Do que leio, assisto, sinto e absorvo. Nunca será uma verdade absoluta, apenas um ponto de vista ou a vista de um ponto. Talvez uma dedução equivocada do meu olhar diante do mundo. Um olhar humano cheio de CID´s sem a presença da IA. Ela não devaneia. Então pra mim não serve. Eu quero o luxo do erro da falta de coesão textual. Aqui na solidão impossível de quem lê e carrega personagens e enredos dentro de si, me leio e releio. Para mim, é o suficiente. Os devaneios são meus, é tudo que tenho.
terça-feira, 12 de janeiro de 2016
Adeus ano velho...
Retrospectiva literária 2015:
46 livros e 29 filmes.
Alguns que valem a pena serem citados:
- Como eu era antes de você, JoJo Moyes. Nesse ano tem a estréia da adaptação dele.
No aguardo.
- Ele está de volta, Timur Vermes. Uma comédia sobre uma possível volta de Hitler nos dias de hoje. Adaptado para o cinema também, sem previsão para o lançamento no Brasil.
- O amor em tempo do cólera, Gabriel García Márquez. Sensacional.
- Tempo de esperas, Pe. Fábio de Melo.
- Frida: a biografia, Hayden Herrera.
- É isto um homem? Primo Levi.
- Pecar e perdoar, Leandro Karnal.
- Zelota: a vida e a época de Jesus de Nazaré, Reza Aslan.
Resenhas nesse blog e no meu perfil skoob.
Desejo um ano de letras e contos em 2016.
46 livros e 29 filmes.
Alguns que valem a pena serem citados:
- Como eu era antes de você, JoJo Moyes. Nesse ano tem a estréia da adaptação dele.
No aguardo.
- Ele está de volta, Timur Vermes. Uma comédia sobre uma possível volta de Hitler nos dias de hoje. Adaptado para o cinema também, sem previsão para o lançamento no Brasil.
- O amor em tempo do cólera, Gabriel García Márquez. Sensacional.
- Tempo de esperas, Pe. Fábio de Melo.
- Frida: a biografia, Hayden Herrera.
- É isto um homem? Primo Levi.
- Pecar e perdoar, Leandro Karnal.
- Zelota: a vida e a época de Jesus de Nazaré, Reza Aslan.
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Desejo um ano de letras e contos em 2016.
http://www.skoob.com.br/usuario/leitura/2015/449751
sexta-feira, 20 de novembro de 2015
Pecar e perdoar Leandro Karnal
Leandro Karnal, historiador e professor da UNICAMP, propõe em seu livro "Percar e perdoar: Deus e o homem na História" analisar as ideias judaicas, cristãs e islâmicas de pecado, afinal elas embasam quase todo comportamento moderno, inclusive dos não religiosos. Junto a ideia de pecado, também analisa o perdão jurídico e outros traços do Ocidente que nasceram e cresceram à sombra de estruturas religiosas. Ainda que ateu, afirma não ser um texto antirreligioso e não propõe atacar e nem defender nenhuma fé. Trata-se da experiência humana no desvio da norma e no restabelecimento da confiança. Vale ressaltar que o livro é um resumo de suas palestras presentes no canal virtual (Youtube) do projeto que ele foi mentor, Café Filosófico. Em todos os capítulos, o autor se utiliza de textos, personagens bíblicos, locais do Inferno de Dante (já que ele trabalha os sete pecados capitais) e do Purgatório.
Resumo dos capítulos:
Capítulo 1- o prazer de normar e o afã de pecar: narrativa do primeiro pecado, compartilhada pelo cristianismo e judaísmo, apresentando os tributos divinos de misericórdia e justiça. O jogo duplo do pecador e do moralista; a vitória farisaica das instituições religiosas: regras, penitências e aparências; o pecado como escolha e o seu inverso, a obediência imediata (Noé e Abraão); análise de personagens bíblicos: Caim, Noé, Cam e Davi.
Capítulo 2- as formas da infração aos códigos: a religião como uma forma de ordem; regras inseridas em um contexto histórico; o erro do anacronismo ao cobrar que um texto bíblico fale com a nossa voz; a questão da ausência de verdades atemporais, acima de momentos históricos, já muitos dos nossos valores são moldados pela Bíblia; a apropriação da mesma, ainda que endereçada a um tempo e à uma sociedade, por outros homens de outra época; o orgulho e a queda de Lúcifer; Antão e São Francisco de Assis.
