sábado, 27 de junho de 2026

Devaneios sobre o conde Drácula

    Semana passada assisti Drácula: uma história de amor eterno (2025) dirigido por Luc Besson. Escreverei uma outra postagem sobre cenários, figurinos e devaneios sob a minha ótica histórica. Aqui, eu quero "devaneiar" sobre esse Drácula de Luc Besson e o Drácula de Bram Stocker, dirigido por Francis Ford Coppola de 1992. Deixando claro que há vários filmes sobre a temática, mas o meu grande apreço é o filme baseado no romance de Bram Stocker (1897).

Drácula: uma história de amor eterno 2025 

Drácula de Bram Stocker 1992


    Bram Stocker (1847-1912), escritor irlandês, lançou o seu mais conhecido livro Drácula em 1897. O seu conde Drácula, foi baseado na figura histórica, Vlad Tep III - participante da Ordem do Dragão (Dracul em romeno) como defensor da cristandade contra as ameaças contínuas de invasão otomana após a queda de Constantinopla em 1453. 


    Uma curiosidade sobre Vlad, é que ele cresceu no Cristianismo Ortodoxo e se converteu ao Catolicismo romano por estratégia política e militar (talvez após o Concílio de Mântua em 1459). Para maiores detalhes, pesquise O Grande Cisma do Oriente em 1054, não vou aprofundar muito aqui O Grande Cisma. Em ambos os filmes, o conde conversa com religiosos ortodoxos e batalha em uma espécie de Cruzada contra os infiéis (sob a visão e ótica histórica da época). Porém, o segundo filme (2025) vai trazer um padre católico romano após 400 anos para libertar a alma de Drácula. Achei intencional 😐.


Ator Gary Oldman como conde Drácula 1992

Caleb Landry Jones como princípe Vladimir 2025

    Os motivos dos dois Dráculas sofrem diferenciações para a maldição que carregaram por 400 anos até o reencontro com a sua amada Elisabetah/a. O Drácula de Coppola nega a Deus após a sua amada cometer o auto-extermínio e não ser enterrada pela Igreja. Ela acreditava que seu amado havia morrido e toma essa atitude trágica, o que, conforme preceitos religiosos, fez com a sua alma não achasse descanso pelo sacrilégio cometido. Drácula então crava a sua espada na cruz, renuncia a Deus e bebe o sangue que jorra dos objetos sacros no local. 

Winona Ryder como Elisabeth/Mina 1992

    Já a Elisabeta de Besson morre e por esse motivo, o conde mata o padre, pois esse não intercedeu o suficiente para mantê-la viva. Pelos dicursos, já se percebe a diferença sutil entre ambos, pois o Vladminir de Besson defende a sua tese que Deus tem que fazer a sua parte que era cuidar de Elisabeta, enquanto ele assumia o maior risco, ou seja, defender o reino, a Santa Igreja e lutar contras os infiés. É pedir muito? Acho que vai muito de encontro com a crença contemporânea de uma divindade utilitária atual. Enquanto que o primeiro, age por impulso diante da dor de perder e saber que eternamente a alma da sua amada não terá paz, o segundo, culpa a Deus e se vê como herói que não teve o seu pagamento realizado. 

Zoe Sidel como Elisabeta 2025

    É até interessante relatar isso, pois a diferença entre os objetivos dos filmes é perceptível. O primeiro (1992) romantiza e humaniza mais o protagonista, pois na obra literária, Drácula não tem nada de romântico. O conde de 1992 em um diálogo com o advogado em sua residência, cita a relação dos feitos dos seus ancentrais para com a Igreja e como a relação não é tão proporcional com o divino. Quando Jonathan (Keanu Reaves) ri, Drácula toma a espada e se sente ofendido. Ambos, cada qual ao seu modo, renegam a Deus diante do contrato de fé não cumprido na perspectiva de cada um. 

O advogado não sabe que o homem do quadro é Vlad mais novo

    Na obra literária, o autor narra as impressões de Jonathan Harker (na trama um advogado de imobiliária e o personagem no filme de 1992 se aproxima mais da obra literária) em seu diário sobre a Transilvânia, quando foi fechar a venda de um mosteiro na Inglaterra para o conde Drácula. Em ambas as versões, o vampiro acaba descobrindo que a noiva do advogado é a sua amada reencarnada. Presos, o advogado de 1992 foge e acaba em um mosteiro, enquanto o segundo de 2025 foge e aparece magicamente na pensão que está acomodada a sua noiva. O casamento entre Mina (Elisabeth) e Jonathan no filme tem a cenografia ortodoxa que vale a pena perceber as diferenças. 

Casamento cristão ortodoxo entre Mina e Jonathan na versão 1992

    Confesso que a versão de 2025 com gárgulas animadas ao estilo Walt Disney me decepcionou bastante. Já a versão de 1992, nós temos as súcubas noivas de Drácula sedentas por sangue. Na versão de Coppola,  a nudez e a sensualizada são mais exploradas, seja em Lucy (amiga de Mirna/Elisabeth) ou nas noivas súcubas. Na versão de Besson (2025), há apenas no início a intimidade entre o casal, Vlad e Elisabeta, e nada mais. 

