Como um livro publicado em 2014 se tornou um fenômeno em vendas dez anos depois? O que colocou a escritora, jornalista e professora Socorro Acioli e o seu livro A Cabeça do Santo entre os mais vendidos e emprestado na plataforma da Biblioteca MEC Digital? FLip 2023 Busca Mec Digital MEC A Cabeça do Santo
Socorro Acioli já escrevia histórias infantis e paralelo a isso, guardava reportagens sobre uma escultura colossal que estava sem a cabeça no munícipio de Caridade (97 km de Fortaleza, sua terra natal). Única brasileira a participar da oficina de roteiro em 2006/Cuba com o consagrado Gabriel García Marquez (1927-2014), escreveu em dois dias o resumo do atual best-seller que conquistou brasileiros e já foi traduzido para outros idiomas.
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| Gabo e Socorro Acioli no workshop em Cuba 2006 |
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Gabo aprovou e incentivou uma produção cinematográfica, fato que está atualmente em planejamento pela produtora Joana Mariani. No quesito realismo mágico (gênero literário), o autor não teve dúvidas sobre as possiblidades daquele resumo de Socorro Acioli. O livro foi publicado em 2014 pela Companhia das Letras e foi seguindo a trajetória árdua conhecida pelos autores nacionais. .
Claro que o talento da escrita da autora é uma explicação óbvia para que a indicação boca-a-boca continue, sendo em 2026 leitura em vários grupos literários. Mas, devemos concordar que o advento das parcerias entre editoras e influencers deu um up nas redes sociais. A geração tiktokiana passou a conhecer em poucas páginas uma crítica social da exploração econômica e política e a força que há na fé de um povo limitado materialmente.
.jpeg) O município de Caridade/CE (década de 80), tinha como prefeito o sr. Raul Linhares Teixeira, que desejava a partir de uma escultura de 33 metros aquecer a economia local com o turismo religioso. Contratou o artista Francisco Barbosa de Oliveira (Franzé D´Aurora) para o trabalho. Eu fiquei bem curiosa sobre a verba disponível de um município para tal façanha e provavelmente foi limitada, o que explica a não continuidade. Primeiramente não seria no local que o corpo do santo encontra-se, mas diante de uma adversidade no início da construção mudaram o local e por causa dos ventos fortes e a necessidade de fortalecer internamente, não havia mais dinheiro e colocar a cabeça seria um risco real. |
“Por volta de 1980 quando o fabriqueiro Raimundo Lopes Ferreira e muitos outros que trabalhavam na edificação do primeiro nicho, uma parede inteira desabou por cima dos operários e ninguém se machucou”, conta, Margarida Linhares, esposa do então prefeito à época. Seguindo este rastro, resolveu o Prefeito, erigir no alto do Serrote Cágado, nome primitivo do município, um monumento que em tamanho seria o terceiro maior do mundo, com templo, praça pública e dotada de uma infraestrutura necessária para transformar-se num polo de atração dos fiéis e recanto de beleza turística e lazer da região. A proposta foi encaminhada ao professor Alexandre Diógenes da Universidade Federal do Ceará-UFC, assim como, o escultor e artista plástico, Franzé D’Aurora, que elaboraram o projeto do monumento. Apesar das inúmeras dificuldades, principalmente no que se refere ao aspecto financeiro, o projeto foi iniciado usando uma tecnologia nova para época. Numa última analise, constatou o professor, que a estrutura de tamanha magnitude já praticamente concluída precisaria de um reforço interno, devido à intensidade e a força dos ventos naquela altitude, se assim não o fizesse ela não suportaria o peso de tamanha cabeça. A mudança inesperada alterou o orçamento fazendo com que a conclusão fosse adiada por tempo indeterminado. Fonte Como historiadora, eu tenho muitas dúvidas sobre a aprovação de uma obra a nível municipal, mas eu não vou me aprofundar nessa temática. O tio do ex-prefeito na época era deputado e fazia parte da equipe do governo e vale lembrar que no período do regime militar, essas obras faraônicas eram padrão e muitas empreiteiras se beneficiaram. Não estou acusando ninguém de nada, só fazendo uma observação que para a época, seria aprovada tranquilamente sem muitas indagações e quando o assunto é religião, a devoção ganha o apreço popular. |
Mesmo sem ter a devoção da mãe, Samuel aceita o pedido contrariado. Mariinha, expulsa de casa pelo próprio pai quando descobriu estar grávida de Samuel, acha em uma empreendedora local de artigos religiosos, abrigo. Samuel acende a vela para Padre Cícero, na colina do Horto em Juazeiro do Norte (figura acima - 1969); para São Francisco na cidade de Canindé (figura abaixo - 2005) e para Santo Antônio na fictícia cidade de Candeia. O contato com a sua avó não é afetuoso, mas é ela quem indica a cabeça do santo como abrigo.
Samuel sofre um ataque de cães selvagens e dentro da cabeça abandonada, tenta se recuperar da ferida. Ao conhecer Francisco de uma forma nada convencional, comenta que escuta vozes, o que poderia ser um delírio febril por causa da mordida bem inflamada. Seria Samuel dotado de dons espirituais? Francisco, um pré-adolescente, vê nas escutas uma possibilidade de ganhos e após uma primeira tentativa com sucesso, o casamento de Madeinusa e doutor Adriano, a fé perdida pelo corpo sem a cabeça, retorna em forma de romarias das cidades vizinhas e reavivamento da cidade em forma de turismo religioso local.
Samuel e Francisco poderiam abusar da crença alheia em prol da sobrevivência? Com estratégias de Francisco e o dom de Samuel, a cidade voltou a existir. Osório e Helenice, casal de políticos, retornam para explorar e lucrar com o ocorrido, demonstrando todo o lado ganancioso de muitos políticos atuais. Esse é o pano de fundo como um retrato da realidade do sertão nordestino que vive sob o descaso político e a sobrevivência pela fé. As personagens não são princesas e nem heroínas, são mulheres que oram e sobrevivem. Não se vitimizam, enfrentam o destino. Elas sonham, apesar da dura realidade. Querem casar, formar família. Não desistem do santo, mas continuam a afogá-lo no copo e ameça-lo no ouvido na cabeça sem corpo, caso não alcancem a benesse.
Socorro nos apresenta as romarias, a gastronomia simples, porém rica em nutrientes, a tradição, a exclusão moralista e as feridas da ausência paterna. O livro será tema do samba enredo em 2027/Tijuca, até lá, indico a leitura. Você vai gostar!