Capítulo 03: o pecado envergonhado. Aqui Karnal trata da inveja, o que para ele é ter dor pela felicidade alheia. Para análise do tema, a parábola do filho pródigo (Novo Testamento), onde o irmão mais velho inveja seu irmão mais novo. A lição do texto é sobre perdão e a misericórdia que devem sobrepujar a regra, mas também aponta a inveja por trás da falsa virtude comportamental.
Capítulo 04 - Sexo, comida e o império do prazer: o controle corporal é de muito modos, o maior esforço da moral e da religião. A luxúria é o pecado da transgressão sexual, ressaltando que religiões morais como Cristianismo, Judaísmo e Islamismo estabeleceram um enorme código sobre o corpo. O autor analisa Paulo de Tarso, por se tratar do autor que mais escreveu sobre o tema. Já a gula, comer em excesso e sem fome, foi condenada por vários religiosos. Vale lembrar que a igreja cristã surgiu em meio onde as refeições tinham um grande significado. O autor descreve os centros culinários religiosos e os comportamentos religiosos de abstenção alimentar.
Capítulo 05 - O excesso e a falta, irritadiços, avarentos e preguiçosos: o autor confessa ser um irritado, no inferno de Dante, estaria no Quinto círculo, dos iracundos. Analisando o Sermão da Montanha (sobre os pacificadores) e sobre a atitude de Jesus no templo (com os cambistas), o autor de forma religiosa diferencia a ira (eu/ego) da fúria santa. Sobre a avareza, interessante a afirmação em ser ela idolatria. Já para preguiça, seu desenvolvimento de conceito desde acédia até a melancolia contemporânea medicalizada.
Capítulo 06 - Setenta vezes sete: os pecados são muitos, o perdão um só. Claro que historicamente, religiões criaram indulgências, tribunais, penitências etc. Mas, a consciência do erro é a condição do perdão. Análise do salmo 130, da oração Pai-Nosso e da mulher adúltera.
Capítulo 07 - Perdão grande e perdão pequeno, da Cruz Às cruzes: nesse capítulo o autor aborda os perdões do cotidiano, àqueles atos que nos irritam, mas por suas persistências se tornam no futuro causador da necessidade de um perdão maior. Citando sobre os chatos, o capítulo ficou muito chato.
Capítulo 08 - Novo pecados e novos perdões: hoje a preguiça virou procrastinação, a gula é enaltecida, aliás o cuidado exagerado com o corpo virou idolatria e assim por diante. De santos medievais a empreendedores, do paraíso divino ao sucesso financeiro e pessoal.
Capítulo 09 - Oremos: seria Karnal ateu? Fiquei em dúvida. Capítulo poético. Acredito que ele faz a oração contemplativa, desconfio. (risos)
Conclusão - Teria Leandro perdoado sua amiga citada no início do livro? Ótimas reflexões sobre o perdão. Não no viés religioso, mas humano.
Indico. As palestras no Youtube (que tem mais conteúdo que o livro) e o livro. Ambos contam com o sarcasmo do autor e inteligência.
É isto um homem? Primo Levi
Primo Levi (1919-1987), italiano, químico e escritor narrou na obra "É isto um Homem?" suas experiências no campo de concentração nazista de Auschwitz, durante a Segunda Guerra Mundial. Ao meu ver, é o tipo de literatura necessária para todos os alunos e interessados em aprender mais sobre o tema "Holocausto".
Trata-se de uma narrativa repugnante, que até mesmo o leitor pergunta "se seria aqueles, homens" (carrascos e prisioneiros). Sem nenhum traço de humanidade, "kapos" impuseram as maiores atrocidades aos prisioneiros judeus (e outros). Levi descreve desde a sua captura até o resgate dele e de um pequeno grupo de sobreviventes. Se durante a prisão, Levi e os demais perderam suas identidades, conseguiram resgatar quando da fuga dos alemães, que os deixaram à própria sorte. Percebemos o retorno da humanidade, mas nisso já cito praticamente o desfecho, que é emocionante.