Súcubos
Noivas de Drácula (súcubas) com trajes orientais (grego) 1992 


Gárgulas animadas servem o conde Drácula 2025 

     O personagem histórico (Vlad Tep) na obra literária é citado várias vezes, demonstrando que Stocker conhecia seus feitos e que ele escolheu a versão que enaltece o conde como herói nacional que cuidou do seu reino, pois seu apelido "O Empalador" não foi à toa. 


[...] Quem, senão um homem da minha raça que, como nobre, cruzou o Danúbio e derrotou os turcos em seus próprios domínios! Este era um Drácula de fato. Quem era esse, cujo irmão indigno, quando derrotado, vendeu seu povo aos turcos e derramou a vergonha da escravidão sobre eles! Não era senão esse Drácula, na realidade, que deu inspiração aos outros de sua raça e que, mais tarde, levou suas forças repetidamente por sobre o rio até a Turquia; ele que, quando voltou derrotado, voltou de novo, e de novo, embora tenha retornado do campo sangrento onde suas forças tinham sido massacradas, pois sabia que sozinho poderia finalmente triunfar! Dizem que ele só pensava em si. Bah! Para que servem os camponeses sem um líder? Onde termina a guerra sem um cérebro e um coração para conduzi-la? Novamente, quando após a batalha de Mohacs, nos libertamos do julgo dos húngaros, nós, os Drácula, estávamos entre os líderes, pois nosso espírito não podia tolerar que não fôssemos livres. [...] (STOKER, 2002)

O empalamento era um padrão da Antiguidade com a função de avisar os inimigos e desobedientes dos castigos possíveis.
Vários reinos praticavam e foi até a Idade Média/Moderna

    Vale constar que os métodos violentos de Vlad III não eram inéditos e já faziam parte em guerras entre povos antigos (Gênesis 40:19 e 2 Reis 19:8). Houveram acréscimos interessantes que acentuaram as lendas vampirescas, mas em nada comprova o princípe da Valáquia (um principado que se uniu à Moldávia em 1859 para formar a Romênia – no período entre 1448 e 1476) com a prática de beber sangue. Porém, há manuscritos eslavos e alemães que descrevem Vlad embebedando o alimento com sangue dos inimigos, resta saber se a visão do inimigo é fidedigna ou não. 

Personagens secundários e Christopher Walz como padre na versão de 2025 


    O castelo que foi fonte inspiração para o filme de Coppola é o Castelo de Bran, porém não há confirmações que Vlad III frequentou, morou ou algo assim. Construído em 1212 no estilo neogótico e localizado entre a fronteira da Romênia e a Valáquia, é um local turístico por ter sido apresentado como residência do Drácula na ficção literária e cinematográfica. Uma curiosidade, o autor Bram Stocker nunca visitou pessoalmente o local. 



    Em ambas as versões, o castelo remete ao terror gótico, erguido sobre um penhasco e cercado de florestas e abismos. A sensação é de passado e presente, com um peso emocional transmitido pela arquitetura de mausoléu. A penumbra cumpre o seu papel de desorientar e manter alerta quem assiste. Na versão mais recente (2005), a riqueza presente porém desorganizada (na minha opinião) apresenta a decadência do protagonista. Sim, porque vamos combinar, dez minutos de filme para abordar um perfume que atrai quem ele quer, uma dança que demonstra a manipulação sobre os outros sem nenhum propósito, é uma possibilidade. 
Versão 2025 de Besson 

    Se em Drácula de Coppola baseado na obra de Bram Stocker, vamos pular 400 anos para o auge da Era Vitoriana (1837 a 1901), fazendo contrastes entre os avanços tecnológicos ingleses, moda, ostentação, luxo contra o atraso da superstição do ente mítico, em Besson, há a passagem desses 400 anos em forma de dança, figurino, a frangância perfeita (com um histórico) e a Paris da Bélle Époque que está prestes a comemorar o centenário da Revolução Francesa (1889). Como historiadora, eu amei, mas como espectadora, pra quê? Faltou narrativa e foco para ligar as tramas. 

    De uma forma corrida na versão de 2025,  Maria (Matilda de Angelis), a amiga, parece enciumada, afasta Vladimir de Elisabeta, o noivo reaparece, um sacerdote ocidentalizado (Christoph Walz), um exército invadindo o castelo, um diálogo raso e "the end!". Ao meu ver, a figura religiosa, que subtitui Van Helsing (Anthony Hopkins), impõe todo um propósito maior divino para salvar a alma do vampiro. Parece uma cópia do projeto de salvação cristã,  onde um  morre para salvar os demais. Infelizmente, na tentativa estilo Guilherme del Toro em humanizar o vilão, a sensação (minha) foi de 400 anos sendo bem playboy e no final, com auxílio lá do alto, ser salvo em um ato heróico.


    Ambos os filmes dão um show de figurino, fotografia e cenografia. Para finalizar,  o Drácula de Coppola apresenta um lobisomem que carnaliza com a Lucy (Sadie Frost) e faz de bebês, vítimas de vampiras, coisa inaceitável em qualquer produção atual. Cada qual com o seu propósito e trama e com a liberdade de produção fidedigna ou não a obra literária, imortalizou mais uma vez Vlad e Drácula.