sábado, 10 de janeiro de 2026

A hora da Estrela (Sobre o livro, filme e Clarice)

 Asssiti nos primeiros dias de janeiro pela milésima vez A hora da Estrela (1985) que chegou final do ano passado na Netiflix. Confesso que se não estivesse tão atarefada, daria o prazer da leitura de uma obra ímpar que foi lançada no ano do meu nascimento, 1977. Quando li a primeira vez, eu era estudante e a leitura era obrigatória. Até hoje como um flasback da primeira leitura, a única lembrança que tenho é da aspirina. Mas, vamos por partes. De lá pra cá eu aprendi muito sobre Macabéa, o contexto histórico e Clarice Lispector. Inclusive, é uma obra autobiográfica, o último romance da autora e faz parte da Terceira Geração Modernista. 


    Na adaptação literária para o cinema, não temos o narrador Rodrigo S.M. Claro que faz falta quando o assunto é compreender a mente da autora, Clarice Lispector. Mas ao escolher a atriz Marcélia de Souza Cartaxo, que, inclusive, fez seu primeiro papel, a diretora conseguiu transmitir o sentimento de inadequação. Conhecendo um pouco a autora, e, assistindo várias vezes a sua última entrevista, Macábea (filme) e Clarice (autora) estão em sintonia. Clarice Lispector e Macabéa entrevista

    Sei que muitos leitores não vão concordar comigo, mas eu compreendi muito uma protagonista após a adaptação literária para o cinema. Confesso que só aconteceu duas vezes: A hora da estrela (1985) e Orgulho e Preconceito (2005). Me pergunto se tivesse um remake ou uma nova adaptação, quem poderia ser a atriz escolhida? Alguma sugestão? Na era dos influencer com mais seguidores, eu não quero que alguma tragédia possa corromper essas duas obras primas. 

    Macabéa é uma pessoinha que dá vontade de colocar no bolso e não deixar sair para enfrentar os problemas da cidade grande. Nordestina, 19 anos, órfã, virgem, alheia a tudo e a todos. Ela é alheia até sobre o cheio que exala ou a opinião negativa que alguém pode ter sobre a sua aparência. Ela apenas acorda e vai trabalhar. Datilógrafa (eu fiz esse curso!), aceita o salário mínimo em um pequeno escritório após a morte da sua tia. Ela não tem interesse no Rio de Janeiro. Ela começa a se interessar aos poucos pelo pequeno núcleo que está ali a sua volta. 


    Quando o assunto for a análise tanto do livro quanto do filme, é importante o olhar humano sobre a crítica social e existencial que expõe a invisibilidade dos oprimidos na cidade grande. Macabéa, assim como José Olimpo, são personificações de pessoas que saíram de um local para outro em busca de uma sobrevivência e o que diferencia um do outro é a falta de perspectiva da protagonista. A publicação pode ter sido no século passado, mas os diálogos são atuais: cabelo "crespo", preconceito, padrão de beleza, aborto, machismo, racismo, sexualidade, anseios, marginalizados, trabalho, exploração e etc. 


    Macabéa não se percebe e quando começa a questionar é criticada. Ela é alheia e isso permite conviver em uma nova realidade, seja moradia ou trabalho. É aceita, ou melhor, tolerada por aceitar um salário tão baixo como datilógrafa. Percebe sua colega de trabalho, Glória, e na minha opinião, começa o problema. Quer fazer igual sem os atributos físicos e malícia da colega. Conhece um homem e acha que suas dúvidas podem ser uma forma de dialogar. Porém, o metalúrgico, também ignorante dos temas que Macabéa indaga, prefere diminuir a jovem ao invés de simplesmente afirmar a sua falta de conhecimento. 

    Glória, a mulher também vítima de um sistema que usa o seu corpo e a sua sexualidade, acha como solução tomar a única conquista de Macabéa, o namorado. Mesmo ciente que a sua sexualidade não vai permitir um final romântico feliz, ela opta pela ilusão fornecida pela cartomante. Essa só quer cliente. Clarice Lispector no link fornecido cita a experiência que teve com uma cartomante. No final, todos os personagens parte da massa terminam sem um final feliz. Macabéa tem a sua hora da estrela de forma trágica, afinal, também decidiu acreditar. Ela acreditava em tudo. Eis a sua inocência que foi até o fim. 


Eu gosto do livro. Eu gosto do filme. Eis a minha verdade. Se eu tivesse tempo, estaria aqui lendo novamente, como fiz algumas vezes. Ato que não vai acontecer com o Uma aprendizgem ou livro dos prazeres. De todos os livros e contos, esse, nunca mais. Doeu... Mas eu digo, Clarice Lispector e suas obras precisam ser apresentadas antes. Se na sala de aula? Não sei. Eu terei o maior prazer de apresentar Macabéa antes de dar o play ou indicar a leitura. Indico!