Ler "É isto um homem?" é conhecer como foi a rotina degradante de trabalho sob violência contínua. Levi descreve detalhes, desde os uniformes, regras, forma de dormir, tratamento dado aos doentes, as formas de contrabando interno e externo e suas punições, a divisão do trabalho, o frio, a fome, a sopa, a perca da identidade e da esperança.
Algumas pessoas acreditam que sua morte tenha sido suicídio. Não sei, o que acredito é que conviver com tais lembranças não deve ter sido fácil, o que o tornou sobrevivente duas vezes. Indico.
quarta-feira, 14 de outubro de 2015
Diário Literário - Só por hoje e para sempre
41/2015 - Renato "Russo" Manfredini Júnior, cantor e compositor é conhecido por várias canções que se tornaram clássicos do rock brasileiro. Infelizmente, também se deu a conhecer pelos seus excessos e abusos e por sua dependência química. Eis o motivo que o levou à internação em abril de 1993 na clínica de reabilitação Vila Serena, no Rio de Janeiro. Lá, ele passou vinte e nove dias internado:
"passei vinte e nove meses num navio/e vinte e nove dias na prisão/e aos vinte e nove com o retorno de Saturno/decidi começar a viver"
Só por hoje e para sempre: diário do recomeço é o relato com o seu plano de tratamento, com as análises sobre as propostas ao artista para seguir o Programa dos Doze Passos, criado pelos fundadores dos alcoólicos anônimos e o relato da sua visão sobre os outros internos e sobre o seu próprio tratamento.
Em Vila Serena, Renato entrou em contato com seus defeitos de caráter, reconheceu a adicção como uma doença e reconquistou sua auto-estima. Seus relatos são sinceros e também irônicos, sem contar que demonstram seu interesse em mudar de vida. Alguns trechos demonstram que a passagem de Renato na clínica influenciou seu trabalho, tanto no álbum que foi lançado no mesmo ano, intitulado O descobrimento do Brasil como em outras composições:
"Mas, você finalmente provou ser mais forte - nunca atingi seu trabalho, sua criatividade ou seu amor pelos seus (...) Seu Poder Superior é muito forte e acho que você deve seguir seu caminho. Estarei adormecido, e digo isso porque sei que disso você sabe. Você me contra agora e não tenho mais espaço para respirar. Você sabe que vou tentar voltar. Mas reconheço minha derrota. Cuidado comigo. Seu medo" pg 18
"Tenho um sorriso bobo parecido com soluço, enquanto o caos segue em frente com toda a calma do mundo" Sereníssima
"Lá em casa tem um poço, mas a água é muito limpa" Há tempos
"Hoje não dá, vou consertar a minha casa quebrada, e descansar" Os anjos
"O sol que a chuva apagou" Giz
"Só por hoje, eu não vou me destruir, posso até, ficar triste se eu quiser e só por hoje, ao menos isso eu aprendi" Só por hoje
Super indico.
segunda-feira, 5 de outubro de 2015
Diário Literário
Garota, interrompida - Susanna Kaysen
Estava esperando assistir o filme, mas sabe-se Deus quando eu vou criar um tempo entre meus seriados para tal. Então resolvi resenhar logo a biografia da autora, que passou 02 anos internada (interrompida) de forma voluntária no Hospital Psiquiátrico McLean, com o diagnóstico de Transtorno de personalidade limítrofe. O livro é dividido em pequenos capítulos e não segue uma ordem cronológica, e na verdade é uma crítica aos métodos de diagnóstico de doenças mentais da década de 60. Em nenhum momento (pelo menos eu) percebi algum transtorno na autora, que foi diagnosticada por não se encaixar aos padrões preestabelecidos pela sociedade. Leia-se não desejar cursar uma faculdade e o que pesou foi uma tentativa de suicídio. Ela descreve os problemas mentais de suas colegas de internação e como era o procedimento dos funcionários para com elas. Ela também descreve sua tentativa de inserção na sociedade após a internação e traz algumas informações sobre transtornos mentais, que ao meu ver, não tem nada relacionado com ela. Indico.
