Apenas hoje tive o privilégio de ler o volume 1 das aventuras do cangaceiro samurai Mandakaru No Hana (2026). Escrito pelo artista e autor, Luissandro Almeida, a obra é uma mescla das culturas brasileira e japonesa. Para quem é de Brasília, como eu, vai sentir uma conexão durante a leitura. Para quem não é, fica essa dica de literatura que mistura daimyôs de um Congresso Feudal que, enriqueceram às custas de candangos explorados na construção e continuam enriquecendo mantendo os vários povos que habitam nessa cidade reimaginada. Nada distante da realidade.
Talvez os termos não sejm conhecidos por todos que acessam os meus devaneios, então por isso, algumas observações. Um daimyô, no Japão feudal, era um poderoso senhor proprietário de terras e líder militar. Já o termo candango, com origem africana, tinha um significado ruim e passou por várias transformações. Resumidamente, com o passar do tempo, era um rótulo depreciativo em relaçao aos operários que vieram do Nordeste e do Norte para construir Brasília entre 1956 e 1960. Só que se tornou um signicado de bravura e orgulho. Nós que aqui nascemos, não somos candangos, somos brasilienses. Em Brasília tem uma homenagem a esses construtores do escultor Bruno Giorgi (1905-1993), chamada Os Operários.
Recém chegado em Brasília, após auxiliar no Norte a Bruxa Branca em uma revolução, Mandakaru enfrenta uma luta corporal com um personagem que lembra muito o Dhalsim do jogo Street Fighter. O que mais eu apreciei na leitura, foi essa possibilidade de fazer várias releituras. Meus devaneios, claro! Durante a luta de espada versus facão, temos algumas informações introdutórias sobre o protagonista.
Após vencer o oponente, descobrimos que o perdedor faz parte do bando da Coral, moradora do entorno que, com seus parceiros participaram do "Levante". Já incomodei o autor querendo saber desse "Levante" e vai ficar para os próximos volumes 😒. Na primeira leitura, eu defini Coral como descendente da comunidade japonesa por suas vestes e o uso de uma espada que lembra uma katana. Até divulguei nos meus stories ela como estrangeira, mas após uma segunda leitura, percebi que os personagens não são tão simples assim de definir.
No final da HQ, o autor descreve com mais detalhes alguns personagens, porém deixando dúbio, sugestivo e não afirmando a origem de nenhum personagem 😒. Coral tem os traços indígenas e seus olhos são "rasgados". Ela usa dreads em metade da cabeça e anda descalça. Sua roupa é um Yukata, uma vestimenta japonesa usada no verão que é mais leve em relação ao kimono tradicional. A vestimenta na HQ foi adaptada, diminuindo o comprimento e introduzindo um short rendado. Roupa que eu usaria tranquilamente no meu dia-a-dia.
A máscara foi inspirada em uma Neko (gata) e adaptada para a nossa fauna brasileira em forma de onça pintada. Eu lembrei muito do Maneki-neko, o gato da sorte com a mão levantada para atrair boas vendas. Uma mescla total no figurino e estilo da Coral, o puro suco do povo brasileiro. Vai acontecer o mesmo com os outros personagens e isso é muito digno de um desfile de moda e lançamento de tendências. As máscaras também são sensacionais e se eu for descrever todas, vai ficar cansativo. Então já indico que você leia e veja se os meus devaneios fazem sentido.
Após mais lutas com outros personagens na Torre de TV (construída em 1967) Coral e Mandakaru trocam dialógos de apresentação após ele vencer todos do bando. Começa então as denúncias sociais que mesclam os candangos durante a construção da Capital com as gerações no presente que estão submetidos a viver à margem no entorno da cidade e sem acesso aos direitos básicos. Coral deseja Mandakaru como aliado e se apresenta com várias habilidades além da persuasão. Ela vai usar algumas habilidades ... sendo que a última me pegou de surpresa.
Uma baiana (do nada!) anuncia o fim de uma votação no Congresso e ficamos sabendo de um decreto do Inutilismo que vai ser colocado em prática sem o conhecimento da população e com a participação dos militares. É uma tentativa de eugenia aos menos favorecidos. O bando deixa suas diferenças de lado com o protagonista e começa a ação em prol do coletivo. Muitas surpresas boas e ruins, relacionadas com a causa ou a vida particular de Mandakaru, acontecerão até o final do 1º volume.
São muitos personagens com figurinos sensacionais que carregam culturas em cada acessório escolhido. A descrição de cada item usado por Mandakaru também é explicado no final da leitura. Temos até Língua de Sinais e personagem surdo. Está muito bacana.
Você pode ler gratuitamente no https://karikari.app/obra/mandakaru-no-hana, mas nós sabemos que autores independentes no Brasil precisam de ajuda e apoio para continuar produzindo. Então fica a dica para a aquisição do livro físico: Loja Virtual ou no instagram https://www.instagram.com/mandakarunohana/ do autor. Em SP, na Vila Mariana tem a @livraria_comicoff. Aqui em Brasília tem a galera da Gibitek https://www.gibitek.com.br/ instagram https://www.instagram.com/gibitek/
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