Joseon - 1392 a 1897), eunucos do alto escalão poderiam ser ricos e até se casavam. A adoção era uma possibilidade viável, já que biologicamente, os eunucos eram estéreis devido à castração. O objetivo não era apenas a herança, mas arrumar alguém que cuidasse do eunuco durante a velhice e realizasse os ritos tradicionais de culto aos ancestrais. Em algumas culturas asiáticas, a prática espiritual de cultuar os mortos é fortemente enraizada, assim como a crença de que os falecidos continuam a existir e têm o poder de influenciar a vida dos seus descendentes. Sem contar que a figura masculina era veemente cultuada no pós-morte, então o sequestro dessas jovens tinha uma importância muito lógica para a época. 


    É nesse contexto que Maomao foi habitar no palácio interno, entre consortes, mulheres da corte, eunucos e serviçais. Um séquito de 3.000 pessoas, conforme a própria protagonista nos informou. Recebia-se um salário pelo serviço prestado, já que Maomao não foi selecionada para matrimônio arranjado e nem como substituta de filha de algum eunuco. O motivo, ela mesma nos informa no primeiro capítulo: não tem corpo voluptuoso e nem pele branca, logo não serve nem para concubina de baixo escalão. Maomao tem uma pele saudável e sardenta e ela é muito magra. Interessante a citação da sua pele saudável, pois já liga ao primeiro mistério que ela vai solucionar e mudar a sua trajetória no palácio interno. A fixação por uma pele muito branca era um preço muito alto que falaremos mais pra frente (aqui, apenas o volume 1 introdutório). 



    Maomao usava o traje da imagem acima, e o vestuário era algo que indicava a posição da pessoa naquela sociedade. Para quem é distraído, pode passar desapercebido as roupas usadas pela protagonista durante a trama, mas conforme ela mudava de função, mudava de posição e de veste. Ela, além do salário recebido. que parte iria para os sequestradores, também poderia receber a liberdade em um tempo após serviços prestados. Nossa protagonista começou lavando roupas no pátio central nos fundos da construção. 

    Na light novel, há uma separação complexa das palavras consorte e imperatriz, e isso vai muito da tradução e da editora. A animação apresenta apenas as quatro consortes de alto escalão do imperador, mas a light novel nos apresenta outras posições e como funcionava a ascensão dessas consortes. Ficamos sabendo que na posição de consorte de baixo escalão, era possível receber um quarto luxuoso com direito a duas damas de companhia e que o quarto era provavelmente  da filha de um comerciante rico. O local era distante para ser visto pelo imperador e isso era a possibilidade de mudar de vida. Se ele passasse uma noite com uma consorte de baixo escalão, essa mulher podia mudar de aposento. Se acontecesse de ter uma segunda noite com o imperador, seria a ascensão desejada por elas. 

    As relações eram complexas e o funcionamento respeitava uma hierarquia cultural dentro do palácio interno. Para essa posição citada no parágrado anterior,  as serviçais não respondiam a uma senhora específica, então, Maomao lavava roupas de algumas consortes em troca de salário. Caso essas mulheres passassem da idade, o imperador fazia arranjos matrimoniais com membros da corte e somos informados que o grande temor era ser entregue a um eunuco. Se por via de regra, era proibido o acesso de homens e apenas o imperador e parentes consanguíneos e eunucos, essas casamentos eram feitos âs cegas. 

    Importante finalizar com o significado consorte que aparece nas três versões, pois o significado pode variar bastante até nas animações japonesas. A consorte seria a esposa com título e posição oficial, mas para nós, é apresentada como imperatriz. Confesso que é bem confuso para nós que não temos essa cultura como herança. Nas cortes antigas orientais, essas consortes eram as concubinas, divididas por graus de importância e muitas ocupavam essa posição como parte de aliança política entre o rei e a família. Acredito que a escolha, talvez da própria autora ou da editora em não usar a palavra concubina, tenha sido proposital, pois acabamos lembrando muito de hárens. Devaneio meu! 


    No ocidente, reis não tinha concubinas ou consortes no modelo oriental. Eles tinham amantes reais com influências políticas consideráveis (Madame de Pompadour, Diane de Poitiers, Domitila...). Já nos Diários de uma apotecária, em nenhum momento as consortes se envolvem diretamente com a política do reino, a grande preocupação era gerar um herdeiro para o imperador e de preferência do sexo masculino. Mas, a autora não está nos apresentando um retrato fidedigno dos reinos orientais e sim uma corte com características próprias. Na História, existiram concubinas que se tornaram consortes (Roxelana, Wu Zetian, Cixi, Yang Guifei...) e se tornaram mulheres poderosas, mas isso é assunto para outro momento.