sexta-feira, 18 de setembro de 2015
Teodora - a Imperatriz de Bizâncio
Livro do historiador francês, Francis Fèvre, com várias citações de Procópio de Cesareia, não muito simpático em relação a personagem que trata o livro. Em 324 d. C o centro administrativo romano é dividido em dois:
Oriental e Ocidental. Com as inúmeras invasões bárbaras, a parte
Ocidental não suporta e cai. De forma bem resumida o autor entra no
reinado de Anastácio que teve início em 491. Descreve bem a localização,
geografia e detalhes de Constantinopla. Século VI, Constantinopla resiste às invasões bárbaras
no Império do Oriente (centro administrativo desde 324 d.C por
Constantino). Após algumas situações por causa do trono como herança, o
casamento de Anastácio e Ariadne. O reinado de Anastácio remonta a paz
de volta às fronteiras. Ótima descrição da cidade, povos, portos... do
reinado romano sem Roma.
O Hipódromo fazia parte dos últimos pavilhões do Palácio Sagrado,
onde 30 mil espectadores assistiam jogos, desfiles de bárbaros
capturados e principalmente a corrida de cavalos. A corrida de cavalos
era dividida em duas facções, a Azul (aristocracia vizinha do Palácio
Sagrado e sua clientela) e a Verde (oposição financiada pelos
comerciantes) e ambas financiavam centros de treinamentos para cocheiros
e cavalos. Acácio era empregado da facção verde, mas após sua morte,
sua esposa e três filhas (Comito, Teodora e Anastácia) tiveram que se
humilhar no Hipódromo, recebendo emprego da facção Azul. Comito e
Teodora (futura imperatriz) tornaram-se atrizes cômicas de rua, sendo
que a última sabia utilizar da beleza e magnetismo próprio para
conseguir o que queria.
Teodora quando adolescente se utilizava da sua beleza e talento para
ascender do círculo de mímicos e atores. Começou a participar das festas
da aristocracia de Constantinopla recheadas de lascívia e luxúria.
Apesar do peso do Cristianismo a cidade é aberta à permissividade e
luxúria.Em sua estadia no Egito, Teodora teve contato com os monges do
desertos e com os teólogos de Alexandria. Em 519 viaja para Ásia Menor,
sustentado-se à princípio com a prostituição barata. Integra-se
posteriormente à clientela dos Azuis no Hipódromo em Antioquia, se
tornando cortesã do clã aristocrático. Um amiga cortesã, Macedônia,
recomenda Teodora a Justiniano, sobrinho do novo imperador, Justino. Em
520 Teodora retorna à Constantinopla, após três anos de exílio, como
fiandeira de lã. Mas, logo se estabelece na facção dos Azuis,
tornando-se amante de Justiniano, seu futuro marido e imperador.
Justino sobe ao trono aos 76 anos. Camponês da Ilíria e chefe dos
excubitores (guarda mais próxima do imperador) enfrenta a guarda oficial
do ouro na arena do Hipódromo. Ao vencer, torna sua esposa Lupicínia,
uma escrava comprada por ele, imperatriz de Constantinopla. Lupicínia
troca seu nome bárbaro por Eufêmia, aceitável nos anais do império.
Justino conta com seus dois sobrinhos, Germano e Flavius Petrus
Sabbatius, rebatizado posteriormente com o nome de Justiniano. É durante
o reinado de Justino e Eufêmia que Teodora volta a sua cidade e ao
encontrar Justiniano, vê-se imediatamente colocada no centro das
intrigas e do poder imperial.
Justiniano tinha 40 anos quando conheceu Teodora. Era um homem rude,
porém letrado e com sólida cultura. Desde o mês de julho de 518, Justino
e seu sobrinho apressaram-se em restabelecer o cristianismo ortodoxo,
fiel aos ensinamentos do papado romano. No mesmo ano a situação ficou
sob controle, no entanto, Justiniano aniquilou seus inimigos e possíveis
adversários ao futuro trono. Se tornou respeitado pela Igreja por sua
devoção e sua submissão aos dogmas e endeusado por uma aristocracia
medrosa. Sentido-se ameaçado por Vitalino, ex-pretendente ao trono
vencido por Justino e atual chefe do exército terrestre, Justiniano
assassinara esse e seu Estado maior em um banquete, substituindo-o no
cargo.
