Pesquisando em 1962 sobre os julgamentos de uma estranha seita de
Friuli, o autor Carlo Ginzburg, encontrou uma sentença curiosa. O réu, Menocchio,
sustentava que o mundo tinha sua origem na putrefação. O livro, O queijo e os vermes, narra
sobre sua história apoiado em farta documentação. Mas, a intenção não é
apenas biográfica, também tenta analisar a cultura camponesa da Europa
pré-industrial, numa era marcada pela difusão da imprensa e a Reforma
Protestante (bem como a repressão a esta última nos países católicos). O
livro também é o estudo da cultura imposta às classes populares e não
apenas a apresentação da cultura produzida pelas classes populares.
Chamava-se Domenico Sandella, conhecido por Menocchio. Nascido em
1532, em Montereale, foi casado e pai de sete filhos. Segundo afirmou a
um padre era carpinteiro, marceneiro, pedreiro, mas sua principal
profissão era moleiro. Se vestia como tal, capa e capuz de lã branca.
Foi magistrado da aldeia e administrador da paróquia local. Sabia ler,
escrever e somar. Em 28 de setembro de 1583 foi denunciado ao Santo
Ofício, sob a acusação de ter pronunciado palavras heréticas. De fato
ele debatia sua opinião em praças e tabernas. Para alguns, seu debate se
assemelhava às opiniões de Lutero. O clero era hostil a ele, e esse
fato era explicado, pois Menocchio não reconhecia na hierarquia
eclesiástica, nenhuma autoridade especial. Para ele, Deus estava em tudo
e Maria após o nascimento de Jesus, não permaneceu mais virgem. Tinha
uma Bíblia em vulgar em sua casa, livro proibido pela Igreja. Se
apresentou à convocação do tribunal eclesiástico, mas no dia seguinte
foi levado ao cárcere do Santo Ofício de Concórdia. Em 07 de fevereiro
de 1584 foi submetido a um primeiro interrogatório.
Durante o inquérito preliminar, diante das estranhas opiniões
referidas pelas testemunhas, o vigário-geral perguntara se Menocchio era
sã de mente. Esse afirmou que sim, que estava dentro da sua razão. Um
dos seus filhos ainda tentou espalhar o boato pela cidade que o pai era
louco, mas o vigário deu continuidade ao processo mesmo assim. Se fosse
hoje, Menocchio seria sim considerado um lunático religioso, mas em
plena Contra-Reforma, as modalidades de exclusão eram outras, a
identificação e a repressão da heresia. No caso de Menocchio em
especial, havia um apanhado de ideias subversivas, inclusive sua
cosmogonia: "que tudo era um caos, terra, ar, água e fogo juntos, e de
todo movimento junto se formou uma massa, do mesmo modo como o queijo é
feito do leite, e do qual surgem os vermes, e esses foram os anjos...
Por volta do fim de abril, os priores venezianos convidaram o
inquisidor de Aquileia e Concordia, a agir de acordo com os hábitos
vigentes nos territórios da República, que impunham, nas causas do Santo
Ofício, a presença de um magistrado secular ao lado dos juízes
eclesiásticos. O conflitos entre os dois poderes era tradicional. No
passado, Menoccho tinha dito estar pronto e desejoso de declarar suas
opiniões às autoridades e seculares. Incentivado a falar, Menocchio
abandonou qualquer reticências e: denunciou a opressão dos ricos contra
os pobres através do uso do latim nos tribunais; achava que na lei
vigente o papa, os cardeais, os padres eram grandes e ricos e que esses
arruinavam os pobres arrendando terras; recusava todos os sacramentos
por serem invenções humanas, mercadorias, instrumentos de exploração e
opressão por parte do clero; a hóstia era apenas um pedaço de massa; que
a Sagrada Escritura tinha sido dada por Deus, mas, em seguida, foi
adaptada pelos homens; que a santidade era um modelo de vida; criticou
as relíquias ... implorou a piedade aos inquisidores, mas na verdade o
processo estava longe de terminar. Dias depois desejavam ouvi-lo
novamente.
O livro também relata sobre Friuli da segunda metade do século XVI: uma sociedade arcaica e
ainda dominada pelas grandes famílias da nobreza feudal. Essas famílias
estavam em dois partidos, a favor ou contra Veneza, que começou a
dominar em 1420. Essa disputa política iniciou um violento conflito de
classes, e em várias localidades do Friuli os camponeses faziam reuniões
secretas. Após a efêmera revolta camponesa de 1511, acentuou-se a
tendência veneziana de apoiar os camponeses do Friuli contra a nobreza
feudal. Entre meados do século XVI e meados do XVII, ou por causa das
frequentes epidemias ou pela intensificação da imigração, a população
total do Friuli diminuiu. Veneza estava decadente e a economia friulana
já se encontrava em estado de avançada desagregação.
O movimento anabatista, depois de ter se alastrado por grande parte
da Itália foi desmantelado na segunda metade do século XVI pela
perseguição religiosa e política. De forma geral negavam as imagens
sacras, as cerimônias, os sacramentos, negavam a divindade de Cristo,
insistiam na adesão à uma religião prática baseada nas obras, pobreza
versus a pompa da Igreja. A princípio poderíamos vincular as ideias de
Menocchio aos anabatistas, mas entre outras coisas, ele discordava que a
inspiração divina viesse apenas apenas do Evangelho. Para Menocchio,
entretanto, a inspiração poderia vir de livros os mais variados: tanto
do Fioretto della Bibbia quanto de Decameron.
Parece que Menocchio afirmava manter contatos com grupos luteranos,
mas quando o inquisidor perguntou-lhe sobre o seu entendimento pela
justificação, ele não compreendeu a pergunta. Após a explicação,
Menocchio negou e afirmou "se alguém pecou, é preciso fazer penitência".
O mesmo ocorreu com o termo predestinação, que após explicação ele
disse não acreditar que Deus predestinava alguém à vida eterna.
Justificação e predestinação, os dois temas sobre os quais a discussão
religiosa na Itália se acirrava no período da Reforma, que não
significavam nada para o moleiro. Mesmo com a profunda separação da
Itália entre cidade e campo, o último não ignorava por inteiro as formas
de inquietação religiosa. Por trás dessas discussões contemporâneas
percebe-se a presença maciça de tradições diversas. A reforma rompendo
com a crosta da unidade religiosa, trouxe à tona, de forma indireta o substrato de tais tradições. Assim sendo, não é possível remeter as
afirmações de tom radical feitas por Menocchio ao anabatismo e nem a um
genérico luteranismo. Talvez elas faziam parte de um novo autônomo de
radicalismo camponês que o tumulto da Reforma contribuíra para que
emergisse.
A obra contém muitas citações dos livros aos quais Menocchio teve contato e o contexto histórico que os autores estavam inseridos. De forma geral, percebe-se a cultura popular misturada com o conhecimento cristão, e a
Inquisição que usou do tribunal para aniquilar qualquer coisa que não
coincidisse com os ensinamentos da Igreja. Indico.