No início, o povo de Constantinopla surpreendeu-se ao ver Justiniano
em companhia de uma cortesão. Em 521, Justiniano recebe o título de
cônsul, devendo promover ao povo as festividades mais esplendorosas, o
que de fato fez. Justiniano tem uma dupla personalidade e Teodora soube
discernir bem essa característica e torná-lo dependente dela. Ambos têm
ambição de ouro e honrarias. Em dois anos Teodora soube impor-se a toda a
corte e Justiniano ouve seus conselhos. O casal já reinava na capital
imperial.
O imperador Justino teme a sombra do perigo bárbaro. Sua baixa origem
é motivo de zombaria, levando em conta que sua carreira não o preparou
para a dignidade imperial. Justiniano, ajudado por Teodora, aproveita
essa carência de poder para organizar seu domínio sobre Constantinopla e
sobre o império. Em 518 filiou-se à facção dos Azuis e esse ato torna
os membros brutais e impunes. As ruas agora não pertencem mais aos
soldados do imperador, mas aos bandos da facção Azul. Infeliz daquele
que falar mal do passado de Teodora.
Teodora recebe o título de nobilíssima; Justino anula a lei que
impedia o casamento de Justiniano e Teodora. O casamento acontece após três anos de
concubinato. O reinado de Justiniano pode ser apresentado com a reconstituição do império romano, reconquistou províncias perdidas no Ocidente; reformas políticas, legislativas (Código de Justiniano), administrativa e perseguição ao monofisismo. Na revolta de Niká (532) ele quase perdeu o trono, porém com a insistência de Teodora (que praticamente governava junto), conseguiu vencer.
O casal não teve descendentes, mesmo Teodora tendo um filho e sofrido alguns abortos antes do casamento. O livro demonstra muitas intrigas na corte, aponta uma mulher caprichosa, perigosa, e sem limites nos seus atos para conseguir o que queria. Para o período, uma mulher intrigante.Indico.
quinta-feira, 10 de setembro de 2015
Meditações para Maltrapilhos
Esse livro chegou no momento certo na minha vida. É um apanhado de textos retirados de conferências, palestras, devocionais e alguns livros do autor Brennan Manning (Richard Francis Xavier). Abro um parêntese para também indicar dele as obras: A assinatura de Jesus, O impostor que vive em mim, Colcha de retalho e o seu livro mais conhecido, O Evangelho maltrapilho. Meditações para maltrapilhos é um devocionário, mas eu não segui uma leitura por dia, e acrescento que é o tipo de livro que você pode reler sempre.
Sem reservas, fala sobre a prontidão do autor em viver o martírio por Cristo,
que não seria necessariamente morrer, mas para viver para Ele um dia de
cada vez. Além dos seus textos, ele também cita várias frases de outros, o que só acrescenta o nosso devocional.
Santo não é aquele que é bom, mas o que experimenta a bondade de Deus. Thomas Merton
Por que devemos nos portar como Atlas cristãos, carregando o mundo inteiro sobre os ombros, tentando merecer o amor de Deus? (Eu a amei com amor eterno, com amor leal a atraí. Jeremias 31:3). Fé, significa desejar mais intimidade com Jesus Cristo. Se é para nossa fé ser criticada, que seja pelas razões corretas.
Jesus não pediu que confiássemos em Deus, ele ordenou. Achamos, no entanto, que a confiança amenizará a confusão, amortecerá a dor, remirá os tempos. Hebreus 11 testifica que não é assim. Nossa confiança não ameniza o caos. Quando tudo o mais é impreciso, o âmago da confiança diz: Nas tuas mãos entrego o meu espírito.
O maior obstáculo na vida de oração foram as expectativas (Padre Frank Miles)
A cruz é tanto um símbolo da nossa salvação quanto o padrão para a nossa vida.
Talvez por isso que as únicas quatro vezes que "seja feito a tua vontade" ocorre no Novo Testamento são no contexto de martírio. Quanto mais velho eu fico, mas percebo a verdade do adágio: "É mais fácil morrer por Cristo que viver para Ele".
A cruz de Jesus sempre permanecerá um escândalo e uma tolice para discípulos exigentes que buscam um salvador triunfante e um evangelho da prosperidade.
A vida de um cristão não é a imitação de um herói morto.
O Deus do cristão legalista, por outro lado, é com frequência imprevisível, errático e capaz de toda sorte de preconceito.
Você não compreende que discipulado não significa estar certo, ser perfeito ou eficiente? Diz respeito à maneira que as pessoas vivem umas com as outras
E a reação divina de surpresa, naturalmente, é que amar-nos liberta-nos para amar o outro.
O queijo e os vermes
Pesquisando em 1962 sobre os julgamentos de uma estranha seita de Friuli, o autor Carlo Ginzburg, encontrou uma sentença curiosa. O réu, Menocchio, sustentava que o mundo tinha sua origem na putrefação. O livro, O queijo e os vermes, narra sobre sua história apoiado em farta documentação. Mas, a intenção não é apenas biográfica, também tenta analisar a cultura camponesa da Europa pré-industrial, numa era marcada pela difusão da imprensa e a Reforma Protestante (bem como a repressão a esta última nos países católicos). O livro também é o estudo da cultura imposta às classes populares e não apenas a apresentação da cultura produzida pelas classes populares.
Chamava-se Domenico Sandella, conhecido por Menocchio. Nascido em 1532, em Montereale, foi casado e pai de sete filhos. Segundo afirmou a um padre era carpinteiro, marceneiro, pedreiro, mas sua principal profissão era moleiro. Se vestia como tal, capa e capuz de lã branca. Foi magistrado da aldeia e administrador da paróquia local. Sabia ler, escrever e somar. Em 28 de setembro de 1583 foi denunciado ao Santo Ofício, sob a acusação de ter pronunciado palavras heréticas. De fato ele debatia sua opinião em praças e tabernas. Para alguns, seu debate se assemelhava às opiniões de Lutero. O clero era hostil a ele, e esse fato era explicado, pois Menocchio não reconhecia na hierarquia eclesiástica, nenhuma autoridade especial. Para ele, Deus estava em tudo e Maria após o nascimento de Jesus, não permaneceu mais virgem. Tinha uma Bíblia em vulgar em sua casa, livro proibido pela Igreja. Se apresentou à convocação do tribunal eclesiástico, mas no dia seguinte foi levado ao cárcere do Santo Ofício de Concórdia. Em 07 de fevereiro de 1584 foi submetido a um primeiro interrogatório.
Durante o inquérito preliminar, diante das estranhas opiniões referidas pelas testemunhas, o vigário-geral perguntara se Menocchio era sã de mente. Esse afirmou que sim, que estava dentro da sua razão. Um dos seus filhos ainda tentou espalhar o boato pela cidade que o pai era louco, mas o vigário deu continuidade ao processo mesmo assim. Se fosse hoje, Menocchio seria sim considerado um lunático religioso, mas em plena Contra-Reforma, as modalidades de exclusão eram outras, a identificação e a repressão da heresia. No caso de Menocchio em especial, havia um apanhado de ideias subversivas, inclusive sua cosmogonia: "que tudo era um caos, terra, ar, água e fogo juntos, e de todo movimento junto se formou uma massa, do mesmo modo como o queijo é feito do leite, e do qual surgem os vermes, e esses foram os anjos...
Por volta do fim de abril, os priores venezianos convidaram o inquisidor de Aquileia e Concordia, a agir de acordo com os hábitos vigentes nos territórios da República, que impunham, nas causas do Santo Ofício, a presença de um magistrado secular ao lado dos juízes eclesiásticos. O conflitos entre os dois poderes era tradicional. No passado, Menoccho tinha dito estar pronto e desejoso de declarar suas opiniões às autoridades e seculares. Incentivado a falar, Menocchio abandonou qualquer reticências e: denunciou a opressão dos ricos contra os pobres através do uso do latim nos tribunais; achava que na lei vigente o papa, os cardeais, os padres eram grandes e ricos e que esses arruinavam os pobres arrendando terras; recusava todos os sacramentos por serem invenções humanas, mercadorias, instrumentos de exploração e opressão por parte do clero; a hóstia era apenas um pedaço de massa; que a Sagrada Escritura tinha sido dada por Deus, mas, em seguida, foi adaptada pelos homens; que a santidade era um modelo de vida; criticou as relíquias ... implorou a piedade aos inquisidores, mas na verdade o processo estava longe de terminar. Dias depois desejavam ouvi-lo novamente.
O livro também relata sobre Friuli da segunda metade do século XVI: uma sociedade arcaica e ainda dominada pelas grandes famílias da nobreza feudal. Essas famílias estavam em dois partidos, a favor ou contra Veneza, que começou a dominar em 1420. Essa disputa política iniciou um violento conflito de classes, e em várias localidades do Friuli os camponeses faziam reuniões secretas. Após a efêmera revolta camponesa de 1511, acentuou-se a tendência veneziana de apoiar os camponeses do Friuli contra a nobreza feudal. Entre meados do século XVI e meados do XVII, ou por causa das frequentes epidemias ou pela intensificação da imigração, a população total do Friuli diminuiu. Veneza estava decadente e a economia friulana já se encontrava em estado de avançada desagregação.
O movimento anabatista, depois de ter se alastrado por grande parte da Itália foi desmantelado na segunda metade do século XVI pela perseguição religiosa e política. De forma geral negavam as imagens sacras, as cerimônias, os sacramentos, negavam a divindade de Cristo, insistiam na adesão à uma religião prática baseada nas obras, pobreza versus a pompa da Igreja. A princípio poderíamos vincular as ideias de Menocchio aos anabatistas, mas entre outras coisas, ele discordava que a inspiração divina viesse apenas apenas do Evangelho. Para Menocchio, entretanto, a inspiração poderia vir de livros os mais variados: tanto do Fioretto della Bibbia quanto de Decameron.
Parece que Menocchio afirmava manter contatos com grupos luteranos, mas quando o inquisidor perguntou-lhe sobre o seu entendimento pela justificação, ele não compreendeu a pergunta. Após a explicação, Menocchio negou e afirmou "se alguém pecou, é preciso fazer penitência". O mesmo ocorreu com o termo predestinação, que após explicação ele disse não acreditar que Deus predestinava alguém à vida eterna. Justificação e predestinação, os dois temas sobre os quais a discussão religiosa na Itália se acirrava no período da Reforma, que não significavam nada para o moleiro. Mesmo com a profunda separação da Itália entre cidade e campo, o último não ignorava por inteiro as formas de inquietação religiosa. Por trás dessas discussões contemporâneas percebe-se a presença maciça de tradições diversas. A reforma rompendo com a crosta da unidade religiosa, trouxe à tona, de forma indireta o substrato de tais tradições. Assim sendo, não é possível remeter as afirmações de tom radical feitas por Menocchio ao anabatismo e nem a um genérico luteranismo. Talvez elas faziam parte de um novo autônomo de radicalismo camponês que o tumulto da Reforma contribuíra para que emergisse.
A obra contém muitas citações dos livros aos quais Menocchio teve contato e o contexto histórico que os autores estavam inseridos. De forma geral, percebe-se a cultura popular misturada com o conhecimento cristão, e a Inquisição que usou do tribunal para aniquilar qualquer coisa que não coincidisse com os ensinamentos da Igreja. Indico.
terça-feira, 8 de setembro de 2015
Orange is the new black
Confesso que fui levada pelo modismo da Série que já está na terceira temporada, ainda que eu esteja ancorada na primeira. Quando soube que havia o livro, decidi lê-lo e depois continuar a série da Netflix. Nem precisa dizer o motivo, minha paixão é literária.
Piper Kerman conta sua história e de outras presas. De forma resumida, pois não vou dar spoiler, posso dizer que o livro humaniza as detentas, e a série traz entretenimento a quem assiste. Indico os dois.
"A ausência de empatia está no cerne de qualquer crime";
" O público
espera que as sentenças sejam punitivas, mas também reabilitadoras. No
entanto, o que esperamos e o que obtemos de nossas prisões são coisas
completamente diferentes";
"Às vezes, parece que construímos portas
giratórias entre nossas comunidades mais pobres e as instituições penais
e criamos incentivos financeiros perversos para manter as prisões
cheias, à custa dos contribuintes".
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